Humor, bullying, preconceito e a cultura nossa de cada dia

Parede de tijolos ao fundo (ou tecido vermelho), iluminação e um microfone na mão, assim está dada a liberdade poética de falar qualquer barbaridade sobre qualquer pessoa, grupo, gênero, etnia etc sob a bandeira covarde do humor pelo humor. Poderia ser também uma bancada elegante, terno, ar de descolado, pessoa entrevistada e a liberdade também estaria dada. É tudo um show, de horrores.

O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo
O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo

Protestos daqui, reclamação dali e no final das contas o papo é sempre o mesmo: aqueles que reclamam são chatos, sem humor e que querem a volta da censura para calar singelos humoristas. Até poderíamos dizer que quem aplaude esse tipo de piadinha nada engraçada seria co autor desse pensamento pequeno, mas ainda assim a criação disso tudo costuma vir muito mais dos tais humoristas/formadores de opinião do que do público em si, que em geral tem participação mais passiva.

Já nos videogames a situação complica um pouco, visto que o humor preconceituoso, os comportamentos “condenáveis” e a acidez social também estão todas presentes, mas no controle do jogador. Existe desde a crítica social mais bem feita até a reprodução do estilo de vida mais fútil, tudo sendo determinado pelas ações do jogador, dentro do código desenhado por quem produz.

É bem diferente assistir um stand up, sentir-se envergonhado, vaiar e ir para casa chateado do que ligar um console, começar a jogar e apertar os botões e comandos que executam a ação de cometer estupros, chacotas maldosas e bullying. Nesse espaço mora o pânico de quem não joga e/ou não entende os jogos, deixando de cabelos em pé qualquer um que presencie uma cena dessas.

Também é nesse mesmo espaço que reside a importância de uma melhor compreensão dos jogos e de sua forma de contar histórias. Aqui o jogador entra na pele de quem prática o bullying, de quem sofre o bullying, de quem ofende, é ofendido etc. Muitas vezes isso choca, pois a experiência é entregue de uma forma mais dura e direta. Quem disse que o dia dia de uma criança na escola é fácil? Se ela não fizer parte do grupo dos populares/endinheirados ou qualquer coisa que simbolize poder isso pode ser ainda mais complicado. Dessa forma, não é de surpreender que no jogo essa vivência seja chocante.

E como estamos nos preparando para encarar isso? Muito mal por enquanto. Qualquer enredo ou história mais ousada ainda sofre críticas terríveis, sendo que muitas vezes elas sequer são bem interpretadas ou finalizadas pelos seus jogadores. Há ainda o agravante de que, no Brasil pelo menos, temos uma população que lê e interpreta assustadoramente mal, o que dificulta a compreensão de qualquer coisa mais complexa ou sutil. Pode ser que uma ironia seja vista como uma ofensa, quando não deveria e uma ofensa possa ser vista como algo ingênuo, quando também não deveria.

Bullying, dois lados da moeda
Bullying, dois lados da moeda

O fato é que colocar as pessoas na pele de situações delicadas pode ser algo fundamental para a compreensão de determinados comportamentos e resolução de problemas. Porém, daí a acreditar que a mera produção de jogos e experiências vai fazer de alguém uma pessoa mais crítica é algo bastante utópico. Devemos acompanhar de perto cada conteúdo, sem relevar o humor opressor e sem escandalizar com as ousadias, mesmo porque isso vai passar a ser cada vez mais comum.

Gustavo Nogueira de Paula

As novas gerações

Não é surpresa para ninguém saber que seu aparelho tecnológico comprado hoje estará completamente ultrapassado dentro de alguns anos. Em certos casos, dentro de alguns meses. Creio que a maioria das pessoas saiba da obsolescência programada, nem preciso me alongar sobre isso. Quando um aparelho novo é lançado as empresas normalmente já  possuem tecnologia suficiente para lançarem outros três mais avançados, basta olhar por dentro dos consoles e celulares para ver os espaços no hardware dedicados a futuras atualizações, por exemplo.

Qual a a hora certa de passar o bastão adiante?
Qual a a hora certa de passar o bastão adiante?

No caso dos consoles as gerações até tem durado um tempo razoável, apesar de ainda assim ser questionável a necessidade dos novos lançamentos etc. Contudo, o que incomoda nem é tanto a falta de lançamentos de jogos para gerações anteriores, o desejo pelos gráficos mais avançados ou alguma outra inovação qualquer, mas o fato do aparelho antigo em pouco tempo se tornar tão útil quanto um peso de papel: O leitor começa a ficar mais lento, trava e para de funcionar; O HD apresenta problemas e os saves se perdem no espaço tempo; O sistema se torna mais lento, sem atualizações e mais vulnerável. Apenas alguns exemplos típicos que os jogadores e consumidores enfrentam diariamente.

Onde se encontra a solução para tais problemas? No console novo, óbvio. HD’s maiores e mais modernos, além de um espaço maior para armazenamento em nuvem, leitores mais potentes e proteção constante ao software. Isso, claro, caso você desembolse uma quantia significativa de grana.

Os smartphones então já nascem praticamente mortos, pois são superados em menos de um ano e apresentam defeitos graves em pouquíssimo tempo. Sem contar que os jogos para celulares estão cada vez mais pesados, ocupam muita memória e exigem monstruosidades dos aparelhos.

Julgando que cada pessoa seja livre e consuma conscientemente (algo que sabemos ser tão utópico quanto o Céu), sem influências de marketing etc, minha pergunta é: Por que tudo isso? No caso dos jogos em específico, quem joga tudo isso?

Um console novo na sala, um computador potente, um tablet cheirando a novo e um smartphone super descolado. Será que precisamos estar o tempo todo jogando? Essa “necessidade” das pessoas estarem constantemente se entretendo contribui, e muito, para uma indústria de péssima qualidade, que investe muito mais em mecanismos de recompensas viciosos do que em desenvolver experiências profundas e de qualidade, além de alimentarem esse mercado predatório de aparelhos antigos. As desenvolvedoras se gabam de lançarem aplicativos e jogos cada vez mais belos e por consequência exigentes, mostrando que somente os mais atualizados, descolados e modernos podem usufruir desses benefícios.

Não sou contra a tecnologia, nem acredito que ela seja o único mal moderno. Gostaria de lembrar apenas que todos fazemos parte desse processos, mesmo que um dos lados dessa moeda possa ter um peso muito maior. A tecnologia não é uma entidade com vontade própria, que tenta escravizar a humanidade ao estilo Matrix. Toda essa tecnologia é pensada por pessoas e voltada para pessoas, que muitas vezes gostam de se distinguir dos outros através do consumo, ou seja, que acreditam ser melhores por serem capazes de possuir algo mais novo e/ou mais caro.

Fico pensando o que será das futuras gerações de PESSOAS, cada vez mais acostumadas com a descartabilidade, seja de aparelhos, pensamentos ou de seres humanos. Esse ciclo produz infelicidade constante, tratada através do consumo, e confusão, pois todos ficam perdidos em meio a tantas “possibilidades”.

Espero que consiga resistir mais algum tempo com meu playstation 3, mesmo com suas dificuldades de leitura de jogos, travamentos e (em pouco tempo) falta de lançamentos.

Gustavo Nogueira de Paula

Gamificando o mundo

O termo Gamificação se tornou popular e conhecido mesmo entre pessoas que nada tem a ver com jogos. De maneira simplificada, significa transformar as coisas em jogo, ou ainda, utilizar as características dos jogos em atividades que comumente não as tem. Isso vale na educação, trabalho, treinamento e em diversos outros lugares. Tanto que o termo já está quase se tornando um jargão empresarial, além verbete de vendedor de materiais didáticos. As promessas são lindas: dinamismo, interesse, eficácia, eficiência, diversão e uma série de outros adjetivos bastante positivos. Será só isso?

É pra isso que queremos os jogos?
É pra isso que queremos os jogos?

Realmente, para algumas atividades, as características dos jogos caem muito bem, atuando como estimulantes e colocando os participantes para atuarem de forma mais concreta com o desafio proposto. O ato de vivenciar algo, correndo riscos controlados e participando ativamente através de tomadas de decisões pode auxiliar bastante na apreensão de um conteúdo ou esquema.  Já existe bastante gente falando e “demonstrando” isso. Até mesmo J. P. Gee de certa maneira aborda a questão da educação sob o olhar dos jogos, argumentando o quanto suas estruturas tem a ensinar à educação formal.

Contudo, nada é assim tão simples e, como sempre, precisamos tomar bastante cuidado com esses discursos deslumbrados em demasia. Para cada Gee com bons argumentos e pesquisas existem vários papagaios de pirata tentando vender fórmulas mágicas. A exemplo de qualquer material didático, há muita coisa ruim acontecendo nesse mercado de materiais e pesquisas.

Primeiramente que nem tudo, nem todo momento, precisa ou deve ser gamificado. Se tudo se tornar jogo os próprios jogos perderão boa parte da graça e logo clamaríamos por outro salvador. É como celebre frase de Shakespeare “Se o ano todo fosse de feriados, o lazer, como o trabalho, entediaria.” É ilusão acreditar que o interesse seria o mesmo. Essa busca constante por tentar tornar a educação, treinamentos etc algo mais divertido e funcional na verdade evidencia o quanto essas atividades foram/são ruins e o quanto precisamos modernizá-las, mas não muito mais que isso.

Dessa forma não vejo razão para desespero, nem para tornar tudo um grande jogo, muito menos feito as pressas e sem verdadeira reflexão. Se for para tornar algo um jogo, ou apenas usar de suas principais características, então que isso seja feito de forma bem pensada, visando o melhor para quem está a aprender e não para quem está a vender. Isso sem contar o importante fator de que nem todos gostam de jogos, muito menos jogos que envolvam conteúdos curriculares, nem ter que ficar sendo desafiado pelo computador enquanto apenas quer estudar em casa.

Não sou contra a gamificação, mas sempre suspeito quando essa bandeira da salvação é hasteada e todos correm atrás dela. Semelhante a qualquer outro processo, isso precisa ser observado e construído com calma. Isso sem levar em conta a utilização de jogos empresariais que são verdadeiras lavagens cerebrais forçadas ao extremo. Se for mal feito, ou visando apenas o lucro, não haverá diferença alguma entre algo tornado jogo e o que estamos fazendo a séculos.

Gustavo Nogueira de Paula