A transformação de meninas em antas.

Era uma aula de sociologia/antropologia durante a graduação em Educação Física. O professor, um dos melhores que já tive na vida. O texto a ser discutido era dele, intitulado “A construção cultural do corpo feminino, ou o risco de transformar meninas em ‘antas”. Não, ele não achava que nenhuma menina era anta, ou algo do gênero, nem gostaria de transformá-las nisso. Tratava-se de um relato de umas de suas alunas, quando ainda dava aulas em escolas públicas, que ao errar um lance durante uma partida de vôlei exclamou “Eu sou uma anta mesmo”.

Trocando em miúdos o texto se referia a como reprimimos a participação das meninas em atividades tidas como “masculinas” e como isso acaba por refletir em seus corpos e em suas atitudes. No caso, a garota não tinha contato nem proximidade com jogos ou esportes e se sentia mal por isso, culpando a si mesma pela relativa inabilidade em tais atividades. A discussão central da aula era o machismo presente neste meio e como devemos/podemos agir para acabar com isso.

MACHISMO 1

Pois bem, situação semelhante nós encontramos nos jogos de videogame. É um ciclo básico: Sem representação as meninas tendem a não gostar muito de jogos; as que gostam são excluídas e/ou passam por situação humilhantes; menos mulheres se interessam por participarem da produção de jogos; as que participam sofrem perseguição; isso gera menos diversidade na indústria de games; menos diversidade igual menos representatividade; isso atrai menos meninas… não preciso continuar.

Obviamente trata-se de uma simplificação de minha parte, existem vários fatores para ampliar essa cadeia. Para piorar tudo isso e apimentar com ares de crueldade eu acrescento o comportamento de boa parte dos jogadores. Sim, de boa parte, não posso pegar leve com eles. Ou rejeitam ou tentam humilhar as jogadoras, seja pessoalmente ou em jogos online (pela internet todo mundo estufa o peito e tem coragem de colocar os preconceitos para fora).

Volto ainda a outro assunto, sem medo de soar repetitivo: a imprensa que fala sobre jogos é omissa, despreparada e igualmente machista na maioria dos casos, seja ignorando o que acontece, seja tratando a situação como se fossem casos isolados e de forma caricata. Se duvida, veja estes dois links da Marie Claire (isso mesmo, da Marie claire) que apresentam notícias de forma bem mais contundente do que a maioria dos portais brasileiros sobre games. A primeira delas fala sobre o preconceito com jogadoras e a segunda sobre o caso GamerGate,  que deu o que falar lá nos EUA e que mal apareceu por aqui.

É impressionante como aqui no Brasil isso passa quase batido. Pouco abordamos o tema, mesmo já sabendo que o número de jogadoras vem crescendo. O que sobram são comentários jocosos e sexistas a esse respeito. Jogar qualquer coisa online chega a ser um desafio mental quando há uma mulher no servidor, tanto pelas baixarias infantis que somos obrigados a ver, quanto pela vergonha alheia de presenciar ofensas e recalques de jogadores derrotados.

Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar
Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar

Precisamos debater o assunto de forma mais contundente, com o protagonismo feminino e de forma clara, sem pegar leve com a mídia ou com os jogadores, que muitas vezes acreditam que este seja um “problema menor” ou até mesmo inexistente. Não é raro encontrar quem pense que isso é coisa de “gente da esquerda socialista” ou babaquices semelhantes.

Se preciso for, voltarei ao tema toda vez que me deparar com alguma notícia relacionada ao tema ou quando ficar sabendo de algum acontecimento específico. Ainda aguardo pelo momento em que encontraremos um Newsgame que ironize essa situação.


Gustavo Nogueira de Paula

PS: Que o título deste texto mexa com a curiosidade das pessoas e que leiam o texto todo antes de xingarem toda minha família

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