Tempo, tempo, Tempo, Tempooo

Você leitor tem tempo para que hoje em dia? Depende da situação:

Trabalhador comum com jornada de 40h – acorda cedo, se arruma e tenta afastar o sono, vai para o trabalho, toma seu café, faz o que precisa ser feito. Da um intervalo para o almoço, trabalha mais, toma mais café e vai pra casa. Chega, cuida de casa, consegue algo para comer e aí sim talvez tenha algum tempo livre. Já é tarde da noite, é possível jogar um pouco e não dormir tarde demais, afinal de contas, amanhã de manhã tem mais trabalho. Se incluir filhos ou segundo trabalho nessa lista (incluindo o trabalho doméstico) esse tempo livre ainda diminui um pouco.

Tempo contado
                      Tempo contado

Desempregado: Fora os afazeres domésticos e a busca por emprego e qualificação, tem bastante tempo, mas esse tempo normalmente não aplicado em lazer, devido a falta de grana e a tensão gerada pela falta de trabalho.

Jovem estudante de ensino fundamental ou médio: Se for mais pobre, escola e casa, depois brincar no quintal, na rua, arrumar confusão com o irmão etc. Tendo videogame, da pra jogar razoavelmente durante o dia também. Se for um pouco mais rico é escola e casa, depois inglês, natação, judô, dança ou algum outro curso desse tipo. Depois disso é lição de casa e, finalmente, tempo livre para jogar, inclusive jogos pagos, online, com direito a contas premium e compra de itens.

Jovem estudante universitário. ir pra aula quando for possível, comer na faculdade, ir pra festas quando for possível, estudar em véspera de prova, jogar sempre quando quiser. Se virar com exames no fim do semestre. Se for bom aluno a coisa muda um pouco, pois poderíamos incluir estudos em casa, seminários, produção de textos, participação em laboratórios, grupos de pesquisa e várias coisas legais da universidade. Quando possível, videogame.

Brincadeiras a parte, a ideia é ter uma noção do tempo livre que as pessoas comuns possuem. Em geral, não é muito devido ao trabalho, sendo maior entre os jovens (apesar desse tempo também ter diminuído nessa faixa de idade). Esse tempo livre ainda é dividido entre várias coisas, como ler, assistir a filmes, namorar, ir a bares e restaurantes, ouvir música, conversar com amigos, praticar esportes e toda e qualquer diversão possível no momento de lazer.

O tempo para o videogame é concorrido, todo o tempo é concorrido. Tudo isso para perguntar: “Quanto tempo deve durar um jogo?”. Será que todo jogo precisa ter a duração de GTA ou de Elder Scrolls? Quem possui tempo para esse tipo de jogo?

Apesar de não crer que esse tipo de jogo irá acabar ou sequer diminuir, prevejo um bom horizonte para os jogos com duração menor, sobretudo na produção indie. Games como Journey, que contam uma belíssima história e possuem quase a mesma duração de um filme, tem a tendência de ganhar mais espaço na vida corrida das pessoas, assim como já foi com os jogos casuais.

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É cada vez mais difícil conseguir obter por completo a experiência de um jogo, isso sem contar os jogos multiplayer online, que demandam ainda mais tempo. Acredito que parte da evolução dos jogos esteja justamente na capacidade de contar histórias em tempos menores, em formas de capítulos, deixando os grandes desafios para os jogos “grandes”, para os jogadores que anseiam por esse tipo de desafio. Não é todo mundo que quer ficar morrendo várias e várias vezes para ver o final de um jogo, em muitos casos se irritando mais do que se divertindo.

Não há tempo ideal para jogos, mesmo porque alguns sequer precisam ter um final. O que vale aqui é o questionamento de quanto devem durar e o fim do mito de que jogos bons são apenas aqueles que entregam mais de 100h de “pura diversão” a seus jogadores. Quando tiver um tempo, pense nisso.

Gustavo Nogueira de Paula

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Fantasia

Algumas coisas são impossíveis de mensurar através dos métodos do qual dispomos hoje em dia. Não dá para medir o quanto uma pessoa ama ou odeia a outra, assim como não se pode medir o efeito que determinado alimento trará, em termos de prazer, às papilas gustativas de quem o prova. Todos sabem, ou pelo menos dizem, que os livros estimulam a criatividade, mas não conseguimos uma medida exata disso, apesar de termos essa certeza. Partindo deste pressuposto, seria possível dizer que os videogames estimulam, ou não, a criatividade do indivíduo.

No início, nem tudo era trevas no meio dos jogos, mas era quase. Os jogos eram de incrível simplicidade e com história praticamente nenhuma. Engraçado, mas talvez a maior criatividade que despertavam era justamente no fato do jogador tentar entender que diabos era aquilo que estava controlando e o que era aquilo que estava tentando matá-lo a todo momento. Mas eles evoluíram e passaram a contar histórias belíssimas.

Quem nave era essa? Quem eram os inimigos? (eu chamava esse de bolacha) e finalmente: Por que no Brasil esse jogo se chamava Mega Mania?
Quem nave era essa? Quem eram os inimigos? (eu chamava esse de bolacha) e finalmente: Por que no Brasil esse jogo se chamava Mega Mania?

Contudo, muitos dizem que, devido (principalmente) a essa evolução gráfica, o espaço para a criatividade do jogador diminui, pois está tudo ali, ao alcance dos olhos. Não há necessidade de descrição pra que o jogador imagine o que está acontecendo, basta ver o que acontece na tela. Imagine só como seria se Resident Evil fosse um conto de Edgard Alan Poe.

O argumento é válido, mas nem tanto. Há sempre algo não contado, não explorado dentro dos jogos e, além disso, os personagens passaram a ser cada vez mais bem desenvolvidos, o que faz com que os jogadores queiram saber mais sobre sua vida, passada, futura, amorosa etc. Isso sem contar as possibilidades que os jogadores possuem de criar seus próprios níveis, fases, aventuras, desafios e tudo mais. Ou então de criar novas roupas, falas, jeitos… Isso não está ao alcance de todos, em termos materiais, mas povoa a mente de muitos.

Porém, trago ainda outro lado disso tudo, com a questão da fantasia. As fantasias criadas pelos jogos muito provavelmente não criam o mesmo efeito em jogadores adultos e em crianças. Quem jogou Mario, lá nos anos 80, como seu primeiro jogo, com certeza olha para os jogos atuais de Mario de forma diferente de quem jogou Mario Galaxy 2 como seu primeiro jogo. O impacto de cada jogo com certeza será muito diferente em cada um desses jogadores. Talvez por isso seja tão difícil avaliar e criticar jogos de épocas diferentes. Alguém seria capaz de dizer que Mario, aquele primeirinho, é melhor ou pior do que Mario Galaxy? Com certeza há vários ângulos e pontos de vista, que enaltecem e criticam ambos os jogos, mas não da para simplesmente fazer uma comparação direta. Seria como comparar cerveja a vinho e dizer que um deles é melhor.

O elemento fantasioso é importante nos jogos e pode ser fator determinante para seu sucesso ou fracasso, por isso não dá para ficarmos com as mesmas histórias batidas de sempre. É importante deixar ganchos para que o jogador se sinta convidado a explorar mais, ir mais longe, buscar por informações sobre aquilo que acontece dentro do jogo. A possibilidade de criar dentro dos jogos também é importante e quanto mais isso for descomplicado, mais os jogos tem a ganhar com isso.

Seja criativo
Seja criativo

Se um jogo estimula mais a criatividade do que um livro, não podemos saber ao certo. O que podemos saber é que eles podem conviver pacificamente e criando na mente dos jogadores as mais belas histórias e fantasias, sejam crianças ou adultos. Torna-se fundamental que os jogos se renovem sempre, não caindo na tentadora armadilha de fazer dinheiro através de inúmeras sequencias sem sentido, pois isso sim poderia ser algo a roubar a fantasia e a criatividade dentro dos jogos.

Gustavo Nogueira de Paula