Questão de oportunidade

Em tempos que se fala tanto em meritocracia, da forma mais nefasta possível, resolvi lembrar de uma experiência pelo qual passei exatamente um ano atrás. Fui convidado para participar de uma mesa de debate sobre games na fundação Salvador Arena, em São Bernardo do Campo – SP. Na plateia, aproximadamente 600 crianças e adolescentes entre 10 e 16 anos. Junto a mim, mais dois profissionais da área, mas ambos voltados para a produção de jogos propriamente dita.

A escola/fundação é um lugar simplesmente incrível, referência em educação, com instalações surpreendentes e professores engajados e motivados a trabalharem. Caminhar pelo local realmente encantou a mim e aos outros convidados, tamanha a beleza e organização do local.

Quando fomos apresentados pelo professor mediador, ficou bastante nítido que eu era uma personalidade um tanto diferente ali, devido à natureza do meu trabalho com games. Tanto que ao iniciar minha fala, me coloquei como o patinho feio dentre os presentes. Comentei com os alunos a respeito da minha formação, educação física, e meu mestrado em linguística, tentando mostrar a eles que o trabalho com jogos vai além da programação etc e que, com o tempo, mais e mais profissões ligadas ao meio irão surgir. Ainda durante minha fala, disse que sou crítico de jogos e que em muitos dos meus trabalhos, textos e pesquisas, costumo abordar pontos como machismo, política, sociedade etc. Isso nitidamente gerou um burburinho no teatro, mas não consegui compreender bem os motivos no momento. Fiquei me questionando se não estava falando coisas muito pesadas ou complexas para aquelas crianças e adolescentes. Por fim, todos da mesa falaram e os professores orientaram as crianças a enviarem perguntas a nós através do bloco de anotações que todos haviam recebido para a atividade. Neste momento a diversão começou.

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Foi simplesmente incrível e gratificante ver a quantidade de perguntas que recebi naquele dia. Os papéis começaram a chegar até a mesa numa proporção de 5 pra 1  em relação ao pessoal que produzia games e as perguntas foram de encher o coração de orgulho e esperança. Uma quantidade imensa de meninas, nas mais variadas idades, questionando sobre a falta de participação feminina no meio dos jogos, do machismo que sofreram em jogos online, criticando o corpo da Lara Croft e de outras personagens, sobre o desejo de serem produtoras e mudarem isso um dia etc. Vários meninos comentando e perguntando sobre os passos para criticar um game, a vontade de escrever a respeito, criar blogs, sites, canais no youtube e muito mais. Eram perguntas muito maduras e bastante engajadas, que me pressionavam a uma boa resposta, com argumentos consistentes.

Ao final, ainda fiquei com dezenas de perguntas na mão para responder a eles pessoalmente ao sairmos do teatro. Neste meio tempo, recebi vários desenhos como presentes das crianças, que iam desde uma caricatura minha (muito bem feita por sinal) até personagens de jogos com frases de incentivo ou algo assim. Muitos deles pediram para tirar fotos, assinarem seus cadernos, etc. Não há dúvidas que este foi um dos dias mais felizes que tive até hoje durante minhas pesquisas e trabalhos com jogos.

Mas volto a reflexão que deu início a este texto: Quantas crianças possuem a oportunidade de estudar num local assim, que convida palestrantes para falar sobre jogos, de maneira franca e direta, sob diversos pontos de vista e que ainda possibilita o debate de ideias com os participantes? Feliz por estes que tem essa oportunidade, que com certeza terão mais chances de êxito no futuro. Em relação aos que apenas consomem a mídia de forma pouco crítica e sem grandes reflexões, não dá para culpá-los se nunca foram orientados a fazer de forma diferente. Não se trata de uma questão de mérito, mas sim de oportunidade e, em muitos casos, de privilégios.

Por mais eventos assim nas escolas e por mais oportunidades a todos. Basta ver o circo político que o Brasil se tornou para termos cada vez mais certeza da importância de capacitar as pessoas a serem mais críticas em relação às mídias, todas elas.


Gustavo Nogueira de Paula

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Um comentário sobre “Questão de oportunidade

  1. Anderson do Patrocínio

    Parabéns pelo seu trabalho, que mesmo sendo feito em um blog modesto – e portanto, escondido do grande circuito de críticos da área – , acaba de ganhar mais um leitor!

    Um abraço!

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