Left is dead

A indústria brasileira de games continua a todo vapor! Após o estrondoso sucesso de “Democracy GO”, a empresa Ironic Games lança mais um título, dessa vez se aproveitando do filão dos jogos de tiro e de zumbis, o “Left is Dead” (imagino que qualquer semelhança com o nome Left for dead não seja mera coincidência).

O jogo não prima pela originalidade, se utilizando dos já conhecidos clichês das histórias de zumbis: Alguma coisa de ruim aconteceu e agora você tem que sobrevier a ordas de zumbis que vagueiam pela rua num mundo pós apocalíptico. A parte interessante é que conseguiram trazer isso para algo mais próximo do nosso meio, ambientando o jogo nas ruas brasileiras de algumas das principais capitais brazucas. Segundo a assessoria de imprensa da Ironic, até o fim do ano todas as capitais e até algumas cidades do interior já estarão disponíveis.

zumbi-1

Mais uma vez, se trata de uma mecânica de jogo simples e conhecida da maioria dos jogadores: Em primeira pessoa, o personagem precisa sobreviver em meio ao caos gerado pelos zumbis e muitas vezes correr é a melhor das opções. São pouquíssimas as armas disponíveis e o suporte também é escasso. A dificuldade é alta e é bem provável que você perca bastante antes de conseguir chegar até o final, se é que vai conseguir.

A parte interessante do jogo se dá na seleção de personagens, ambientação e na caracterização incrível dos principais inimigos. Na tela inicial há apenas as opções de “Novo jogo” ou “Continue”, ao som de Chico Buarque de Holanda, que casou bem com a proposta da Ironic. Ao clicar em “Novo jogo” você é levado/levada a tela de seleção de personagens, que são poucos e não customizáveis, o que dá a impressão do jogo não estar completo, apesar de prometerem novidades ainda esse ano. São:

  • Jean – Homem branco e de barba, camiseta vermelha e bermuda rasgada. Vem equipado com vinagre e é o que mais corre;
  • Glória – Mulher negra, com roupa ao estilo afro. Vem equipada com vinagre e um pandeiro. Tem incrível força e capacidade de ataque, mas corre pouco e é mais perseguida do que os outros personagens;
  • Paulo – Uniforme do sindicato completo. Equipado com uma bandeira, que pode virar arma em casos de desespero. Vem sem vinagre, mas carrega kit de cura (sanduíche).

mulher-negra-e-o-feminismo

Como gosto de desafios, escolhi logo a fase que os desenvolvedores consideram como sendo a mais difícil: Avenida Paulista, em São Paulo. Pude atestar que eles não estavam brincando.

Diferentemente de outros jogos nessa linha, em que tudo está destruído e coberto por vegetação, em “Left” o cenário parece limpo e bem cuidado, não dando a impressão inicial que se trata de um apocalipse ou algo do gênero. Mas basta caminhar um pouco para sentir que o game não é moleza. Ao seu lado caminham os outros dois personagens não escolhidos (no meu caso escolhi o Jean). Logo de cara começam a surgir os primeiros zumbis, pessoas brancas usando camiseta da CBF ou camisetas brancas. Não demora e você já percebe que nem vale a pena entrar em confronto com eles, a não ser para ganhar experiência. As armas inicias são megafone (para conversão) e alguns panfletos que você precisa ficar entregando até afastar os zumbis.

Com o tempo começam a surgir os zumbis mais poderosos: alguns homens com a cabeça raspada e muito fortes, algumas senhoras com cachorrinhos a tira colo e alguns outros que portam taças de champanhe. O megafone não funciona com nenhum deles, tão pouco os panfletos. Se a essa altura você não tiver conseguido o equipamento de disfarce (Iphone e roupa de marca) é derrota na certa. A dica aqui é começar a correr o máximo que puder, pois os inimigos seguintes são ainda mais desafiadores.

zumbi-2

Já correndo e em pânico para não dar game over, comecei a encontrar ordas e mais ordas de inimigos conhecidos como Bolsominions. Eles não possuem cérebro e vem esbravejando em sua direção. É incrivelmente difícil passar por eles, pois são muito agressivos e as suas armas tendem a não funcionar. A sorte é que normalmente eles se viram uns contra os outros e acabam por se matar.

zumbi-3

Mas foi nesse momento do jogo, num ato desespero, enquanto corria sem prestar muita atenção no cenário, que encontrei o que acreditava ser um ponto seguro: Personagens cujo uniforme estava escrito “Proteger e servir”. Doce engano. Tratava-se simplesmente dos inimigos mais poderosos. Sedentos por nos matarem, portavam todo tipo de armamento, coletes, carros, escudos e tudo mais que se possa imaginar. Usei meu estoque de vinagre, mas não resolveu muito e acabei morrendo umas 5 ou 6 vezes. Não tenho orgulho em dizer isso, mas a única forma que encontrei de passar deste chefão foi trapaceando e digitando o código “Propina”, que os torna bem dóceis e em alguns casos chegam até a lutar ao seu lado.

zumbi-4

A história do jogo não é muito clara, não dá para entender bem o porque dos zumbis atacarem. Nos fragmentos narrativos que são apresentados, dá a entender que eles se transformaram devido ao ódio que sentiam e que atacam pelo prazer da destruição, não pretendendo criar uma nova sociedade ou algo assim. Uma pena criarem monstros e inimigos tão interessantes, mas com motivações tão rasas assim.

Sobre a dificuldade do jogo, a galera da Ironic me disse por email que “se trata de um jogo feito para jogar no modo cooperativo. Sozinho ele realmente é impossível. A ideia é que os jogadores se conectem para derrotar o inimigo, quanto mais gente melhor” disse.

Não dá para dizer se o jogo vai vingar por aqui, mas não deixa de ser mais um opção interessante em nosso mercado cada vez mais saturado e clemente por algo novo.

Mais uma vez, esse jogo não existe

Gustavo Nogueira de Paula


OBS: A última foto foi retirada do G1 e a legenda original era simplesmente incrível: Vídeo flagra manifestante agredindo policial em protesto de professores

Democracy GO

Na esteira do sucesso de Pokémon GO, eis que já lançaram novo jogo baseado no atual cenário político brasileiro, o Democracy GO. Sátira que se apoia escancaradamente no fenômeno nipônico, Democracy GO aproveita o sucesso mundial e recria  uma crítica ácida através do formato e estética do jogo de capturar monstrinhos. O objetivo principal é capturar o máximo de golpistas possível, nesse jogo em que é difícil entender que é amigo e quem é inimigo.

direita

Para a caracterização do personagem não há grandes opções, mas elas são bem interessantes:

  • Camisa da CBF
  • Roupa Armani
  • Estampa Pixuleco

Entre os acessórios, também pouca coisa:

  • Óculos escuro
  • Cachorrinho  de colo
  • Faixa de apoio ao golpe militar
  • Pato de borracha

O avatar pode ser homem ou mulher e todos eles podem usar quaisquer um dos itens e acessórios durante a customização. Estranhamente não dá pra escolher a cor da pele do personagem, que é branca desde o início, mas não sei bem o porque.

Direita 2

Como se trata de uma cópia, a mecânica do jogo é idêntica, você precisa arremessar bolas para capturar seus corruptos favoritos. De início você pode escolher um entre os três disponíveis que surgem assim que você cria o personagem: Temer, Cunha ou Calheiros. Há ainda um easter egg, que você descobre ao fugir três vezes destes corruptos iniciais, que lhe permite começar direto com Paulo Maulf, um dos corruptos favoritos dos jogadores.

A estrutura do jogo é simples: basta andar pela cidade a procura dos monstrinhos e tentar capturá-los. Estudos iniciais mostram que a quantidade de jogadores no estado de São Paulo é impressionante, bem como o número de corruptos para capturar. Os corrupstops ficam em lugares tradicionais, como monumentos que homenageiam militares, câmara dos vereadores/deputados, prédio da FIESP, bancos etc. No lugar dos ginásios foram colocados CPI’s, em que você coloca seus parlamentares para lutarem. Normalmente ninguém perde nessas lutas, mas as vezes você acaba gastando seu dinheiro nos duelos.

Entre os mais raros dos monstros está Geraldo Alckmin. Segundo consta, ninguém conseguiu capturá-lo ainda. Por outro lado, Zé Dirceu’s aparecem toda hora, parece até com os Zubats de Pokémon. No lugar dos ovos de Pokémon GO você consegue fazer nascer alguns filhos e netos de políticos, ou consegue angariar alguns seguidores de movimentos pseudo engajados, como Revoltados online etc. Essas incubadoras de seguidores de movimentos pseudo engajados rendem alguns dos monstros mais poderosos, com grande poder de ataque, apesar de péssima capacidade de defesa e vida.

E assim como não poderia deixar de ser, alguns são mais resistentes para serem capturados. Caso esteja enfrentando problemas, basta usar algum dos itens “propina” e eles chegam até a se jogar dentro da corruptoball. Dentre os itens mais poderosos estão o logo BR da Petrobras e alguma pasta de poder. Já o mais fraco dos itens é um pedalinho em formato de pato, que não consegue seduzir ninguém. Sinceramente, nem sei porque ele existe, visto que os outros itens são absurdamente mais poderosos e eficientes.

E se estiver com dificuldade em progredir no jogo, fique tranquilo, pois o cheat é liberado e até incentivado. No final das contas, quando chegar no nível máximo, todos irão dizer que foi mérito seu e que merece estar onde chegou. Mesmo com sua conta banida você pode continuar jogando e mantendo seu status.

Rumores ainda dizem que na próxima atualização você poderá escolher um policial para andar ao lado do seu avatar. Quanto mais selfies tirar com ele, mais XP ele ganha, podendo bater e atirar em qualquer inimigo que surja em seu caminho. Parece que a novidade já rola em alguns lugares, mas poucos jogadores tiveram acesso à novidade.

policia-3

Grande sucesso nacional, recomendo que instale agora em seu smartphone. Democracy GO parece que veio para ficar!

OBS: Obviamente esse jogo não existe

OBS 2: Esse blog está de luto pela democracia no Brasil


Gustavo Nogueira de Paula

Orgulho por tabela

As vezes assistimos na TV algumas histórias emocionantes de superação, como por exemplo no Esporte. O rapaz pobre que corria descalço por canaviais e depois ganha uma corrida de rua. Menino com problema na prótese que termina a corrida num pé só. Mulher com 17 irmãos que vira profissional no judô depois de muitos anos etc. Não há muita explicação nisso, mas ficamos com aquela pontinha de orgulho pela conquista daquela pessoa batalhadora. Isso acontece em situações mais próximas a nós também, como quando um amigo conclui sua graduação, um parente se casa, ou qualquer outra situação cotidiana semelhante. Ficamos felizes e espalhamos essas notícias, bem como essa felicidade. Essa semana foi assim, com o lançamento do Porcunipine no Steam.

Porcunipine

Produzido pelo pessoal da Big Green Pillow, de Bauru e participante desde o primeiro Glitch. A galera é muito gente boa, jovens criativos e com o desejo de fazer bons jogos, de forma original e sem dever nada para nenhuma grande produtora. Com muita humildade estão conquistando seu espaço e creio até que acabem não ficando muito mais tempo no Brasil. Bom pra eles devido a crescimento da carreira, “ruim” para nós que cedo ou tarde pode acabar perdendo esses talentos.

Porcunipine é um Party Game, daqueles feitos para serem jogados junto com os amigos, de maneira descontraída, para dar risada e se divertir com bastante gente. Se conseguir um Porcunipine na tela da sua TV da sala durante um jantar com convidados, pode apostar, será tudo muito mais engraçado. O cenário é simples: São quatro Porcos espinhos carecas (coitados), com um espinho só. O objetivo não poderia ser mais óbvio, senão o de atirar nos colegas em pequenas arenas, num curto espaço de tempo. Acertou mais ganhou. Só cuidado para não se matar, algo que não é nada difícil.

Porcunipine 2

O jogo vem ganhando mídia, sendo destaque em vários blogs e vídeos do Youtube mundo afora. Não sou tão famoso quanto esses sites/youtubers, mas por outro lado eu tive a oportunidade de jogar diretamente com quem fez o jogo, inclusive durante a fase de acertos, ajustes, testes etc. Independente da mídia, Porcunipine é um jogo e tanto e vale a pena ser conferido, principalmente por ter sido feito aqui no interior do nosso Brasil, na grande/pequena Bauru.

Da muito orgulho ter visto de perto a evolução do jogo, as diferentes versões, os testes feitos com crianças e jovens no Sesc Bauru e agora poder ver à venda pelo Steam, tendo a chance de obter ainda mais destaque. Além de orgulho, nos enche de esperança de cada vez mais vermos produções nacionais, independentes, ganharem o cenário mundial.

Gostaria ainda de lembrar aos jogadores que não é a opinião de um Youtuber Americano ou Europeu que faz um jogo bom ou não, que faz um  jogo valer a pena ou não. Precisamos dar mais crédito a nossas produções e TAMBÉM a nossas opiniões. Muita gente ainda é refém de Venom’s e Monark’s da vida para lhes dizer o que é legal ou não. Assim como temos games independentes nós temos mídia independente, fiquem de olho.

No mais, jogue Porcunipine. Tenho certeza que vai adorar e se ainda tem alguma dúvida do potencial nacional, aposto que irá mudar sua opinião depois dessa experiência.


Gustavo Nogueira de Paula

A transformação de meninas em antas.

Era uma aula de sociologia/antropologia durante a graduação em Educação Física. O professor, um dos melhores que já tive na vida. O texto a ser discutido era dele, intitulado “A construção cultural do corpo feminino, ou o risco de transformar meninas em ‘antas”. Não, ele não achava que nenhuma menina era anta, ou algo do gênero, nem gostaria de transformá-las nisso. Tratava-se de um relato de umas de suas alunas, quando ainda dava aulas em escolas públicas, que ao errar um lance durante uma partida de vôlei exclamou “Eu sou uma anta mesmo”.

Trocando em miúdos o texto se referia a como reprimimos a participação das meninas em atividades tidas como “masculinas” e como isso acaba por refletir em seus corpos e em suas atitudes. No caso, a garota não tinha contato nem proximidade com jogos ou esportes e se sentia mal por isso, culpando a si mesma pela relativa inabilidade em tais atividades. A discussão central da aula era o machismo presente neste meio e como devemos/podemos agir para acabar com isso.

MACHISMO 1

Pois bem, situação semelhante nós encontramos nos jogos de videogame. É um ciclo básico: Sem representação as meninas tendem a não gostar muito de jogos; as que gostam são excluídas e/ou passam por situação humilhantes; menos mulheres se interessam por participarem da produção de jogos; as que participam sofrem perseguição; isso gera menos diversidade na indústria de games; menos diversidade igual menos representatividade; isso atrai menos meninas… não preciso continuar.

Obviamente trata-se de uma simplificação de minha parte, existem vários fatores para ampliar essa cadeia. Para piorar tudo isso e apimentar com ares de crueldade eu acrescento o comportamento de boa parte dos jogadores. Sim, de boa parte, não posso pegar leve com eles. Ou rejeitam ou tentam humilhar as jogadoras, seja pessoalmente ou em jogos online (pela internet todo mundo estufa o peito e tem coragem de colocar os preconceitos para fora).

Volto ainda a outro assunto, sem medo de soar repetitivo: a imprensa que fala sobre jogos é omissa, despreparada e igualmente machista na maioria dos casos, seja ignorando o que acontece, seja tratando a situação como se fossem casos isolados e de forma caricata. Se duvida, veja estes dois links da Marie Claire (isso mesmo, da Marie claire) que apresentam notícias de forma bem mais contundente do que a maioria dos portais brasileiros sobre games. A primeira delas fala sobre o preconceito com jogadoras e a segunda sobre o caso GamerGate,  que deu o que falar lá nos EUA e que mal apareceu por aqui.

É impressionante como aqui no Brasil isso passa quase batido. Pouco abordamos o tema, mesmo já sabendo que o número de jogadoras vem crescendo. O que sobram são comentários jocosos e sexistas a esse respeito. Jogar qualquer coisa online chega a ser um desafio mental quando há uma mulher no servidor, tanto pelas baixarias infantis que somos obrigados a ver, quanto pela vergonha alheia de presenciar ofensas e recalques de jogadores derrotados.

Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar
Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar

Precisamos debater o assunto de forma mais contundente, com o protagonismo feminino e de forma clara, sem pegar leve com a mídia ou com os jogadores, que muitas vezes acreditam que este seja um “problema menor” ou até mesmo inexistente. Não é raro encontrar quem pense que isso é coisa de “gente da esquerda socialista” ou babaquices semelhantes.

Se preciso for, voltarei ao tema toda vez que me deparar com alguma notícia relacionada ao tema ou quando ficar sabendo de algum acontecimento específico. Ainda aguardo pelo momento em que encontraremos um Newsgame que ironize essa situação.


Gustavo Nogueira de Paula

PS: Que o título deste texto mexa com a curiosidade das pessoas e que leiam o texto todo antes de xingarem toda minha família

New Counter Strike – Professor Mode

De acordo com muitos teóricos, os games são excelentes para simular situações de mundo. Você pode treinar pilotos, resolver problemas, gerir uma cidade, aprender a atirar, perder o medo do trânsito, entre outras atividades bastante diversas. Através de algoritmos complexos pode-se inclusive “prever” o resultado de algumas situações. Isso tudo depende de um equilíbrio muito bem feito entre regras de jogo e regras “reais”.

Num jogo de carros, por exemplo, não se espera poder voar com seu automóvel e espera-se que isso prevaleça. Porém, um acidente frontal pode muito bem ser fatal, mas não espera-se a morte do piloto a cada acidente, apenas um recomeço. Os jogadores também esperam que um carro com menos potência e equipamentos seja mais lento do que uma Ferrari recém lançada. Se correr com um Fusca contra a Ferrari dentro do autódromo de Interlagos a derrota é certa. Não é justo correr de Fusca contra a Ferrari, por isso você evolui dentro de cada jogo, até conseguir equipamento suficiente para enfrentar o desafio. Por se tratar de uma simulação, o jogador já prevê essa desigualdade e a encara com naturalidade.

counter-strike2

Já em jogos de tiro essa desigualdade soa de maneira mais incômoda. Você pode ter a melhor mira, melhor esquiva, melhor proteção etc. mas sem uma boa arma, dificilmente vencerá o inimigo armado até os dentes. É injusto, mas as vezes acontece. É dessa forma que foi lançado recentemente no Brasil o novo MOD de Counter Strike – Professor Mode.

Cansados do velho embate entre Policiais e Terroristas, tão fora de moda e pouco aceito pelo público brasileiro, foi lançado, através de incentivos do governo estadual paranaense, o MOD em que professores substituem os famigerados homens encapuzados com Ak-47. Algumas alterações também foram realizadas na mecânica de jogo:

Os policiais contam com cachorros, bombas de gás, armas com bala de borracha, escudos, coletes, máscara, helicópteros, carros, jatos d’água e spray de pimenta. Os professores (terroristas) contam com algumas pedras encontradas no chão e as vezes algum pedaço de pau.

Ao entrar no jogo você pode escolher qualquer uma das duas classes, mas se prepare, pois a dos professores sempre perde e de lavada. Normalmente a tática é sair correndo e tentar fugir, apesar de ser bastante difícil. Se optar pelos Policiais é só sair atirando, sem se preocupar muito, pois em algum momento irá acertar alguém e é isso que conta no final. A disputa principal é para ver quem consegue mais frags.

A distribuidora do jogo disse em nota, após a reclamação de muitos jogadores que optam pela classe professor dizerem que o jogo é injusto, que aqueles que não gostam do jogo deveriam procurar por outro jogo (profissão), pois aqueles que jogam como professor o fazem por amor.

Violência

Apesar desta versão existir há muito tempo no Brasil, ela foi remasterizada e ganhou gráficos novos. A crítica especializada da Veja tem feito grandes elogios a essa nova versão:

É muito legal poder atirar e ver os professores correndo, da uma sensação muito boa. Se fizéssemos dessa forma na vida real o Brasil seria um país melhor. Acho que o único defeito é que eles só ficam vermelhos depois de sangrando, já deveriam começar assim” (Jogador da Veja com o Nick de CoxinhaPower)

Apesar do sucesso de vendas entre os brasileiros, o jogo vem sofrendo algumas críticas, pois apesar de divertido, os policiais não podem atirar para matar, o que limita muito sua ação, exigindo um cuidado irritante na hora de disparar.

Alguns jogadores HardCore porém, descobriram um meio de trapacear dentro jogo, alterando a cor de seu personagem para amarelo, tal qual a seleção brasileira. Quando a trapaça é habilitada os policiais ficam cegos e não conseguem encontrar o alvo para atirar, inclusive confundindo-os com alguém do seu time. Já outros jogadores dizem ter conseguido o mesmo efeito, mas alterando a roupa dos personagens para um jaleco branco. Os produtores preferiram não comentar a respeito de tais bugs e disseram ser invenção de jogadores canhotos.

policia-3

E você, o que está esperando para jogar? Mergulhe de cabeça nessa aventura que promete fazer sucesso no Brasil nas próximas décadas. Não fique de fora, acesse soucontraeducacaopublicadequalidade.coxinha.br e adquira já o seu, é de graça.


Texto em homenagem aos professores grevistas no Paraná

Gustavo Nogueira de Paula

Political parties – The congress fighter – Novo jogo

É bem comum sonharmos enquanto dormimos, mas as vezes isso acontece enquanto estamos acordados mesmo. No meu caso isso é bem corriqueiro e vez ou outra e me pego parado com o olhar fixo no nada e imaginando um monte de coisas, distante. O jogo que vou apresentar é o resultado de um destes sonhos acordados, o “Political parties – The fight!

Beat em Up

Apesar do nome remeter inicialmente a um jogo de luta, trata-se na verdade de um Beat ‘em Up, aqueles jogos em que os personagens vão andando da esquerda para a direita (na maioria dos casos) e vão enfrentando vários inimigos, na base da porrada, até enfrentarem o chefão da fase. Títulos clássicos nessa linha são Final Fight, Tartarugas ninja, Streets of rage, Knights of the round e inúmeros outros. A grande diferença aqui é que os personagens são representantes de partidos políticos e os inimigos, apesar de variarem um pouco de acordo com suas escolhas, são em sua maioria advindas do povo, representantes da sociedade civil. Porém, como todo jogo mais moderno, dependendo do seu personagem a história muda um pouco, resultando em finais diferentes. A vida dos personagens é baseada no número de cadeiras no congresso. Vamos aos personagens e suas especificações:

partido-trabalhadores

PT – Tem bastante vida/energia e é a única personagem feminina do jogo. Assim como os outros, você vai desferindo golpes e enfrentando os inimigos. Caso a coisa aperte basta utilizar o poder especial, que invoca um cara barbudo que possui blindagem infinita e a habilidade de converter os inimigos para lutarem ao seu lado. Contudo, a cada vez que o poder é utilizado sua personagem acaba ficando um pouco mais fraca. O chefão final do jogo é um grande Globo que ataca com canetas, microfones e hologramas. Estes ataques tiram bastante energia, portanto tome cuidado na hora de enfrentá-lo. Caso seja vitorioso a cena final mostra um final feliz, em que o poder é mantido e perpetuado, apesar de ser possível observar ao fundo alguns inimigos ainda vivos, aguardando nas sombras para tentar se reerguer. Na penumbra, um tucano sobrevoa ao longe. As fases se passam da direita para a esquerda.

psdb

PSDB – Engravatado, cabelo impecável e muita fala, é assim seu personagem. Em algumas fases é possível contar com a ajuda de alguns banqueiros e empresários estrangeiros. Há dois tipos de poderes especiais a serem usados: o primeiro deles invoca uma tropa de choque da Polícia Militar que o protege com armamento pesado, mas quanto mais utilizado, mais inimigos aparecem, portanto utilize com cuidado. Já o segundo poder é o de vidas infinitas, pois a cada vez que você morre numa eleição o monstro Globo surge e lhe dá mais um pouco de vida. A fase final é dentro de uma favela e o objetivo é o de exterminar a todos. A cena final mostra um lindo cenário, com pessoas de classe média sorrindo e brindando com champanhe pelo final da corrupção, cercadas por altíssimos muros que os separam das favelas que compõem o restante do cenário. As fases se passam da esquerda para a direita.

pmdb

PMDB – Tem a vida mais alta de todas e a maior capacidade de dano. Seu poder especial o torna invisível momentaneamente, permitindo atacar os inimigos a vontade sem ser percebido. Não há limites ou penalizações para a utilização deste poder. A fase final acontece no congresso, em que é preciso aniquilar todas as forças da oposição, que são mínimas. Zerando o jogo, o jogador assiste a cena final que mostra algum dos outros personagens no poder, mas é possível notar algumas linhas amarradas em suas articulações. Do alto, meio escondido, podemos ver seu personagem controlando o inimigo como uma marionete e todos os companheiros se multiplicando pelas cadeiras do cenário. As fases se passam da esquerda para a direita.

PP

PP – Apesar da vida um pouco menor que a dos outros personagens você consegue causar muito dano, pois possui ataques poderosos. Seu poder especial o transforma num paladino enviado por Deus, o que lhe dá a possibilidade de atacar ferozmente, tanto com armas de fogo, como com canetas. O inimigo final é uma orda, ao estilo zumbi, de mulheres de todos os tipos e em diferentes situações, sendo negras, grávidas, gays, trans etc, além de muitos menores de idade. Caso vença, a cena final mostra um altar no lugar do congresso e seu personagem governa com um cetro divino na mão, em um cenário que lembra uma vila medieval. As fases se passam da esquerda para a direita.

PSOL

PSOL (bônus level) – Após terminar o jogo com todos os personagens, um novo nível de dificuldade é desbloqueado, junto com este novo personagem. A vida é minúscula e seu ataque causa pouquíssimo dano. Todos os outros personagens se tornam seus inimigos, além dos outros que já existiam. A fase final acontece numa zona eleitoral e, caso seja vitorioso, é possível ver um percentual de 5% piscando na tela, o que significa que você bateu seu próprio recorde de votos. As fases se passam da direita para a esquerda.

Brincadeiras a parte, seria bastante interessante a produção de NewsGames que caminhassem nessa linha. Encerro momentaneamente este bloco de posts voltados para a política, torcendo para que jogadores e produtores se tornem um pouco mais engajados e atentem um pouco mais para essas questões.

Fico no aguardo de várias críticas, mas também de sugestões para diferentes personagens, poderes, fases e finais para esse jogo, que promete fazer muito sucesso ao longo do ano.

E apenas para constar: aqueles que consideram minha ideia absurda, saibam que o personagem Hagar, de Final Fight, é o prefeito da cidade, que sai distribuindo porrada em todo mundo.

Gustavo Nogueira de Paula

Devaneios de consumo

Este texto não sou eu. Foi escrito em primeira pessoa, mas veio de outro lugar, apenas dou voz a ele, sabendo que representa muitos pensamentos. Procure bem e encontrará alguém próximo a você que se sentirá representado e reconfortado com a leitura.

frase-nada-no-mundo-e-mais-perigoso-que-a-ignorancia-sincera-e-a-estupidez-conscienciosa-martin-luther-king-jr-131053


Sempre vejo gente que se acha super inteligente e crítica, no Facebook. Pessoalmente eu quase não encontro essas pessoas e as que encontro são muito chatas, montadas em seus discursinhos politicamente corretos, metidos a comunistas e que sabem o melhor para todo mundo, inclusive eu. Tem gente que vive metendo o bedelho no meu estilo de vida, nas coisas que compro ou que deixo de comprar. Sabe o que mais? Vou falar para essas pessoas: Parem de cuidar da minha vida!

Eu trabalho (ou estudo, no caso de outras pessoas) o dia todo. Acordo bem cedo, pego meu carro, enfrento trânsito até chegar no serviço e fico lá até o fim do dia fazendo tudo que meu chefe pede. Sou um bom funcionário e sei que dessa forma vou subir na empresa e na vida. Quando chego em casa, estou cansado. Tudo que quero é me informar através do Facebook, comer e jogar um pouco, as vezes ver um filme.

Quando vou escolher meu jogo, meu filme, meu livro (esse é mais raro, só quando não tenho nenhum dos outros dois mesmo) não quero nem saber da opinião desse pessoal que se diz intelectual. Eu quero ter uma vida confortável, igual aquelas que vejo na televisão e no cinema. Eu sei que sou pobre. Não sou pobre do tipo que mora em favela, mas não sou rico. Ou seja, sou um pobre, mas acho que sou menos pobre que outros. Só que ninguém gosta de se sentir pobre, mesmo sabendo que é. Eu sou assim. Quero me sentir bem, me sentir parte daquela galera que consome as coisas bacanas.

Na hora em que ligo o videogame e jogo aquele game da moda, eu me sinto por dentro do esquema. Tento reproduzir de forma bem fiel: Arrumo uns salgadinhos, uma Coca e me preparo pra atirar em quem vier pela frente. Não to afim de pensar muito, já passei o dia no trabalho, cansado. Em casa eu não quero pensar, quero atirar. Só que aí você vai conversar com esses seres inteligentes e eles dizem que seu jogo não é crítico, que sou escravo do consumo, que compro qualquer ideia que os EUA colocam na minha cabeça. Só que eu acho que eles só falam isso porque devem ser pobres também, ou porque fingem ser. No fundo eles queriam era morar lá nos EUA também, andar de carrão e ter essa vida de celebridade.

Sem contar que pra mim isso é tudo papo furado. Videogame é videogame, cinema é cinema, TV é TV. Se você não gosta do que tá vendo, é só mudar, não precisa ficar falando isso pra mim, eu não to nem aí para o que você pensa. Se quer assistir seus filmes chatos metidos a cult, jogar seus joguinhos indie, vá em frente, mas não me leve junto com você. Eu quero barulho, porrada, descansar e me divertir. Tem coisa mais gostosa do que assistir Vingadores e ver o Hulk arrebentando com a cara daqueles que querem destruir a Terra? Não quero chegar no final da história e ter que pesquisar em 10 sites e 30 livros para entender as “referências” e conceitos do que aconteceu. Quero terminar a história, recuperar o fôlego e dormir, afinal amanhã tenho que chegar cedo no trabalho, senão meu chefe não me promove. Quem fica reclamando e faz greve deveria era procurar por outro emprego. Isso é coisa de quem não gosta de trabalhar.

Então da próxima vez que for criticar as coisas que eu consumo, saiba que faço isso com muito orgulho. Quero sim me sentir como um consumidor da elite, que vocês tanto falam. Quem não quer? Se não quer, vá morar em Cuba. Não vejo a hora de por as mãos no próximo Call of Duty e de entrar no cinema com um baldão de pipoca para ver o Hulk gritando “Hulk Smash”.

E quando vier me falar que não sou politizado e blá blá blá, saiba que não estou nem aí. Quero mais é chegar em casa e descansar, do jeito que eu bem entender, você não tem nada com isso!


Psicografado por Gustavo Nogueira de Paula

Água com açucar ou sem sal, falta tempero quando falamos de jogos

As vezes é bom dar aquela parada para respirar. Retomar o fôlego e reparar o que acontece a nossa volta, na situação em que nos encontramos e para onde estamos caminhando. No caso, resolvi me atentar principalmente a duas coisas: A proliferação de discursos de ódio e preconceito na sociedade brasileira e as insistentemente superficiais análises e conversas sobre jogos.

As pessoas tem falado bastante, mas ouvido muito pouco
As pessoas tem falado bastante, mas ouvido muito pouco

Falar que o Brasil é um país de todos e sem preconceitos é tão fantasioso quanto o Papai Noel ou o PT ser o governo mais corrupto da história do nosso país. Acontece que esses discursos conservadores e intolerantes estão ganhando força novamente e saindo do armário para ganhar páginas de Facebook e manifestações de caráter duvidoso pelas ruas. Ao mesmo tempo, a produção (em geral) e as críticas de jogos continuam muito bem obrigado, preocupados com novos motores gráficos, novos Call of Duty e Fifas, preço dos jogos no exterior, games e violência e o mesmos papinhos de sempre.

Digo essas coisas, pois, numa breve consulta no próprio Game & Críticas é fácil notar os posts com maior número de comentários: Aqueles em que dou um viés mais político aos jogos, principalmente quando coloco minha própria visão política em jogo, com o perdão do trocadilho. É só comentar qualquer coisa que perturbe o senso comum e o conservadorismo da maioria dos jogadores e já aguardo tranquilo por críticas negativas, normalmente construídas com base em xingamentos, argumentos sem fundamento, raiva, ódio, rancor etc. Vamos a um exemplo – No post “Alerta Vermelho, Mídia versus Escola” eis o comentário de Luiz, na íntegra, com destaques meus:

Porra nenhuma comunista e esquerdista são tudo uns safados e é muito bom jogar Call of Duty e matar comunistas, os estados unidos podiam mandar uns soldados lá para cuba para matar o Fidel Castro. O Carlos tem razão quem se declarasse comunista ou esquerdista deveria ter o mesmo tratamento que um nazista, eu desatesto esquerdistas e comunistas assim como feministas e o pessoal dos direitos do bandidos que defendem mais os bandidos do que os homens de bem se alguém disser que é um simpatizante dessa ideologias já ganha a minha antipatia na hora e meu ódio.

Nota-se que além de bastante mal informado, o ódio toma conta da pessoa, sendo explicitado sem qualquer medo ou vergonha. Mais do que concordar ou discordar com qualquer ideologia, a intenção do indivíduo é a de exterminar aqueles que discordam de sua linha de pensamento.É muito triste ver uma pessoa chegar a este ponto.

Não exijo que os jornalistas do UOL, por exemplo, passem a escrever textos com opiniões tão marcadas quanto as minhas, mas as críticas de jogos seguem as mesmas de sempre, sem sal e tentando agradar quem pode comprar o jogo, sem criticar discursos, distribuidoras etc. Pouco valor se dá a narrativas, estéticas inovadoras, posicionamentos do jogo, possibilidades, nada! Em pleno fervor político, econômico e social que vivemos e as análises de jogos são sempre… as mesmas!

Sequer para falar de mercado, alternativas de compras, criticar os lançamentos “mais do mesmo”, upgrades constantes e caríssimos de hardware, aquisição de pequenas empresas por mega corporações, nada disso é tocado. Não sendo reducionista, mas o resultado disso tudo vemos em comentários estapafúrdios como o apresentado acima. Jogadores mimados, que tratam os jogos como seus meros brinquedinhos, abençoando o sistema capitalista que facilita cada vez mais a sua compra, no conforto dos seus lares, mesmo que muitas vezes isso signifique comprometer quantidade significativa do seu orçamento.

Enquanto a maioria das mídias aborda o assunto, inova e tenta se tornar independente, nós temos visto os grandes jogos com os mesmos temas de sempre, passando por uma crise criativa semelhante a do cinema e reféns de boas produções indie, que ainda sofrem para se estabelecer e muitas vezes também reproduzem formatos e discursos.

discursos

Será realmente lamentável se produtores e jogadores passarem despercebidamente pela efervescência política/social em que vivemos atualmente. Se há realmente uma crise, então que ela sirva para repensarmos modelos, temas e formatos. Não se manifestar agora será um erro tremendo por parte de toda a comunidade jogadora.

Gustavo Nogueira de Paula

Independência indie

Muito feliz eu anuncio que um texto meu, abordando a questão dos indie games foi publicado pela Revista E, do Sesc! A revista é gratuita e possui grande circulação. Agradeço aos amigos e apoiadores deste humilde pesquisador/entusiasta/blogueiro, além de um agradecimento especial a minha querida Ceci! A matéria no portal do Sesc você pode ler clicando aqui, mas também deixo o texto na íntegra logo abaixo. Boa leitura


Ilustração: Marcos Garuti
Ilustração: Marcos Garuti
Por Gustavo Nogueira de Paula
O rótulo de independente vem sendo frequentemente associado a estilos e formatos artísticos específicos, tornando-se algo ligado a estéticas e estilos de vida que buscam fugir do convencional e até mesmo do popular, numa tendência moderna de voltar àquilo que é feito nas garagens e porões mais escondidos e artesanais possíveis. Porém, antes símbolo de uma arte vanguardista e até mesmo rompedora e desbravadora, o indie vem sendo seduzido a se tornar mais um rótulo descolado do que propriamente algo que não se encaixa no perfil das gigantescas corporações do ramo artístico.Foi com o recente amadurecimento do mercado de jogos e das tecnologias informáticas que o cenário dos indie games mudou e permitiu que interessados pudessem produzir suas próprias ideias e conceitos, sobretudo com o advento dos jogos móbile, em celulares e tablets. Um jogo não precisava mais levar horas a fio para ser compreendido, dominado e finalizado pelo jogador. Passou a ser valorizado o jogo casual, fácil de ser aprendido e jogável por uma parcela maior da população. Era a luz que brilhava para as produções independentes, que não necessitariam mais de milhões de dólares para dar vida a suas ideias.

Contudo, a exemplo de outras mídias e artes, os indie games em sua maioria não se aproveitaram de sua condição de alternativos para criar jogos à sua maneira, ficando o “indie” limitado apenas à questão da distribuição direta ou através de financiamentos coletivos. Parece muitas vezes que o maior desejo é ter seu jogo descoberto pelo público e adquirido pelas desenvolvedoras já consagradas no mercado. Aqueles que poderiam tornar-se independentes dos padrões já estabelecidos e arriscar-se em novas ideias e conceitos parecem contar mais com a sorte de terem seus jogos comprados e baixados viralmente nas lojas de aplicativos online, mas reproduzindo todo o modelo do que já existe aos montes por aí.

São diversas etapas existentes até a confecção do produto final, desde os primeiros conceitos até as sessões de testes, que são longas e complicadas. Cada novo problema encontrado requer muitas vezes uma reestruturação de todo o jogo, algo que consome ainda mais tempo e investimento financeiro. Um problema não encontrado durante o período de testes pode arruinar um jogo após seu lançamento, pois nem sempre isso pode ser corrigido pelas atualizações. Diferentemente das gigantes, para os indies não é tão simples encontrar número significativo de jogadores para a realização de testes e apontamento de críticas.

Foi pensando nessa lacuna e na possibilidade de reconhecimento das produções locais que foi criado no Sesc, em Bauru, o Glitch, game lab, em que produtores independentes de games da região podem apresentar suas produções e disponibilizá-las para testes. Por meio desse encontro mensal é possível que os desenvolvedores se conheçam e conheçam o que está sendo feito no cenário local, além de ser possível exporem suas ideias e projeções futuras, relatando cada etapa do desenvolvimento dos jogos.

Talvez por desconhecimento do que é feito por aqui ou pela relativa simplicidade de muitas das produções, que não contam com os orçamentos gigantescos presentes nos grandes lançamentos mundiais, ainda é difícil encontrar produções locais que sejam bem aceitas pelo público. O investimento em temas que sejam próximos aos brasileiros e sua cultura de modo geral, além do aprofundamento em temas históricos e notícias de relevância nacional poderiam alavancar os jogos feitos por aqui, pois a mera reprodução do que já existe mundo afora pode nos colocar numa posição fora de destaque e que não incentiva os jogadores a buscarem por novas experiências, consumindo ideias e conceitos que não necessariamente sejam de seu interesse. Espera-se, dessa forma, que os indies usem sua força para apresentar algo diferenciado e que elevem cada vez mais o status dos jogos enquanto arte capaz de produzir críticas e contar as mais variadas histórias.
Gustavo Nogueira de Paula, animador cultural do Sesc Bauru.
Mestre em linguistica aplicada pelo IEL – Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp.

Apoio mútuo – GLITCH

Pare para pensar e responda rapidamente: Quantas pessoas que trabalham e/ou produzem jogos eletrônicos você conhece? E se conhece, quantas vezes teve a oportunidade de jogar algum de seus jogos?

Em geral, poucos tem esse “privilégio” de conhecer o futuro amigo rico (não é tão simples assim) e os que tem, muitas vezes não tem acesso as produções caseiras/independentes que partem dessas mentes muitas vezes brilhantes. Os motivos são os mais variados. Para aproximar os jogadores em geral, interessados, curiosos e outros produtores de jogos, foi criado o GLITCH – GameLab, fruto de parceria entre alunos da Unesp Bauru e o Sesc Bauru (representado lá pela minha pessoa).

GLITCH

A mecânica é muito simples, aqueles grupos que desejam apresentar seus jogos levam seus computadores (ou você acha que tem mídia e arquivo de fácil instalação dos jogos que ainda estão sendo produzidos?) e os projetam no telão. Falam sobre o funcionamento do jogo, apresentam em que fase de produção estão etc. Depois, todos os participantes se espalham pela sala e tem a chance de colocar as mãos no controle de cada um dos jogos, livremente, no melhor esquema que a bagunça pode oferecer.

O clima é leve, descontraído e bem barulhento. Normalmente são apresentados cerca de 4 jogos, alguns já em fase mais adiantada de desenvolvimento, outros menos. Dá pra dizer que tem muita qualidade saindo das garagens nacionais, mas sem apoio, tempo, espaço e, acima de tudo, grana, não é tão fácil assim de fazer o jogo decolar. Além do que, um detalhe que parece simples acaba por causar  muita dor de cabeça em quem está fazendo o jogo, as sessões de teste.

Em tese, todos gostariam de por as mãos num jogo novo e depois bater no peito dizendo que ajudou durante sua construção, testando-o. Porém, isso se aplica quase que exclusivamente a títulos das gigantes do segmento, como Blizzard, Valve etc. Os beta testes são disputadíssimos e atingem milhões de pessoas, ávidas a criticar o futuro game. Já nas pequenas produções independentes, muitas vezes os testes se resumem a sessões com amigos, estudiosos e mais um ou outro conhecido. Nesse ponto o Glitch tem funcionado muito bem, pois todos podem jogar os jogos uns dos outros e dar seu feedback instantâneo.

Foto retirada do site www.oplayer2.com.br/
Foto retirada do site http://www.oplayer2.com.br/

A ideia é expandir o Glitch, disponibilizar alguns dos jogos em lugares de maior acesso e ampliar a quantidade de testers, trazer produtores de outras regiões e contar com pequenas palestras de produtores de empresas já estabelecidas. O importante é ouvir novas ideias e cada vez mais ampliar esse encontro, sempre favorecendo quem faz e quem quer conhecer as novidades que vem por aí.

Acreditamos que é a partir destas pequenas atitudes que seremos capazes de melhorar o cenário dos jogos nacionais, sobretudo aquilo que é produzido fora das capitais. O interior tem muitas universidades e cursos de qualidade, além de muita gente criativa e capaz, difícil é encontrar espaço.

Um dia esses encontros serão cada vez mais comuns e as produções independentes deixarão de ser algo exótico, se tornando comum na vida dos jogadores. Para que isso aconteça precisamos de mais eventos, mais encontros, mais debates de ideias. É um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para os indies.

Gustavo Nogueira de Paula