Mais Serious Games

Nas últimas duas semanas eu passei a maior parte do tempo distante do computador, devido a viagens e compromissos. Período bastante atribulado, mas que agora já está no passado. Meu teclado praticamente já acumulava poeira, de tanto tempo sem uso e a vontade de escrever novamente só aumentava. Hoje estou de volta e trago novamente um texto sobre serious games. Ironicamente eu farei exatamente aquilo que critiquei na imprensa brasileira e vou levar aos leitores exatamente aquilo que eles querem, rs.

Para aprofundar ainda mais a questão dos serious games, me apropiarei de um texto em específico, que aborda a questão dos jogos políticos.  O texto é de Oilivier Mauco, da Universidade Paris 1 Sorbonne.

As principais definições de serious games já foram apresentadas aqui no blog então podemos ir direto a outros pontos ainda pouco explorados. Ainda na discussão sobre a nomenclatura desse tipo de jogo, Mauco utiliza o termo “jogos políticos” ou political games em substituição a serious games, argumentando que esse seria um nome mais adequado, pois enfatisaria mais o conteúdo do jogo e apresentaria um problema social ou político, buscando despertar a consciência do jogador. Para esclarecer seu argumento o autor traz o exemplo de dois jogos, Sim city e Hydro Hijnks, em que no primeiro a questão de levar água até os cidadãos e industrias é mais um dos componentes lúdicos do jogo, sendo uma tarefa simples de ser realizada, enquanto no segundo o foco se dá sobre o acesso a água potável na perspectiva das forças internacionais. Em seu texto Mauco ainda fala da separação entre os jogos políticos e os apolíticos, outro termo que discordo fortemente, pois não existe opinião que não seja política nem posicionada socialmente. Apesar de compreender a intenção do autor, prefiro não utilizar esse termo aqui. O fato do texto estar em francês também pode complicar um pouco aqui, pois talvez por lá o termo possua outro sentido, mas como ando meio enferrujado nessa língua a compreensão será essa mesmo nesse momento.

A produção de serious games ainda é pouco difundida, por motivos que beiram o óbvio, afinal de contas produzir um jogo complexo é caro e toma tempo e mesmo que consigamos poduzir jogos excelentes dentro de nossas casas, provavelmente eles não atingiriam o grande público, pois divulgação e propaganda também são outros elementos que custam bastante dinheiro. Isso contribui para que a grande maioria desses jogos sejam produzidos de maneira independente, mesmo porque ainda são poucas as grandes empresas que se preocupam em produzir esse tipo de jogo. Cabe lembrar que nesse caso eu falo dos serious games políticos e não dos jogos de treinamento etc, pois esses possuem investimentos significativos de grandes empresas. O gráfico abaixo, retirado de Mauco, ilustra bem a diferença entre os produtores de serious games.

A maioria dos produtores de serious games são independentes

 

A imagem não está grande coisa e também está em francês, mas creio que seja bem possível de compreender. Praticamente metade dos jogos são produzidos de forma independente e isso acaba por criar outro “problema” apontado por Mauco, pois ironicamente eles contribuem implicitamente para produzir o que denunciam: a crítica ao individualismo acaba por produzir ela mesma a individualização e automatização dos atores, devido a uma distorção entre indivíduo e sociedade, pois há grande envolvimento emocional por parte de quem produz e de quem joga, mas pouco engajamento na prática.

Os jogos políticos então seriam representações e simplificações de problemas sociais reais, o que não deixa de ser interessante, pois através de um sistema de regras eles podem ser capazes de apresentar problemas importantes de nossa sociedade e eventualmente contribuir como ferramenta educacional no sistema educacional.

Para compreender essa força expressiva dos jogos, muitas vezes diminuída ou até mesmo ignorada por outros meios de comunicação, recorremos ao clássico Huizinga em que esse diz que os jogos “realizam dentro da imperfeição do mundo e da confusão da vida, uma perfeição temporária e limitada“. Ou seja, dentro dos jogos tudo funciona e naquele momento você pode contar que as regras não serão quebradas e o sistema funcionará exatamente como o proposto. Sendo assim o jogador pode ir testando suas diferentes hipóteses e ver como o sistema reage diante disso. Esse talvez seja uma das mais belas características dos jogos de videogame (e dos jogos em geral).

Porém, enquanto a produção desse tipo de jogo continuar de forma independente, poucos jogadores se interessarão por eles, pois tendem a jogar outros tipos de jogos, sobretudo os comercias e ao mesmo tempo, os não jogadores não terão acesso ou não compreenderão o funcionamento dos mesmos. Nesse sentido, os jogos políticos não poderiam ser entendidos como uma mídia de massa tradicional, mas sim como um sintoma do discurso de auto legitimação, que ofecerece através da tecnologia e da comunicação  entretenimento para “experts criadores de uma demanda artificial” (MAUCO).

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3 comentários sobre “Mais Serious Games

  1. Pingback: Games sérios, onde estão eles? « Game & Críticas

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