Água com açucar ou sem sal, falta tempero quando falamos de jogos

As vezes é bom dar aquela parada para respirar. Retomar o fôlego e reparar o que acontece a nossa volta, na situação em que nos encontramos e para onde estamos caminhando. No caso, resolvi me atentar principalmente a duas coisas: A proliferação de discursos de ódio e preconceito na sociedade brasileira e as insistentemente superficiais análises e conversas sobre jogos.

As pessoas tem falado bastante, mas ouvido muito pouco
As pessoas tem falado bastante, mas ouvido muito pouco

Falar que o Brasil é um país de todos e sem preconceitos é tão fantasioso quanto o Papai Noel ou o PT ser o governo mais corrupto da história do nosso país. Acontece que esses discursos conservadores e intolerantes estão ganhando força novamente e saindo do armário para ganhar páginas de Facebook e manifestações de caráter duvidoso pelas ruas. Ao mesmo tempo, a produção (em geral) e as críticas de jogos continuam muito bem obrigado, preocupados com novos motores gráficos, novos Call of Duty e Fifas, preço dos jogos no exterior, games e violência e o mesmos papinhos de sempre.

Digo essas coisas, pois, numa breve consulta no próprio Game & Críticas é fácil notar os posts com maior número de comentários: Aqueles em que dou um viés mais político aos jogos, principalmente quando coloco minha própria visão política em jogo, com o perdão do trocadilho. É só comentar qualquer coisa que perturbe o senso comum e o conservadorismo da maioria dos jogadores e já aguardo tranquilo por críticas negativas, normalmente construídas com base em xingamentos, argumentos sem fundamento, raiva, ódio, rancor etc. Vamos a um exemplo – No post “Alerta Vermelho, Mídia versus Escola” eis o comentário de Luiz, na íntegra, com destaques meus:

Porra nenhuma comunista e esquerdista são tudo uns safados e é muito bom jogar Call of Duty e matar comunistas, os estados unidos podiam mandar uns soldados lá para cuba para matar o Fidel Castro. O Carlos tem razão quem se declarasse comunista ou esquerdista deveria ter o mesmo tratamento que um nazista, eu desatesto esquerdistas e comunistas assim como feministas e o pessoal dos direitos do bandidos que defendem mais os bandidos do que os homens de bem se alguém disser que é um simpatizante dessa ideologias já ganha a minha antipatia na hora e meu ódio.

Nota-se que além de bastante mal informado, o ódio toma conta da pessoa, sendo explicitado sem qualquer medo ou vergonha. Mais do que concordar ou discordar com qualquer ideologia, a intenção do indivíduo é a de exterminar aqueles que discordam de sua linha de pensamento.É muito triste ver uma pessoa chegar a este ponto.

Não exijo que os jornalistas do UOL, por exemplo, passem a escrever textos com opiniões tão marcadas quanto as minhas, mas as críticas de jogos seguem as mesmas de sempre, sem sal e tentando agradar quem pode comprar o jogo, sem criticar discursos, distribuidoras etc. Pouco valor se dá a narrativas, estéticas inovadoras, posicionamentos do jogo, possibilidades, nada! Em pleno fervor político, econômico e social que vivemos e as análises de jogos são sempre… as mesmas!

Sequer para falar de mercado, alternativas de compras, criticar os lançamentos “mais do mesmo”, upgrades constantes e caríssimos de hardware, aquisição de pequenas empresas por mega corporações, nada disso é tocado. Não sendo reducionista, mas o resultado disso tudo vemos em comentários estapafúrdios como o apresentado acima. Jogadores mimados, que tratam os jogos como seus meros brinquedinhos, abençoando o sistema capitalista que facilita cada vez mais a sua compra, no conforto dos seus lares, mesmo que muitas vezes isso signifique comprometer quantidade significativa do seu orçamento.

Enquanto a maioria das mídias aborda o assunto, inova e tenta se tornar independente, nós temos visto os grandes jogos com os mesmos temas de sempre, passando por uma crise criativa semelhante a do cinema e reféns de boas produções indie, que ainda sofrem para se estabelecer e muitas vezes também reproduzem formatos e discursos.

discursos

Será realmente lamentável se produtores e jogadores passarem despercebidamente pela efervescência política/social em que vivemos atualmente. Se há realmente uma crise, então que ela sirva para repensarmos modelos, temas e formatos. Não se manifestar agora será um erro tremendo por parte de toda a comunidade jogadora.

Gustavo Nogueira de Paula

Jogadores contra o racismo

Era mais um dia comum. Não tinha muito o que fazer então resolvi jogar um pouco de Team Fortress 2. Para quem não sabe, TF2 é um jogo em primeira pessoa, online, que envolve muita cooperação e grandes doses de humor.

Como todo jogo online, sempre encontramos todo tipo de jogador, desde aqueles preocupados com uma boa partida até outros que tem prazer em atormentar e tornar o jogo impraticável. Nesse dia em que estava jogando não havia nada de diferente e tudo corria numa boa, até que entrou um jogador com o nome de Daniel Pantaleo. Para quem não sabe, esse é o nome de um policial branco acusado de matar Eric Garner, homem negro vendedor de cigarros na cidade de NY.

Sempre que eu falar de Team Fortress, vai ter foto Pyro
Sempre que eu falar de Team Fortress, vai ter foto Pyro

Particularmente eu não havia me ligado a esses nomes e continuava a jogar numa boa, quando de repente percebo discussões intensas entre os jogadores. “Daniel Pantaleo” começou a ser muito questionado por utilizar esse nome e alguns jogadores demonstraram muita irritação. Em contrapartida, “Pantaleo” argumentava que podia usar o nome que bem entendesse, mesmo porque o policial havia sido inocentado, o que, segundo ele, eliminava qualquer motivo para irritação.

Muitas vezes essas arenas online são palco dos mais variados preconceitos e comportamentos repulsivos, mas nesse dia fiquei surpreso com a reação da comunidade: Um grupo de jogadores começou a acusar o “Pantaleo” de racista e com argumentos bem consistentes. Em pouco tempo foi aberta uma votação para calar o racista e para minha surpresa, todos os jogadores, exceto um, votaram SIM.

Pantaleo foi “mutado”. O jogador que votou contra isso também começou a argumentar, ao melhor estilo direita branca PSDB, que aquilo feria a liberdade de expressão e todo aquele tipo de blá blá blá que estamos acostumados a ouvir. O resultado não podia ser outro, após mais um pouco de discussão, este jogador foi banido do servidor, para nunca mais voltar. Os administradores ainda fizeram questão de frisar: Não toleraremos comportamentos racistas por aqui.

Pode parecer pouco, mas em meio à onda de protestos patrocinados pela mídia que vivemos hoje em dia no Brasil, me surpreendeu que no meio de uma partida de Team Fortress 2 eu pudesse ver tal discussão. E posso garantir, com um bom nível de argumentos, bem melhor do que as babaquices defensoras de Bonsonaro que costumamos ver pelas redes sociais.

Eric Garner sendo abordado pela polícia
Eric Garner sendo abordado pela polícia

A partida seguiu e continuei jogando, porém fiquei mais feliz de ver que ainda há pessoas preocupadas em discutir tais questões, mesmo dentro de um jogo online.

Gustavo Nogueira de Paula

Jogo bom, jogo ruim e o jogo que eu gosto

Recentemente ocorreu mais uma entrega do Oscar aos melhores do cinema. Passando por filmes mais ou menos ousados, mais ou menos inovadores, mais ou menos criativos, o prêmio pode não ser unanimidade no meio cinematográfico, mas tem grande peso e valor, principalmente para o público geral. Passa muita credibilidade ir ao cinema assistir algum vencedor do Oscar, ou possuir em casa uma estante repleta de títulos vencedores em diferentes épocas. Isso denota bom gosto e também aquele sentimento “cult” bacana de mostrar às visitas.

oscar

Mas nada na vida poderia ser tão fácil assim, senão não haveria graça. Acontece que as vezes o filme é vencedor de Oscar, de Globo de Ouro, de prêmio da crítica… mas a gente não gosta. Seja por achar chato, feio, estranho, tema que não seja de interesse, ator/atriz que não gostamos, país, enfim, não faltam motivos para que não gostemos de algo que seja cultuado ou premiado. Não haveria problema, desde que o exército de defesa do Cult sem ser xarope (algo como o sexy sem ser vulgar) não tentasse enfiar goela abaixo em você que aquilo é arte e você precisa gostar daquilo.

Com os jogos acontece a mesma coisa, apesar de ser de forma ainda um pouco mais tímida. Não estou dizendo que os jogos premiados são chatos, nem nada disso. Acontece apenas que em alguns casos preferimos jogos mais simples, ou até mesmo piores, por assim dizer.

Tempos atrás eu descobri Dark souls. Fiquei impressionado com o jogo e gostei bastante, tanto da mecânica, da dificuldade, do multiplayer e principalmente dos cenários e inimigos deslumbrantes. Apesar de apontar alguns defeitos estranhos, Dark Souls conseguiu me cativar. Dessa forma, logo que Dark Souls 2 foi lançado eu fiquei bastante empolgado e, no natal passado, resolvi me presentear com o jogo e suas expansões. Ainda não terminei as expansões, mas apesar de jogar bastante, Dark Souls 2 não conseguiu me cativar como seu antecessor.

Falar que o jogo é ruim seria pegar pesado demais, mas parece mais do mesmo. Itens iguais ou semelhantes, mesma forma de atuar, mesma engenharia, história que não é história. Resumo da ópera: parece um jogo que já joguei. Se não fosse pelo multiplayer eu talvez nem jogasse tanto assim.

Isso faz o jogo ruim? Não! Porém, nitidamente fui mais impactado e me interessei mais pelo primeiro do que pelo segundo Dark souls, por motivos pessoais bastante evidentes.

Apesar de defender e lutar por jogos melhores e mais elaborados, entendo que as pessoas tem a liberdade de  gostarem daquilo que bem entenderem, sabendo que isso pode variar em cada etapa da vida. Principalmente se levarmos em conta que um jogo pode ser considerado bom sob vários aspectos, desde os mais estéticos até os mais culturais ou técnicos.maxresdefault

Então, da próxima vez que estiver conversando sobre algum jogo premiado que você não tenha gostado, não fique constrangido em dizer a verdade, sem medo das retaliações. Além disso, caso esteja na fila do cinema e prefira ver o filme do Bob Esponja ao invés daquele cult idolatrado por madames e caras que usam xadrez e barba (como eu), não tenha receio, só cuidado para não ser confundido com algum pedófilo.

Gustavo Nogueira de Paula