Do papel para a tela e para a ação

O Brasil passa por um momento político interessante. Gente nas ruas, protestos, aumento e diminuição nos preços das passagens do transporte público, copa das confederações e por aí vai. Nesse meio tempo muita gente se envolveu com essas questões e resolveu dar seu grito e protestar também. Mas pra além de marchar na rua com um cartaz legal, o que tem sido feito? Sei de muita gente séria envolvida, que tem pautas bem definidas e participação sempre ativa na política, mas e os outros? Até onde podemos caminhar e o que podemos fazer no dia dia?

Qual gigante acordou?
Qual gigante acordou?

Pode parecer estranho um blog sobre games tocar em um assunto como esse, mas não é. Pelo menos não para mim. Primeiro porque não da para ficar de fora de uma discussão como esta e segundo porque os jogos podem fazer muito nesse tipo de situação, bem como em outras diversas. Para quem dúvida, fique tranquilo, pois darei um pequeno exemplo de como essa discussão pode ser trabalhada com crianças.

Recentemente ministrei um jogo que se aproximava de um jogo de RPG com as crianças com quem trabalho. Dividi a turma de aproximadamente 25 crianças em 4 grupos, sendo que cada um deles representavam: Senhores de engenho, capitães do mato, religiosos (que incluíam desde católicos até indígenas) e escravos. Após a divisão eu lhes atribui os pontos de vida e habilidades especiais:

  • Senhores de engenho – PV 20, defesa 2 e ataque 2. Habilidade especial – voltar uma jogada de dados, dinheiro ilimitado
  • Capitães do mato – PV 15, defesa 4 e ataque 4. Habilidade especial – dobrar um resultado de dados
  • Religiosos – PV 15, defesa 3 e ataque 2. Habilidade especial – cura três vezes ao dia
  • Escravos – PV 10, defesa 3 e ataque 3. Habilidade especial – derrubar o adversário.

Os “objetivos” de cada grupo foram ditos separadamente e foram os seguintes:

  • Senhores de engenho – não deixar os escravos fugirem e, se possível, aliarem-se aos religiosos
  • Capitães do mato – não deixar os escravos fugirem e protegerem os senhores de engenho. Em caso de perigo de morte poderiam fugir
  • Religiosos – inicialmente “neutros”, poderiam escolher algum lado para auxiliar
  • Escravos – fugir e, se possível, aliarem-se aos religiosos.

Narrei a história de maneira simples e o enredo foi:

No Brasil, período de 1800 e alguma coisa, uma fazenda em Minas gerais. O fato de ser uma fazenda riquíssima e de grande influência fez com o que o Rei fosse visitá-la. Como parte da visita estava combinada a celebração de uma missa e também um jantar logo em seguida.

Apresentado esse plano de fundo eu concedi 2 minutos a cada grupo para decidirem suas ações, sem que os outros soubessem o que pretendiam. Ao término do tempo eles me contavam em segredo o que pretendiam e então eu continuava a narrar a história.

Logo de início, tanto os escravos, quanto os senhores de engenho, foram falar com os religiosos. Primeiro ouvi dos escravos “mas nós não temos nada a oferecer a eles, vamos ter que inventar uma mentira”, enquanto por outro lado as crianças que eram os senhores de engenho conversaram com os religiosos tranquilamente e falaram “vocês não precisam reformar essa capela? Quem sabe algumas estatuetas de ouro, tapetes novos, talvez até uma nova capela ainda maior”.

As crianças/escravos ficaram indignados e já começaram a chamar o jogo de injusto. Depois armaram um belo plano: disseram aos religiosos que tinham descoberto uma ideia terrível dos senhores de engenho e que assim que o rei partisse eles não melhorariam em nada a capela e que os religiosos teriam que trabalhar diretamente para os donos da fazenda.

A plano até que funcionou e colocou uma pulga atrás da orelha dos religiosos, que começaram a questionar as intenções dos senhores de engenho. Nisso, os escravos aproveitaram para invadir o quarto do Rei e realizarem várias exigências. Os capitães do mato ameaçaram atirar e ouviram que eles seriam os novos escravos, caso os atuais morressem.

Em pouco tempo a sala se tornou uma bagunça e estavam todos de pé discutindo, com a tensão de um sequestro.

Nem vimos e o tempo passou, era o fim da atividade em pleno seu auge. No dia seguinte conversei com eles e disseram que haviam gostado muito e queriam terminar de jogar (detalhe, não houve sequer uma jogada de dados). Comecei a questioná-los sobre  o que havia passado e ouvi coisas muito interessantes. Foi engraçado ver como a sociedade em que vivemos foi reproduzida rapidamente durante o jogo.

Não vou colocar e descrever tudo o que vi e ouvi durante essa atividade, mas afirmo que ela foi muito boa e fez com que pensassem a respeito. Pouco tempo depois levantei o debate sobre o que estava acontecendo no Brasil nos dias atuais e assim voltamos ao início desse texto. Realizamos um ótimo debate e várias reflexões surgiram. Não sei se isso muda o país ou se melhora a situação das pessoas, mas estou tentando fazer minha parte.

Essa foi apenas uma atividade simples, praticamente sem material algum, apenas um pouco de criatividade. Penso que os produtores de jogos (e até mesmo o governo) deveriam investir mais esforços em desenvolver jogos nessa linha, que promovam debate, que sejam fáceis de operar e que tenham elementos lúdicos.

Não aguento mais ver as produtoras nacionais construindo jogos com o mesmo estilo de sempre. A intenção é apenas ganhar dinheiro e para isso copia-se o que já é feito por aí, afinal o que é feito por aí vende bastante.

Sair pra rua e fazer barulho é legal. Clamar por uma valorização do povo brasileiro é legal também. Mas produzir material que nos auxilie a refletir e pensar não faz mal a ninguém e já está mais do que na hora dessas pessoas acordarem e não apenas o gigante que tanto insistem ter acordado.

Gustavo Nogueira de Paula

PS: Meus textos devem começar a ser publicados também na Any Magazine (http://projetoany.wordpress.com/) que já está em sua quarta edição e tem divulgação gratuita. Aproveite para dar uma conferida.

O Censo dos personagens nos jogos de Video game

Todos as pessoas de todas as cores, idades e gênero são representados de forma semelhante dentro dos jogos, ou será que alguém se sobressai nisso tudo? Alguém é subrepresentado? Qual a importância de ser representado dentro das mídias?

Foram essas e algumas outras perguntas que motivaram os pesquisadores Williams, Martins, Consalvo e Ivory a realizar um censo dos personagens de video game. Feito o censo, foi realizado um levantamento para comparar o censo dos personagens com o Censo geral da população dos EUA, a fim de verificar como cada raça, gênero e faixa etária eram representados dentro dos jogos. Vamos aos achados.

Primeiro, o gráfico que exibe os dados relacionados aos personagens dentro dos jogos, tanto personagens principais quanto personagens secundários.

Censo dos personagens dentro dos jogos de video game
Censo dos personagens dentro dos jogos de video game

É notória a esmagadora maioria de personagens masculinos, sejam como personagens principais ou secundários. As personagens femininas não chegam sequer a 15%.

Agora o gráfico da representatividade de raças dentro dos jogos, junto com os dados do censo americano (particularmente não gosto do termo “raça” mas é assim que o artigo é apresentado).

Comparação entre os dados dos personagens e do censo dos EUA
Comparação entre os dados dos personagens e do censo dos EUA

A partir deste segundo gráfico já podemos fazer inferências mais interessantes. Podemos perceber que as pessoas brancas são super representadas (80% contra 75%), enquanto negros, hispânicos, nativos americanos e bi raciais são sub representados, ou seja, os personagens aparecem em uma porcentagem menor do que a da população em geral. Dado curioso ocorre com os asiáticos, que são super representados também, aparecendo nos jogos em porcentagem maior do que se vê na população geral, mesmo não sendo de forma tão grande quanto os brancos.

Isso nos faz refletir o quanto os jogos, em muitos casos, apenas representam uma cultura dominante. Os gráficos ilustram de forma bastante clara o quanto as pessoas brancas ainda são mais valorizadas, dominando a maior parte dos personagens, que em geral são homens, ou seja, homens brancos.

Outro fator que não pode ser inferido a partir do gráfico, mas que fica constatado no artigo é que boa parte dos personagens negros estão presentes em jogos esportivos. Se excluirmos essa categoria de jogos a representação de negros cai drasticamente.

A seguir a representação por idade em conjunto com os dados do censo.

Idade dos personagens e da população
Idade dos personagens e da população

Os adultos são super representados, com uma porcentagem de personagens incrivelmente maior do que a da população em geral. Os adolescentes praticamente empatam em termos de representação e as crianças e os idosos praticamente não aparecem nos jogos, sendo muito pouco representados em relação a porcentagem existente na população.

Esse dado mostra o quanto os idosos são excluídos dessa mídia, falando em termos gerais. Mesmo com o advento do Nintendo Wii e do Kinect, que em teoria valorizam e representam todas as idades, isso não se reflete no montante geral dos personagens dos jogos. Surpreendente é a baixa representatividade das crianças dentro dos jogos, o que nos faz pensar cada vez mais na adequação dos conteúdos para crianças e jovens.

Muitas análises podem ser feitas a partir dos gráficos e números apresentados, mas vou apenas me ater a questão da representação. Se levarmos em conta que estes jogos não são jogados apenas nos EUA, a representatividade se torna algo ainda mais delicado. Imaginemos o Brasil: Quanto os jogadores se sentem representados por aquilo que jogam? Uma mulher brasileira se sente confortável com essa mídia?

Por essas e outras que os marmanjos de plantão não podem reclamar tanto do desinteresse de suas namoradas em relação a seus jogos favoritos. Isso vale para os mais velhos etc.

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É uma situação muito semelhante ao que vemos nas novelas, por exemplo. Qual a porcentagem de personagens negros? Destes, quantos são empregadas domésticas?

Essa representatividade é muito importante e nesse caso apenas reflete a sociedade desigual em que vivemos. No fim das contas acabamos sempre caindo no mesmo ciclo: as produtoras fazem jogos assim, que vendem mais, que estimula a fazer jogos assim etc.

Se tiver fôlego, vou tentar fazer algo semelhante com a população brasileira. Vamos ver o que encontramos.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

Referência:

WILLIAMS et al. The Virtual census: representation of gender, race and age in video games; New media & Society; Los Angeles, 2009.

 

Seu jogo agora é nosso

A expectativa era grande em torno da conferência da Microsoft que iria anunciar detalhes e novidades de seu novo console, o sucessor do Xbox 360, até então conhecido por Xbox 720.

O Xbox One foi revelado: ele vai integrar serviços de Tv, internet, comunicação e um monte de coisas. O kinect vai reconhecer rostos, falas, gestos e deve até fazer previsão para seu signo no amor e no trabalho.

Muita coisa foi apresentada, muita gente ficou animada e muito barulho foi feito. Mas em todo lugar para o qual projetamos muita luz acabamos por também gerar muita sombra. No caso do novo Xbox não foi diferente. Na verdade são essas sombras que estão assustando as pessoas.

O novo Xbox (one)
O novo Xbox (one)

Pouco vi em termos de inovação. O que os jogos do Xbone terão de diferente? Gráficos mais avançados, controle de movimentos… tá, mas o que isso representa para os jogadores? Isso significa jogos melhores? Isso significa espaço maior para a criatividade? Não vi nada muito atrativo a esse respeito.

Ao que tudo indica a Microsoft vai voltar com aquela famigerada trava por regiões para seus jogos. Não há explicação de mercado que justifique para mim essa trava por região. Por que eu não poderia comprar ou ganhar um jogo da Europa e jogar no meu console na América do Sul. Voltamos aos tempos do Super Nintendo.

Mas o pior de tudo ainda está por vir: pelo visto o Xbone virá com uma trava para jogos usados, ou seja, se você comprar um jogo usado terá que pagar uma taxa para poder habilitá-lo. E nem adianta achar que vai burlar isso, pois a Caixa precisará conectar na internet todos os dias. Excelente avanço esse da Microsoft.

Se você quer emprestar seu jogo para um amigo, esqueça, pois ele terá que pagar. A justificativa é a de que o mercado de jogos usados é terrível para a indústria e que sem eles as empresas teriam mais dinheiro, o que resultaria em mais jogos e de maior qualidade. Uma vergonhosa balela.

Realmente ao deixar de comprar um jogo novo a empresa teoricamente perde dinheiro, mas é um absurdo o que estão para fazer. Você perde o direito sobre aquilo que comprou. Seria praticamente um contrato: “Nós da Activision lhe permitimos jogar nosso novo Call of Duty 10 por essa pequena quantia, mas não ouse deixar mais alguém jogar”.

Como se as empresas não andassem mal das pernas devido aos péssimos jogos que tem produzido, ao desrespeito com os jogadores, à falta de criatividade, aos incontáveis DLC’s pagos, aos jogos lançados cheios de bugs e pela metade, entre outros motivos.

É uma pena ver um mercado tão novo e que poderia fazer tanta coisa diferente ser tão mesquinho e quadrado como outros já foram no passado, como o caso da música versus internet. A indústria automotiva não vai mal das pernas devido a venda de usados.

Eu não estava muito preocupado com a conferência da Microsoft, nem sei o porque de tanto hype em cima disso, mas depois de tais anúncios fiquei mais descrente ainda. O pessoal da Sony, vendo toda essa repercussão negativa, deve estar se virando para mostrar algo oposto a isso na E3, é esperar para ver.

Mais uma vez, espero que os jogadores não engulam essa e façam a Microsoft se arrepender amargamente das decisões que tem tomado.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula