Coisas que não se discutem

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Desde criança se aprende: Futebol, política e religião não se discutem. No caso do futebol e da religião ainda consigo realizar um esforço para compreender que ambos lidam com questões que extrapolam o pensamento racional, exigindo fé, força de vontade, crença e uma série de outros detalhes característicos de cada uma destas atividades. Ainda assim, obviamente os dois são completamente passíveis de serem discutidos, afinal atribuir pensamentos, comportamentos e filosofias apenas a algo que extrapola nosso conhecimento técnico é entregar de bandeja o poder e a força para os mandatários de ambas as esferas. Porém, o que tem me deixado preocupado é o quanto a política entrou para este ramo do transcendental, genético, moral etc a ponto de não poder ser discutida ou debatida. Parece que a partir do momento que você define “um lado” isso se torna imutável e terá que defendê-lo até o fim. Vejamos:

Discutir política com familiares se tornou difícil. São vários os relatos de brigas e exclusão das redes sociais. Na ensino corre a ideia da escola “sem ideologia” (inacreditável pensar nisso em pleno século XXI, mas sigamos). No trabalho isso se torna um campo minado, pois uma opinião errada e seus colegas podem lhe  virar a cara (tenho sorte nesse aspecto!). Seja para qual for a direção que olharmos, fica difícil realizar um debate inteligente. Digo inteligente, pois o ódio está tão disseminado que as pessoas se forçam a acreditar que, por exemplo, congelar gastos públicos vai ser melhor para a população. Isso não pode ser uma conversa inteligente.

Mas não sou cientista político, nem vim para falar da política em si, mas sim de um fato ocorrido. Se nas referidas esferas está difícil conversar e aprendermos mais sobre política, onde poderemos fazê-lo? Indo contra a corrente do ódio, acredito que todo lugar tem espaço para discutirmos política de maneira saudável, inclusive nos games.

Nos últimos posts fiz algumas brincadeiras, analisando jogos que não existem, criados pela Ironic Games, que também não existe. A ideia era demonstrar que os jogos podem servir como texto capaz de expressar não apenas o cenário político atual, mas também levantar discussões a respeito, colocando o jogador na pele dos participantes de protestos, do eleitor brasileiro etc. Um jogo destes viria para concorrer com Angry birds, FIFA, Pokémon, Mario e qualquer um dos grandes do mercado? Obviamente não! Um jogo nessa linha serve para tornar a discussão mais acessível, sobretudo para os mais jovens, ao mesmo tempo em que realizava uma crítica bem direta a acontecimentos recentes.

Quem trabalha com jogos não começa liderando a equipe da Blizzard, ou da Ubisoft. Precisa primeiro participar de equipes menores, criar jogos interessantes e desenvolver um portfólio atraente. Para isso, qualquer jogo é jogo, desde que a ideia seja boa e bem desenvolvida. É típico do aspirante acreditar que vai inventar o novo Minecraft a toda semana, ou que irá faturar horrores logo com seu primeiro jogo. Aí vai uma dica: Um jogo bem feito, mesmo que não rentável, pode te colocar no radar de empresas e equipes maiores, um processo natural dentro deste mercado.

Pois bem, por que estou dizendo isso tudo? Pela recepção bizarra que os últimos dois posts tiveram. É triste ver os próprios desenvolvedores indies argumentando da seguinte maneira: – O cara conseguiu levar a briga coxinha vs mortadela para os jogos, pqp. – Serious games não servem pra nada. – Jogo não tem que ter política, vá a m***.

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Não vejo problema algum nas pessoas discordarem das minhas ideias, mas este nível de argumentação beira o assustador. Por que um serious game não poderia adentrar a escola, um portal de notícias, uma empresa ou algo assim? Se a política não pode entrar no meio dos games, nem na escola, nem na família, como vamos educar as crianças para que sejam adultos mais críticos e participativos (coisa que estes aí mencionados pelo visto não são).

É de se lamentar o quanto a indústria dos games ainda é fechada, machista e pouco crítica. A esperança pode até estar nos indies, mas precisamos de uma nova geração de indies para que algo aconteça.


 

Gustavo Nogueira de Paula

 

 

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Um comentário sobre “Coisas que não se discutem

  1. Renato B.

    Ideologia é como sotaque: todo mundo tem, mas a pessoa só repara quando é diferente do dela. Pensando só em termos de negócio eu acho que os designers estão perdendo um belíssimo mar azul em não explorar esse momento. Mas sair da zona de conforto é sempre um esforço e a reação que você observou para mim é só isso, o desejo de ficar na zona de conforto.

    O escola sem partido para mim é um movimento que até levanta uma hipótese possível, mas a solução deles é ruim de doer. Acreditam que a solução para uma suposta ditadura é outra ditadura, igualzinho os caras de luta armada que criticam. Eu ainda acho que alguém tem de fazer um estudo sobre como radicais idiotas em lados opostos são parecidos e conseguem fazer uma cooperação involuntária que ferra a vida de todo mundo.

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