O inferno são os outros

eustace-tilley-new-yorker

Meu consumo é mais inteligente, meus gostos são melhores, sou mais bem informado, sou mais inteligente, frequento lugares melhores e assim por diante. Se você age e pensa como eu, ótimo, você também tem bom gosto e está correto. Agora, caso pense diferente de mim, sinto lhe informar, mas é uma pessoa de pouca classe.

Se não frequenta lugares finos, caros etc. lamento, mas não tem classe alguma. Toma cerveja destas comuns? Então serei obrigado a lhe dizer que tem um tremendo mal gosto e faz parte da massa, do povão. Compra suas roupas no Brasil e passa as férias por aqui mesmo? – Quanta pobreza de espírito. Votou no Lula e come mortadela? – Seu petralha nojento.


O texto acima é absurdo e pode parecer exagerado, mas infelizmente não é. Estamos vivendo um tempo em que as coisas são cada vez mais 8 ou 80, sobretudo no império do consumo (que vale também para o consumo de ideias, estilos e valores). Com o acirramento das disputas políticas, muitas práticas, pensamentos e estereótipos tem sido associados aos “dois lados”, cada qual sofrendo suas consequencias, gerando inclusive vários casos de violência física e verbal. Mas esta pressão de consumo e diferenciação através dos gostos e escolhas também tem atingido os games de maneira contundente.

De tempos pra cá, admitir ser consumidor de jogos AAA pode parecer uma confissão de ignorância e mal gosto. Não ter instalado no celular ou no computador os grandes indies da moda pode pegar muito mal em feiras de tecnologia ou em eventos acadêmicos. Sequer conhecer estes jogos então é praticamente uma sentença de morte.

Grosso modo, esse gamesnobes geram mais aversão do que conquistam fãs, devido a uma postura extremamente elitista, que parte tanto de pesquisadores como de jogadores mais “envolvidos” com o meio, vamos assim dizer. Não basta falar sobre os jogos dos quais se gosta, mas parece haver a necessidade de ridicularizar o gosto alheio, sobretudo se tratar-se de um jogo mais popular.

A comunidade gamer tem protagonizado cada vez mais cenas de extremismo e preconceito (que sempre estiveram lá, mas não eram escancaradas pela internet). O exemplo dos gamesnobes é apenas um deles. São notícias quase diárias de comportamentos infantis e deploráveis. Ainda hoje li que a comunidade de jogadores inundou o canal do Steam com reclamações a respeito do personagem transexual presente na expansão de Baldur’s Gate.

Siege-of-Dragonspear

Pior do que isso é ver um brasileiro defender o personagem e ser chamado de gay enrustido, esquerda fdp e petralha. Da para perceber bem o nível de argumentação dos agressores. Acho que os indies brasileiros vão até pensar duas vezes antes de criar um personagem que use roupa vermelha hoje em dia.

É fundamental que os demais jogadores sejam duros com esse tipo de comportamento, reportando e denunciando. E se você conhece todos os indies do mundo e não joga mais nenhum AAA, seja legal, apresente estes jogos a seus amigos e lembre-se que foi através dos jogos mais populares que você conheceu os videogames.

Gustavo Nogueira de Paula

 

Anúncios

2 comentários sobre “O inferno são os outros

  1. Jose Antônio

    Acredito que você conheça Bauman e seu livro “A modernidade líquida “. Pois bem, este universo dos games que você trás o tona, ele emerge num mar de consumos, os mais diversos.
    E a semelhança de outras áreas, principalmente as culturais, os games se inserem sem que seus participantes tomem ciência de que estão pura e simplesmente reproduzindo o mesmo padrão das outras.
    Vivemos a era do consumo, isso é fato, e admito não é reprovável, mas o comportamento que adotamos diante do consumo é que deveria ser matéria de discussão.
    Por isso entendo que este texto foi muito assertivo, pois mais do que discutir gostos, por esse ou por aquele game, devemos discutir nosso comportamento diante do consumo.
    Não podemos nem devemos evitá-lo, afinal faz parte intrínseca de nossa sociedade, mas sim o que fazemos dele, o consumo, e como nos comportamos tendo ele como um dos pilares de nossa sociedade ocidental.

    1. Gustavo de Paula

      Os livros do Bauman são ótimos e fazem cada vez mais sentido hoje em dia. O fetiche do consumo tem atingido níveis impressionantes e parece que ódio tem voltado com toda força para as discussões da sociedade. Esse elitismo tem sido muito prejudicial para os games e já andei vendo inclusive que os indies estão fazendo exatamente o contrário daquilo que se esperava deles e afastando novos jogadores, ao invés de aproximar.
      Obrigado por comentar!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s