Quem escreve sobre jogos?

Os últimos posts do Game & Críticas foram fortemente voltados para questões políticas e sociais, sempre tocando os games de alguma maneira e acho que isso foi facilmente percebido pelos leitores. Porém, chega o momento de dar um tempo neste viés da política (sem jamais deixar de ser político de alguma forma, visto que isso seria impossível). É sempre nosso dever, enquanto cidadãos e sociedade civil nos manifestarmos em relação às inúmeras incoerências que nos deparamos, mas se eu for apontar todas as insanidades midiáticas que nos deparamos atualmente e como a comunidade jogadora e produtora mainstream (de games) tem feito nada a respeito disso eu passaria a vida escrevendo e jamais sairia desta pauta. Sendo assim, resolvi retornar à questão os games de uma forma mais “direta”. Para isso, nada melhor do que (re)começar do zero, a partir de um questionamento simples – “Quem escreve sobre jogos?”

duvidas

Essa pergunta surgiu depois que me deparei com uma matéria da Kotaku americana (site que gosto bastante por sinal), intitulada “Surprise! Doom is Still And Incredible Game“. De início me parece um texto interessante, afinal de contas alguém ia analisar Doom à luz dos dias atuais. Apenas para relembrar/esclarecer a qualquer desavisado, Doom é um dos pioneiros no estilo First Person Shooter e conta com um design que foi bastante inovador, sobretudo na época de seu lançamento (o já distante ano de 1993). Com fases labirínticas, inimigos assustadores e o estilo em primeira pessoa, marcou uma era e foi seguido por uma leva de jogos que tentaram imitá-lo, mais menos bem sucedidamente. Só que para minha surpresa o artigo da Kotaku começa da seguinte forma “I have a confession to make: my introduction to shooters began with Halo and Half-Life 2, and because of this, I only recently tried my hand at Doom, id Software’s 1993 shooter. BecauseDoom was so old, I figured it had nothing to teach me.” Traduzindo pelo Google Translate (para mostrar que hoje em dia é bem mais fácil ler algo em inglês, mas com algumas correções, obviamente):

Eu tenho uma confissão a fazer: a minha introdução aos shooters começou com Halo e Half-Life 2, e por causa disso, eu só recentemente coloquei a minha mão em Doom, id Software 1993, porque  Doom era tão velho, que achei que não haveria nada para me ensinar. (ênfase minha)

O restante do texto perdeu completamente o interesse para mim. Nem vou julgá-lo se foi bem escrito ou não, já que esta introdução se tornou muito mais marcante para mim. É alarmante pensar que, num site tão famoso sobre jogos, alguém que tenha espaço para escrever colunas nunca tivesse jogado Doom e ainda considera uma surpresa que o jogo seja bom até hoje. Não estamos falando de um indie desconhecido que só um ou outro conhecem. Estamos falando de DOOM.

Com certeza o autor possui vários argumentos para justificar nunca ter jogado Doom, mas como pode representar um crítico/analista sem ter sentido e conferido algo tão clássico. Seria como nunca ter jogado Mario, Atari, Civilization, Sim city etc. E não me refiro aqui a ser saudosista, mas sim a ter conhecimento sobre cada gênero e seus ícones dentro do universo dos games. Analogamente, é como um filósofo que nunca leu Marx (ou Nietzsche, etc), um geógrafo sem Milton Santos, um músico que nunca tenha escutado Mozart e por aí vai. Trata-se de uma formação intelectual dentro dos jogos. Pode não ser problemático iniciar sua vida nos FPS a partir de Halo ou Half Life 2, afinal de contas cada um nasceu em uma época, mas levar tanto tempo para conhecer um clássico como Doom é sintomático de uma geração de escritores sobre jogos (e também de jogadores).

O "velho e antiquado DOOM"
O “velho e antiquado DOOM”

Como eu disse,com certeza há argumentos e desculpas, assim como eu tenho os meus para dizer o porque de não ter um PS4, um Xbox One, de não jogar os mais recentes lançamentos, de ter um pc Dell Inspiron de 2009, já que não recebo patrocínio ou salário para escrever e estudar sobre jogos. Muitos torcem o nariz para quem escreve sobre jogo antigos ou abordam os games sob outro ponto de vista que não seja um guia de compras. Contudo, possuo mestrado na área, anos e anos como jogador e leitor contínuo e estudante assíduo do que acontece neste meio.

Ressalto também que isso não é exclusividade do mundo dos games, muito pelo contrário. Os principais colunistas sobre Educação em nosso país jamais estudaram um mínimo sobre Pedagogia ou qualquer assunto ligado á área, sendo a maioria advindos da Economia, Administração etc. basta conferir a revista Veja (não, não vá conferir, isso é apenas um exemplo). Temos médicos que prescrevem exercícios físicos, apresentadores de TV que receitam dietas, jornalistas medianos que falam sobre política, enfim, a lista é grande.

Não defendo que as coisas sejam como no futebol brasileiro, dominados por boleiros que se julgam superiores a todo e qualquer estudo científico da área, apenas por já terem jogado profissionalmente. Acontece que no caso dos games, colocar as mãos em um clássico é como uma leitura obrigatória no curso universitário.

Para deixar tudo isso ainda mais assustador, em conversa com alguns estudantes de design e/ou produção de jogos, tenho escutado cada vez mais que os alunos consideram jogos antigos ruins por terem gráficos obsoletos, ou por não serem tão complexos como os atuais. Isso demonstra uma gigantesca falta de conhecimento sobre o assunto,  ao tratá-los de forma tão superficial, além de uma péssima formação acadêmica e falta de preparo na produção e estudo de jogos, algo bastante triste e lamentável.

A vida adorável de escrever sobre games
A vida adorável de escrever sobre games

São estas e outras situações semelhantes que nos mostram a importância do Ludoletramento, um aprendizado SOBRE os jogos, anterior a qualquer aprendizado para (a produção e trabalho sobre) os jogos. Seja na educação básica ou na superior, considero cada vez mais importante um estudo detalhado e aprofundado desta mídia, que em muitos casos não parece ser devidamente valorizada sequer pelos próprios jogadores.


Gustavo Nogueira de Paula

Political parties – The congress fighter – Novo jogo

É bem comum sonharmos enquanto dormimos, mas as vezes isso acontece enquanto estamos acordados mesmo. No meu caso isso é bem corriqueiro e vez ou outra e me pego parado com o olhar fixo no nada e imaginando um monte de coisas, distante. O jogo que vou apresentar é o resultado de um destes sonhos acordados, o “Political parties – The fight!

Beat em Up

Apesar do nome remeter inicialmente a um jogo de luta, trata-se na verdade de um Beat ‘em Up, aqueles jogos em que os personagens vão andando da esquerda para a direita (na maioria dos casos) e vão enfrentando vários inimigos, na base da porrada, até enfrentarem o chefão da fase. Títulos clássicos nessa linha são Final Fight, Tartarugas ninja, Streets of rage, Knights of the round e inúmeros outros. A grande diferença aqui é que os personagens são representantes de partidos políticos e os inimigos, apesar de variarem um pouco de acordo com suas escolhas, são em sua maioria advindas do povo, representantes da sociedade civil. Porém, como todo jogo mais moderno, dependendo do seu personagem a história muda um pouco, resultando em finais diferentes. A vida dos personagens é baseada no número de cadeiras no congresso. Vamos aos personagens e suas especificações:

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PT – Tem bastante vida/energia e é a única personagem feminina do jogo. Assim como os outros, você vai desferindo golpes e enfrentando os inimigos. Caso a coisa aperte basta utilizar o poder especial, que invoca um cara barbudo que possui blindagem infinita e a habilidade de converter os inimigos para lutarem ao seu lado. Contudo, a cada vez que o poder é utilizado sua personagem acaba ficando um pouco mais fraca. O chefão final do jogo é um grande Globo que ataca com canetas, microfones e hologramas. Estes ataques tiram bastante energia, portanto tome cuidado na hora de enfrentá-lo. Caso seja vitorioso a cena final mostra um final feliz, em que o poder é mantido e perpetuado, apesar de ser possível observar ao fundo alguns inimigos ainda vivos, aguardando nas sombras para tentar se reerguer. Na penumbra, um tucano sobrevoa ao longe. As fases se passam da direita para a esquerda.

psdb

PSDB – Engravatado, cabelo impecável e muita fala, é assim seu personagem. Em algumas fases é possível contar com a ajuda de alguns banqueiros e empresários estrangeiros. Há dois tipos de poderes especiais a serem usados: o primeiro deles invoca uma tropa de choque da Polícia Militar que o protege com armamento pesado, mas quanto mais utilizado, mais inimigos aparecem, portanto utilize com cuidado. Já o segundo poder é o de vidas infinitas, pois a cada vez que você morre numa eleição o monstro Globo surge e lhe dá mais um pouco de vida. A fase final é dentro de uma favela e o objetivo é o de exterminar a todos. A cena final mostra um lindo cenário, com pessoas de classe média sorrindo e brindando com champanhe pelo final da corrupção, cercadas por altíssimos muros que os separam das favelas que compõem o restante do cenário. As fases se passam da esquerda para a direita.

pmdb

PMDB – Tem a vida mais alta de todas e a maior capacidade de dano. Seu poder especial o torna invisível momentaneamente, permitindo atacar os inimigos a vontade sem ser percebido. Não há limites ou penalizações para a utilização deste poder. A fase final acontece no congresso, em que é preciso aniquilar todas as forças da oposição, que são mínimas. Zerando o jogo, o jogador assiste a cena final que mostra algum dos outros personagens no poder, mas é possível notar algumas linhas amarradas em suas articulações. Do alto, meio escondido, podemos ver seu personagem controlando o inimigo como uma marionete e todos os companheiros se multiplicando pelas cadeiras do cenário. As fases se passam da esquerda para a direita.

PP

PP – Apesar da vida um pouco menor que a dos outros personagens você consegue causar muito dano, pois possui ataques poderosos. Seu poder especial o transforma num paladino enviado por Deus, o que lhe dá a possibilidade de atacar ferozmente, tanto com armas de fogo, como com canetas. O inimigo final é uma orda, ao estilo zumbi, de mulheres de todos os tipos e em diferentes situações, sendo negras, grávidas, gays, trans etc, além de muitos menores de idade. Caso vença, a cena final mostra um altar no lugar do congresso e seu personagem governa com um cetro divino na mão, em um cenário que lembra uma vila medieval. As fases se passam da esquerda para a direita.

PSOL

PSOL (bônus level) – Após terminar o jogo com todos os personagens, um novo nível de dificuldade é desbloqueado, junto com este novo personagem. A vida é minúscula e seu ataque causa pouquíssimo dano. Todos os outros personagens se tornam seus inimigos, além dos outros que já existiam. A fase final acontece numa zona eleitoral e, caso seja vitorioso, é possível ver um percentual de 5% piscando na tela, o que significa que você bateu seu próprio recorde de votos. As fases se passam da direita para a esquerda.

Brincadeiras a parte, seria bastante interessante a produção de NewsGames que caminhassem nessa linha. Encerro momentaneamente este bloco de posts voltados para a política, torcendo para que jogadores e produtores se tornem um pouco mais engajados e atentem um pouco mais para essas questões.

Fico no aguardo de várias críticas, mas também de sugestões para diferentes personagens, poderes, fases e finais para esse jogo, que promete fazer muito sucesso ao longo do ano.

E apenas para constar: aqueles que consideram minha ideia absurda, saibam que o personagem Hagar, de Final Fight, é o prefeito da cidade, que sai distribuindo porrada em todo mundo.

Gustavo Nogueira de Paula

Devaneios de consumo

Este texto não sou eu. Foi escrito em primeira pessoa, mas veio de outro lugar, apenas dou voz a ele, sabendo que representa muitos pensamentos. Procure bem e encontrará alguém próximo a você que se sentirá representado e reconfortado com a leitura.

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Sempre vejo gente que se acha super inteligente e crítica, no Facebook. Pessoalmente eu quase não encontro essas pessoas e as que encontro são muito chatas, montadas em seus discursinhos politicamente corretos, metidos a comunistas e que sabem o melhor para todo mundo, inclusive eu. Tem gente que vive metendo o bedelho no meu estilo de vida, nas coisas que compro ou que deixo de comprar. Sabe o que mais? Vou falar para essas pessoas: Parem de cuidar da minha vida!

Eu trabalho (ou estudo, no caso de outras pessoas) o dia todo. Acordo bem cedo, pego meu carro, enfrento trânsito até chegar no serviço e fico lá até o fim do dia fazendo tudo que meu chefe pede. Sou um bom funcionário e sei que dessa forma vou subir na empresa e na vida. Quando chego em casa, estou cansado. Tudo que quero é me informar através do Facebook, comer e jogar um pouco, as vezes ver um filme.

Quando vou escolher meu jogo, meu filme, meu livro (esse é mais raro, só quando não tenho nenhum dos outros dois mesmo) não quero nem saber da opinião desse pessoal que se diz intelectual. Eu quero ter uma vida confortável, igual aquelas que vejo na televisão e no cinema. Eu sei que sou pobre. Não sou pobre do tipo que mora em favela, mas não sou rico. Ou seja, sou um pobre, mas acho que sou menos pobre que outros. Só que ninguém gosta de se sentir pobre, mesmo sabendo que é. Eu sou assim. Quero me sentir bem, me sentir parte daquela galera que consome as coisas bacanas.

Na hora em que ligo o videogame e jogo aquele game da moda, eu me sinto por dentro do esquema. Tento reproduzir de forma bem fiel: Arrumo uns salgadinhos, uma Coca e me preparo pra atirar em quem vier pela frente. Não to afim de pensar muito, já passei o dia no trabalho, cansado. Em casa eu não quero pensar, quero atirar. Só que aí você vai conversar com esses seres inteligentes e eles dizem que seu jogo não é crítico, que sou escravo do consumo, que compro qualquer ideia que os EUA colocam na minha cabeça. Só que eu acho que eles só falam isso porque devem ser pobres também, ou porque fingem ser. No fundo eles queriam era morar lá nos EUA também, andar de carrão e ter essa vida de celebridade.

Sem contar que pra mim isso é tudo papo furado. Videogame é videogame, cinema é cinema, TV é TV. Se você não gosta do que tá vendo, é só mudar, não precisa ficar falando isso pra mim, eu não to nem aí para o que você pensa. Se quer assistir seus filmes chatos metidos a cult, jogar seus joguinhos indie, vá em frente, mas não me leve junto com você. Eu quero barulho, porrada, descansar e me divertir. Tem coisa mais gostosa do que assistir Vingadores e ver o Hulk arrebentando com a cara daqueles que querem destruir a Terra? Não quero chegar no final da história e ter que pesquisar em 10 sites e 30 livros para entender as “referências” e conceitos do que aconteceu. Quero terminar a história, recuperar o fôlego e dormir, afinal amanhã tenho que chegar cedo no trabalho, senão meu chefe não me promove. Quem fica reclamando e faz greve deveria era procurar por outro emprego. Isso é coisa de quem não gosta de trabalhar.

Então da próxima vez que for criticar as coisas que eu consumo, saiba que faço isso com muito orgulho. Quero sim me sentir como um consumidor da elite, que vocês tanto falam. Quem não quer? Se não quer, vá morar em Cuba. Não vejo a hora de por as mãos no próximo Call of Duty e de entrar no cinema com um baldão de pipoca para ver o Hulk gritando “Hulk Smash”.

E quando vier me falar que não sou politizado e blá blá blá, saiba que não estou nem aí. Quero mais é chegar em casa e descansar, do jeito que eu bem entender, você não tem nada com isso!


Psicografado por Gustavo Nogueira de Paula