Errar, recomeçar e errar de novo

Certamente você deve se lembrar de erros terríveis que cometeu, jogando videogame ou não. Estes erros são fundamentais para todos nós, pois é através deles que ganhamos experiência, aprendemos e nos tornamos pessoas jogadores melhores. Com certeza eles causam momentos de frustração, raiva, vontade de desistir e tudo mais, mas aí respiramos, pensamos em como podemos acertar da próxima vez e tentamos tudo de novo. Imagine quantas vezes um jogador precisa perder para memorizar onde cada inimigo se encontra e se comporta num jogo como Dark Souls. Logicamente, nos videogames a derrota é assimilada tranquilamente, sobretudo quando jogado casualmente e essa é parte da lógica presente nos mesmos. Impensável seria um jogo em que fosse impossível perder, ou que não houvesse diferença de pontos no final. A ideia é justamente ensinar o jogador sobre aquele sistema, sobre aquele mundo, tornando o jogador mais apto a jogar, sendo mais competitivo, tendo sempre a oportunidade do recomeço, por mais irritante que possa ser as vezes.

Erre, tente outra vez
Erre, tente outra vez

Entretanto, essa lógica não é encontrada em todo lugar. Tomando o exemplo da escola, ou do mercado de trabalho: o erro normalmente não é momento de aprendizado, mas sim um momento de punição, gerando prejuízos, constrangimentos e medo de agir da próxima vez. Ainda que seja possível tentar novamente nos dois casos, os problemas gerados pelos erros são encarados de forma tão temerária que não é raro encontrar pessoas com receio de correr novos riscos.

Mesmo assim, os videogames não são vistos como algo sério, apesar de possuírem um sistema interessante de tentativa e erro, que permite a todos uma nova oportunidade, que permite a todos aprender de forma divertida e tentar novamente, isso não parece ser suficiente.

Obviamente, não podemos comparar o mundo do trabalho, ou outras esferas da vida, com uma fase de videogame, mas com certeza podemos rever nossos modelos e também aprender com diferentes formas de encarar as coisas, basta disposição e um olhar diferenciado aos mais variados modelos, já que não a toa os videogames são um sucesso crescente no mundo.


Dedicado a uma pessoa especial em minha vida

A ordem na desordem

Não, o Game&Críticas não foi desativado. Seu criador e escritor estava apenas ocupado entre afazeres diversos, mas está de volta, após acompanhar boas palestras, jogos, conversas e outras coisinhas mais. Já está na hora de voltarmos às nossas discussões que envolvem os Games e diferentes situações/reflexões políticas, sociais e assim por diante.

Huizinga nos mostra que os jogos possuem características bastante próprias, tais como um espaço delimitado, regras definidas, imprevisibilidade, entre outras. Caillois expande um pouco seus escritos e pensamentos, apresentando categorias de jogos e apontando para situações não previstas por Huizinga. Ambos os livros são leituras obrigatórias para qualquer um que estude jogos, sejam eletrônicos ou não. Porém, minha intenção não é a de resumir suas obras nessas míseras três linhas, mas apenas pontuar de onde vem uma das características mais marcantes do jogo, a qual explorarei mais adiante, as regras.

Categorias de Caillois
Categorias de Caillois

Parece óbvio dizer que um jogo possui regras e que elas precisam ser estritamente cumpridas durante uma partida. Nada mais incômodo e constrangedor do que flagrar alguém trapaceando, enquanto os outros disputavam de forma honesta. Mas por que existem regras tão rígidas assim? Em geral, as regras garantem padronização aos jogos, previne os jogadores de ficarem em situação de risco e trazem situação de igualdade durante as partidas. Imagine que numa partida de futebol fosse permitido por as mãos na bola, chutar os adversários e não houvesse linha de fundo. O jogo seria uma bagunça, feio esteticamente e poria todos em risco, retornando a uma arena de gladiadores praticamente.

Contudo, as regras visam ainda a algo mais: trazer igualdade e competitividade para os jogos, pois elas valem para todos os participantes. Não importa sua religião, sua origem, sua cultura, na hora do jogo todos precisarão jogar os dados, todos precisarão vestir o uniforme e assim por diante. Antes do apito inicial a situação é de igualdade, numérica e de regras. Em tese, isso garantiria que todos possuem chance de vencer uma partida, pois todos são iguais perante as regras. Apenas em tese.

Como eu gosto de futebol, sempre me utilizo de exemplos vindos deste esporte e farei isso novamente, a fim de ser o mais claro possível durante minha argumentação: Num jogo entre Barcelona e o time de futebol dos meus amigos, quem tem mais chances de ganhar? Acho bastante improvável que alguém aposte em mim e nos meus amigos, mesmo garantindo que nos esforçaríamos ao máximo. E por que isso? Ora, competir com o Barcelona seria desleal, pois eles possuem todo um aparato voltado para o futebol, com treinador, preparadores, tempo, treinos, alimentação, estudos, cuidados, médicos e mais uma lista imensa de outras coisas. Já nosso time possui uniformes, muita camaradagem e bastante vontade de tomar cerveja.

Parece absurdo, mas vamos trazer o exemplo para outra competição, mais próxima da realidade, o Vestibular. Em teoria todos terão o mesmo tempo, responderão as mesmas perguntas e possuem as mesmas chances. Apenas em teoria. Enquanto alguns só tem tempo para ler (quando tem) no caminho do ônibus de casa até o trabalho/escola, precisam cuidar de 5 irmãos, se alimentam de feijão com farinha e tem polícia atirando na porta dia sim e outro também e estudam em escolas que comemoram quando tem papel no banheiro, outros candidatos tem aulas apenas com professores doutores, possuem biblioteca em casa, tem aulas extras em cursinhos, viajam para outros países, se alimentam muito bem, praticam esportes, visitam museus etc.

Parece bastante claro, pelo menos para mim, que a competição é bastante desigual, mas sob o olhar de muitas pessoas essa competição é justa, faltando vontade à pessoa do primeiro exemplo para conseguir triunfar na vida. Normalmente as pessoas que acreditam nesse pensamento fazem parte do segundo exemplo, creio que por maldade pura coincidência. É a tal meritocracia, mas de forma bastante distorcida e venenosa.

Parece que Yoshi não se esforçou o bastante
Parece que Yoshi não se esforçou o bastante

Os jogos são apaixonantes justamente por apresentar viradas inesperadas, por colocar na mesma arena pessoas ricas, pobres, de todas as cores e raças, apresentando possibilidades de resultados inesperados. Mas isso acontece somente no esporte competitivo, de alto nível e assim por diante. Acreditar que algo seja “transferido” para outras situações da vida é um pensamento absurdo e incrivelmente maldoso.

Na obra de Caillois o autor deixa bem claro que vivemos numa sociedade de competição e sorte. A parte da competição parece evidente a todos, mas a sorte parece algo mais subjetivo. Ele esclarece, por exemplo, que algumas pessoas tem a SORTE de nascer numa família bem bastada e que isso lhes dará vantagem competitiva no futuro. Aos amantes da meritocracia, recomendo muito a leitura, pois isso pode contribuir na compreensão da questão.

No caso dos jogos eletrônicos eu apenas me sinto um pouco prejudicado quando jogo algum FPS online contra algum adolescente que joga 10h por dia. Essa competição também é desleal, acreditem.


Gustavo Nogueira de Paula