Nem direita, nem esquerda, muito pelo contrário

A mente do indivíduo irá lutar desesperadamente para criar memórias onde elas não existem

A frase acima é extraída de Bioshock Infinite, da 2k e Irrational Games, jogo já abordado nesse blog. Mesmo já tendo falado sobre ele, retomo a cidade de Columbia para traçar uma analogia em relação ao que vivemos hoje no Brasil, em sua reta final para as eleições presidenciais.

A direita e sua luta contra estrangeiros, pobres etc
A direita e sua luta contra estrangeiros, pobres etc

De forma bastante resumida, posso dizer que a história do jogo (entre outras coisas) coloca o jogador na pele de Booker DeWitt, que durante sua busca por respostas acaba por se ver em meio a um grande conflito social: os Ultra nacionalistas e fundadores da cidade voadora contra a Vox Populi, população pobre do local.

Qualquer semelhança entre o que vemos no Brasil atualmente pode ser mera coincidência, pois creio que Levine não se inspirou nas terras Tupiniquins para fazer o jogo, mas não é difícil compreender que esse tipo de situação aconteça em diversos países do mundo, ao longo de toda história da humanidade. Pelos discursos presentes no jogo não é difícil que presenciamos um embate entre a extrema direita e a extrema esquerda, com seus discursos de pureza, religião, riqueza e força, contra igualdade, socialismo, fim da pobreza etc, respectivamente. No meio do caminho, o jogador e Elisabeth, distribuindo tiros e perdido em meio a isso tudo. Booker, personagem principal, chega a ser considerado como mártir e líder/exemplo para toda Vox Populi em determinado momento do jogo (diga-se de passagem um momento memorável dos games).

Compreendo não haja nada de extraordinário nisso, afinal falar em extrema direita e esquerda, de forma resumida e em determinados momentos bastante caricata não é lá das tarefas mais difíceis. Mas é nas sutilezas que se encontram as partes mais interessantes e gostosas de descobrir.

Ao longo de todo jogo observamos ocorrer praticamente uma guerra civil durante a revolta da Vox Populi. As mortes são inúmeras de ambos os lados e a língua da força é a que fala mais alto o tempo todo. Tanto o líder dos conservadores, Comstock, quanto Daisy Fitsroy, líder da Vox Populi, conclamam seus seguidores para a luta. Acontece que no final das contas o que vemos é sempre a mesma coisa que estamos acostumados a ver: a morte de pobres e dos devotos da ideologia.

A esquerda e sua liderança fervorosa
A esquerda e sua liderança fervorosa

Devido a situações pelo qual Booker DeWiit passa ao longo da trama, acabamos por estar normalmente ao lado da Vox Populi, visto que Comstock é um inimigo em comum para ambos os lados, o que nos permite acompanhar um pouco mais de perto suas ações. Durante todo jogo o objetivo é destronar Comstock.

Acontece que no fim do jogo, ao confrontar o líder conservador, descobrimos que ele e Booker DeWitt são na verdade a mesma pessoa. Obviamente o jogo possui liberdade poética para apresentar isso através de viagens dimensionais, viagens no tempo etc. Mas o que fica é isso: O líder dos ultra conservadores, preconceituosos e religiosos é a o mesmo mártir perseguido da esquerda.

Isso quer dizer que direita e esquerda são a mesma coisa? Com certeza não, pois ambos são regidos por pensamentos completamente distintos. Entretanto, quando observados mais de perto podemos perceber o quanto o ódio e aviolência andam de mãos dadas de ambos os lados e que seus líderes são privilegiados em relação a seus seguidores.

Se me perguntarem de qual lado estou nessa história eu obviamente responderia que do lado da Vox Populi e seus ideais, mas sei que suas formas de liderar, governar e agir acabam que por muitas vezes são autoritárias e distorcidas, a exemplo dos ultra conservadores.

Não digo que PSDB e PT sejam ultra direita e esquerda (talvez internamente encontremos membros do partido que pensem desta forma), mas o atual pleito eleitoral me fez lembrar bastante de Bioshock. De um lado os ricos, brancos, conversadores, do outro a pobreza, as ações sociais e o desejo por mudança. Entre ambos, a violência, o ódio e a intolerância. Só não consegui distinguir quem é quem ainda.

esquerdadireita

Seria Bioshock, um violento jogo de tiro em primeira pessoa, um bom mote para discutirmos política hoje em dia? Cabe a cada um interpretar da maneira que mais lhe convir. Assim como em Columbia, sou adepto do lado Vermelho nessas eleições, apesar de não concordar com suas lideranças. É como se diz por aí: “A diferença da Democracia para uma Ditadura é que você escolhe quem irá mandar em você”.

Gustavo Nogueira de Paula

Alerta vermelho e a Mídia vs Escola

As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS
As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS

Pelo menos de dois em dois anos o discurso político passa a receber atenção das pessoas. Seja pra falar mal de todo mundo, compartilhar boatos e mentiras  ou discutir propostas e ideias, é fato que isso chega a vida das pessoas, mesmo que de formas bastante distintas.

Nessas horas/épocas nos deparamos com todo tipo de discurso, porém um em específico tem chamado demais minha atenção: O discurso de ódio preconceituoso e a direita cada vez mais forte. Não deveria, mas ainda me choco ao ver como as pessoas tem mais ódio do que medo em relação as palavras comunismo, socialismo e derivados. A cor vermelha é quase banida, sobretudo se você for do Estado de São Paulo.

Neste exato ponto começa a reflexão que nos leva de volta ao assunto principal deste Blog, os videogames. Se os conteúdos curriculares estão aí para todos, os livros didáticos, as apostilas, as obras literárias, os debates na internet etc então por que tanta ignorância ao falar sobre esses assuntos? Porque é bem diferente alguém estudar e conhecer o socialismo, para então criticá-lo, do que o ódio corriqueiro que costumamos ver por aí, quase 100% das vezes baseados em argumentos sem o menor sentido.

Acontece que ante o discurso escolar/acadêmico nós temos uma enxurrada de falas perversas a respeito de qualquer política ou pensamento de esquerda. De jornais de notícias, a programa de fofocas e jogos de tiro em primeira pessoa, a ideia é sempre a mesma, combater o comunismo em defesa da liberdade do capitalismo.

Como convencer uma criança, através de aulas escolares, que o Zangief não é “do mal”? Como fazer com que um jovem perceba que os “heróis” do Call of Duty massacram outros povos? Como dar foco ao fato de que a cor vermelha é sempre o segundo player, que nos jogos antigos sequer aparecia na sequencia final?

Infelizmente o discurso escolar não tem força pra vencer isso. São poucos minutos de aulas específicas contra uma praticamente uma vida toda de Rambos, Indiana Jones, Final Figth, Call of Duty etc. A competição é muito desleal e acaba desembocando na ignorância que tanto vemos espalhadas por aí.

Alerta vermelho
Alerta vermelho

Que exista pessoas que realmente sejam contra o pensamento de esquerda, embasadas e apoiadas em estudos eu não duvido. Nem vou julgar o que seria melhor, não é a ideia desse post. O problema é o ódio, desconhecimento e preconceito, que taxa não apenas as políticas voltadas ao social, mas também todos aqueles que as defendem.

Não há solução a curto prazo, mas como sempre digo, através da produção de jogos nacionais, com temáticas que fujam dessa dicotomia Azul x Vermelho e que não reproduzam preconceitos políticos tolos e infantis, talvez possamos diminuir essa ignorância. Aí, voltamos ao papel da escola, que ao invés de apenas apresentar as doutrinas políticas deveria também instruir sobre os discursos midiáticos, para que as pessoas saibam criticar seus conteúdos e não apenas reproduzir asneiras preconceituosas que expõem sua ignorância política nas redes sociais.

É um trabalho de formiga, que precisa ser feito passo a passo, mas precisamos nos mexer, pois esperar que Globo, Warner, Activision, Microsotf e afins passem a mudar seus discursos em prol da educação das pessoas, sinto muito, mas teremos que esperar por uma nova humanidade.

Gustavo Nogueira de Paula