Lista de obras

Fim de ano e no Brasil é época das maiores provas de vestibular: Fuvest, Unesp, UNICAMP e ENEM. Cada final de semana uma nova maratona para aqueles que querem cursar uma universidade pública. São centenas de milhares de candidatos respondendo as mais variadas questões sobre química, física, matemática, biologia, geografia, história, inglês e português, além de redação.

Para as provas de português são requisitadas as leituras de algumas obras consideradas importantes para a língua portuguesa. A lista desse ano da fuvest e unicamp continha: “viagens na minha terra” de Almeida Garret; “Til” de José de Alencar; “Memórias de um sargento de milícias” de Manuel Antônio de almeida; “Memórias póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis; “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo; “A cidade e as Serras” de Eça de queiros; “Vidas Secas” de Graciliano Ramos; “Capitães da Areia” de Jorge Amado; “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade.

vidas secas é dos meus livros favoritos

De início isso o assunto não parece ter grande relação com os games, mas apresento aqui um texto provocatório, na intenção de nos fazer refletir sobre algumas tradições que temos na nossa sociedade.

Tempos atrás levantou-se uma discussão na cúpula da organização do vestibular da unicamp, questionando a existência e o formato da lista de leituras obrigatórias. O principal argumento é de que existem outras produções que também deveriam ser de conhecimento obrigatório, extrapolando a literatura. Chegou-se a propor uma lista de obras, de uma forma mais geral, que incluísse artes plásticas, filmes, literatura etc. A ideia foi rechaçada e a lista continuou da mesma forma de sempre.

Não vou entrar na discussão do “valor” e da importância de cada uma dessas obras literárias, que são realmente fantásticas. Mas seriam elas as únicas a serem cobradas obrigatoriamente na prova de linguagem? E os filmes clássicos, sobretudo nacionais, não mereceriam espaço junto a elas? Será que o fato de ser uma obra cinematográfica faz de “Central do Brasil” algo menor? Apenas para exemplificar.

Os filmes já começam a mostrar sua importância enquanto mídia madura e produtora de muito conhecimento. Apesar de possuir um formato praticamente estabelecido, há espaço para muita inovação e criação dentro do cinema, o que acaba por conferir muito prestígio a essa forma de expressão.

Quanto aos jogos, qual a distância que eles estão de figurar entre outras obras importantes, seja no Brasil ou no mundo. Atualmente essa distância é imensa. Que me perdoem os jogadores mais afoitos, mas a grande maioria dos jogos produzidos hoje em dia ainda é mais do mesmo, inovando pouco e com enredos fraquinhos. São poucos os jogos que realmente se destacam por levarem o jogador a sério, considerando-o um ser inteligente. Os que fazem isso costumam receber grande destaque da mídia e do meio acadêmico, mas não necessariamente dos jogadores.

Não estou fazendo aqui um juízo de valores, comparando um livro a um filme ou a um jogo. Cada um possui suas próprias características, mas os jogos ainda são relativamente novos se compararmos com a história de outras formas de produção artísticas e/ou textuais, mas já é chegada a hora de começar a encará-los de forma mais séria. A esperança reside no crescimento da produção e divulgação de jogos indies. Mas sempre passamos pelo mesmo problema: Produtores independentes querem crescer  no mercado e para crescer no mercado costumam fazer jogos “apenas” para agradar aos compradores, deixando a inovação de lado, pelo medo da não aceitação. Uma vez se estabelecendo no mercado acabam por repetir as fórmulas já conhecidas, com apenas alguns retoques ou roupagens novas.

Seguindo nesse ritmo os games continuarão a serem considerados como obras menores por um bom tempo. Não espero que um jogo seja comparado ou equiparado com Graciliano Ramos, nem quero, mas vale pensar o que seria necessário para que um jogo fosse considerado importante o suficiente para ter sua leitura tida como obrigatória.

Isso deveria valer para os cursos de produção de jogos. Alguns títulos deveriam ser obrigatórios durante o curso, seja por sua inovação na jogabilidade, gráficos, enredo, estética etc. É muito triste ver profissionais chegando ao mercado tendo jogado apenas os grande blockbusters da vida e se limitando a ler apenas reviews que atribuem de uma a cinco estrelinhas para os jogos.

Que me venha à cabeça agora me recordo apenas de Bioshock ser cobrado numa universidade americana, mas sinceramente eu não lembro onde vi isso e não consegui reencontrar a notícia. De qualquer forma, talvez seja o início, pois aos poucos os jogos  e os jogadores ganharão mais respeito. Para isso precisamos de jogos inovadores e para jogos inovadores precisamos de jogadores mais conscientes e para jogadores mais conscientes precisamos de melhores pesquisas, críticas e divulgação.

A estrada é longa, mas não me surpreenderia se num futuro próximo algum jogo ou personagem figurasse como obra aclamada mundo afora, sendo debatido e discutido em museus, mesas de bar, universidade, escolas…

Em tempo, mais uma vez obrigado aos visitantes do gamecriticas, que ultrapassou já tem um tempo a marca das 6 mil visitas. O público vem crescendo bastante e espero sempre por sugestões, dúvidas e críticas.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

obrigado a todos visitantes, já ultrapassamos, e muito, as 6000 visitas!
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Jogos estranhos

Segunda feira, dia de trabalho e sofrimento para muitos, mas também é o começo da semana e muita gente não ve a hora de matar a saudade de seus companheiros de estudo trabalho etc. É nesse ritmo que escrevo esse post rápido e tranquilo, para  começar bem a semana, leve e tranquilo.

Inspirado no blog de André Celarino, ometafísico, que há pouco tempo falou sobre filmes estranhos, resolvi fazer o mesmo, porém com jogos estranhos.

A definição de estranho, segundo o dicionário Michaelis é

1 Estrangeiro, externo. 2 Que é de fora; alheio. 3 Sem qualquer ligação com. 4 Esquivo. 5Extraordinário, surpreendente. 6 Impróprio. 7Repreensível”

Entre várias definições eu destaco a que diz “extraordinário, surpreendente” que é exatamente aquilo que pretendo abordar aqui. Quando falo em jogos estranhos eu não me refiro a algo sem pé nem cabeça, nem algo nojento e muito menos algo de difícil compreensão. Estranho é aplicado aqui como algo que foge ao lugar comum, que se difere e que na medida do possível tenta ser ousado.

Vamos a alguns jogos que causam estranhamento em muitos jogadores.

1. Catherine

Esse eu falei faz pouco tempo por aqui e causa estranhamento principalmente no público ocidental, desacostumado com a estética erotizada comum a vários jogos japoneses. Catherine conta uma história adulta sobre adultério, morte, alcool, arrependimento, casamento e outros temas. De forma séria e ao mesmo descontraída pode ser divertido controlar o personagem principal perambulando bêbado pelo bar, tomando sua bebida favorita e até mesmo aprendendo sobre ela. No meio desse jogo de puzzles se encontram vários debates e dilemas, apresentados de uma forma diferente. Se arrisque.

A sensual Catherine vai complicar sua vida nesse jogo2. Indigo prophecy

2. Indigo Prophecy

Você está no banheiro de um bar, de repente entra em transe e perde o controle de seu corpo, sai de sua cabine e caminha de forma sobrenatural em direção a um homem comum que lava suas mãos no mesmo banheiro. A aproximação é sorrateira e logo o pobre senhor está no chão sendo esfaqueado por suas mãos. Você sai do transe e percebe o que fez. Desesperado tenta encobrir a situação: esconde o corpo, a arma, limpa o local e foge rapidamente. Alguns minutos depois o corrido chega uma dupla de policiais para investigar o caso, procurando por pistas. Mas espere, você também controla os policias sabe exatamente onde VOCÊ escondeu as pistas do crime. Nesse jogo de mistério você controla três personagens diferentes: o assassino que busca compreender o que está acontecendo com ele mesmo e um casal de policiais que investiga o crime, cada um com suas próprias questões pessoais. Num game em que até tomar água é importante, tudo parece estranho e diferente, mas quando menos se percebe você já está envolvido até o pescoço.

aqui você controla o assassino e seus perseguidores. Qual o desfecho disso tudo?

3. Flower

Nada de tiros, perseguições implacáveis, barulho extremo e nada daquela parafernalha a qual estamos acostumados. Em flower você vaga por extensos campos, belíssimos de se ver, agrupando pétalas de diferentes flores, utilizando o movimento de seu controle e soprando lufadas de vento. Não menospreze essa ideia simples, mas de uma sensibilidade unica. Uma obra de arte interativa, relaxante e que te faz ficar pensando na vida.

Vagar por belos campos é a proposta de Flower

4. Portal

Ok, já falei várias vezes desse jogo, mas sempre que possível eu falo novamente. Jogabilidade nova e estranha, pois ficar voando através de portais não é uma tarefa tão simples para todos. História estranha, cheia de mistério e sarcasmo, com personagens marcantes e igualmente estranhos. Não há monstros, inimigos (fora alguns pequenos robozinhos) contador de tempo, nada disso. A tela é limpa e sua única função é escapar dos puzzles e atingir o final, que tanto no 1 quanto no 2 são surpreendentes. Não se assuste, nem fiquei louco ao jogar Portal.

Abra sua mente para pensar com portais

Coloquei apenas 4 jogos nessa lista e espero que me tragam mais exemplos. Não quero que ninguém deixe de jogar os jogos arrasa quarteirões. Eu também jogo CoD, God of war, PES etc etc etc, mas ficar apenas jogando mais do mesmo acaba por ser cômodo. Estrapole e busque por jogos diferentes. Ampliar seu repertório só fará de você uma pessoa mais crítica em relação aos games. Amplie seu conhecimento acerca da variedade de jogos existentes e veja o quão rico pode ser esse mundo. Abaixo um vídeo, um pouco tendencioso, sobre jogar jogos estranhos.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

Perguntas frequentes

Algumas semanas atrás fui convidado pelo pessoal do programa curumim do Sesc Campinas para realizar um bate papo com os pais das crianças sobre algumas questões que envolvem educação e tecnologia, principalmente os games. Contarei brevemente como foi esse encontro e aproveitarei também para colocar algumas perguntas que realmente ouço e que normalmente confundem a cabeça daqueles que não entendem muito do assunto.

Não cheguei a preparar uma apresentação daquelas clássicas em formato power point, afinal de contas nossa intenção era tornar aquele encontro o mais “informal” possível, um bate papo mesmo, para que não ficasse com ares de uma aula e para que não intimidasse os pais ali presentes. Como auxílio visual levei apenas algumas imagens e vídeos, que utilizei para ilustrar alguns pontos específicos.

A estrutura toda foi bem simples, cadeiras brancas, projetor, microfone e bastante conversa. A participação dos pais foi muito boa, perguntando e discutindo sem medo, colocando suas dúvidas diante uns dos outros e ouvindo com atenção aquilo que eu tinha para lhes falar.

Durante o bate papo com os pais no Sesc Campinas

 

O conteúdo da conversa girou em torno principalmente dos maiores medos e temores dos pais: violência, vício e conteúdo, além de outras mais. Assim como esses, muitos pais e adultos em geral costumam ter essas mesmas dúvidas e curiosidades sobre os games, então nada melhor do que trazer essas questões aqui no gamecriticas. Apesar de parecerem simples, são muito importantes, pois tiram o sono de muita gente.

  1. Jogar jogos violentos pode influenciar comportamentos negativos nas crianças e/ou nas pessoas em geral?

Não. Sei que já falei sobre isso anteriormente, mas falarei mais um pouco aqui novamente. Acontece que essa afirmação não é baseada em empirismo nem em achismos. Acontece que não há nenhum estudo científico que comprove a relação entre comportamente violento e jogar jogos (violentos). Primeiro que, pelo menos nos padrões científicos da atualidade, não há sequer um meio de isolar um fator desses e comprovar que ele causa ou não esse tipo de malefício em seus jogadores. Tudo aquilo que é propagadao, sobretudo na televisão, de que os jogos são responsáveis por mortes e etc não é apenas mentira e sensacionalismo, mas também uma tremenda falta de caráter das pessoas por propagarem algo falso e espalhar o medo entre os desentendidos.

2.  Quem joga videogame tem desempenho pior na escola?

Não e sim. Essa questão é mais simples do que parece. Alguns estudos mostraram que adolescentes que passavam mais de 8 horas por dia jogando tinham um desempenho pior em suas notas. Isso não chega a assustar, afinal QUALQUER atividade que seja exercida por mais de 8 horas por dia irá afetar o redimento escolar de um jovem. Assim como o videogame, poderia ser treino esportivo, internet, ouvir música etc. Para além disso, não há qualquer relação entre baixo rendimento e jogar videogame, desde que a atividade seja feita de forma saudadevel.

3.   Qual a quantidade ideal de horas para jogar?

Essa resposta é um pouco mais complicada, pois adentra em questões um pouco mais subjetivas, envolvendo aquilo que chamamos de bom senso. Não há um número máximo de horas permitidas para alguém jogar. O importante é balancear o ato de jogar videogame com outras atividades de lazer, tais como praticar esportes, ir a museus e parques, ler, desenhar, escrever etc. Por isso não adianta os pais reclamarem das horas que seus filhos passam na frente da tv, poribir a criança de jogar e em contra partida não apresentar nenhuma outra opção do que fazer. Se seu filho só fica dentro de casa (afinal é periogoso brincar pelas ruas) e não pode chutar bola porque pode acabar quebrando algo, então é melhor rever seus conceitos de onde está o problema, se nos videogames ou no que é oferecido à criança.

4.   Videogame vicía?

É complicado dizer, mas assim como outros tipos de jogos o videogame pode sim viciar. Isso não é muito comum, sobretudo aqui no Brasil, não me lembro de nenhum caso, sendo mais recorrente nos países orientais, como a China e a Coréia do Sul. Acontece que o jogos são feitos de uma forma que estimula o jogador a continuar jogando, oferecendo nos prêmios, boônus, itens etc. Além disso, os jogos hoje em dia são cada vez mais longos, exigindo cada vez mais tempo de jogo. Mas os campeões em termos de “vício” e geração de ansiedade são os Massivos multiplayer online (MMO’s da vida). Esses jogos não tem fim e são arquitetados de forma que para o jogador evoluir ele precisa praticamente de uma jornada de trabalho diaria. Jogadores casuais normalmente não evoluem muito nesses jogos e acabam por desistir. Por outro lado os jogadores dedicados levam seus personagens muito a sério e ficam tensos quando não alcançam seus objetivos. Já vi muita gente “perder” seu final de semana para jogar algum Rpg online, devido a algum evento presente dentro do jogo. Nesses casos cabe aos pais e responsáveis verificar se a jogatina tem sido saudavel e ao sinal de qualquer problema conversar com a criança (ou jovem, adulto…) explicar o que está acontecendo e, novamente, oferecer algum outro tipo de atividade também.

5.     Como faço para participar junto com meu filho enquanto ele joga?

Muitos pais comentaram que não sabem jogar e por isso acabam se afastando dos videogames, mas que gostariam de participar mais de perto disso tudo, mas não sabiam como fazê-lo. Não há receita mágica para isso, mas algumas dicas podem ser valiosas nesse momento. Algo que tende a funcionar muito bem é pedir para que a criança explique e ensine sobre aquilo que joga. Isso não necessariamente significa ensinar a jogar em si, pois se familiarizar com os controles parece um pesadelo para alguns pais e professores. Quando falo sobre ensinar me refiro a estimular a criança a falar sobre o jogo, contar sua história, debater seu enredo, comentar sobre seus personagens favoritos e assim por diante. Sentar ao lado da criança e mostrar que naquele momento ELA é a “detentora” do conhecimento é algo que as deixa muito felizes e faz com que os pais se interem mais sobre o assunto. Não precisa ter medo, chegue para conversar, veja como a coisa acontece, se arrisque nos controles e mesmo que não consiga jogar você pelo menos conhecerá um pouco sobre o passatempo de seu filho.

Conversar, observar e participar: os pais precisam estar presentes nas atividades de seus filhos

6.   Se jogos violentos não tornam as pessoas mais violentas, então meu filho pode jogar qualquer jogo?

Sim e não novamente. Não é pelo fato de que ele não ficará mais violento que ele poderá/deverá jogar qualquer jogo. Vale a pena se inteirar sobre o conteúdo de cada jogo e avaliar as melhores escolhas para crianças de diferentes idades. Talvez um jogo adulto não seja apenas violento, mas pode ser profundo e complicado demais, o que não seria interessante para jogadores muito jovens. Hoje em dia existem varias opções de jogos para todos os publicos e gostos e os pais e educadores tem que pesquisar e verificar qual o mais adequado a cada situação. Mesmo sabendo que alguns jogos são imensamente populares e que as crianças querem joga-los para se sentirem “por dentro” das novidades não podemos nos tornar reféns do mercado e deixar que a moda dite aquilo que entregaremos a nossas crianças. Mais uma vez uma questão subjetiva, portanto complicada de responder, mas vale a pena pesquisar e conhecer minimamente um jogo antes de entrega-lo a uma criança, seja seu filho ou não.

Espero ter respondido satisfatoriamente a essas questões. Caso tenham mais dúvidsa (com certeza elas existem) não deixem de perguntar. Agora meu email está na descrição do blog, uma falha que eu finalmente arrumei.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

Então é isso que queremos para nossos eventos?

Seguindo minha trilogia sobre o SBGames 2012 farei meu balanço geral sobre as impressões desse nosso grande evento e sobre o futuro dos estudos de games no Brasil.

É inegável que esse foi o SBGames mais grandioso de todos. Não são apenas os números que mostram isso, mas a elegância com que foi realizado. Pen drive de 4gb para os incsritos, todas as salas caprichosamente arrumadas, decoração de primeira, salas grandes e com boa estrutura e uma feira bem grande logo na entrada.

Os papers também subiram de nível, falando de um modo geral. No track da cultura, que pude conferir mais de perto, as apresentações foram muito boas, com temas variados e interessantes, alinhados com o que há de mais novo nas produções mundo afora. Com o acréscimo de estarem todos em inglês, o que é ótimo para os autores, pois podem eventualmente serem citados na gringa, o que é bem mais difícil quando escrevemos em português, infelizmente.

Mas nem tudo são flores. Pra mim o SBGames ainda é, ou deveria ser, um evento acadêmico. Não que não tenha acontecido a parte acadêmica, mas ela ficou acanhada, perto do furor causado pela feira que lá ocorria.

Acho interessante a popularização das produções locais, do interesse pelos games e o aumento da curiosidade sobre esse mundo estranho. Mas não vejo tanto essa necessidade de “vender a alma” para agradar aos olhos dos patrocinadores. Trata-se de um cilco vicioso: mais gente leva a mais patrocínio, que leva a mais gente e assim por diante. Será que precisamos de um evento tão pomposo, as custas de inúmeros patrocínios privados, que exigem público massificado para exporem suas marcas? Creio que nesse momento não e explico o porque.

Na história recente (e também na atualidade) os pesquisadores de games lutaram para mostrar que trata-se de um objeto complexo de pesquisa, que deve ser elvado a sério pela academia e com imenso potecial expressivo, educativo etc. Aos poucos esse respeito vem sendo conquistado, as custas de muito trabalho, publicações e ciência.

Nessa onda veio o SBGames, crescendo ano a no e ganhando imensa credibilidade entre pesquisadores, tanto no Brasil quanto fora dele. Com esse crescimento veio o interesse das gigantes e também do governo. Some esses ingredientes num caldeirão e acrescente Brasília ao final da receita e você terá como resultado a festa que foi a edição 2012.

Repito, não tenho nada contra a popularização do evento, mas a que custo isso ocorre. Quem entrava pela porta via apenas mais um desses encontros da cultura nerd, geek ou como prefira chamar. Eram cosplayers, otakus, gamers, crianças acompanhadas das mães, sertanejo universitário, popozudas e tudo aquilo presente num evento comercial qualquer. Acontece que o SBGames não é um evento comercial qualquer, é o maior evento acadêmico de games da América Latina. Essa foi a primeira vez que vi seguranças rondando o evento e acreditem, eles não eram muito simpáticos.

Se seguirmos nesse ritmo eu não sei onde iremos parar. Cheguei a ouvir alguns comentários de que o SBGames estava parecendo a Brasil game show, esse sim um evento excencialmente comercial.

Imagem da BGS, feira comercial de games e afins

 

Por exemplo, se a intenção é popularizar o interesse pelos estudos de games, então porque não colocar os posteres e short papers concentrados em um só lugar e acessível também ao público não participante do evento. Afinal de contas era possível entrar gratuitamente no centro de convenções, mas não era permitido assisitr a nenhuma aplestra ou apresentação, algo que eu ainda não tinha visto nas outras edições, muito pelo contário. Ou seja, voce pode entrar e fazer parte da farra, mas se quiser aprender algo deve pagar a inscrição, ou procurar outro lugar mais apropriado.

Outro ponto problemático é a impressão que isso causa. Não que devamos nos preocupar apenas com o que os outros pensam, mas no caso de um campo acadêmico buscando legitimidade isso acaba sendo importante. Basta olhar qual foi o destaque dado ao evento por duas gigantes da imprensa brasileira, Globo e UOL. No caso da Globo, sequer mencionaram que tratava-se de um evento acadêmico, falando somente em mercado e estatísticas. Alias, na matéria da Globo eles apresentam o SBGames como uma feira de games, é de doer. Enquanto isso o UOL fez uma matéria de dois paragrafos, que até fala sobre a parte científica, mas sem destaque ou profundidade. Vale apontar também a cobertura ínfima dada a mídia em geral, falando pouco ou quase nada sobre as produções acadêmicas apresentadas no SBGames, uma pena.

Não acho que o evento tenha sido ruim, muito pelo contrário, tem mostrado cada vez mais força, mas temo pelo caminho que estejam optando. Torço para que o SBGames seja cada vez maior, mas de forma mais organizada e focada no principal,  que são as produções acadêmicas e os jogos independentes, mostrados não apenas ao público em geral, mas também a quem os estuda.

Ano que vem estarei por lá novamente e espero que volte com alguma agradável surpresa.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

SBGames 2012, dias 2 e 3

Dando sequencia a meu pequenino diário de campo do SBGames, escrevo hoje um resumão do segundo e do terceito dia de simpósio. Sim, estou com um pequeno delay, mas foram dias corridos, não tive tempo de sentar com calma na frente do pc para escrever um texto decente enquanto o evento rolava. Creio que no máximo até quarta feira apresentarei meu balanço geral e as principais impressões que tive com o SBGames de Brasília.

No segundo dia, com credenciamento já realizado e conhecendo o interior do centro de convenções resolvi me arriscar a dar uma volta pela feira, que ocorria logo no saguão de entrada. O número de pessoas era impressionante, muitos cuirosos e apaixonados por games faziam filas e barulho aguardando para por as mãos em algum jogo indepentente ou disputar uma partida de algum jogo de luta.

O estande do Banco do Brasil era imenso e trouxe até um robo gigante que dançava e “cantava” o hit do sul coreano Psy. Havia muitos jogos sendo expostos e muita coisa rolando ao mesmo tempo: Apresentações no palco, mostra de artes, cosplay etc.

Já nos tracks, mais uma vez acompanhei o da cultura. Na parte da manhã foram apresentados os trabalhos relacionados a educação e a tarde sobre metodologia. Mais uma vez os trabalhos estavam muito bons e no segundo dia as apresentações foram melhores. Particularmente gostei muito do trabalho do Isaque Elias e Cristiane Vidal entitulado “When brazil enters in the Koprulu sector: the Starcraft II Localized into Brazilian Portuguese” da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles abordaram não apenas a questão linguistica, mas tudo aquilo que envolve localizar um jogo em território nacional. Não a toa eles levaram o prêmio de melhor full paper no track da cultura. Após a apresentação eu pude conversar com o casal de autores, que não apenas mostrou grande conhecimento sobre o assunto como também imensa simpatia. São nesses momentos que sentimos gosto por participar de encontros dessa magnitude.

Saindo da sala de apresentações do track da cultura fomos direto para a plenária. Nela foram apresentados os dados do SBGames 2012, que bateu recorde de público e deinvestimentos. O custo total do evento ultrapassou R$ 700 000,00 e contou com mais de mil inscritos, além dos participantes gratuitos que apenas frequentaram a feira. Ficou decidido também que o SBGames de 2014 será realizado no RS, na Puc de Porto Alegre (o do ano que vem será em São Paulo, na Mackenzie, mas isso já era sabido).

No mesmo dia a noite ainda rolou a exibição do filme “Indie game” que não fiquei para assistir, pois achei melhor aproveitar para conversar com conhecidos e discutir a respeito de jogos e outros assuntos. Após o filme rolou o famoso coquetel, em conjunto com a premiação dos jogos independentes. Não dei tanta atenção a essa premiação, pois estava tudo um tanto caótico, mas vi que o pessoal da casa abocanhou a maioria dos prêmios, ficando as estatuetas em Brasília mesmo. E assim se encerrou o segundo dia.

E após a exibição do filme aconteceu o coquetel e o encerramento do segundo dia

 

O terceiro dia do SBGames foi o mais curto pra mim, pois não consegui participar no período da manhã, mas com certeza foi bastante interessante. Cheguei a tempo de ver a teleconferência de ninguém mais, ninguém menos do que Chris Crawford. Você não o conhece? então veja aqui o currículo desse distinto senhor. Ele é simplesmente um dos primeiros desenvolvedores de jogos da história, sendo parte da vida da Atari e de muitos jogadores da primeira geração.

A fala de Chris foi incrível e foi possível perceber o quanto os atuais produtores podem e devem aprender com a voz da experiência. Através de imagens e palavras e fez uma interessante analogia e mostrou que, descontando a evolução dos gráficos, os jogos mantém muitas semelhanças com os jogos antigos e que preciamos dar mais asas a criatividade e nas relações entre pessoas e não apenas entre personagens e objetos, itens etc.

Outro dado interessante apresentado foi o custo dos computadores antigamente e atualmente. Chega a ser assustador pensar que antigamente um computador custava algo em torno de 10 centavos de dollar por byte, enquanto atualmente sai por cerca de 0,00000005 centavos de dollar por byte. A diferença é gritante e nos faz pensar o quanto realmente poderíamos estar produzindo jogos ainda mais interessantes e ousados.

O sr Chris Crawford foi o palestrante do track da cultura

Terminada sua apresentação ocorreu logo em seguida a entrega dos prêmios de melhores papers de cada trilha e o encerramento do evento e o balanço geral do SBGames 2012.

Nos próximos dias trarei minha crítica sobre o evento e aquilo que mais atraiu minha atenção e o que deveria ser mantido ou alterado pela organização. Foram três dias intensos, de muita conversa e aprendizado. Conheci pessoas fantásticas e participei de interessantes discussões. Ano que vem estarei na Mackenzie, no SBGames 2013, que já tem até site. Nos vemos por lá!

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

OBS: O Game & Criticas já deixou bem pra trás a marca de 5 mil visitas e não para de crescer. Mais uma vez obrigado aos colaboradores.

deixamos bem pra trás a marca de 5 mil visitas

SBGames 2012, dia 1

E ele chegou, está rolando o SBGames 2012 em Brasília. Estive por lá na sexta e dei uma conferida em várias coisas, que apresentarei aqui num pequeno diário de bordo. Serão relatos curtos das principais impressões e percepções e ao final do evento um resumão de tudo que passou.

O espaço em que o evento está rolando é o centro de convenções Ulysses Guimarães, bela construção aqui de Brasília, localizado no eixo central da cidade. A grandiosidade do local impressiona e faz desse um dos SBGames mais pomposos de todos.

Vista do centro de convenções

 

O credenciamento foi ligeiramente confuso no início, mas sem nenhum problema. No mesmo local era possível conseguir uma pulseira que dava acesso a área comum do evento, possibilitando que visitantes tivessem acesso ao simpósio. Nesta área comum se encontram os jogos independentes, estandes, barracas de vendas, alimentação, cosplays etc. O local era um barulho só, com muita música, gente transitando e algumas bizarrices.

A arrumação do local impressionava, pois a quantidade de participantes era bem grande e havia varios anunciantes. Sinceramente, tive até a sensação de um certo “over” do SBGames, tentando abraçar o mundo e colocar pra dentro do centro toda e qualquer pessoa interessada em jogar videogames. Não a toa estavam presentes várias mães com seus filhos pequenos, correndo de um lado para outro, fascinadas pelos inumeros computadores e videogames espalhados pelo saguão.

entrada do SBGames 2012

 

No final da tarde acompanhei o track da cultura e a apresentação dos full papers. De modo geral todos estavam muito bons e bastante interessantes, apesar de alguns dos apresentadores estarem visivelmente nervosos. Não é por menos, o local estava bastante cheio e muito arrumado. Eu mesmo nunca apresentei em uma sala tão arrumadinha em nenhum SBGames.

A discussão após as apresentações foi bem interessante e até me posicionei num pequeno embate teorico que surgiu a respeito da definição de serious games. Os apresentadores também eram bastante simpáticos e receptivos, abertos ao diálogo. Conversei com alguns deles após apresentarem seus trabalhos e boas ideias surgiram.

Saindo do track da cultura fui direto para o auditório assistir a palestra do David, da Nvidia. O rapaz só falava inglês e abordou um tema bastante técnico, mostrando os avanços dos processamentos gráficos e trazendo o que será o futuro das placas de vídeo etc. Muito bom, mas bastante técnico e não é algo que domino, mas foi um prato cheio para o pessoal da computação.

Para fechar o dia nada melhor do que asssitir a apresentação da Vgamus, orquestra formada (principalmente) por alunos da Unb e que tocam temas clásssicos dos games. Nesse meio tempo aproveitei para travar algumas discussões com o professor Roger Tavares a respeito de alguns jogos e foi engraçado notar como temos um gosto bastante distinto. Isso chega a ser bom, pois o debate fica mais interessante e acabmos pensando mais a respeito do que jogamos.

Abaixo você pode conferir e sentir um pouco o gostinho de como foi esse show.

tema de Zelda rolando

 

Até,

Gustavo Nogueira de Paula