Jogo indie, jogo gourmet

Pipoca, tapioca, brigadeiro, cachorro quente, cerveja, sala de cinema, salão de festas, terraço, hamburguer… qualquer coisa que você imaginar hoje em dia pode vir com o adjetivo gourmet. Em alguns casos trata-se de mero acréscimo de preço, em outros de reestilizações forçadas de receitas clássicas. Ambos os casos remetem a uma simples onda de mercado para gerar mais lucro e seduzir consumidores desatentos ou sedentos por esbanjar um pouco. Nada de novo, apenas estratégias de mercado.

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Porém, essa gourmetização esconde um gostinho pelo desprezo. Por que comer um lanche que todo mundo come, se posso pagar o dobro por um hamburguer gourmet e me distinguir do resto das pessoas? Pensamento mesquinho e superficial, mas que ronda a cabeça de muita gente.

Também gosto de boa comida e boa bebida, creio que todos gostem. Particularmente também tenho minha preferência por cervejas artesanais já tem uns bons anos, tendo inclusive produzido algumas levas caseiras em parceria com amigos. Se puder optar, sempre tomarei uma artesanal nacional ao invés da típica cerveja de milho e arroz. A diferença é a forma com que tratamos as pessoas que tomam a cerveja “comum”.

Sim, o Game&Críticas é um blog sobre games e essa longa introdução é pra falar sobre algo que tenho percebido ultimamente. Ainda não é algo tão comum, mas já começa a surgir a gourmetização dos jogos. Não na produção, mas no consumo. Se você joga Games AAA pode acabar sendo taxado de ignorante, consumista e uma série de adjetivos nada bons. O Hype é encontrar jogos que ninguém conhece, ninguém joga e falar de boca cheia que o jogo é requintado, isso e aquilo.

Acho ótimo essa busca por jogos alternativos, mas o desprezo por quem joga os games comuns é tão ridículo como qualquer outro preconceito. É a reprodução de preconceito que vários jogadores sempre sofreram, mas agora de forma “interna”. É a típica síndrome do “exclusivismo” ou “anti modismo”. Fulano sempre ouviu/vestiu/comeu determinada coisa, mas se ela entra na moda, perde a graça. Só é divertido enquanto é exclusivo.

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Há um longo processo para que a grande massa de jogadores passe a apreciar uma quantidade maior de jogos e não apenas Fifa 10, 11, 12, 13, 14… Call of Duty, etc. E há ainda aqueles que conhecem uma gama variada de jogos e ainda assim preferem jogos populares.

Preocupa-me essa onda “gourmet” dentro dos jogos, que trata os indies como a única coisa boa no meio dos videogames. Não é mérito algum se considerar melhor que os outros por consumir algo supostamente diferenciado. Espero que esse pensamento tolo seja varrido da cultura dos jogadores e que indies e AAA convivam pacificamente. Basta criar um escudo anti gourmet, que nos defenda contra o raio gourmetizador.

Gustavo Nogueira de Paula