Orgulho por tabela

As vezes assistimos na TV algumas histórias emocionantes de superação, como por exemplo no Esporte. O rapaz pobre que corria descalço por canaviais e depois ganha uma corrida de rua. Menino com problema na prótese que termina a corrida num pé só. Mulher com 17 irmãos que vira profissional no judô depois de muitos anos etc. Não há muita explicação nisso, mas ficamos com aquela pontinha de orgulho pela conquista daquela pessoa batalhadora. Isso acontece em situações mais próximas a nós também, como quando um amigo conclui sua graduação, um parente se casa, ou qualquer outra situação cotidiana semelhante. Ficamos felizes e espalhamos essas notícias, bem como essa felicidade. Essa semana foi assim, com o lançamento do Porcunipine no Steam.

Porcunipine

Produzido pelo pessoal da Big Green Pillow, de Bauru e participante desde o primeiro Glitch. A galera é muito gente boa, jovens criativos e com o desejo de fazer bons jogos, de forma original e sem dever nada para nenhuma grande produtora. Com muita humildade estão conquistando seu espaço e creio até que acabem não ficando muito mais tempo no Brasil. Bom pra eles devido a crescimento da carreira, “ruim” para nós que cedo ou tarde pode acabar perdendo esses talentos.

Porcunipine é um Party Game, daqueles feitos para serem jogados junto com os amigos, de maneira descontraída, para dar risada e se divertir com bastante gente. Se conseguir um Porcunipine na tela da sua TV da sala durante um jantar com convidados, pode apostar, será tudo muito mais engraçado. O cenário é simples: São quatro Porcos espinhos carecas (coitados), com um espinho só. O objetivo não poderia ser mais óbvio, senão o de atirar nos colegas em pequenas arenas, num curto espaço de tempo. Acertou mais ganhou. Só cuidado para não se matar, algo que não é nada difícil.

Porcunipine 2

O jogo vem ganhando mídia, sendo destaque em vários blogs e vídeos do Youtube mundo afora. Não sou tão famoso quanto esses sites/youtubers, mas por outro lado eu tive a oportunidade de jogar diretamente com quem fez o jogo, inclusive durante a fase de acertos, ajustes, testes etc. Independente da mídia, Porcunipine é um jogo e tanto e vale a pena ser conferido, principalmente por ter sido feito aqui no interior do nosso Brasil, na grande/pequena Bauru.

Da muito orgulho ter visto de perto a evolução do jogo, as diferentes versões, os testes feitos com crianças e jovens no Sesc Bauru e agora poder ver à venda pelo Steam, tendo a chance de obter ainda mais destaque. Além de orgulho, nos enche de esperança de cada vez mais vermos produções nacionais, independentes, ganharem o cenário mundial.

Gostaria ainda de lembrar aos jogadores que não é a opinião de um Youtuber Americano ou Europeu que faz um jogo bom ou não, que faz um  jogo valer a pena ou não. Precisamos dar mais crédito a nossas produções e TAMBÉM a nossas opiniões. Muita gente ainda é refém de Venom’s e Monark’s da vida para lhes dizer o que é legal ou não. Assim como temos games independentes nós temos mídia independente, fiquem de olho.

No mais, jogue Porcunipine. Tenho certeza que vai adorar e se ainda tem alguma dúvida do potencial nacional, aposto que irá mudar sua opinião depois dessa experiência.


Gustavo Nogueira de Paula

A transformação de meninas em antas.

Era uma aula de sociologia/antropologia durante a graduação em Educação Física. O professor, um dos melhores que já tive na vida. O texto a ser discutido era dele, intitulado “A construção cultural do corpo feminino, ou o risco de transformar meninas em ‘antas”. Não, ele não achava que nenhuma menina era anta, ou algo do gênero, nem gostaria de transformá-las nisso. Tratava-se de um relato de umas de suas alunas, quando ainda dava aulas em escolas públicas, que ao errar um lance durante uma partida de vôlei exclamou “Eu sou uma anta mesmo”.

Trocando em miúdos o texto se referia a como reprimimos a participação das meninas em atividades tidas como “masculinas” e como isso acaba por refletir em seus corpos e em suas atitudes. No caso, a garota não tinha contato nem proximidade com jogos ou esportes e se sentia mal por isso, culpando a si mesma pela relativa inabilidade em tais atividades. A discussão central da aula era o machismo presente neste meio e como devemos/podemos agir para acabar com isso.

MACHISMO 1

Pois bem, situação semelhante nós encontramos nos jogos de videogame. É um ciclo básico: Sem representação as meninas tendem a não gostar muito de jogos; as que gostam são excluídas e/ou passam por situação humilhantes; menos mulheres se interessam por participarem da produção de jogos; as que participam sofrem perseguição; isso gera menos diversidade na indústria de games; menos diversidade igual menos representatividade; isso atrai menos meninas… não preciso continuar.

Obviamente trata-se de uma simplificação de minha parte, existem vários fatores para ampliar essa cadeia. Para piorar tudo isso e apimentar com ares de crueldade eu acrescento o comportamento de boa parte dos jogadores. Sim, de boa parte, não posso pegar leve com eles. Ou rejeitam ou tentam humilhar as jogadoras, seja pessoalmente ou em jogos online (pela internet todo mundo estufa o peito e tem coragem de colocar os preconceitos para fora).

Volto ainda a outro assunto, sem medo de soar repetitivo: a imprensa que fala sobre jogos é omissa, despreparada e igualmente machista na maioria dos casos, seja ignorando o que acontece, seja tratando a situação como se fossem casos isolados e de forma caricata. Se duvida, veja estes dois links da Marie Claire (isso mesmo, da Marie claire) que apresentam notícias de forma bem mais contundente do que a maioria dos portais brasileiros sobre games. A primeira delas fala sobre o preconceito com jogadoras e a segunda sobre o caso GamerGate,  que deu o que falar lá nos EUA e que mal apareceu por aqui.

É impressionante como aqui no Brasil isso passa quase batido. Pouco abordamos o tema, mesmo já sabendo que o número de jogadoras vem crescendo. O que sobram são comentários jocosos e sexistas a esse respeito. Jogar qualquer coisa online chega a ser um desafio mental quando há uma mulher no servidor, tanto pelas baixarias infantis que somos obrigados a ver, quanto pela vergonha alheia de presenciar ofensas e recalques de jogadores derrotados.

Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar
Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar

Precisamos debater o assunto de forma mais contundente, com o protagonismo feminino e de forma clara, sem pegar leve com a mídia ou com os jogadores, que muitas vezes acreditam que este seja um “problema menor” ou até mesmo inexistente. Não é raro encontrar quem pense que isso é coisa de “gente da esquerda socialista” ou babaquices semelhantes.

Se preciso for, voltarei ao tema toda vez que me deparar com alguma notícia relacionada ao tema ou quando ficar sabendo de algum acontecimento específico. Ainda aguardo pelo momento em que encontraremos um Newsgame que ironize essa situação.


Gustavo Nogueira de Paula

PS: Que o título deste texto mexa com a curiosidade das pessoas e que leiam o texto todo antes de xingarem toda minha família

New Counter Strike – Professor Mode

De acordo com muitos teóricos, os games são excelentes para simular situações de mundo. Você pode treinar pilotos, resolver problemas, gerir uma cidade, aprender a atirar, perder o medo do trânsito, entre outras atividades bastante diversas. Através de algoritmos complexos pode-se inclusive “prever” o resultado de algumas situações. Isso tudo depende de um equilíbrio muito bem feito entre regras de jogo e regras “reais”.

Num jogo de carros, por exemplo, não se espera poder voar com seu automóvel e espera-se que isso prevaleça. Porém, um acidente frontal pode muito bem ser fatal, mas não espera-se a morte do piloto a cada acidente, apenas um recomeço. Os jogadores também esperam que um carro com menos potência e equipamentos seja mais lento do que uma Ferrari recém lançada. Se correr com um Fusca contra a Ferrari dentro do autódromo de Interlagos a derrota é certa. Não é justo correr de Fusca contra a Ferrari, por isso você evolui dentro de cada jogo, até conseguir equipamento suficiente para enfrentar o desafio. Por se tratar de uma simulação, o jogador já prevê essa desigualdade e a encara com naturalidade.

counter-strike2

Já em jogos de tiro essa desigualdade soa de maneira mais incômoda. Você pode ter a melhor mira, melhor esquiva, melhor proteção etc. mas sem uma boa arma, dificilmente vencerá o inimigo armado até os dentes. É injusto, mas as vezes acontece. É dessa forma que foi lançado recentemente no Brasil o novo MOD de Counter Strike – Professor Mode.

Cansados do velho embate entre Policiais e Terroristas, tão fora de moda e pouco aceito pelo público brasileiro, foi lançado, através de incentivos do governo estadual paranaense, o MOD em que professores substituem os famigerados homens encapuzados com Ak-47. Algumas alterações também foram realizadas na mecânica de jogo:

Os policiais contam com cachorros, bombas de gás, armas com bala de borracha, escudos, coletes, máscara, helicópteros, carros, jatos d’água e spray de pimenta. Os professores (terroristas) contam com algumas pedras encontradas no chão e as vezes algum pedaço de pau.

Ao entrar no jogo você pode escolher qualquer uma das duas classes, mas se prepare, pois a dos professores sempre perde e de lavada. Normalmente a tática é sair correndo e tentar fugir, apesar de ser bastante difícil. Se optar pelos Policiais é só sair atirando, sem se preocupar muito, pois em algum momento irá acertar alguém e é isso que conta no final. A disputa principal é para ver quem consegue mais frags.

A distribuidora do jogo disse em nota, após a reclamação de muitos jogadores que optam pela classe professor dizerem que o jogo é injusto, que aqueles que não gostam do jogo deveriam procurar por outro jogo (profissão), pois aqueles que jogam como professor o fazem por amor.

Violência

Apesar desta versão existir há muito tempo no Brasil, ela foi remasterizada e ganhou gráficos novos. A crítica especializada da Veja tem feito grandes elogios a essa nova versão:

É muito legal poder atirar e ver os professores correndo, da uma sensação muito boa. Se fizéssemos dessa forma na vida real o Brasil seria um país melhor. Acho que o único defeito é que eles só ficam vermelhos depois de sangrando, já deveriam começar assim” (Jogador da Veja com o Nick de CoxinhaPower)

Apesar do sucesso de vendas entre os brasileiros, o jogo vem sofrendo algumas críticas, pois apesar de divertido, os policiais não podem atirar para matar, o que limita muito sua ação, exigindo um cuidado irritante na hora de disparar.

Alguns jogadores HardCore porém, descobriram um meio de trapacear dentro jogo, alterando a cor de seu personagem para amarelo, tal qual a seleção brasileira. Quando a trapaça é habilitada os policiais ficam cegos e não conseguem encontrar o alvo para atirar, inclusive confundindo-os com alguém do seu time. Já outros jogadores dizem ter conseguido o mesmo efeito, mas alterando a roupa dos personagens para um jaleco branco. Os produtores preferiram não comentar a respeito de tais bugs e disseram ser invenção de jogadores canhotos.

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E você, o que está esperando para jogar? Mergulhe de cabeça nessa aventura que promete fazer sucesso no Brasil nas próximas décadas. Não fique de fora, acesse soucontraeducacaopublicadequalidade.coxinha.br e adquira já o seu, é de graça.


Texto em homenagem aos professores grevistas no Paraná

Gustavo Nogueira de Paula