Uma geração de idosos, com 30 anos de idade

Brincadeira de rua

Sou daqueles que cresceram brincando na rua. Bem próximo a minha casa havia uma rua sem saída, uma travessa, que apesar de estreita, era perfeita para nossas partidas de futebol, esconde esconde, pular corda, jogar tazo, bolinhas de gude, soltar pipa e mais um monte de brincadeiras com toda a molecada, que se divertia bastante criando um cascão no pé e ficando bronzeado com o sol do interior de São Paulo que ardia forte sobre nossas cabeças.

Se bem que na verdade, minha travessa sem saída não era tão perfeita assim para as brincadeiras que acabei de descrever. Havia muitos fios, nos quais as pipas frequentemente se enroscavam (era frequentes os curtos e as quedas de energia devido a isso), os carros estacionados deixavam a rua ainda mais estreita para os jogos de bola e não era incomum ver algum dos veículos ser atingido pela bola, causar algum pequeno amasso na lataria e um pequeno ataque de fúria em seu dono. Assim como também era comum ver alguma senhora idosa ter lampejos de raiva e furar as bolas que caiam em seus quintais. À época eu não conseguia entender como alguém poderia ficar tão furioso por apenas algumas dezenas de boladas barulhentas no portão ou por ver garotos pulando o muro do quintal para pura e simplesmente buscar o objeto esférico que havia voado para muito longe depois de um chute mal calculado.

Bom era o tempo em que brincávamos na rua, bem diferente dessa geração que só sabe se ligar a objetos eletrônicos.


 

O texto acima é sim autobiográfico e conta uma minúscula parcela de minha infância. Eu realmente brincava na rua e fazia as estripulias tão conhecidas dos livros infantis. Mas não era só isso, pois eu também era um ávido jogador de videogames. Corria pra casa quando conseguíamos algum jogo novo e me deliciava em passar horas resolvendo enigmas, ganhando corridas, lançando hadoukens e por aí vai. Minha infância comportou muito bem esses dois tipos de atividade aparentemente distintos.

O porque de eu estar falando sobre isso? Pela nítida razão de que o fato de uma coisa ser boa, não faz com que automaticamente a outra coisa seja ruim. Esclareço voltando ao universo próprio dos games.


Se você é pesquisador ou apenas jogador, não faz diferença: em ambos os casos eu recomendo veementemente que jogue Diablo (PC e Console). São três jogos na série, com o primeiro surgindo na já distante década de 90, somente para PC (depois para Playstation, mas em uma versão de pouco ou nenhum impacto). Eu joguei o primeiro quando era um pré adolescente e fiquei impressionado com o (nome do) jogo na época. Parecia que eu fazia parte de um clã de ocultistas infernais que a qualquer momento invocaria um ser do mal para assustar as pessoas. As imagens de corpos pendurados no inferno, a variedade de monstros e itens, o desafio, as sombras… tudo essa atmosfera fez quase que instantaneamente Diablo um dos meus jogos favoritos.

Passado um tempo, Diablo 2 foi lançado. O medo e a sensação de pertencer a um clã ocultista já não existia mais, mas o jogo continuava a me agradar. Era bem diferente do seu antecessor, com mais cores, mais itens, mais lugares a serem explorados, mais inimigos etc. No fundo, eu ainda preferia o primeiro, mas a possibilidade de trocar itens online com meus amigos falou mais alto e mais uma vez dediquei algumas centenas dezenas de horas a Diablo.

Praticamente uma década depois, é lançado Diablo 3. Parecia que realmente haviam convocado o próprio Diabo para lançar o jogo, pois ao mesmo tempo em que ele vendeu uma quantidade incrível de cópias, foi absurdamente criticado por ser colorido, fofo e divertido, algo que os fãs do clássico Diablo 1 consideravam uma afronta aos games da série.

eurogamer-4v1jge.jpg

Não vou julgar aqui a qualidade nem as escolhas estéticas de Diablo 3, até porque já mencionei este jogo em outros textos, mas vou falar brevemente sobre este ataque quase histérico que os jogadores antigos tiveram. Em determinados momentos, parecia que a desenvolvedora do jogo, a Blizzard, devia satisfações aos jogadores, quase pedindo desculpas por pensar diferente deles. Acho engraçado como a comunidade de jogadores se engaja tanto em prol de uma causa como esta, mas passa praticamente batida quando há relatos de preconceito ou violência dentro dos games. Também considero como algo delicado jogadores esperarem, em pleno ano 2012 (ano do lançamento de Diablo 3) o jogo seja igual a algo produzido em 1996. Realmente são pensamentos divergentes, pois enquanto reclamo da falta de criatividade na indústria de massa, uma legião de jogadores (que se consideram mais entendidos do que muita gente) literalmente clamam por mais do mesmo. Isso porque tem apenas 30 e poucos anos de idade. Tenho pena de quem precisar conviver com estes idosos no futuro.

Independente de defender o terceiro jogo da série enquanto um jogo bom ou ruim, posso afirmar que ao jogá-lo com uma jogadora não hard core, que teve seu primeiro contato com a série a partir desta edição, Diablo 3 cumpre com muita folga seu papel de prender o jogador e diverti-lo, com uma história que inclusive despertou bastante interesse, através de animações muito bem feitas e dirigidas.

Cada jogador precisa entender que os jogos não são feitos apenas para seu próprio umbigo ou para seu círculo de amigos de infância. Trata-se, antes de mais nada, de um imenso mercado e à semelhança de outras grandes mídias, as grandes produtoras caminham atrás das pesquisas de opinião.

287542_Papel-de-Parede-Farol-Nao-Tal-Vez-Sim_1680x1050

Repito, não se trata de defender Diablo 3 como um jogo bom ou ruim, mas se você não gostou tanto, sinto lhe informar, mas pode ser que você esteja ficando velho e um velho ranzinza.


Gustavo Nogueira de Paula

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s