O jogo da garotinha

Pense rápido e responda: Consegue falar o nome de um jogo em que a personagem principal seja uma criança de 11 anos (ou menos)? Caso tenha conseguido, esse jogo é cor de rosa e cheio de coraçõezinhos ou figuras similares? Empirismos a parte, sei que a maioria respondeu não à primeira pergunta e sim à segunda. Ainda bem que as vezes fugimos da regra, e com estilo.

Clementine

Já havia bastante tempo que eu planejava jogar o premiado Walking Dead, mas sempre posterguei, olhava com um ar suspeito para o jogo e para o prêmio. Superado o preconceito, graças justamente a uma ajuda feminina, fiquei de frente a segunda temporada do jogo, no qual assumimos o comando de Clementine, uma garotinha de 11 anos que tem muita personalidade, tanto para encarar os zumbis quanto os conflitos adultos que a cercam. Sobre estes conflitos vale a pena me debruçar um pouco mais.

Quem já assistiu Walking dead, algum outro seriado sobre zumbis/sobrevivência, filme de zumbi, ou qualquer outro produto de mídia que coloque pessoas lutando para sobreviver num mundo sem comida, energia etc, sabe que é comum observar seres humanos disputando poder, se matando por alimentos e travando verdadeiras guerras tribais para dominar determinados territórios. O jogo do WD não é diferente, mas no caso temos o poder de tomar determinadas decisões, sobre quem merece viver ou não, qual caminho a ser percorrido, para quem entregar os remédios e assim por diante. Lembre-se, tudo isso na pele de uma criança.

Parece o de sempre quando dito desta forma: Matar zumbis acéfalos, brigar por segurança, atirar nuns caras maus, escolher o caminho na bifurcação e assim por diante. Não deixa de ser isso em determinados momentos, mas essa é a parte superficial da narrativa. Na segunda camada é fácil observar que as personagens femininas são muito mais fortes (em geral), sem apelar para corpos forçados e imbecis, além de normalmente não entrarem nos conflitos sem sentido que os homens entram, disputando por qualquer pedaço de pão aos berros e socos.

Em determinado momento do jogo há um diálogo entre Bonnie e Clementine em que a primeira dizia estar cansada de estar cercada por homens que brigavam o tempo todo por nada, tentando mostrar uns aos outros quem era o alfa daquele lugar, algo patético. Não transcrevi a conversa com todas as letras aqui, mas essa é a ideia do que Bonnie quer dizer e isso é bastante evidente ao longo de todo jogo e construído de maneira orgânica, sem apelar para clichês ou julgando algum dos envolvidos. Tudo é apresentado de forma crua, num desenrolar bem construído e fluído. O enredo em si não foge da linha básica da grife zumbi, nem possui reviravoltas muito inesperadas, mas isso não é problema, pois WD consegue fazer algo que raramente é visto por aí, que é colocar uma protagonista carismática, criança e menina, sem apelar para infantilidades, com muito sangue e decisões complicadas. Muito machão jogou WD e deve ter gostado, provando que ninguém se torna menos homem por assumir o papel de uma garotinha em um jogo.

AmTR_Bonnie_Okay

 

Como ponto negativo, por assim dizer, vi um jogo com pouca ação, ou com uma ação um tanto desnecessária. Não há tanta graça em ter que apertar o direcional para esquerda, direita ou ficar apertando o X repetidamente para executar alguma tarefa em meio a diálogos longos e discussões pesadas. Os desafios são fáceis e só estão lá para te lembrar que se trata de um jogo e não de um episódio do seriado em que você pode controlar algumas decisões. Porém com isso a ação fica um tanto deslocada e desprivilegiada, acabando por se tornar desnecessária, o que não tira o brilho do jogo.

Recomendo bastante a experiência, sobretudo para aqueles que não conseguem imaginar a situação de controlar uma criança num universo tão adulto. Não é longo, então é possível dar um tempo nos hardcore da vida e dar atenção a este belo jogo da Telltale.

Gustavo Nogueira de Paula

PS: O Game&Críticas finalmente está de volta, após um esquecível 2015. A partir de agora as publicações serão quinzenais.

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3 comentários sobre “O jogo da garotinha

  1. Renato B.

    Feliz 2016 e bem-vindo de volta. A Telltale têm um gênero de jogo peculiar. Eu só joguei a primeira temporada, ainda com o Lee. E achava fantástico ver como a Clementine reagia ao comportamento dele. De fato o exercício de habilidades sociais me parece ser o forte do jogo e pelo que vi eles ainda não conseguiram dar uma solução realmente satisfatória para a parte de ação. Eu ficava com a mesma impressão que você. Sem contar que às vezes a solução fica muito travada, sinto falta de mais opções na parte das soluções físicas. Como sair de um lugar, como abrir uma porta. Em certos momentos eu tinha que ficar quebrando a cabeça para tentar imaginar o que o autor quer que eu faça, em vez de pensar no que eu faria. O que seria muito mais interessante.

    No geral a idéia de jogar em episódios é muito interessante e realmente fica algo muito mais tenso se lidar com um jogo de zumbis onde realmente se cria vínculos com os outros personagens, que podem morrer a qualquer momento, nisso acho que eles pegaram bem o espírito da série e do quadrinho. Inclusive acho que a dobradinha quadrinho/série/jogo é uma excelente oportunidade para alguns experimentos em transmídia.

    Em termos de imaginar usos didáticos, que é a minha diversão, vejo um ótimo potencial como exercício de inglês e para ensino de habilidades sociais. Sobre isso eu comento mais em https://teclogos.wordpress.com/2015/01/27/de-the-walking-dead-ate-treinamento-de-recepcionistas-videogames-poderiam-ensinar-habilidades-sociais/

    1. Gustavo de Paula

      Obrigado Renato!
      Concordo bastante com você. Seria interessante ver mais opções para fugir de um lugar/situação etc. Sei que não era o foco deles, mas poderiam ter caprichado um pouco mais nisso. No mais, vc falou tudo no seu comentário, mais uma vez!
      Abs

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