Pobreza e desconhecimento

A pirataria devasta o mercado. Pra onde você olha dá para encontrar alguém vendendo um produto falsificado ou baixando direto da internet. Parcela da culpa vem de impostos, obra de um governo que pouco dialoga com a população e que tão pouco valoriza os games enquanto produção artística/midiática.

De qualquer maneira, pirataria por pirataria, ela não vem sozinha. Boa parte da população é ainda pobre e com pouco acesso a determinados bens de consumo, as vezes até pouco acesso a itens básicos de sobrevivência e/ou bem estar. A esperança muitas vezes vem dos estudos, que oferta a possibilidade de melhorar de vida, em alguns casos até possibilitando alguns bem afortunados de mudarem de país.

Contudo, nem todos possuem acesso a uma educação de qualidade, sendo que os mais ricos se destacam e acabam por se tornarem ainda mais ricos, enquanto os mais pobres permanecem cada vez mais pobres. No caso dos games, as vezes essa falta de educação (que não está ligada exatamente a presença ou não de dinheiro por parte do jogador) acaba por gerar comportamentos bastante questionáveis, com uso de trapaças, falta de senso coletivo, bagunça etc etc. Mas culpar somente a falta de educação por esses comportamentos seria demais. Vejo a falta de conteúdos voltados para o país como grande contribuinte para gerar uma leva de jogadores que muitas vezes não se identifica com o que vê na tela e quando vê algo relacionado a seu país acaba por ser uma caricatura preconceituosa do que realmente acontece no país, isso quando a população não é tratada como bandida, violenta, terrorista etc.

Não, não estou falando do Brasil, estou falando da Rússia. Durante o Congresso no Canadá pude ver a apresentação de um trabalho que abordava esse tema e falava exatamente isso que mencionei. Foi impressionante, pois se eu fechasse os olhos e não olhasse para as imagens da apresentação, poderia jurar que estavam falando de nosso país. E por que disso?

Proximidades de Brasil e Rússia
Proximidades de Brasil e Rússia

Venho falando há tempos sobre esse tópico. As grandes produções de jogos ainda são voltadas para (homens do) Japão, Europa ocidental e EUA e isso coloca o resto do mundo como subdesenvolvido, pobre, perigoso etc. Não somos os únicos nesse barco. Mas muito me entristece observar que quando produzimos jogos, comumente REproduzimos esse tipo de comportamento.

É muito importante ouvir e ver pesquisas e depoimentos de outras pessoas, de outros países, falando a respeito de jogos. Ainda somos a periferia do mundo e uma das piores formas de tentar sair dessa periferia é imitar e reproduzir comportamentos das economias dominantes. O que assusta é perceber o quão devastador pode ser essa falta de investimentos sério na produção de jogos, pois os resultados tem sido terríveis e os discursos os mesmos. Pra quem duvida disso, basta observar essa situação da Rússia. Dá para imaginar que a situação dos BRICs em geral não seja muito diferente disso.

E pra quem duvida da importância de se fazer pesquisas, sob os mais variados olhares e perspectivas, a respeito dos games, seria bom repensar a respeito.

Gustavo Nogueira de Paula

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Brasil x Canadá

Não, não se trata de mais um jogo da Copa, nem de nenhuma disputa em alguma modalidade esportiva. Trata-se apenas de um relato comparativo entre a situação que pude ver a respeito dos GameStudies no Canadá um mês atrás quando participei do Congress of the humanities and social sciences, que ocorreu na Brock University. Dentro do congresso eu participei da conferência da Canadian Game Studies Association e pude ver alguns trabalhos, apresentar o meu e conversar um pouco com algumas pessoas. Além da participação no congresso na região de Niagara, pude também visitar Ny e ter a oportunidade de visitar o MoMa, onde vi de perto os jogos de videogame expostos, num dos museus mais conhecidos do mundo.

Brasil x Canadá
Brasil x Canadá

 

Seria perda de tempo, por motivos óbvios, ficar comparando o Brasil ao Canadá sob aspectos sociais e/ou culturais. Ainda somos um país com uma concentração de renda altíssima, número expressivo de analfabetos, violência fome etc. Certamente que no Canadá não temos 100% da população milionário e/ou feliz, mas de certo modo da pra ver realmente que trata-se de um país organizado, limpo e, nas regiões que visitei, muito bonito e simpático (pelo menos aos turistas). Recomendo veementemente a todos que um dia façam uma visita a região de Niagara e conheçam as belezas naturais da região.

Porém, não vim aqui para exaltar essas exuberâncias canadenses, mas sim apresentar minhas impressões através do que vi e ouvi na conferência da CGSA. Não por desleixo, mas por dificuldade de cadastro e transporte, cheguei 5 minutos atrasado ao início das apresentações de trabalho e a organização já havia dado início, pontualmente. Com isso, minha apresentação, que era a segunda, passou a ser a terceira. Sem problemas quanto a isso. Com todo nervosismo de quem nunca havia apresentado um trabalho fora do país, realizei minha fala, que, a menos que as pessoas sejam muito falsas, foi bastante bem recebida, até mesmo elogiada. Respondi perguntas no final e pouco tempo depois estava aliviado de ter cumprido com minha obrigação.

Nesse momento já tive minha primeira percepção (que na verdade nunca havia duvidado): nós fazemos bons trabalhos e pesquisas no Brasil. Pude ver que meu trabalho não devia em nada para os trabalhos das grandes universidades canadenses ou da Europa. Isso trouxe um sentimento de orgulho e confiança, importante para poder interagir mais com as pessoas na língua estrangeira.

Destaco agora alguns diálogos que impressionaram e colocaram várias dúvidas em minha mente. A começar pela impressionante declaração de uma inglesa, quando respondi a ela que eu ainda não estava no PhD por não encontrar tempo entre meu trabalho e a leitura de artigos e produção de projetos. Ela foi clara e direta: “pelo menos você tem um emprego”. Para mim isso soou bastante forte, vindo de uma estudante de doutorado de uma boa universidade europeia.

Esse foi o primeiro choque. Mais tarde, conversando com alguns estudantes, descobri que eles estavam quase todos hospedados em algo que seria como um alojamento universitário, que disseram ser “depressive”, com vários insetos e um aspecto não muito convidativo. Nada muito diferente das moradias universitárias brasileiras.

E como destaque final a respeito disso, algo que achei ainda mais chocante. Durante a palestra de uma conhecida  pesquisadora em GameStudies, Jennifer Whitson, ouvi frases que pareciam ter vindo direto da boca de algum burocrata brasileiro. Jen mencionou o preconceito e a dificuldade de pesquisadores de games e produtores de jogos independentes. Que, lá no Canadá, país com grandes estúdios produtores de jogos, não é nada incomum ouvir coisas como “não precisa de dinheiro porque trabalham por amor”, “não precisam de dinheiro porque fazem jogos indies sem se preocuparem com dinheiro”, “que pesquisar videogames é algo divertido, então as pessoas não ligam para salário” entre outras. Lembrou-me o Alkmin dizendo que professores dão aula por amor.

Para quem acredita que somente aqui os estudantes e pesquisadores enfrentam dificuldades, lamento dizer que não somos exclusividade, pelo menos em determinadas áreas. Isso porque nem mencionei que essas pós graduações são pagas, caras e, quando alguém consegue bolsa, ela vem junto com trabalho e o valor é mínimo.

Não estou fazendo propaganda negativa, muito pelo contrário. Vi pessoas e lugares brilhantes, mas nem tudo é só festa ou alegria. Também há dificuldades, preconceito com o tema e muita gente reclamando do frio (ou todo mundo acha que só o Brasil tem problemas?).

A experiência foi incrível e digo novamente, recomendo a experiência de visitar o Canadá, bem como recomendo aos pesquisadores que participem de congressos no exterior. Talvez assim as pessoas voltem valorizando um pouco o que temos aqui e quem sabe até compreendam os motivos das estaduais e federais estarem “sempre” em greve, na defesa por universidades públicas gratuitas e de qualidade.

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Regards!