Lista de obras

Fim de ano e no Brasil é época das maiores provas de vestibular: Fuvest, Unesp, UNICAMP e ENEM. Cada final de semana uma nova maratona para aqueles que querem cursar uma universidade pública. São centenas de milhares de candidatos respondendo as mais variadas questões sobre química, física, matemática, biologia, geografia, história, inglês e português, além de redação.

Para as provas de português são requisitadas as leituras de algumas obras consideradas importantes para a língua portuguesa. A lista desse ano da fuvest e unicamp continha: “viagens na minha terra” de Almeida Garret; “Til” de José de Alencar; “Memórias de um sargento de milícias” de Manuel Antônio de almeida; “Memórias póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis; “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo; “A cidade e as Serras” de Eça de queiros; “Vidas Secas” de Graciliano Ramos; “Capitães da Areia” de Jorge Amado; “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade.

vidas secas é dos meus livros favoritos

De início isso o assunto não parece ter grande relação com os games, mas apresento aqui um texto provocatório, na intenção de nos fazer refletir sobre algumas tradições que temos na nossa sociedade.

Tempos atrás levantou-se uma discussão na cúpula da organização do vestibular da unicamp, questionando a existência e o formato da lista de leituras obrigatórias. O principal argumento é de que existem outras produções que também deveriam ser de conhecimento obrigatório, extrapolando a literatura. Chegou-se a propor uma lista de obras, de uma forma mais geral, que incluísse artes plásticas, filmes, literatura etc. A ideia foi rechaçada e a lista continuou da mesma forma de sempre.

Não vou entrar na discussão do “valor” e da importância de cada uma dessas obras literárias, que são realmente fantásticas. Mas seriam elas as únicas a serem cobradas obrigatoriamente na prova de linguagem? E os filmes clássicos, sobretudo nacionais, não mereceriam espaço junto a elas? Será que o fato de ser uma obra cinematográfica faz de “Central do Brasil” algo menor? Apenas para exemplificar.

Os filmes já começam a mostrar sua importância enquanto mídia madura e produtora de muito conhecimento. Apesar de possuir um formato praticamente estabelecido, há espaço para muita inovação e criação dentro do cinema, o que acaba por conferir muito prestígio a essa forma de expressão.

Quanto aos jogos, qual a distância que eles estão de figurar entre outras obras importantes, seja no Brasil ou no mundo. Atualmente essa distância é imensa. Que me perdoem os jogadores mais afoitos, mas a grande maioria dos jogos produzidos hoje em dia ainda é mais do mesmo, inovando pouco e com enredos fraquinhos. São poucos os jogos que realmente se destacam por levarem o jogador a sério, considerando-o um ser inteligente. Os que fazem isso costumam receber grande destaque da mídia e do meio acadêmico, mas não necessariamente dos jogadores.

Não estou fazendo aqui um juízo de valores, comparando um livro a um filme ou a um jogo. Cada um possui suas próprias características, mas os jogos ainda são relativamente novos se compararmos com a história de outras formas de produção artísticas e/ou textuais, mas já é chegada a hora de começar a encará-los de forma mais séria. A esperança reside no crescimento da produção e divulgação de jogos indies. Mas sempre passamos pelo mesmo problema: Produtores independentes querem crescer  no mercado e para crescer no mercado costumam fazer jogos “apenas” para agradar aos compradores, deixando a inovação de lado, pelo medo da não aceitação. Uma vez se estabelecendo no mercado acabam por repetir as fórmulas já conhecidas, com apenas alguns retoques ou roupagens novas.

Seguindo nesse ritmo os games continuarão a serem considerados como obras menores por um bom tempo. Não espero que um jogo seja comparado ou equiparado com Graciliano Ramos, nem quero, mas vale pensar o que seria necessário para que um jogo fosse considerado importante o suficiente para ter sua leitura tida como obrigatória.

Isso deveria valer para os cursos de produção de jogos. Alguns títulos deveriam ser obrigatórios durante o curso, seja por sua inovação na jogabilidade, gráficos, enredo, estética etc. É muito triste ver profissionais chegando ao mercado tendo jogado apenas os grande blockbusters da vida e se limitando a ler apenas reviews que atribuem de uma a cinco estrelinhas para os jogos.

Que me venha à cabeça agora me recordo apenas de Bioshock ser cobrado numa universidade americana, mas sinceramente eu não lembro onde vi isso e não consegui reencontrar a notícia. De qualquer forma, talvez seja o início, pois aos poucos os jogos  e os jogadores ganharão mais respeito. Para isso precisamos de jogos inovadores e para jogos inovadores precisamos de jogadores mais conscientes e para jogadores mais conscientes precisamos de melhores pesquisas, críticas e divulgação.

A estrada é longa, mas não me surpreenderia se num futuro próximo algum jogo ou personagem figurasse como obra aclamada mundo afora, sendo debatido e discutido em museus, mesas de bar, universidade, escolas…

Em tempo, mais uma vez obrigado aos visitantes do gamecriticas, que ultrapassou já tem um tempo a marca das 6 mil visitas. O público vem crescendo bastante e espero sempre por sugestões, dúvidas e críticas.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

obrigado a todos visitantes, já ultrapassamos, e muito, as 6000 visitas!
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11 comentários sobre “Lista de obras

  1. Fernando

    Indico dois jogos de corrida, produzidos por uma empresa brasileira…Reiza Studios. Game Stock Car e o lançamento Formula Truck. Principalmente o segundo, Puro realismo e simulação das categorias em questão, obras primas no quesito automobilismo.

  2. Luiz Henrique

    Seja como for, aprendi muitas coisas neste período em que trabalhei com a 7ª Arte. Por exemplo, o fato de que Hollywood é comandada por completos retardados, que a indústria do cinema está em claro declínio e que muitos dos mais fervorosos cinéfilos tem um ódio total e absoluto por videogames.

    Roger Ebert tinha uma clara aversão ao meio. E olha que ele era um dos poucos críticos de cinema que eu genuinamente respeitava.

    Não faço ideia de onde vem este sentimento. Talvez preconceito puro e simples para com algo que não conhecem, talvez os cinéfilos não aceitem comparações entre os games e aquilo que consideram uma “forma superior de arte”, ou talvez eles simplesmente estejam sem cagar a meses. Nada que um suco de ameixa e meia dúzia de paçoquinhas não resolvam.

    Não me entendam mal, eu amo cinema com cada átomo de meu ser. Minha personalidade foi em grande parte moldada por obras como Conta Comigo, Os Goonies, Gremlins, Os Caça Fantasmas, Corra que a Polícia Vem Aí, Rocky, De Volta Para o Futuro, Indiana Jones, Star Wars e tantas outras pérolas que eu poderia ficar citando aqui até morrer seco e arreganhado.

    O negócio é que a indústria do cinema está, em minha opinião, completamente estagnada, enquanto os games se tornam um terreno cada vez mais fértil para mentes criativas.

    Assim, decidi escrever um breve (até parece) artigo explicando por quais motivos acredito que os games são um veículo midiático superior ao cinema e ao James Franco.

    Droga de James Franco e seu cabeção de mini craque! Você destruiu Harry Osborn pra mim, seu mágico fracassado que molesta bonecas de porcelana!

    Games são uma excelente ferramenta de interação social

    Se você cresceu neste planeta e não é um Gamer, é bem capaz de que já tenha uma ideia pré-concebida de como são as pessoas que desfrutam deste hobbie.

    Se você não cresceu neste planeta… e é uma sexy mulher azul que veio das estrelas, me manda um e-mail… Vamos conversar.

    Enfim, a ideia pré-concebida em questão, consiste em imaginar que todos os apaixonados por games são sujeitos obesos, virginais, totalmente descuidados de sua higiene pessoal, que moram com a mãe mesmo depois de passar dos 40 anos, que deixam uma trilha viscosa por onde passam e que colecionam pornografia da Moranguinho.

    Agora, eu garanto, com 100% de certeza que este não é o caso de todos os gamers. Eu mesmo sou um exemplo claro disso! Parei de colecionar pornografia da Moranguinho tem duas semanas!

    Que foi? A Moranguinho e as amigas tem cheirinho de fruta! É sexy!

    Agora, existe sim uma parcela de pessoas que sofre de insegurança e/ou baixa autoestima, que encontrou nos games uma forma de entretenimento onde não é necessário interagir com outras pessoas. Mas elas não são a totalidade do público gamer, definitivamente.

    E verdade seja dita, isso pode ocorrer com todas as formas de entretenimento.

    O ponto é, videogames são uma das melhores formas que existem de se interagir com os amigos. Se você está na casa dos trinta anos, tente se lembrar do que você e seus amigos faziam na infância.

    Não, não me refiro ao troca-troca. E sim a possibilidade de vocês terem passado horas nos fliperamas da vida, jogando Tartarugas Ninja, Final Fight e Double Dragon! Então, vieram os consoles domésticos e com eles, a chance de se jogar obras totalmente novas, como Tartarugas Ninja IV, Final Fight Revenge e Double Dragon V.

    Pois é.

    Hoje, esta interação se mantém. Graças a conectividade online, você pode encontrar seus camaradas na rede e se divertir com partidas de Call of Duty: Modern Warfare 2, Call Of Duty: Modern Warfare 3, Call of Duty: Black Ops e Borderlands.

    Ahhh, a variedade.

    Ao longo dos anos, videogames se tornaram uma das maneiras oficiais de se relacionar com os amigos. Ao invés de ir até a casa de seu camarada, reunir seus bonecos do He-Man com os Thundercats dele e fazer uma grande suruba de plástico com as Barbies “emprestadas” da coleção da irmãzinha, vocês se encontravam pra espancar pessoas virtuais em um jogo eletrônico. E se quisessem sobreviver a um game, vocês PRECISAVAM trabalhar juntos e interagir de forma mais ou menos saudável.

    Claro, você pode ir ao cinema com um amigo ou juntar a galera para ver um filme em seu novo televisor em HD de 90 polegadas. Mas a menos que tenham se reunido para caçoar da produção, a experiência do grupo se limitará, na maioria dos casos, a cada um sentar em sua poltrona e assistir em silêncio. Não existe nenhuma interação, exceto o eventual bate papo sobre a história depois da sessão e que irá durar exatamente até o momento em que alguém decidir pedir uma pizza.

    Você pode decidir passar o resto da vida estudando e ponderando sobre tudo que um filme pode representar, mas conversas sobre cinema normalmente englobarão diversos filmes e longas interações a respeito só poderão ocorrer com pessoas tão cinéfilas quanto você. Não dá pra debater Stanley Kubrick com alguém que só assiste Michael Bay.

    Por outro lado, se tiver um amigo que jogue apenas Mass Effect ou Fallout, você poderá ter horas de conversa ininterrupta com ele, unicamente sobre estes dois jogos. E isso porque…

    Games permitem um enorme desenvolvimento de seus personagens e do mundo em que eles vivem

    Um filme costuma ter entre uma hora e meia e três horas de duração, aproximadamente. Este é o período de tempo que o diretor tem de apresentar os personagens, estabelecê-los, definir suas características e desenvolvê-lo, antes que os créditos comecem a subir.

    Acredito que em um bom filme, o protagonista começa a história de um jeito e a termina de outro. Por exemplo, Michael Corleone inicialmente não queria nada com os negócios da família, mas ao fim de sua história, tomou o lugar do pai como chefão da Máfia e tornou-se tão impiedoso e violento quanto ele. Luke Skywalker começa como um caipira incestuoso que atira em ratazanas do deserto e torna-se o maior Jedi da galáxia, enquanto Tony Stark é um bilionário mimado e arrogante que aos poucos torna-se um herói genuíno, capaz de se sacrificar para salvar inocentes.

    Mas… Vocês perceberam um padrão aqui? Todos estes personagens tiveram séries de filmes para serem desenvolvidos. Michael e Luke foram peças centrais em suas próprias trilogias e Stark participou de quatro filmes… pelo menos por enquanto.

    Quando o roteiro é comprimido em um filme só, muitas vezes não existe tempo de nos aprofundarmos tanto quanto gostaríamos na mente do personagem principal. Em Scarface, Tony Montana começa a história como um imigrante cubano ultra violento e disposto a tudo para ter dinheiro e poder, o vemos crescer “profissionalmente” no mundo do crime, mas sua personalidade permanece a mesma até o último minuto da história. A mesma cabeça quente que nos foi mostrada como característica principal do gangster é o que causa sua queda no fim do longa.

    Quanto a seus coadjuvantes, eles pouco tem tempo de brilhar e acabam sendo meras ferramentas para que a história Tony seja contada. Manny é seu melhor amigo mulherengo, Gina é sua irmã caçula ao qual o “herói” protege de forma doentia e Elvira é o troféu que comprova a ascensão do traficante ao topo de sua carreira. Embora nos cativem com sua presença, nenhum deles tem espaço de tela para nos mostrar seus próprios conflitos e dilemas.

    Este não é um problema pelo qual os games passam.

    Vou tomar como exemplo Grand Theft Auto IV. Na história, controlamos Niko Bellic, um imigrante europeu que vai morar nos Estados Unidos com seu primo e que acaba envolvendo-se com o crime organizado. Inicialmente Niko parece um mero bandido incapaz de demonstrar remorso, mas com o tempo descobrimos que ele é um homem traumatizado, que teve seu espírito quebrado pela guerra civil e fechou-se para o mundo. A única forma como conseguiu lidar com a dor que sentia.

    E embora tenha surtos psicóticos de extrema brutalidade (sem dúvida causados por seu transtorno de stress pós traumático), Niko é extremamente protetor para com seus amigos e família e está disposto a qualquer coisa para mantê-los seguros. Em uma das missões, ele encara um armazém cheio de mafiosos russos armados com rifles de assalto apenas para salvar seu primo.

    A mesma profundidade pode ser encontrada em Johnny Klebitz (da expansão “The Lost and Damned”), um motociclista brutal que vive se metendo em enrascadas para ajudar sua ex-namorada viciada em crack e que demonstra genuína pena por um picareta que é forçado a sequestrar.

    E os coadjuvantes de Liberty City não estão lá só pra deixar o ambiente mais colorido. Todos tem suas histórias, dramas, inseguranças e problemas, que nos são apresentados quanto mais passamos tempo com eles. Ao longo das inúmeras horas de duração do jogo, Niko (e Johnny, e Luis nas expansões) terão longos diálogos com aqueles que os cercam, o que os torna cada vez mais familiares para o público. Com o tempo, passamos a apreciar a presença destes indivíduos, ao ponto de criarmos uma ligação genuína com eles.

    Então, quando somos apresentados com uma escolha que pode causar a morte de um destes personagens, torna-se muito difícil tomar uma decisão. A Bioware adora nos colocar no meio desses dilemas.

    E este é um apego emocional que os filmes andam com uma dificuldade incrível de gerar.

  3. Luiz Henrique

    Os Games estão passando por um momento criativo muito melhor que o cinema

    Neste exato momento, Hollywood está planejando um remake de Mulher Nota Mil.

    MULHER.

    NOTA.

    MIL.

    Se existe um filme que não precisa ser recriado, é Mulher Nota Mil. Ele é um tesouro dos anos 1980 e um eterno atestado de como comédias adolescentes eram bem pensadas na época. Quando mais que uma história com conceito tão incrivelmente sexista quanto este poderia se tornar uma divertida e sincera película sobre amadurecimento e evolução pessoal?

    Sério, dois nerds criam a mulher perfeita em seu laboratório. E quando ela se mostra mais do que disposta a satisfazer todas as necessidades sexuais dos dois… a coisa mais picante que um dos rapazes consegue pensar é em ter seu primeiro beijo com ela.

    E depois querem me convencer que Diário de uma Paixão é romântico! Ryan Gosling ameaça se jogar de uma roda gigante até a mocinha da história aceitar sair com ele. Isso não é romance… É COAÇÃO!!! VÁ SE FODER, RYAN GOSLING!!!

    E VÁ SE FODER, MARGOT KIDDER!!!

    Agora, além deste remake, temos também o de RoboCop e um possível reboot de Gremlins, sem contar que existiu um projeto, até o momento cancelado, de Fuga de Nova York.

    Agora, vejamos quais os filmes mais esperados do próximo ano. De cabeça, posso citar Capitão América 2, Thor: O Mundo Sombrio, Jogos Vorazes: Em Chamas, Círculo de Fogo, O Hobbit – A Desolação de Smaug e O Espetacular Homem-Aranha 2.

    Olhemos mais no futuro ainda e teremos Os Vingadores 2, Mais dois Jogos Vorazes, mais um Hobbit e a nova saga de Star Wars, que promete colocar um filme novo nos cinemas todo ano.

    De tudo isso que citei, temos apenas Círculo de Fogo como uma produção totalmente “original”. E uso as aspas porque é um filme sobre robôs gigantes enfrentando monstros, não é nada novo para quem assiste ficção científica japonesa ou Anime.

    Hollywood hoje tem de competir com outras formas de entretenimento. Sair de casa a noite, enfrentar trânsito e pagar uma fortuna no ingresso de um filme (mais estacionamento, combustível e comida), não parece mais tão atraente quanto encomendar uma pizza e assistir a alguma coisa no Netflix. Desta forma, muitos estúdios preferem investir apenas nas propriedades intelectuais que eles sabem que darão retorno.

    Graças a isso, temos mais continuações e remakes do que precisamos… E muitos filmes em 3D, que não tem a menor necessidade desta tecnologia, mas que são feitos assim para que gastemos o dobro no preço do ingresso.

    Agora, sei muito bem que a indústria dos games não vive unicamente de títulos inéditos. Enquanto escrevo este artigo, posso ver na minha estante QUATRO jogos da série Gears of War, CINCO Assassin’s Creed e SEIS God of War.

    E nem vou começar a falar de Call of Duty e Street Fighter, ou todos entraremos em depressão aqui.

    Mas mesmo com este excesso de continuações, a indústria dos games se permite arriscar mais e ser mais original do que qualquer estúdio de cinema tem feito nos últimos anos. Eu poderia citar uma dezena de jogos, mas me aterei a apenas um no momento: Catherine.

    Aqui, estamos no controle de Vincent, um sujeito de trinta e poucos anos que não fez muita coisa da vida e está em um relacionamento não totalmente feliz com sua namorada de longa data, Katherine. A moça coloca nele muita pressão para que se endireite, pare de perder tempo com os amigos e case com ela de uma vez, o que como todos sabemos, tem o efeito totalmente oposto em qualquer homem.

    Eis que surge Catherine, uma loirinha deliciosa de 21 anos que é praticamente a manifestação física de todas as fantasias de Vincent. Os dois dormem juntos e a partir daí, o “herói” passa a ter pesadelos diários, nos quais precisa decidir qual rumo irá seguir na vida, se vai largar a namorada e cair de cabeça em um mundo de prazer sem culpa com Catherine, ou se irá resistir a tentação, criar juízo e aceitar as responsabilidades da vida adulta junto da outra Katherine.

    UAU!

    Catherine (o game, não a loirinha) é um produto totalmente original e por que não dizer, experimental? Dilemas morais e desenvolvimento de personagem nos são apresentados juntamente da solução de puzzles, o que rende uma experiência única. Não é um título para todos os gostos e com certeza não chamou a atenção dos machinhos belicistas obcecados por Gears of War, mas atingiu a um público bem maior que o esperado.

    Hollywood não se arrisca muito mais com este tipo de projeto, pois seu retorno financeiro não é garantido, pelo menos no nível em que eles esperam. Mesmo as produções independentes dos anos 1990 (que nos renderam diretores como Kevin Smith e Quentin Tarantino) foram parte de uma bolha sustentada pela indústria apenas porque rendia MUITA GRANA. Algo que não se repete mais.

    Da mesma forma, investidores fogem de roteiros mais maduros, que não possam cativar a famílias inteiras, simplesmente porque um Segredos de Sangue não vai render a mesma quantidade de cifrões que um Homem de Ferro 3.

    O mercado de games permite liberdade criativa maior. Claro que os donos das grandes desenvolvedoras querem encher o rabo de grana, mas a indústria é mais flexível e tem lugar para jogos sanguinolentos e cheios de sexo, ou para aventuras inocentes com fadinhas. Desta forma, mesmo em um oceano de continuações, ainda há bastante espaço para produções variadas e diferentes.

    E por falar em games para adultos…

    Games tratam temas adultos com mais maturidade que o cinema

    Um dos últimos filmes “para adultos” que assisti foi Em Transe, do diretor Danny Boyle. Nele, um grupo de criminosos recruta a ajuda de uma hipnoterapeuta para que ela faça com que um dos bandidos lembre onde escondeu uma obra de arte valiosíssima que ele se seus colegas roubaram.

    O filme é bom, embora eu tenha algumas ressalvas, como o fato de que não acredito em hipnose.

    Mas se estou disposto a aceitar um cientista franzino que se transforma em um monstro verde gigante toda vez que se irrita, acho que não tenho muito direito de criticar o quanto este longa é verossímil.

    Enfim, tenho grandes problemas com uma cena que mostra a atriz Rosario Dawson em um nu frontal completo.

    Que fique claro que eu jamais reclamaria se Rosario Dawson aparecesse peladinha na porta do meu quarto, desejosa de fazer coisas imorais comigo… Antes de perceber minha coleção de Transformers e decidir ir trepar com meu vizinho, que é um homem de verdade e tem um carro de verdade ao invés de robôs de plástico que se transformam em tiranossauros, empilhadeiras e caramelos.

    … onde eu estava… Ah sim, o filme de Danny Boyle.

    No ocidente, onde até hoje sofremos muito com o conservadorismo, nudez ainda é um tabu, especialmente se for nudez feminina. Fazer uma atriz tirar a roupa em um filme é considerado algo arriscado, pois irá aumentar brutalmente sua classificação etária. O beneficio adquirido é que a academia e os “especialistas” em cinema passarão a levar a produção muito mais a sério e ela tem grandes chances de entrar para o circuito de premiações da indústria.

    De fato, muitas atrizes usam esta alavanca como forma de impulsionar suas carreiras. E que fique claro que eu não as culpo nem por um segundo, afinal, este é o mundo em que elas tem de viver.

    É um fato conhecido que Julianne Moore só começou a ser respeitada como atriz por causa do filme Short Cuts – Cenas da Vida, onde ela faz um longo monólogo em uma cena em que não veste nada da cintura para baixo. E Angelina Jolie só começou a chamar a atenção depois de trabalhar em Gia – Fama e Destruição, onde passa metade do filme pelada.

    Desta forma, tenho a permanente impressão de que muitos diretores usam nudez como uma forma de tentar dar mais prestígio a seus trabalhos. Em Transe coloca Rosario Dawson totalmente nua não uma, mas DUAS vezes. E diga-se de passagem, totalmente depilada, o que nos permitiu ver TUDO que a atriz tem a oferecer.

    Após muito pensar no assunto, concluí que estas cenas eram totalmente desnecessárias na narrativa. O que Danny Boyle queria passar ficou claro de outras formas ao longo do enredo. A impressão que tive foi a de que o diretor incluiu estes momentos apenas como uma maneira de delimitar sua narrativa como algo “maduro” e “adulto”.

    Tenho essa opinião a respeito da maioria das cenas de nudez que vejo no cinema. Acredito que poderiam ser removidas e não fariam a menor diferença para suas películas de origem.

    E não, não sou um puritano. Os artigos que crio com o pretexto de mostrar cosplayers boazudas deixa bem claro que eu sou um tarado, machista e imundo.

    Como usei sexo para minha crítica à maturidade do cinema, farei o mesmo com os games. E serei justo, nem sempre esta mídia usa a exposição do corpo humano da forma mais adulta possível (é de você mesmo que estou falando, God of War), mas no geral, consigo me lembrar de mais momentos de bom gosto aqui do que em películas.

    Dois deles me surgem a mente agora, o primeiro é em Heavy Rain, que conseguiu certa notoriedade por causa da cena de banho de sua protagonista feminina, Madison.

    Assim que somos apresentados a ela, descobrimos que a moça sofre de insônia. No meio da madrugada, acordada, exausta e incapaz de dormir, o jogo nos oferece uma dezena de opções para tentar fazê-la relaxar, como beber chá quente, tentar se manter ocupada, escutar rádio, ou tomar um bom banho.

    A forma como Madison usa o chuveiro não é nem um pouco sensual. Ela não se toca, geme e eventualmente se masturba usando seu chinelo como um consolo improvisado, nada disso. Seus movimentos são rápidos, curtos e nervosos, ela age como se tentasse espalhar melhor o calor da água pelo corpo, para forçar-se a livrar-se da tensão que a ausência de sono lhe causa. Ela transparece angústia, não sexualidade.

    A cena não foi criada como auxílio masturbatório, mas como uma forma de mostrar melhor o tipo de vida que Madison leva. Podemos entender com mais clareza o que se passa em sua mente e o que a motiva ao longo da narrativa. Isso gera uma experiência mais completa para o jogador.

    Claro que este momento gerou um bocado de notoriedade para Heavy Rain, mas havia muito mais conteúdo no game para impedir que este momento fosse sua única maneira de se destacar em seu meio.

    Querem mais um exemplo? Ok, que tal Red Dead Redemption?*

    Há um capítulo em que o protagonista John Marston está no México, ajudando os rebeldes do país a derrubarem um governo ditatorial. O líder deste movimento é Abraham Reyes, reverenciado de forma quase religiosa por seus seguidores.

    Em uma cena, Marston entra na casa de Reyes e o encontra encaixando o burrito com uma camponesa. Aqui, vislumbramos mais que um par de peitinhos, pois o castor da moça também está visível.

    Depois disso, Marston confronta Reyes sobre o que acabou de presenciar e menciona Luisa, uma professora que está completamente apaixonada pelo revolucionário. O sujeito simplesmente deixa claro que se considera superior aos mexicanos que o seguem na guerra e que Luisa não passa de uma bela trepada para ele.

    A cena de sexo demonstra que Reyes não tem escrúpulos em usar a população para realizar seus objetivos, seja fornicando com todas as mulheres que deseja, ou mandando os homens para a morte a fim de assegurar para si um lugar de poder no governo.

    Assim, tivemos um momento extremamente adulto que não foi inserido de forma gratuita. A cena ajudou a dar profundidade a um coadjuvante e tornar ainda mais questionável a moral das missões que John Marston tem de realizar. Surgem tons de cinza ainda mais difíceis de discernir e a história torna-se mais envolvente.

    Estes acontecimentos ainda são relativamente raros no meio dos games, mas já demonstram que a indústria adquiriu uma maturidade que muitas vezes parece escapar ao cinema, onde os diretores e atores parecem muitas vezes interessados apenas em gerar polêmica para não saírem da luz dos holofotes.

    E isso me leva a…

  4. Luiz Henrique

    Videogames não se tratam do culto da celebridade

    Existe uma coisa em Hollywood chamada “Star Power”. Não significa que um ator vai pegar uma estrelinha, ficar invencível e sair pulando feito um orangotango mongoloide no sofá da Oprah, mas sim, que os estúdios estão dispostos a injetar uma quantidade insana de dinheiro em qualquer filme que tenha um grande astro ou estrela atrelado a ele.

    Centenas de roteiros são comprados pelas produtoras todos os anos e ficam trancados até que algum nome famoso se interesse por ele. O projeto é mantido vivo enquanto o ator (ou atriz) de renome mantiver-se ligado a ele e volta para o sono criogênico se o artista em questão resolver partir para outra.

    Assim, muitos filmes acabam tornando-se meros projetos de vaidade, sejam de seus atores ou diretores. E não consigo pensar em um exemplo melhor disso do que Prometheus.

    Para aqueles que não assistiram (e Deus os abençoe por isso), este filme não passa da forma que Ridley Scott encontrou para cagar em toda mitologia da série Aliens, apenas para satisfazer seu ego de velho farelento.

    Prometheus é infestado de clichês de ficção científica, tem um roteiro mais cheio de furos que o tórax do Kenshiro e alguns dos personagens mais coxinha que eu já vi em minha longa existência. Claro, os efeitos visuais são excelentes, mas isso não justifica sua existência, que deveria ser vista como uma violação as Convenções de Genebra.

    Mesmo assim, todos estávamos dispostos a dar o benefício da dúvida para Prometheus, pois um elenco composto por Charlize Theron, Michael Fassbender, Idris Elba e Noomi Rapace supostamente não se reuniria pra fazer merda. E embora esteja hoje mais gagá que o vovô Simpson, Ridley Scott já criou coisas legais suficientes para não ser internado em um asilo sempre que idealiza algo novo.

    Graças ao “Star Power” envolvido na história, milhões de pessoas entregaram seus suados dinheiros nas bilheterias do mundo e sofreram de desilusão galopante com essa desgraça.

    Eis é um ciclo que se repete diariamente em Hollywood. Neste momento, Robert Downey Jr. vale ouro para os estúdios, como consequência, seu nome será atrelado a algumas bombas nos próximos anos, o que fará com que sejam assistidas por todas as pessoas do mundo e suas avós. Ficaremos desgostosos com o senhor Downey por algum tempo, mas não será nada que ele não consiga consertar participando de Os Vingadores 2.

    Este não é um mal do qual a indústria dos games está totalmente livre. Existem muitos produtores que se tornaram bastante famosos no meio e alguns deles possuem egos tão massivos que fariam Liam e Noel Gallagher parecerem ícones da humildade. Caras como Cliff Bleszinski, que critica seu público por comprar jogos usados, ou Tomonobu Itagaki, que criou toda uma carreira ao objetificar mulheres de uma forma que não parecia possível para alguém nascido depois do século XV.

    Claro que existem produtores famosos, como Hideo Kojima e Shigeru Miyamoto, mas eles só chegaram a este patamar porque criam EXCELENTES JOGOS. E mesmo isso não é uma garantia de que eles sempre estarão no topo da indústria. Tim Schafer e Ron Gilbert criaram juntos verdadeiras obras primas como The Secret of Monkey Island, Maniac Mansion e Full Throttle, mas eles precisaram recorrer ao público para poderem bancar seu próximo projeto.

    No fim das contas, não se trata destas pessoas, mas de seu trabalho. Corremos menos risco de comprar uma bomba por esta ter um nome famoso estampado na sua capa, que foi exatamente o que aconteceu com metade dos filmes de M. Night Shayamalan.

    Pode não ser totalmente justo com os designers e artistas que permanecem no anonimato grande parte das vezes. Mas infelizmente, nenhum sistema é perfeito.

    Games são mais inclusivos que o cinema

    Não existe uma forma delicada de colocar, então eu vou ser direto: HOLLYWOOD É PRECONCEITUOSA!

    Em pleno século 21, grande parte dos filmes ainda conta com atores brancos no papel principal. Hollywood acredita que se o protagonista for negro (ou asiático, ou latino), o público se negará a entrar nos cinemas e ateará fogo em cruzes nas portas da Warner Bros.

    Na maioria esmagadora das vezes, papéis principais são entregues a atores de etnias variadas quando a história se trata especificamente disso, um drama racial ou coisa assim. De outra forma, se os estúdios tiverem a chance de “embranquecer” um elenco, eles assim o farão.

    Como por exemplo…

  5. Luiz Henrique

    Pois é. O Último Mestre no Ar é uma adaptação de Avatar: A Lenda de Aang, uma série animada completamente inspirada na cultura e folclore dos países da Ásia. Todos os personagens da série são claramente asiáticos (ou no caso do povo de Katara e Sokka, inuítes), mas os estúdios se negaram a financiar um filme que não tivesse heróis brancos.

    Claro, os membros da Nação do Fogo são indianos. Mas eles são os vilões, então não precisam atender a exigência ariana dos chefões.

    E esse não é um mal exclusivo dos blockbusters. O filme Stuck conta a história de uma mulher negra que é acusada de homicídio. Nenhum estúdio queria bancar a produção… ATÉ QUE ESCALARAM UMA ATRIZ BRANCA PARA INTERPRETAR A PROTAGONISTA!!!

    Afinal de contas, trança enraizada automaticamente transformou Mena Suvari em afro americana.

  6. Luiz Henrique

    E eu nem vou começar a falar de Histórias Cruzadas, que é basicamente um filme sobre como uma jovem branca e privilegiada trouxe a salvação para as empregadas domésticas que sofriam com o preconceito nos Estados Unidos da década 1960.

    Não importa que tipo de carreira dramática alguém quer seguir em Hollywood, ser homem e branco ainda é muito melhor. Claro, existem exceções como Will Smith e Denzel Washington, mas mesmo eles sofrem com os velhos hábitos do negócio.

    Aliás, eu preciso falar alguma coisa sobre a forma como Hollywood trata as mulheres? Onde mesmo atrizes lindas como Kat Dennings e Jennifer Lawrence são consideradas obesas? Pois é.

    Agora, eu adoraria dizer que o mundo dos games é uma utopia fantástica em que homens, mulheres, brancos, negros, asiáticos, gays, Du, Dudu e Edu são tratados com total e inquestionável igualdade. Mas não é bem assim.

    Ainda hoje, personagens femininas são extremamente objetificadas e produtores tem de lutar para que suas heroínas apareçam na capa de seus jogos ou em revistas, algo que eles nem sempre conseguem. E se procurarmos com afinco, poderemos encontrar acepipes de velhos preconceitos até mesmo em títulos inocentes como Scribblenauts.

    Mesmo assim, existem ótimos exemplos de personagens negros ou de diferentes etnias que não são tratados como meros elencos de apoios em seus jogos de origem.

    Por exemplo, Barret Wallace (de Final Fantasy VII) parece o estereotípico “negão brutamontes de temperamento explosivo” quando nos é apresentado. E embora possua bastante em comum com este arquétipo, ele também tem uma história bastante elaborada e sensível, que envolve perda pessoal, culpa de sobrevivente e a responsabilidade de criar sua filha adotiva, Marlene.

    E se quiserem ir ainda mais longe, vamos nos lembrar de Carl Johnson, o CJ de Grand Theft Auto San Andreas. Como todos os “heróis” da série, ele vive a margem da lei e não hesita em usar da violência para atingir seus objetivos. Mesmo assim, ele demonstra preocupação genuína e disposição para realizar absurdos, se for para proteger aqueles que lhe são queridos. Até hoje, ele permanece como o mais amado protagonista de toda a franquia GTA.

    Quanto ao sexo feminino, apesar de toda a sexualização exagerada, quantas mulheres fortes tornaram-se famosas nos games? Samus Aran, Chun Li, Chell, Jill Valentine, Ada Wong, Joanna Dark, Aya Brea, Terra Branford, Alis Landale, Boss, Alyx Vance, Lara Croft e mesmo personagens que não se tornaram conhecidas do grande público como Jade (Beyonf Good and Evil) e Faith (Mirror’s Edge) provam que há mais espaço aqui para papéis femininos de destaque.

    Aliás, eu poderia falar de Ellie, de The Last of Us, mas acho que um vídeo será mais apropriado:

    As únicas personagens femininas do cinema com este tipo de atitude e de que me lembro agora, são Ellen Ripley e Katniss… E houve um espaço de mais de duas décadas entre as duas… e Katniss nasceu em um livro.

    E antes que alguém toque no assunto, um espaço cada vez maior vem sido dedicado a personagens homossexuais em nossos jogos. Não vou elaborar sobre o tema porque já escrevi um artigo inteiro a respeito.

    O ponto é que o cinema é em sua esmagadora maioria, composto de mentes velhas. As pessoas que mandam no ramo acreditam que são responsáveis pelo maior pilar cultural do mundo e que seus valores retrógrados ainda são os que regem a sociedade. Se eles não querem ver um homem negro namorar uma mulher branca em um de seus filmes, então ninguém mais vai querer.

    Sim, eles pensam assim. Cameron Diaz estava escalada para ser o par romântico de Will Smith em Hitch – Conselheiro Amoroso, mas as forças por detrás da produção preferiram trocá-la por Eva Mendez, por ela ser mais “étnica”.

    Não estou brincando.

    Embora ainda tenha sua dose de preconceitos, os games estão se livrando deles com mais velocidade que os cinema jamais conseguiu. Acredito que isso se deve ao fato de que as pessoas que os criam são em geral, muito mais jovens que os cineastas e como tal, cresceram em um mundo mais tolerante e possuem uma ideia diferente de como retratar igualdade.

    E acho que a atitude deles, em parte reflete o público.

    Claro, existem milhares de machinhos inseguros pela internet, que atacarão uma feminista de forma irracional, unicamente porque ela resolveu criar um jogo que reflita um ponto de vista particular seu. Apesar da existência destes neandertais, creio que em geral, os Gamers tem mais facilidade em aceitar aquiles que são diferentes.

    Ainda não é a regra, mas tudo começa de algum lugar.

    Games são sobre a SUA experiência e o aprendizado que ela lhe trará

    Uma vez, eu estava tentando explicar para uma amiga os motivos que me faziam gostar mais dos games do que de outras formas de mídia. Em meio aos meus argumentos, ela olhou bem pra mim e soltou: “você prefere os games porque é você quem controla a ação.”

    Depois de arremessá-la em uma jaula cheia de otakus pedófilos, como castigo por OUSAR me interromper, pensei no que ela disse. E apesar dela ter simplificado bastante as coisas, percebi que não estava totalmente errada em seu raciocínio.

    Em um filme, vemos apenas aquilo que o diretor nos quer mostrar e estamos limitados às emoções que ele quer que seu público sinta. Um drama nos fará chorar, uma comédia nos fará rir e um filme de terror nos fará questionar porque tantos adolescentes acham que fumar maconha e transar é a coisa mais adequada a se fazer quando há um monstro indestrutível por perto.

    Da mesma forma, um filme é a história de outra pessoa, no caso, seu protagonista. E grande parte de seu sucesso depende do público se identificar com o herói/heroína, ou pelo menos, simpatizar o suficiente com ele para não desejar esfaqueá-lo na cabeça.

    Nos games, nós assumimos a função do protagonista. A aventura na tela passa a ser a nossa, e muitas vezes, somos obrigados a confrontar emoções dos quais normalmente tentamos nos manter distantes.

    Um exemplo muito claro que tenho disso é a versão para consoles de The Walking Dead, que se passa no mesmo mundo da série de TV (e dos quadrinhos, que todos deveríamos ler) mas que nos apresenta um novo grupo de personagens.

    No controle de Lee Everett, o jogador se torna responsável pela guarda de Clementine, uma garotinha de nove anos que desafia todas as leis da fofura e cujo bem estar se torna a força motriz por trás de tudo que fazemos aqui.

    Perto do meio do jogo, o filho de um dos personagens é mordido por um zumbi e um lento e agonizante processo de transformação se inicia. Quando chega a hora, Lee e seu amigo levam o garoto para o meio da floresta e resolvem acabar com seu sofrimento.

    Neste momento, decidi que seria eu a dar o tiro de misericórdia no menino. No meu jogo, Lee e o pai do guri não se davam muito bem, pois eu sempre o questionava quanto a suas decisões e apontava seus erros ao longo da história. Mesmo assim, eu acreditava que nenhum pai deveria ser forçado a passar por algo tão terrível assim.

    Mas a coisa se tornou muito pior quando voltamos para junto do resto do grupo e eu pude rever Clementine. Fiquei aliviado por não ter sido ela a ser mordida e fiquei com um vazio imenso no peito pelo que havia acabado de fazer. Que diabo de mundo é esse em que um adulto precisa ter forças matar uma criança se for necessário? Qual o sentido de viver assim?

    Então, tive uma longa conversa com Clementine e decidi que precisava seguir em frente por ela. Ela não tinha mais ninguém no mundo e eu estava disposto a fazer qualquer coisa para mantê-la segura e relativamente feliz. A sensação de vazio não diminuiu (pelo contrário), mas eu tinha algo que me fazia seguir em frente apesar disso.

  7. Luiz Henrique

    Mas The Walking Dead me mostrou que eu não sou de ferro e mesmo meu otimismo aparentemente inquebrável pode ser colocado em dúvida se eu tiver de enfrentar escolhas difíceis o suficiente.

    E este não é o único game a trazer este tipo de dilema. Fallout 3 apresenta um momento extremamente cinza com a expansão “The Pitt”. Nela, somos apresentados a um grupo de escravos que sofre de uma forma nova e terrível de câncer, e nosso personagem é contratado por eles para adentrar na base do tirano que rege o lugar e tomar a cura a força dele.

    Mas no meio da missão, descobrimos que “a cura” que ele estava pesquisando, na verdade encontrava-se em sua filha recém-nascida, que veio a mundo totalmente imune ao tipo de doença causada pela radiação do lugar. Mais ainda, ele usa a mão de obra escrava para tentar criar um território autossuficiente, algo que deixou de existir após a guerra nuclear retratada na série. Assim que atingir seu objetivo, ele libertará todos os escravos e tornará a cura disponível para quem precisar dela.

    Então, suas escolhas são: deixar que as coisas continuem como estão, onde escravos trabalham até morrer de exaustão e sem a previsão de uma chance de cura para suas enfermidades, ou matar os pais de um bebê inocente, sequestrá-lo e entregar para aqueles que o contrataram… Que não terão a tecnologia necessária para estudar o que torna a bebê imune e podem nunca chegar a uma cura.

    E aí? O que você faz?

  8. Luiz Henrique

    Muitos games nos apresentam questões que nos fazem descobrir algo novo sobre nós mesmos. Como lidaríamos com uma situação extrema ou a quem ajudaríamos em um momento de necessidade.

    Por mais que possamos nos identificar com o protagonista de um filme, no fim das contas sairemos do cinema pensando nele e em sua história, e na maioria esmagadora das vezes, não poderemos tirar uma descoberta pessoal disso.

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