Left is dead

A indústria brasileira de games continua a todo vapor! Após o estrondoso sucesso de “Democracy GO”, a empresa Ironic Games lança mais um título, dessa vez se aproveitando do filão dos jogos de tiro e de zumbis, o “Left is Dead” (imagino que qualquer semelhança com o nome Left for dead não seja mera coincidência).

O jogo não prima pela originalidade, se utilizando dos já conhecidos clichês das histórias de zumbis: Alguma coisa de ruim aconteceu e agora você tem que sobrevier a ordas de zumbis que vagueiam pela rua num mundo pós apocalíptico. A parte interessante é que conseguiram trazer isso para algo mais próximo do nosso meio, ambientando o jogo nas ruas brasileiras de algumas das principais capitais brazucas. Segundo a assessoria de imprensa da Ironic, até o fim do ano todas as capitais e até algumas cidades do interior já estarão disponíveis.

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Mais uma vez, se trata de uma mecânica de jogo simples e conhecida da maioria dos jogadores: Em primeira pessoa, o personagem precisa sobreviver em meio ao caos gerado pelos zumbis e muitas vezes correr é a melhor das opções. São pouquíssimas as armas disponíveis e o suporte também é escasso. A dificuldade é alta e é bem provável que você perca bastante antes de conseguir chegar até o final, se é que vai conseguir.

A parte interessante do jogo se dá na seleção de personagens, ambientação e na caracterização incrível dos principais inimigos. Na tela inicial há apenas as opções de “Novo jogo” ou “Continue”, ao som de Chico Buarque de Holanda, que casou bem com a proposta da Ironic. Ao clicar em “Novo jogo” você é levado/levada a tela de seleção de personagens, que são poucos e não customizáveis, o que dá a impressão do jogo não estar completo, apesar de prometerem novidades ainda esse ano. São:

  • Jean – Homem branco e de barba, camiseta vermelha e bermuda rasgada. Vem equipado com vinagre e é o que mais corre;
  • Glória – Mulher negra, com roupa ao estilo afro. Vem equipada com vinagre e um pandeiro. Tem incrível força e capacidade de ataque, mas corre pouco e é mais perseguida do que os outros personagens;
  • Paulo – Uniforme do sindicato completo. Equipado com uma bandeira, que pode virar arma em casos de desespero. Vem sem vinagre, mas carrega kit de cura (sanduíche).

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Como gosto de desafios, escolhi logo a fase que os desenvolvedores consideram como sendo a mais difícil: Avenida Paulista, em São Paulo. Pude atestar que eles não estavam brincando.

Diferentemente de outros jogos nessa linha, em que tudo está destruído e coberto por vegetação, em “Left” o cenário parece limpo e bem cuidado, não dando a impressão inicial que se trata de um apocalipse ou algo do gênero. Mas basta caminhar um pouco para sentir que o game não é moleza. Ao seu lado caminham os outros dois personagens não escolhidos (no meu caso escolhi o Jean). Logo de cara começam a surgir os primeiros zumbis, pessoas brancas usando camiseta da CBF ou camisetas brancas. Não demora e você já percebe que nem vale a pena entrar em confronto com eles, a não ser para ganhar experiência. As armas inicias são megafone (para conversão) e alguns panfletos que você precisa ficar entregando até afastar os zumbis.

Com o tempo começam a surgir os zumbis mais poderosos: alguns homens com a cabeça raspada e muito fortes, algumas senhoras com cachorrinhos a tira colo e alguns outros que portam taças de champanhe. O megafone não funciona com nenhum deles, tão pouco os panfletos. Se a essa altura você não tiver conseguido o equipamento de disfarce (Iphone e roupa de marca) é derrota na certa. A dica aqui é começar a correr o máximo que puder, pois os inimigos seguintes são ainda mais desafiadores.

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Já correndo e em pânico para não dar game over, comecei a encontrar ordas e mais ordas de inimigos conhecidos como Bolsominions. Eles não possuem cérebro e vem esbravejando em sua direção. É incrivelmente difícil passar por eles, pois são muito agressivos e as suas armas tendem a não funcionar. A sorte é que normalmente eles se viram uns contra os outros e acabam por se matar.

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Mas foi nesse momento do jogo, num ato desespero, enquanto corria sem prestar muita atenção no cenário, que encontrei o que acreditava ser um ponto seguro: Personagens cujo uniforme estava escrito “Proteger e servir”. Doce engano. Tratava-se simplesmente dos inimigos mais poderosos. Sedentos por nos matarem, portavam todo tipo de armamento, coletes, carros, escudos e tudo mais que se possa imaginar. Usei meu estoque de vinagre, mas não resolveu muito e acabei morrendo umas 5 ou 6 vezes. Não tenho orgulho em dizer isso, mas a única forma que encontrei de passar deste chefão foi trapaceando e digitando o código “Propina”, que os torna bem dóceis e em alguns casos chegam até a lutar ao seu lado.

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A história do jogo não é muito clara, não dá para entender bem o porque dos zumbis atacarem. Nos fragmentos narrativos que são apresentados, dá a entender que eles se transformaram devido ao ódio que sentiam e que atacam pelo prazer da destruição, não pretendendo criar uma nova sociedade ou algo assim. Uma pena criarem monstros e inimigos tão interessantes, mas com motivações tão rasas assim.

Sobre a dificuldade do jogo, a galera da Ironic me disse por email que “se trata de um jogo feito para jogar no modo cooperativo. Sozinho ele realmente é impossível. A ideia é que os jogadores se conectem para derrotar o inimigo, quanto mais gente melhor” disse.

Não dá para dizer se o jogo vai vingar por aqui, mas não deixa de ser mais um opção interessante em nosso mercado cada vez mais saturado e clemente por algo novo.

Mais uma vez, esse jogo não existe

Gustavo Nogueira de Paula


OBS: A última foto foi retirada do G1 e a legenda original era simplesmente incrível: Vídeo flagra manifestante agredindo policial em protesto de professores

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Democracy GO

Na esteira do sucesso de Pokémon GO, eis que já lançaram novo jogo baseado no atual cenário político brasileiro, o Democracy GO. Sátira que se apoia escancaradamente no fenômeno nipônico, Democracy GO aproveita o sucesso mundial e recria  uma crítica ácida através do formato e estética do jogo de capturar monstrinhos. O objetivo principal é capturar o máximo de golpistas possível, nesse jogo em que é difícil entender que é amigo e quem é inimigo.

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Para a caracterização do personagem não há grandes opções, mas elas são bem interessantes:

  • Camisa da CBF
  • Roupa Armani
  • Estampa Pixuleco

Entre os acessórios, também pouca coisa:

  • Óculos escuro
  • Cachorrinho  de colo
  • Faixa de apoio ao golpe militar
  • Pato de borracha

O avatar pode ser homem ou mulher e todos eles podem usar quaisquer um dos itens e acessórios durante a customização. Estranhamente não dá pra escolher a cor da pele do personagem, que é branca desde o início, mas não sei bem o porque.

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Como se trata de uma cópia, a mecânica do jogo é idêntica, você precisa arremessar bolas para capturar seus corruptos favoritos. De início você pode escolher um entre os três disponíveis que surgem assim que você cria o personagem: Temer, Cunha ou Calheiros. Há ainda um easter egg, que você descobre ao fugir três vezes destes corruptos iniciais, que lhe permite começar direto com Paulo Maulf, um dos corruptos favoritos dos jogadores.

A estrutura do jogo é simples: basta andar pela cidade a procura dos monstrinhos e tentar capturá-los. Estudos iniciais mostram que a quantidade de jogadores no estado de São Paulo é impressionante, bem como o número de corruptos para capturar. Os corrupstops ficam em lugares tradicionais, como monumentos que homenageiam militares, câmara dos vereadores/deputados, prédio da FIESP, bancos etc. No lugar dos ginásios foram colocados CPI’s, em que você coloca seus parlamentares para lutarem. Normalmente ninguém perde nessas lutas, mas as vezes você acaba gastando seu dinheiro nos duelos.

Entre os mais raros dos monstros está Geraldo Alckmin. Segundo consta, ninguém conseguiu capturá-lo ainda. Por outro lado, Zé Dirceu’s aparecem toda hora, parece até com os Zubats de Pokémon. No lugar dos ovos de Pokémon GO você consegue fazer nascer alguns filhos e netos de políticos, ou consegue angariar alguns seguidores de movimentos pseudo engajados, como Revoltados online etc. Essas incubadoras de seguidores de movimentos pseudo engajados rendem alguns dos monstros mais poderosos, com grande poder de ataque, apesar de péssima capacidade de defesa e vida.

E assim como não poderia deixar de ser, alguns são mais resistentes para serem capturados. Caso esteja enfrentando problemas, basta usar algum dos itens “propina” e eles chegam até a se jogar dentro da corruptoball. Dentre os itens mais poderosos estão o logo BR da Petrobras e alguma pasta de poder. Já o mais fraco dos itens é um pedalinho em formato de pato, que não consegue seduzir ninguém. Sinceramente, nem sei porque ele existe, visto que os outros itens são absurdamente mais poderosos e eficientes.

E se estiver com dificuldade em progredir no jogo, fique tranquilo, pois o cheat é liberado e até incentivado. No final das contas, quando chegar no nível máximo, todos irão dizer que foi mérito seu e que merece estar onde chegou. Mesmo com sua conta banida você pode continuar jogando e mantendo seu status.

Rumores ainda dizem que na próxima atualização você poderá escolher um policial para andar ao lado do seu avatar. Quanto mais selfies tirar com ele, mais XP ele ganha, podendo bater e atirar em qualquer inimigo que surja em seu caminho. Parece que a novidade já rola em alguns lugares, mas poucos jogadores tiveram acesso à novidade.

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Grande sucesso nacional, recomendo que instale agora em seu smartphone. Democracy GO parece que veio para ficar!

OBS: Obviamente esse jogo não existe

OBS 2: Esse blog está de luto pela democracia no Brasil


Gustavo Nogueira de Paula

Trono manchado de sangue

Alguns textos nós escrevemos esperando aprovação dos leitores, com direito a comentários de apoio e incentivo. Normalmente são textos que não costumam gerar muita discórdia e, por mais que até possam ser polêmicos eventualmente, acabam por agradar a maioria das pessoas, que refletem a respeito do tema e trazem ótimas contribuições para ampliar ainda mais o debate. Este texto que escrevo agora, não é um destes casos.

Com o passar do tempo, vamos nos conhecendo cada vez mais e valorizando aquilo que gostamos, deixando de lado as coisas com as quais temos menos afinidade ou interesse. Isso, e a velocidade de informação e transformação que as tecnologias proporcionam, fazem com que rapidamente fiquemos por fora de determinados assuntos, por mais que até gostemos dele. Quer um exemplo? Música. Conheço muito pouco do que toca atualmente, mesmo tendo acesso a ferramentas e aplicativos musicais que eu jamais sonharia ter quando era criança. No entanto, na maior parte do tempo ainda ouço música mais velha e isso vai gerando um ciclo constante de desatualização nesse sentido. Dependendo do círculo social que estiver frequentando esta “desatualização” pode não ser nada cool.

Porém, não vim para lamentar meu envelhecimento, nem minha desatualização musical, mas sim para falar de umas séries de maior sucesso da TV (talvez a de maior sucesso atualmente): Game oh Thrones. Série que, assim como na música, sou desatualizado e não gosto muito de ver.

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Todos (generalizando) assistem a GoT e rasgam elogios à série. Eu, como fã de Sr. dos Anéis, RPG, Caverna do Dragão etc, fui quase coagido a assistir também, anos atrás. Vi. Não gostei muito. Tempos atrás resolvi ver de novo e achei interessante: Cenários incríveis, figurinos impecáveis, boas interpretações, um roteiro bem construído e filmagens pra lá de bem feitas, porém, continuo não gostando. Não acho ruim, chato, mal feito, nem nada disso, mas simplesmente não consigo simpatizar completamente com GoT e há um motivo principal para isso: Violência gráfica extrema e com grandes toques de fetichização .

Estupro, arremesso de fezes, cabeças, muitas cabeças, rolando, explodindo etc, mortes, mortes, mortes e as vezes mais mortes. Todos episódios que assisti tiveram pelo menos meia dúzia de pessoas morrendo. Não estou falando de monstros, zumbis, dragões ou algo desse tipo, estou falando da morte de personagens humanos, com profundidade etc. Mais incrível ainda é ver o quanto as pessoas comemoram a morte de determinados personagens. Isso me choca bastante e me faz ter dificuldades com a série. Parece haver muito prazer na morte e na violência como um todo.

Como jogador e estudioso de videogame, sei bem o quanto os jogos podem ser violentos também. Não vou ficar aqui tentando mensurar o que é mais ou menos violento, mas enquanto experiência pessoal, pouquíssimos foram os jogos que experimentei que escancarassem tanto assim a morte das pessoas, muito menos com todo esse glamour e frequência.

Fique claro: Não estou fazendo juízo de valor a respeito da série, pois entendo perfeitamente bem os motivos do seu sucesso. Apenas não consigo me tornar fã, como supostamente eu deveria ser. Particularmente, não acho  que possa ser normal uma cena de um cara imenso estuprando uma mulher bem menor que ele, com ares de 1 a 1 a a a a game dany estuprada no pilotosensualidade.

Talvez seja como na música, estou ficando velho e meus gostos ainda são moldados pela minha memória afetiva, em que eu saltava sobre cogumelos, disparava cascos de tartaruga, metralhava alienígenas monstruosos ou zumbis, etc. Em Sr. dos anéis, no livro todo, a violência é descrita como algo maléfico (por mais maniqueísta que seja as vezes) e isso não o torna um conto de fadas, nem diminui seu brilho, muito pelo contrário.

Continue fã de GoT, pesquise, assista etc, mas por favor, repare nestes detalhes da próxima vez que assistir a algum episódio.

Gustavo Nogueira de Paula

Esse é pra casar, mas alguns são apenas pra diversão rápida

A maioria por aqui já deve ter entrado em contato com aquela clássica filosofia machista que diz que certas mulheres são pra casar (em geral as belas, recatadas e do lar), enquanto outras são apenas para curtir, ou passar a noite (em geral aquelas que usam roupas mais ousadas, independentes etc). Creio que hoje em dia essa nobre filosofia já tenha se estendido até aos homens, que também já são classificados como “para casar” e para curtir”, uma pena, isso limita e rotula bastante as pessoas.

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Comentários imbecis são bem fáceis de se encontrar pela internet, como este da imagem

Bom, não sou psicólogo, então não sou capaz de analisar o relacionamento das pessoas, nem sou concursado para juiz  para poder julgar nada, ou seja, vou falar de games e mídia, algo que me sinto mais apto a comentar e debater. Espero que assim minha analogia fique mais clara.

Neste fim de semana fui ao cinema assistir ao novo filme dos X-men: X-men Apocalipse. Particularmente achei o filme bem fraquinho, sobretudo se levarmos em conta o bom elenco e o potencial do próprio Apocalipse. Antes que alguém  em pergunte, não sou fã de quadrinhos e meu conhecimento a respeito dos X-men é superficial, baseado quase inteiramente na série animada que passava na Tv (muitos anos atrás). Ainda assim, por pagar meia, consegui assistir ao filme tomando chope e numa cadeira bem reclinada na sala Vip do cinépolis, ao lado da minha namorada. No conjunto, uma experiência agradável, mas não pelo filme em si. Dada a situação, volto à discussão inicial, destacando um pequeno trecho da crítica de X-men Apocalipse do Omelete.

Se não cumpre a expectativa em torno dos voo que alça, X-Men: Apocalipse ao menos tem o suficiente para cumprir seu papel como fonte de entretenimento.

Por que um jogo, um filme, livro etc pode ser “ruim”, mas ser salvo por apresentar “bom entretenimento”? O mesmo vale para o contrário: Por que algo (minimamente) mais denso não pode ser considerado diversão, passa tempo e tudo mais? Parece que temos maxresdefaultjogos/filmes que são para casar, ou seja, que devem ser levados a sério, que possuem qualidades mais profundas, que tem algo a nos dizer, mas fazem menos barulho, possuem menos explosões, menos pessoas morrem, possuem menos efeitos especiais, entre outras coisas. Enquanto outros, são mais rasos, mas são muito bonitos, então são apenas para curtir uma noite, não gerando grande conteúdo posteriormente. Nos entretém com grande visual, mas não da para levar muito a sério a longo prazo. Se da vergonha apresentar para a mãe aquela pessoa de uma noite, pega mal falar que gosta da mídia pop no meio das pessoas cult.

Considero essa divisão como algo bem ruim e bastante desnecessário. As pessoas precisam saber do que gostam e assumir isso sem medo. Acabamos vendo discussões ridículas nas redes sociais em que as opiniões se resumem a considerar aquilo que o outro gosta como lixo. Sou do tipo que gosta de algo mais profundo, tanto que é raro assistir a filmes de super heróis. Porém, se eu gostasse de super heróis, assistiria a todos, sem problema algum em dizer isso. O problema é assistir somente a filmes assim e acreditar que esta é a única “proposta” do cinema. Bem como o contrário, assistir apenas a filmes iranianos e acreditar que histórias do mundo pop não possuem valia. Vejo ambos como potencial de entretenimento, apesar de considerar apelação contar histórias cheias de furos, apenas para desfilar efeitos visuais e sonoros que hipnotizam os espectadores.

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Quantas vezes você já viu ou passou por isso?

Citando um exemplo bem pessoal, gosto tanto de Journey, como de Team Fortress 2, jogos com propostas bastante distintas, mas que possuem imenso potencial criativo e de divertimento, dependendo do olhar de quem os joga.

Que tenhamos mais jogos/filmes pra casar, independente da roupagem ousada que possuam, ou das atitudes que apresentem.

Gustavo Nogueira de Paula


Em tempo, gostaria de registrar aqui que o autor deste blog é completamente contra o golpe político em curso no Brasil. Que os leitores concordem ou discordem, é fundamental deixar claro que sou completamente contra o governo Temer e suas atitudes nefastas e conservadoras.

Uma geração de idosos, com 30 anos de idade

Brincadeira de rua

Sou daqueles que cresceram brincando na rua. Bem próximo a minha casa havia uma rua sem saída, uma travessa, que apesar de estreita, era perfeita para nossas partidas de futebol, esconde esconde, pular corda, jogar tazo, bolinhas de gude, soltar pipa e mais um monte de brincadeiras com toda a molecada, que se divertia bastante criando um cascão no pé e ficando bronzeado com o sol do interior de São Paulo que ardia forte sobre nossas cabeças.

Se bem que na verdade, minha travessa sem saída não era tão perfeita assim para as brincadeiras que acabei de descrever. Havia muitos fios, nos quais as pipas frequentemente se enroscavam (era frequentes os curtos e as quedas de energia devido a isso), os carros estacionados deixavam a rua ainda mais estreita para os jogos de bola e não era incomum ver algum dos veículos ser atingido pela bola, causar algum pequeno amasso na lataria e um pequeno ataque de fúria em seu dono. Assim como também era comum ver alguma senhora idosa ter lampejos de raiva e furar as bolas que caiam em seus quintais. À época eu não conseguia entender como alguém poderia ficar tão furioso por apenas algumas dezenas de boladas barulhentas no portão ou por ver garotos pulando o muro do quintal para pura e simplesmente buscar o objeto esférico que havia voado para muito longe depois de um chute mal calculado.

Bom era o tempo em que brincávamos na rua, bem diferente dessa geração que só sabe se ligar a objetos eletrônicos.


 

O texto acima é sim autobiográfico e conta uma minúscula parcela de minha infância. Eu realmente brincava na rua e fazia as estripulias tão conhecidas dos livros infantis. Mas não era só isso, pois eu também era um ávido jogador de videogames. Corria pra casa quando conseguíamos algum jogo novo e me deliciava em passar horas resolvendo enigmas, ganhando corridas, lançando hadoukens e por aí vai. Minha infância comportou muito bem esses dois tipos de atividade aparentemente distintos.

O porque de eu estar falando sobre isso? Pela nítida razão de que o fato de uma coisa ser boa, não faz com que automaticamente a outra coisa seja ruim. Esclareço voltando ao universo próprio dos games.


Se você é pesquisador ou apenas jogador, não faz diferença: em ambos os casos eu recomendo veementemente que jogue Diablo (PC e Console). São três jogos na série, com o primeiro surgindo na já distante década de 90, somente para PC (depois para Playstation, mas em uma versão de pouco ou nenhum impacto). Eu joguei o primeiro quando era um pré adolescente e fiquei impressionado com o (nome do) jogo na época. Parecia que eu fazia parte de um clã de ocultistas infernais que a qualquer momento invocaria um ser do mal para assustar as pessoas. As imagens de corpos pendurados no inferno, a variedade de monstros e itens, o desafio, as sombras… tudo essa atmosfera fez quase que instantaneamente Diablo um dos meus jogos favoritos.

Passado um tempo, Diablo 2 foi lançado. O medo e a sensação de pertencer a um clã ocultista já não existia mais, mas o jogo continuava a me agradar. Era bem diferente do seu antecessor, com mais cores, mais itens, mais lugares a serem explorados, mais inimigos etc. No fundo, eu ainda preferia o primeiro, mas a possibilidade de trocar itens online com meus amigos falou mais alto e mais uma vez dediquei algumas centenas dezenas de horas a Diablo.

Praticamente uma década depois, é lançado Diablo 3. Parecia que realmente haviam convocado o próprio Diabo para lançar o jogo, pois ao mesmo tempo em que ele vendeu uma quantidade incrível de cópias, foi absurdamente criticado por ser colorido, fofo e divertido, algo que os fãs do clássico Diablo 1 consideravam uma afronta aos games da série.

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Não vou julgar aqui a qualidade nem as escolhas estéticas de Diablo 3, até porque já mencionei este jogo em outros textos, mas vou falar brevemente sobre este ataque quase histérico que os jogadores antigos tiveram. Em determinados momentos, parecia que a desenvolvedora do jogo, a Blizzard, devia satisfações aos jogadores, quase pedindo desculpas por pensar diferente deles. Acho engraçado como a comunidade de jogadores se engaja tanto em prol de uma causa como esta, mas passa praticamente batida quando há relatos de preconceito ou violência dentro dos games. Também considero como algo delicado jogadores esperarem, em pleno ano 2012 (ano do lançamento de Diablo 3) o jogo seja igual a algo produzido em 1996. Realmente são pensamentos divergentes, pois enquanto reclamo da falta de criatividade na indústria de massa, uma legião de jogadores (que se consideram mais entendidos do que muita gente) literalmente clamam por mais do mesmo. Isso porque tem apenas 30 e poucos anos de idade. Tenho pena de quem precisar conviver com estes idosos no futuro.

Independente de defender o terceiro jogo da série enquanto um jogo bom ou ruim, posso afirmar que ao jogá-lo com uma jogadora não hard core, que teve seu primeiro contato com a série a partir desta edição, Diablo 3 cumpre com muita folga seu papel de prender o jogador e diverti-lo, com uma história que inclusive despertou bastante interesse, através de animações muito bem feitas e dirigidas.

Cada jogador precisa entender que os jogos não são feitos apenas para seu próprio umbigo ou para seu círculo de amigos de infância. Trata-se, antes de mais nada, de um imenso mercado e à semelhança de outras grandes mídias, as grandes produtoras caminham atrás das pesquisas de opinião.

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Repito, não se trata de defender Diablo 3 como um jogo bom ou ruim, mas se você não gostou tanto, sinto lhe informar, mas pode ser que você esteja ficando velho e um velho ranzinza.


Gustavo Nogueira de Paula

O inferno são os outros

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Meu consumo é mais inteligente, meus gostos são melhores, sou mais bem informado, sou mais inteligente, frequento lugares melhores e assim por diante. Se você age e pensa como eu, ótimo, você também tem bom gosto e está correto. Agora, caso pense diferente de mim, sinto lhe informar, mas é uma pessoa de pouca classe.

Se não frequenta lugares finos, caros etc. lamento, mas não tem classe alguma. Toma cerveja destas comuns? Então serei obrigado a lhe dizer que tem um tremendo mal gosto e faz parte da massa, do povão. Compra suas roupas no Brasil e passa as férias por aqui mesmo? – Quanta pobreza de espírito. Votou no Lula e come mortadela? – Seu petralha nojento.


O texto acima é absurdo e pode parecer exagerado, mas infelizmente não é. Estamos vivendo um tempo em que as coisas são cada vez mais 8 ou 80, sobretudo no império do consumo (que vale também para o consumo de ideias, estilos e valores). Com o acirramento das disputas políticas, muitas práticas, pensamentos e estereótipos tem sido associados aos “dois lados”, cada qual sofrendo suas consequencias, gerando inclusive vários casos de violência física e verbal. Mas esta pressão de consumo e diferenciação através dos gostos e escolhas também tem atingido os games de maneira contundente.

De tempos pra cá, admitir ser consumidor de jogos AAA pode parecer uma confissão de ignorância e mal gosto. Não ter instalado no celular ou no computador os grandes indies da moda pode pegar muito mal em feiras de tecnologia ou em eventos acadêmicos. Sequer conhecer estes jogos então é praticamente uma sentença de morte.

Grosso modo, esse gamesnobes geram mais aversão do que conquistam fãs, devido a uma postura extremamente elitista, que parte tanto de pesquisadores como de jogadores mais “envolvidos” com o meio, vamos assim dizer. Não basta falar sobre os jogos dos quais se gosta, mas parece haver a necessidade de ridicularizar o gosto alheio, sobretudo se tratar-se de um jogo mais popular.

A comunidade gamer tem protagonizado cada vez mais cenas de extremismo e preconceito (que sempre estiveram lá, mas não eram escancaradas pela internet). O exemplo dos gamesnobes é apenas um deles. São notícias quase diárias de comportamentos infantis e deploráveis. Ainda hoje li que a comunidade de jogadores inundou o canal do Steam com reclamações a respeito do personagem transexual presente na expansão de Baldur’s Gate.

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Pior do que isso é ver um brasileiro defender o personagem e ser chamado de gay enrustido, esquerda fdp e petralha. Da para perceber bem o nível de argumentação dos agressores. Acho que os indies brasileiros vão até pensar duas vezes antes de criar um personagem que use roupa vermelha hoje em dia.

É fundamental que os demais jogadores sejam duros com esse tipo de comportamento, reportando e denunciando. E se você conhece todos os indies do mundo e não joga mais nenhum AAA, seja legal, apresente estes jogos a seus amigos e lembre-se que foi através dos jogos mais populares que você conheceu os videogames.

Gustavo Nogueira de Paula

 

Facebook já causa mais distúrbios que violência infantil

Segundo pesquisas norte americanas, o uso excessivo do Facebook pode levar pessoas a crises de ansiedade, agressividade e depressão, levando até mesmo a morte em casos extremos.

Sim, é claro que inventei isso. O título sensacionalista e descuidado é apenas para chamar atenção para algo muito comum em tempos de opiniões extremadas na internet: A força da crítica, dos títulos e das expressões e textos ditos sem reflexão. Da noite para o dia as pessoas se tornam entendidas dos assuntos, meramente por terem lido um texto título no G1, MSN, ou seja lá onde for. As vezes as fontes são ainda mais obscuras do que estas citadas. Como é de praxe, vamos aos exemplos da nossa vida privada.

No cinema temos excelentes histórias recentes. Algumas semanas antes deste texto ser escrito aconteceu a premiação do Oscar 2016. Em qualquer rede social que se entrasse o que mais veríamos seriam as pessoas apontando seus favoritos, montando suas listas, falando que o Di Caprio “realmente merece” etc. Acho que algumas pessoas até se tornaram amigas pessoais do Leo. O que vi pouca gente comentar foi dos inúmeros filmes interessantes que ficaram de fora, da ausência de negros e por aí vai. Há poucos dias eu finalmente assisti a robertadalsenter_img3-1“Beasts of no nation” e lamento bastante sua ausência na premiação. Um dos melhores (se não O melhor) filmes de 2015 simplesmente não foi indicado a nada, categoria nenhuma!

Nada contra os filmes indicados, mas debater o Oscar, apenas por seus indicados etc e achar que entende de cinema é o mesmo que ler um livro de regras e achar que entende de futebol. E olha que nem sou entendido de Cinema a ponto de me aprofundar tanto nas críticas.

Outro exemplo do cinema recente e talvez até mais interessante que o anterior. O filme “A bruxa” estreou faz pouco nos cinemas nacionais e com isso a internet ficou dividida entre “gostei”, “melhor de todos os tempos” e “lixo” (não, não existe muito meio termo na internet). Se seu círculo de amigos no Facebook gostou do filme, então pega mal dizer que não entendeu nada. Se todos eles falam mal e você adorou, pega mal expor o quanto “eles não entendem nada de cinema, sobretudo de horror”. Somos então brindados com várias opiniões envoltas em ataques pessoais e análises tão rasas quanto as de Rodrigo Constantino para falar de política.

Chegando aos games, finalmente. Com o crescimento dos jogos indie e popularização dos jogos em plataformas móveis, a diversidade de opções aumentou bastante, apesar de não tanto quanto ainda pode ser. Também cresce o número de pesquisadores e entendidos do assunto. Acontece que na maioria das vezes estes “entendidos” do assunto estão ocultos, escrevendo teses acadêmicas, indo a campo, produzindo roteiros alternativos ou escrevendo para sites menores. Mas basta um youtuber famoso (as vezes, mas só as vezes, patrocinado) falar bem de determinado jogo e a massa corre toda atrás dele. Nada contra a presença dos youtubers emitindo suas opiniões, mas vejo cada vez mais o poder da crítica chegando aos jogos de videogame e isso ainda acontece de forma bastante estranha. Em geral as análises dos grande sites são superficiais demais e não tocam em várias camadas importantes da constituição de um game. Por outro, ainda não há um formato realmente bem definido e estabelecido para a crítica de games, o que também dificulta aos interessados a realizarem buscas mais refinadas. O que acabamos vendo no fim das contas é a máxima “se fulano gostou daquele jogo, então vou jogar também e é bom que eu goste”. Se falamos de um jogo indie, meio artístico então, aí a coisa fica mais enroscada ainda, pois não gostar e expressar isso seria quase como um atestado de ignorância, algo que pode ser fatal na era Facebook etc.

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Os games ainda precisam de boas análises e que elas sejam acessíveis aos jogadores. A diversidade cresceu, mas a profundidade das opiniões nem tanto. Mesmo que em muitos casos os jogadores sejam relativamente preguiçosos e acabem consumindo mais do mesmo, isso se deve em parte pela falta de empenho da mídia e da crítica em apresentar e abordar as novidades, de maneira clara, sóbria e direta para com seu público. É triste observar que muitos tentam transformar os jogos em algo cult na tentativa de legitimá-los ao invés de justamente realizar o contrário, evidenciando o quanto os jogos podem (e são) expressões artísticas, e bastante acessíveis ao grande público.

Um texto um pouco mais ácido do que de costume, mas trata-se apenas da incredulidade diante da desinformação das pessoas, justamente em uma era com tantas fontes de informação possíveis.

Gustavo Nogueira de Paula

OBS: Espero que ninguém comente o link baseado apenas no título

O jogo da garotinha

Pense rápido e responda: Consegue falar o nome de um jogo em que a personagem principal seja uma criança de 11 anos (ou menos)? Caso tenha conseguido, esse jogo é cor de rosa e cheio de coraçõezinhos ou figuras similares? Empirismos a parte, sei que a maioria respondeu não à primeira pergunta e sim à segunda. Ainda bem que as vezes fugimos da regra, e com estilo.

Clementine

Já havia bastante tempo que eu planejava jogar o premiado Walking Dead, mas sempre posterguei, olhava com um ar suspeito para o jogo e para o prêmio. Superado o preconceito, graças justamente a uma ajuda feminina, fiquei de frente a segunda temporada do jogo, no qual assumimos o comando de Clementine, uma garotinha de 11 anos que tem muita personalidade, tanto para encarar os zumbis quanto os conflitos adultos que a cercam. Sobre estes conflitos vale a pena me debruçar um pouco mais.

Quem já assistiu Walking dead, algum outro seriado sobre zumbis/sobrevivência, filme de zumbi, ou qualquer outro produto de mídia que coloque pessoas lutando para sobreviver num mundo sem comida, energia etc, sabe que é comum observar seres humanos disputando poder, se matando por alimentos e travando verdadeiras guerras tribais para dominar determinados territórios. O jogo do WD não é diferente, mas no caso temos o poder de tomar determinadas decisões, sobre quem merece viver ou não, qual caminho a ser percorrido, para quem entregar os remédios e assim por diante. Lembre-se, tudo isso na pele de uma criança.

Parece o de sempre quando dito desta forma: Matar zumbis acéfalos, brigar por segurança, atirar nuns caras maus, escolher o caminho na bifurcação e assim por diante. Não deixa de ser isso em determinados momentos, mas essa é a parte superficial da narrativa. Na segunda camada é fácil observar que as personagens femininas são muito mais fortes (em geral), sem apelar para corpos forçados e imbecis, além de normalmente não entrarem nos conflitos sem sentido que os homens entram, disputando por qualquer pedaço de pão aos berros e socos.

Em determinado momento do jogo há um diálogo entre Bonnie e Clementine em que a primeira dizia estar cansada de estar cercada por homens que brigavam o tempo todo por nada, tentando mostrar uns aos outros quem era o alfa daquele lugar, algo patético. Não transcrevi a conversa com todas as letras aqui, mas essa é a ideia do que Bonnie quer dizer e isso é bastante evidente ao longo de todo jogo e construído de maneira orgânica, sem apelar para clichês ou julgando algum dos envolvidos. Tudo é apresentado de forma crua, num desenrolar bem construído e fluído. O enredo em si não foge da linha básica da grife zumbi, nem possui reviravoltas muito inesperadas, mas isso não é problema, pois WD consegue fazer algo que raramente é visto por aí, que é colocar uma protagonista carismática, criança e menina, sem apelar para infantilidades, com muito sangue e decisões complicadas. Muito machão jogou WD e deve ter gostado, provando que ninguém se torna menos homem por assumir o papel de uma garotinha em um jogo.

AmTR_Bonnie_Okay

 

Como ponto negativo, por assim dizer, vi um jogo com pouca ação, ou com uma ação um tanto desnecessária. Não há tanta graça em ter que apertar o direcional para esquerda, direita ou ficar apertando o X repetidamente para executar alguma tarefa em meio a diálogos longos e discussões pesadas. Os desafios são fáceis e só estão lá para te lembrar que se trata de um jogo e não de um episódio do seriado em que você pode controlar algumas decisões. Porém com isso a ação fica um tanto deslocada e desprivilegiada, acabando por se tornar desnecessária, o que não tira o brilho do jogo.

Recomendo bastante a experiência, sobretudo para aqueles que não conseguem imaginar a situação de controlar uma criança num universo tão adulto. Não é longo, então é possível dar um tempo nos hardcore da vida e dar atenção a este belo jogo da Telltale.

Gustavo Nogueira de Paula

PS: O Game&Críticas finalmente está de volta, após um esquecível 2015. A partir de agora as publicações serão quinzenais.

Errar, recomeçar e errar de novo

Certamente você deve se lembrar de erros terríveis que cometeu, jogando videogame ou não. Estes erros são fundamentais para todos nós, pois é através deles que ganhamos experiência, aprendemos e nos tornamos pessoas jogadores melhores. Com certeza eles causam momentos de frustração, raiva, vontade de desistir e tudo mais, mas aí respiramos, pensamos em como podemos acertar da próxima vez e tentamos tudo de novo. Imagine quantas vezes um jogador precisa perder para memorizar onde cada inimigo se encontra e se comporta num jogo como Dark Souls. Logicamente, nos videogames a derrota é assimilada tranquilamente, sobretudo quando jogado casualmente e essa é parte da lógica presente nos mesmos. Impensável seria um jogo em que fosse impossível perder, ou que não houvesse diferença de pontos no final. A ideia é justamente ensinar o jogador sobre aquele sistema, sobre aquele mundo, tornando o jogador mais apto a jogar, sendo mais competitivo, tendo sempre a oportunidade do recomeço, por mais irritante que possa ser as vezes.

Erre, tente outra vez
Erre, tente outra vez

Entretanto, essa lógica não é encontrada em todo lugar. Tomando o exemplo da escola, ou do mercado de trabalho: o erro normalmente não é momento de aprendizado, mas sim um momento de punição, gerando prejuízos, constrangimentos e medo de agir da próxima vez. Ainda que seja possível tentar novamente nos dois casos, os problemas gerados pelos erros são encarados de forma tão temerária que não é raro encontrar pessoas com receio de correr novos riscos.

Mesmo assim, os videogames não são vistos como algo sério, apesar de possuírem um sistema interessante de tentativa e erro, que permite a todos uma nova oportunidade, que permite a todos aprender de forma divertida e tentar novamente, isso não parece ser suficiente.

Obviamente, não podemos comparar o mundo do trabalho, ou outras esferas da vida, com uma fase de videogame, mas com certeza podemos rever nossos modelos e também aprender com diferentes formas de encarar as coisas, basta disposição e um olhar diferenciado aos mais variados modelos, já que não a toa os videogames são um sucesso crescente no mundo.


Dedicado a uma pessoa especial em minha vida

A ordem na desordem

Não, o Game&Críticas não foi desativado. Seu criador e escritor estava apenas ocupado entre afazeres diversos, mas está de volta, após acompanhar boas palestras, jogos, conversas e outras coisinhas mais. Já está na hora de voltarmos às nossas discussões que envolvem os Games e diferentes situações/reflexões políticas, sociais e assim por diante.

Huizinga nos mostra que os jogos possuem características bastante próprias, tais como um espaço delimitado, regras definidas, imprevisibilidade, entre outras. Caillois expande um pouco seus escritos e pensamentos, apresentando categorias de jogos e apontando para situações não previstas por Huizinga. Ambos os livros são leituras obrigatórias para qualquer um que estude jogos, sejam eletrônicos ou não. Porém, minha intenção não é a de resumir suas obras nessas míseras três linhas, mas apenas pontuar de onde vem uma das características mais marcantes do jogo, a qual explorarei mais adiante, as regras.

Categorias de Caillois
Categorias de Caillois

Parece óbvio dizer que um jogo possui regras e que elas precisam ser estritamente cumpridas durante uma partida. Nada mais incômodo e constrangedor do que flagrar alguém trapaceando, enquanto os outros disputavam de forma honesta. Mas por que existem regras tão rígidas assim? Em geral, as regras garantem padronização aos jogos, previne os jogadores de ficarem em situação de risco e trazem situação de igualdade durante as partidas. Imagine que numa partida de futebol fosse permitido por as mãos na bola, chutar os adversários e não houvesse linha de fundo. O jogo seria uma bagunça, feio esteticamente e poria todos em risco, retornando a uma arena de gladiadores praticamente.

Contudo, as regras visam ainda a algo mais: trazer igualdade e competitividade para os jogos, pois elas valem para todos os participantes. Não importa sua religião, sua origem, sua cultura, na hora do jogo todos precisarão jogar os dados, todos precisarão vestir o uniforme e assim por diante. Antes do apito inicial a situação é de igualdade, numérica e de regras. Em tese, isso garantiria que todos possuem chance de vencer uma partida, pois todos são iguais perante as regras. Apenas em tese.

Como eu gosto de futebol, sempre me utilizo de exemplos vindos deste esporte e farei isso novamente, a fim de ser o mais claro possível durante minha argumentação: Num jogo entre Barcelona e o time de futebol dos meus amigos, quem tem mais chances de ganhar? Acho bastante improvável que alguém aposte em mim e nos meus amigos, mesmo garantindo que nos esforçaríamos ao máximo. E por que isso? Ora, competir com o Barcelona seria desleal, pois eles possuem todo um aparato voltado para o futebol, com treinador, preparadores, tempo, treinos, alimentação, estudos, cuidados, médicos e mais uma lista imensa de outras coisas. Já nosso time possui uniformes, muita camaradagem e bastante vontade de tomar cerveja.

Parece absurdo, mas vamos trazer o exemplo para outra competição, mais próxima da realidade, o Vestibular. Em teoria todos terão o mesmo tempo, responderão as mesmas perguntas e possuem as mesmas chances. Apenas em teoria. Enquanto alguns só tem tempo para ler (quando tem) no caminho do ônibus de casa até o trabalho/escola, precisam cuidar de 5 irmãos, se alimentam de feijão com farinha e tem polícia atirando na porta dia sim e outro também e estudam em escolas que comemoram quando tem papel no banheiro, outros candidatos tem aulas apenas com professores doutores, possuem biblioteca em casa, tem aulas extras em cursinhos, viajam para outros países, se alimentam muito bem, praticam esportes, visitam museus etc.

Parece bastante claro, pelo menos para mim, que a competição é bastante desigual, mas sob o olhar de muitas pessoas essa competição é justa, faltando vontade à pessoa do primeiro exemplo para conseguir triunfar na vida. Normalmente as pessoas que acreditam nesse pensamento fazem parte do segundo exemplo, creio que por maldade pura coincidência. É a tal meritocracia, mas de forma bastante distorcida e venenosa.

Parece que Yoshi não se esforçou o bastante
Parece que Yoshi não se esforçou o bastante

Os jogos são apaixonantes justamente por apresentar viradas inesperadas, por colocar na mesma arena pessoas ricas, pobres, de todas as cores e raças, apresentando possibilidades de resultados inesperados. Mas isso acontece somente no esporte competitivo, de alto nível e assim por diante. Acreditar que algo seja “transferido” para outras situações da vida é um pensamento absurdo e incrivelmente maldoso.

Na obra de Caillois o autor deixa bem claro que vivemos numa sociedade de competição e sorte. A parte da competição parece evidente a todos, mas a sorte parece algo mais subjetivo. Ele esclarece, por exemplo, que algumas pessoas tem a SORTE de nascer numa família bem bastada e que isso lhes dará vantagem competitiva no futuro. Aos amantes da meritocracia, recomendo muito a leitura, pois isso pode contribuir na compreensão da questão.

No caso dos jogos eletrônicos eu apenas me sinto um pouco prejudicado quando jogo algum FPS online contra algum adolescente que joga 10h por dia. Essa competição também é desleal, acreditem.


Gustavo Nogueira de Paula