Existe vida após a morte?

Falar sobre morte é sempre polêmico, muitas vezes desnecessariamente, afinal de contas é a única certeza que temos na vida, ironicamente. Mas nesse caso pretendo sim levantar polêmica e discutir sobre a morte nos videogames, algo que tem sido pouco pensado e pouquíssimo discutido.

Fim da linha
Fim da linha

Quase invariavelmente a morte é seguida por uma tela de game over na esmagadora maioria dos jogos, ou no máximo por uma tela de continues. É o fim da linha, mas não por muito tempo, pois segundos depois lá está você de novo pronto para enfrentar o mesmo desafio novamente, até finalmente superá-lo. Isso é ruim? Não necessariamente. Só pode ser feito dessa forma? Também não necessariamente.

Realmente parece óbvio que, em caso de morte, o jogador reinicie o jogo do último ponto de partida e continue sua peleja, pois aquele personagem com o qual você se identifica, seu ídolo maior, o cara em que os programadores gastaram mais tempo, não pode simplesmente morrer. Mas talvez pudesse.

O ponto principal aqui não é o que fazer após a morte do personagem, mas sim o porque dessas mortes. Essa é a única forma de punir um jogador? Errou o pulo e caiu no buraco, morte. Deu o tiro na hora errada, morte. Escolheu a poção errada, morte. Perdeu a batalha, morte. Tudo é morte, tudo é banal.

Vamos aos nossos já característicos exemplos de como isso eventualmente poderia ser diferente. Em um jogo de estratégia em tempo real (RTS), qualquer um, a morte pode ser encarada de diversas formas. Normalmente nesses jogos assumimos um posição “invisível” apenas controlando as tropas e organizando sua sociedade/civilização/raça ou seja lá o que for. A árvore de possibilidades pode ser maior do que um simples trilho de trem, apresentando consequências diversas em caso de derrota em alguma missão. Caso não consiga conquistar determinado território na próxima missão você terá menos minérios, o que exigirá mais do jogador e assim por diante. No final a derrota pode ser um final e ensinar muito a um jogador. Em em RTS ambientado no Brasil talvez o jogador sempre perca, dependendo de com quem jogasse, ou sempre tivesse menos (ou mais) recursos. Poderíamos reescrever a história e ver algo alternativo ou simplesmente morrer e ver o porque da história ter acontecido assim por essas terras.

Índios, portugueses, holandeses...
Índios, portugueses, holandeses…

Um exemplo que parece descabido, mas não é, pois ele auxilia a visualizar essa questão. Imagine um jogo de fórmula 1. O jogador escolhe seu piloto/equipe favorita e vai correr nos circuitos do calendário. Uma derrota não significa morte, mas apenas a não conquista de pontos. Ao final do campeonato algum outro piloto vai erguer a taça de campeão e receber beijinhos das modelos, mas isso não fez do derrotado um morto, apenas derrotado naquele campeonato. Mais bizarro ainda (e também utópico) seria se a morte fosse implantada em um jogo desses. Seria realmente inusitado se lá pelo meio do campeonato o jogador sofresse um acidente terrível e o piloto morresse (por que não?) e aí sim haveria um game over, volte ao início. Ora, se estamos em uma simulação, por que então não simular de tudo?

Esse exemplo da fórmula 1 serve para mostrar que derrota não precisa ser necessariamente uma morte. Isso vale inclusive para minhas estratégias de vitória, afinal de contas por que eu preciso matar todos meus inimigos para obter êxito?

Esse é um passo bem complicado de ser superado, mas penso que a morte deveria ser revista em muitos jogos. Não ser tão banal e ao mesmo tempo ser mais impactante. Seria interessante poder continuar o jogo após a morte de um personagem (Chrono Trigger que o diga) importante ou então recomeçar do zero, rever minhas atitudes e tentar evitar essa morte, caso ela seja “evitável”.

Mais uma vez no papel de provocador, não trago receitas prontas ou acabadas, mas lanço ideias e propostas, já que acredito que os jogos não “são” assim, mas apenas estão sendo feitos assim. Se não pararmos para rever cada etapa de um jogo podemos nos condenar a jogar sempre as mesmas coisas e do mesmo jeito, acreditando que estamos sempre inovando, sendo que na verdade estamos no máximo no meio de uma dança circular.

Gustavo Nogueira de Paula

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2 comentários sobre “Existe vida após a morte?

  1. Renato

    Um bom questionamento. E como você observou no seu exemplo com um jogo de história ele é especialmente no caso dos jogos de caráter, talvez seja melhor dizer possibilidades, educativas.

    Por um lado o apelo de vários jogos é justamente a metáfora de uma luta de vida ou morte, mas talvez realmente seja possível desenvolver metáforas melhores. Por exemplo, eu adoro jogar X-COM e frequentemente reinicio um combate quando ele está com um resultado desfavorável para mim. Eu assisti meus soldados morrerem e simplesmente volto no tempo (a última versão salva) para tentar diferente. Nesse aspecto concordo com você que a “morte” nos jogos simplesmente perde força, banaliza.

    1. Gustavo de Paula

      Banaliza e em alguns casos perde o sentido. Ninguém questiona a questão da morte nos videogames, mas penso que as derrotas podem vir em outro sentido. Não que isso deva acabar nos videogames, mas essa com certeza não é a única possibilidade. Na crise criativa que temos passado seria muito bem vinda alguma ideia diferente, seja nesse ou em outros aspectos.

      Mais uma vez, obrigado pelo excelente comentário

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