Os senhores conteúdos e os jogos escravos

Não faz muito tempo, dei uma entrevista para uma matéria do Terra Educação, em que comento sobre a possibilidade de utilização dos jogos de videogame em sala de aula. A ínetgra dessa entrevista você pode conferir aqui. Sem perceber, eu mesmo caí numa armadilha muito sedutora, de associar os jogos a conteúdos curriculares da escola. No post de hoje trarei alguns trechos dessa entrevista e lançarei um debate sobre o que pretendo ser meu próximo passo em minhas pesquisas acadêmicas: como inserir os jogos nas salas de aula.

Voltando a falar sobre a reportagem do Terra, ela está interessante e a reporter escreveu bem. Porém, algumas coisas me incomodam, inclusive no meu próprio discurso em alguns momentos. Vejamos o seguinte trecho:

Para Gustavo Nogueira de Paula, mestre em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os games propõem mais interação da criança e do adolescente com o conteúdo exposto em aula. “Ele consegue ver causa e consequência através da ação do jogador. E não apenas tem mais atenção, mas compreende de forma mais participativa”

Aparanetemente não há nenhum problema, mas observando melhor da pra notar que minha resposta tratava dos jogos em geral e sobre o aprendizado gerado por eles, não necessariamente ligado a conteúdos curriculares. Como é possível perceber, não apenas a reporter, mas no senso comum as pessoas acreditam que, se algum dia os games realmente vierem a fazer parte de uma aula, será a serviço dos conteúdos curriculares. Isso fica nítido quando ela diz “os games propõem mais interação da criança e do aloscente com o conteúdo exposto em aula”.

Não vejo problema algum na utilização de jogos para apresentação de conteúdos curriculares. Se isso for feito de forma interessante e explorando o potencial do jogo, então não há porque não utilizá-lo dessa forma. Por outro lado, fazer dos jogos apenas ferramentas  para conteúdos clássicos e amarrados, sem inovação, pode ser um grande desperdício de potencial.

Voltando a entrevista, conseguimos ampliar um pouco mais essa visão ao chegarmos na seguinte passagem:

De Paula garante que há maneiras de garantir que esse artifício seja bem aproveitado em sala de aula. “Se bem fundamentado, se bem orientado, o aluno vai ter noção de que ele tá jogando na escola para aprender. O professor vai fazer o aluno ter um olhar mais crítico sobre o jogo”, afirma. Ele compara o possível uso dos videogames no currículo à apropriação de produtos culturais como músicas, cinema e quadrinhos em sala de aula.

Esse olhar mais crítico sobre o jogo é o ponto central disso tudo. Para que um game seja bem aproveitado em sala de aula, independente da forma, é fundamental que os jogadores passem a lançar um olhar mais crítico sobre eles. Agindo assim, espera-se que passem a apresentar esse olhar mais crítico não apenas quando estiverem jogando em sala de aula, mas também em seus momentos de lazer, pois isso poderia levar a um maior amadurecimento da mídia num todo.

Por esses e outros motivos que normalmente só encontramos jogos pedagógicos nas salas de aula ou nos laboratórios de informática das escolas. Se pelo menos os jogos pedagógicos fossem de graned qualidade, mas infelizmente não é assim que ocorre.

Já no final da entrevista eu volto a comentar sobre isso, mas acabo caindo na questão curricular (apesar da pergunta ter sido feita com base na questão curricular)

Há diversos jogos desenvolvidos especialmente para a pedagogia, mas De Paula propõe que se usem jogos comerciais, especialmente os news games – baseados em acontecimentos do cotidiano. Para sua dissertação de mestrado sobre o assunto, o professor usou o título 12 de setembro, que relembra os fatos acontecidos no ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Segundo ele, uma das grandes vantagens apresentadas pelo jogo foi a provocação de debates sobre o tema em sala de aula, já que os alunos ouvem o noticiário, veem os pais comentando e precisam estar a par dos acontecimentos para provas de vestibular, mas muitas vezes têm dificuldade de entender o contexto em que se inserem.

Como eu disse, o problema não é a utilização de jogos para auxiliar na abordadem curricular formal, mas a presença dos jogos se resumir somente a isso.

Num breve pensamento poderíamos pensar em levar Portal (1 ou 2) para a sala de aula. Qual conteúdo ensiaríamos com ele? Talvez física, isso poderia ser interessante, ver os alunos se atirando em portais, calculando velocidade, testando a inércia. Contúdo, fazer isso significaria jogar fora toda história do jogo e, acima de tudo, valorizar apenas um aspecto presente no game. Seria realmente terrível ressaltar apenas um conceito técnico do jogo, explorando-o de forma rasa. Isso poderia até mesmo fazer com que os alunos se desinteressassem pelo jogo.

Mas pergunto: não é isso que a escola vem fazendo há vários anos? Muitas vezes (esmagadora maioria?) os alunos leem Machado de Assis atentos apenas ao estilo de escrita, pensando de qual escola o autor fazia parte e normalmente com a cabeça na prova futura que trará perguntas sobre a obra. Por isso não é nada incomum que leiam apenas resumos, criados especialmente para responderem possíveis perguntas feitas para a prova. A questão artística e histórica fica de lado e todos perdem uma grande oportunidade de crescimento, tanto a escola que desmotiva seu aluno, quanto o jovem que acaba passando batido por uma grande obra da literatura brasileira.

Ampliando esse pensamento, se um filme for levado a sala de aula, então quase obrigatoriamente ele deveria ser um documentário, afinal de contas um filme comercial não é feito para atender conteúdos curriculares. Imagine, um filme como Matrix não entraria no cronograma de aula de nenhum professor, mas quanto poderíamos discutir sobre arte, transmídia, leitura, estética entre outros assuntos, assistindo a série Matrix (ou apenas a um dos filmesda série)?

Testes padronizados contribuem para uma não utilização dos jogos em sala de aula
E ainda atolam os estudantes de fórmulas prontas

 

 

 

 

 

 

 

Ainda nesa linha, se pretende-se levar música para sala de aula? Somente se formos estudar as notas ou o formato das rimas. Pintura? Apenas para analisar traços e estilos dos diferentes pintores. Jornal? Apenas para comparar os diferentes formatos de escrita e assim por diante.

Para auxiliar o professor nessa tarefa que vem se mostrando cada vez mais necessária e ao mesmo tempo complicada, pretendo apresentar um método de análise de jogos que poderia vir a ser interessante de ser utilizado em sala de aula. Como ele ainda não foi publicado em formato de artigo, não o apresentarei por aqui ainda, mas espero que isso aconteça em breve e assim poderei dar continuidade a esse debate, que já está longo demais nesse texto, mas que prometo retomar assim que for possível.

Não deixe de comentar e ampliar essa discussão.

Até!

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3 comentários sobre “Os senhores conteúdos e os jogos escravos

  1. Achei legal o paralelo com o uso dos filmes, da música e dos jornais em sala de aula também. Acho que todos tiveram a sua época, atualmente estamos usando com algum sucesso os filmes e ainda engatinhando nos games. Acho que o maior entrave ao uso dos games é como transpor o conteúdo que se quer passar para o aluno e este absorvê-lo, que me parece que é o que você está tentando bolar aí no seu futuro artigo.
    Outro entrave seria convencer, por exemplo, os pais de um aluno que aquele determinado assunto irá ajudar o seu filho a passar no vestibular também e que aquilo não é apenas uma mera brincadeira, apesar dela também ser importante.

    Outra coisa: enxergo grande potencialidade do uso dos games em disciplinas como geografia, história, biologia e educação física, mas, nas disciplinas mais duras, como matemática, física e química ainda não consigo enxergar pontos de contato, mesmo com o exemplo do Portal 2 citado.

  2. Nossa área de formação já trata o jogo como proposta de estudo, mas quando presente em outras disciplinas, não dá para concordar ao vê-lo sendo colocado como pano de fundo ou ferramenta a serviço do currículo. Aqui mesmo o tema Jogos Educativos já trouxe reflexões semelhantes… Para estar na sala de aula, o jogo abandona os atrativos que deveriam aproximá-lo do jogador, então algo estará errado. Jogar incute certas necessidades e demandas diversas, pertencentes todos os campos de estudo, não vejo porque colocar essa prática à margem, subordinada à apreensão de conteúdos e assuntos que serão cobrados em prova.

    Organizo minhas aulas na escola pensando no que posso contribuir para aquele pequeno indivíduo, a obtenção ou não de saberes necessários ao seu prosseguimento na vida escolar é algo secundário.

    1. Gustavo de Paula

      É bem isso mesm cara, não quero que os jogos sejam apenas um pano de fundo a serviço de curriculo. Mesmo porque um dia eles mesmos serão PARTE do curriculo.

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