Democracy GO

Na esteira do sucesso de Pokémon GO, eis que já lançaram novo jogo baseado no atual cenário político brasileiro, o Democracy GO. Sátira que se apoia escancaradamente no fenômeno nipônico, Democracy GO aproveita o sucesso mundial e recria  uma crítica ácida através do formato e estética do jogo de capturar monstrinhos. O objetivo principal é capturar o máximo de golpistas possível, nesse jogo em que é difícil entender que é amigo e quem é inimigo.

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Para a caracterização do personagem não há grandes opções, mas elas são bem interessantes:

  • Camisa da CBF
  • Roupa Armani
  • Estampa Pixuleco

Entre os acessórios, também pouca coisa:

  • Óculos escuro
  • Cachorrinho  de colo
  • Faixa de apoio ao golpe militar
  • Pato de borracha

O avatar pode ser homem ou mulher e todos eles podem usar quaisquer um dos itens e acessórios durante a customização. Estranhamente não dá pra escolher a cor da pele do personagem, que é branca desde o início, mas não sei bem o porque.

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Como se trata de uma cópia, a mecânica do jogo é idêntica, você precisa arremessar bolas para capturar seus corruptos favoritos. De início você pode escolher um entre os três disponíveis que surgem assim que você cria o personagem: Temer, Cunha ou Calheiros. Há ainda um easter egg, que você descobre ao fugir três vezes destes corruptos iniciais, que lhe permite começar direto com Paulo Maulf, um dos corruptos favoritos dos jogadores.

A estrutura do jogo é simples: basta andar pela cidade a procura dos monstrinhos e tentar capturá-los. Estudos iniciais mostram que a quantidade de jogadores no estado de São Paulo é impressionante, bem como o número de corruptos para capturar. Os corrupstops ficam em lugares tradicionais, como monumentos que homenageiam militares, câmara dos vereadores/deputados, prédio da FIESP, bancos etc. No lugar dos ginásios foram colocados CPI’s, em que você coloca seus parlamentares para lutarem. Normalmente ninguém perde nessas lutas, mas as vezes você acaba gastando seu dinheiro nos duelos.

Entre os mais raros dos monstros está Geraldo Alckmin. Segundo consta, ninguém conseguiu capturá-lo ainda. Por outro lado, Zé Dirceu’s aparecem toda hora, parece até com os Zubats de Pokémon. No lugar dos ovos de Pokémon GO você consegue fazer nascer alguns filhos e netos de políticos, ou consegue angariar alguns seguidores de movimentos pseudo engajados, como Revoltados online etc. Essas incubadoras de seguidores de movimentos pseudo engajados rendem alguns dos monstros mais poderosos, com grande poder de ataque, apesar de péssima capacidade de defesa e vida.

E assim como não poderia deixar de ser, alguns são mais resistentes para serem capturados. Caso esteja enfrentando problemas, basta usar algum dos itens “propina” e eles chegam até a se jogar dentro da corruptoball. Dentre os itens mais poderosos estão o logo BR da Petrobras e alguma pasta de poder. Já o mais fraco dos itens é um pedalinho em formato de pato, que não consegue seduzir ninguém. Sinceramente, nem sei porque ele existe, visto que os outros itens são absurdamente mais poderosos e eficientes.

E se estiver com dificuldade em progredir no jogo, fique tranquilo, pois o cheat é liberado e até incentivado. No final das contas, quando chegar no nível máximo, todos irão dizer que foi mérito seu e que merece estar onde chegou. Mesmo com sua conta banida você pode continuar jogando e mantendo seu status.

Rumores ainda dizem que na próxima atualização você poderá escolher um policial para andar ao lado do seu avatar. Quanto mais selfies tirar com ele, mais XP ele ganha, podendo bater e atirar em qualquer inimigo que surja em seu caminho. Parece que a novidade já rola em alguns lugares, mas poucos jogadores tiveram acesso à novidade.

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Grande sucesso nacional, recomendo que instale agora em seu smartphone. Democracy GO parece que veio para ficar!

OBS: Obviamente esse jogo não existe

OBS 2: Esse blog está de luto pela democracia no Brasil


Gustavo Nogueira de Paula

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Ludoletramento, conhecimento, dificuldade

Aprender a jogar videogame é difícil? Depende, é claro. Se começar com Angry birds pode ser fácil, se começar com Metal Gear pode ser difícil. Entra em campo o histórico de cada um com tecnologia, outros jogos e muitos outros fatores. É bastante comum ouvir das pessoas mais velhas que os jogos de hoje em dia são muito complexos, com muitos botões etc. “Parei no Super Nintendo” é uma frase que beira o corriqueiro, com variantes que vão para Atari, Nintendo ou algum semelhante. Ou seja, para essas pessoas os jogos da época eram mais fáceis de serem entendidos. Mas e quando os jogadores “de hoje” os mais novos, acostumados com tecnologia, se deparam com os tais jogos antigos, mais “fáceis” de serem entendidos? O vídeo abaixo nos ajuda a entender um pouco sobre isso, sobre os signos relativamente estáveis, Ludoletramento e sobre o que faz um jogo difícil/complicado.

Pelo vídeo é possível notar que os jogadores mais novos, mesmo “mais habilidosos” passam vergonha jogando Contra, do já bastante antigo NES (Nintendinho para os íntimos). Chega a parecer armação, de tão terrível a participação deles. É hora então de falarmos um pouco sobre Ludoletramento, signos relativamente estáveis e conhecimento de jogos.

Quem jogou jogos antigamente (como Contra, supracitado), ou entrou em contato com eles através de emuladores, sabe de algumas coisas: Primeiro, são apenas dois botões de interação e um direcional e isso limita significativamente nossa gama de ações possíveis. O direcional serve pra andar e mirar (quando é possível mirar) e os botões servem para atirar e pular. De resto é só combinar cada seta do direcional com cada ação dos botões e em alguns segundos você já viu todos os movimentos do jogo. Detalhe a ser lembrado: essas informações não aparecem na tela, nem há fase de tutorial para aprender. Você é jogado no meio do problema e tem que se virar para entender seu funcionamento. Outro detalhe bem comum: tudo que te encosta te mata e tudo é feito para ser inimigo ou para levar tiro, a interação “amistosa” é zero.

Lhe parece complexo ou falta botões apenas?
Lhe parece complexo ou falta botões apenas?

Isso soa óbvio para quem jogava na época e os jogadores do vídeo parecem ter algum tipo de problema para compreender a mecânica do jogo. Na verdade, não é nem um, nem outro. Jogos como Contra eram comuns na época e os jogadores possuíam essa referência, já os jogadores novos não tem porque entender de primeira os porques do seu tiro não ferir seu colega, mas ser proibido tocar num soldado inimigo que sequer atira em você. Soa absurdo, mas faz todo sentido a uma geração e nenhum sentido a outra, que considera absurdo os soldados imortais de Call of Duty.

O que isso tem a ver com o tal Ludoletramento? Tudo. Ter habilidade para conseguir manejar um controle é apenas o início para saber jogar, se divertir, interpretar e criticar um jogo. Esse “conflito de gerações” mostra que nem sempre dominamos o básico, que é controlar os personagens, além disso os participantes não reconheceram:

  • Número de vidas no canto superior da tela
  • não tocar nos inimigos
  • tudo poderia (e deveria até) ser destruído
  • bastava pressionar o direcional para baixo para descer e/ou atirar para baixo
  • buracos matam
  • os inimigos aparecem sempre no mesmo lugar, da mesma forma e na mesma quantidade
  • ficar parado ajuda a conhecer seus movimentos, quando a tela está sem inimigos
  • cores piscantes são alertas para algo diferente
  • as diferentes “armas” possíveis de serem coletadas

São apenas alguns exemplos, facilmente perceptíveis para uns, menos perceptíveis para outros. Essa dificuldade aparentemente exagerada dos jogos antigos tem seus motivos e qualidades, como já explorada anteriormente em Jogos fáceis demais?.

Para quem acha Contra um jogo difícil, experimente jogar um pouquinho de Gradius
Para quem acha Contra um jogo difícil, experimente jogar um pouquinho de Gradius

É a partir do entendimento de sutilezas como estas que conseguimos compreender melhor as escolhas dos designers e desenvolvedores em geral, e nos ajuda também a entender o porque dos jogos atuais serem como são e o porque de tanta nostalgia ou reverência a um passado que parece ainda mais distante quando realizamos esse tipo de comparação.

Também é possível compreender melhor a complexidade dos jogos e o quanto se transformaram no decorrer do tempo. Para quem deseja estudar a mídia ou produzi-la, sinto muito, mas um mínimo de conhecimento vai precisar possuir a respeito dessas diferenças tão significativas nos modos de jogar e fazer.

No final das contas, você que se acha “pior” nos games porque só sabia jogar Mario, contente-se em ver que talvez tenha mais habilidade do que muito “novinho” por aí.

Gustavo Nogueira de Paula

New Counter Strike – Professor Mode

De acordo com muitos teóricos, os games são excelentes para simular situações de mundo. Você pode treinar pilotos, resolver problemas, gerir uma cidade, aprender a atirar, perder o medo do trânsito, entre outras atividades bastante diversas. Através de algoritmos complexos pode-se inclusive “prever” o resultado de algumas situações. Isso tudo depende de um equilíbrio muito bem feito entre regras de jogo e regras “reais”.

Num jogo de carros, por exemplo, não se espera poder voar com seu automóvel e espera-se que isso prevaleça. Porém, um acidente frontal pode muito bem ser fatal, mas não espera-se a morte do piloto a cada acidente, apenas um recomeço. Os jogadores também esperam que um carro com menos potência e equipamentos seja mais lento do que uma Ferrari recém lançada. Se correr com um Fusca contra a Ferrari dentro do autódromo de Interlagos a derrota é certa. Não é justo correr de Fusca contra a Ferrari, por isso você evolui dentro de cada jogo, até conseguir equipamento suficiente para enfrentar o desafio. Por se tratar de uma simulação, o jogador já prevê essa desigualdade e a encara com naturalidade.

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Já em jogos de tiro essa desigualdade soa de maneira mais incômoda. Você pode ter a melhor mira, melhor esquiva, melhor proteção etc. mas sem uma boa arma, dificilmente vencerá o inimigo armado até os dentes. É injusto, mas as vezes acontece. É dessa forma que foi lançado recentemente no Brasil o novo MOD de Counter Strike – Professor Mode.

Cansados do velho embate entre Policiais e Terroristas, tão fora de moda e pouco aceito pelo público brasileiro, foi lançado, através de incentivos do governo estadual paranaense, o MOD em que professores substituem os famigerados homens encapuzados com Ak-47. Algumas alterações também foram realizadas na mecânica de jogo:

Os policiais contam com cachorros, bombas de gás, armas com bala de borracha, escudos, coletes, máscara, helicópteros, carros, jatos d’água e spray de pimenta. Os professores (terroristas) contam com algumas pedras encontradas no chão e as vezes algum pedaço de pau.

Ao entrar no jogo você pode escolher qualquer uma das duas classes, mas se prepare, pois a dos professores sempre perde e de lavada. Normalmente a tática é sair correndo e tentar fugir, apesar de ser bastante difícil. Se optar pelos Policiais é só sair atirando, sem se preocupar muito, pois em algum momento irá acertar alguém e é isso que conta no final. A disputa principal é para ver quem consegue mais frags.

A distribuidora do jogo disse em nota, após a reclamação de muitos jogadores que optam pela classe professor dizerem que o jogo é injusto, que aqueles que não gostam do jogo deveriam procurar por outro jogo (profissão), pois aqueles que jogam como professor o fazem por amor.

Violência

Apesar desta versão existir há muito tempo no Brasil, ela foi remasterizada e ganhou gráficos novos. A crítica especializada da Veja tem feito grandes elogios a essa nova versão:

É muito legal poder atirar e ver os professores correndo, da uma sensação muito boa. Se fizéssemos dessa forma na vida real o Brasil seria um país melhor. Acho que o único defeito é que eles só ficam vermelhos depois de sangrando, já deveriam começar assim” (Jogador da Veja com o Nick de CoxinhaPower)

Apesar do sucesso de vendas entre os brasileiros, o jogo vem sofrendo algumas críticas, pois apesar de divertido, os policiais não podem atirar para matar, o que limita muito sua ação, exigindo um cuidado irritante na hora de disparar.

Alguns jogadores HardCore porém, descobriram um meio de trapacear dentro jogo, alterando a cor de seu personagem para amarelo, tal qual a seleção brasileira. Quando a trapaça é habilitada os policiais ficam cegos e não conseguem encontrar o alvo para atirar, inclusive confundindo-os com alguém do seu time. Já outros jogadores dizem ter conseguido o mesmo efeito, mas alterando a roupa dos personagens para um jaleco branco. Os produtores preferiram não comentar a respeito de tais bugs e disseram ser invenção de jogadores canhotos.

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E você, o que está esperando para jogar? Mergulhe de cabeça nessa aventura que promete fazer sucesso no Brasil nas próximas décadas. Não fique de fora, acesse soucontraeducacaopublicadequalidade.coxinha.br e adquira já o seu, é de graça.


Texto em homenagem aos professores grevistas no Paraná

Gustavo Nogueira de Paula

Quem escreve sobre jogos?

Os últimos posts do Game & Críticas foram fortemente voltados para questões políticas e sociais, sempre tocando os games de alguma maneira e acho que isso foi facilmente percebido pelos leitores. Porém, chega o momento de dar um tempo neste viés da política (sem jamais deixar de ser político de alguma forma, visto que isso seria impossível). É sempre nosso dever, enquanto cidadãos e sociedade civil nos manifestarmos em relação às inúmeras incoerências que nos deparamos, mas se eu for apontar todas as insanidades midiáticas que nos deparamos atualmente e como a comunidade jogadora e produtora mainstream (de games) tem feito nada a respeito disso eu passaria a vida escrevendo e jamais sairia desta pauta. Sendo assim, resolvi retornar à questão os games de uma forma mais “direta”. Para isso, nada melhor do que (re)começar do zero, a partir de um questionamento simples – “Quem escreve sobre jogos?”

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Essa pergunta surgiu depois que me deparei com uma matéria da Kotaku americana (site que gosto bastante por sinal), intitulada “Surprise! Doom is Still And Incredible Game“. De início me parece um texto interessante, afinal de contas alguém ia analisar Doom à luz dos dias atuais. Apenas para relembrar/esclarecer a qualquer desavisado, Doom é um dos pioneiros no estilo First Person Shooter e conta com um design que foi bastante inovador, sobretudo na época de seu lançamento (o já distante ano de 1993). Com fases labirínticas, inimigos assustadores e o estilo em primeira pessoa, marcou uma era e foi seguido por uma leva de jogos que tentaram imitá-lo, mais menos bem sucedidamente. Só que para minha surpresa o artigo da Kotaku começa da seguinte forma “I have a confession to make: my introduction to shooters began with Halo and Half-Life 2, and because of this, I only recently tried my hand at Doom, id Software’s 1993 shooter. BecauseDoom was so old, I figured it had nothing to teach me.” Traduzindo pelo Google Translate (para mostrar que hoje em dia é bem mais fácil ler algo em inglês, mas com algumas correções, obviamente):

Eu tenho uma confissão a fazer: a minha introdução aos shooters começou com Halo e Half-Life 2, e por causa disso, eu só recentemente coloquei a minha mão em Doom, id Software 1993, porque  Doom era tão velho, que achei que não haveria nada para me ensinar. (ênfase minha)

O restante do texto perdeu completamente o interesse para mim. Nem vou julgá-lo se foi bem escrito ou não, já que esta introdução se tornou muito mais marcante para mim. É alarmante pensar que, num site tão famoso sobre jogos, alguém que tenha espaço para escrever colunas nunca tivesse jogado Doom e ainda considera uma surpresa que o jogo seja bom até hoje. Não estamos falando de um indie desconhecido que só um ou outro conhecem. Estamos falando de DOOM.

Com certeza o autor possui vários argumentos para justificar nunca ter jogado Doom, mas como pode representar um crítico/analista sem ter sentido e conferido algo tão clássico. Seria como nunca ter jogado Mario, Atari, Civilization, Sim city etc. E não me refiro aqui a ser saudosista, mas sim a ter conhecimento sobre cada gênero e seus ícones dentro do universo dos games. Analogamente, é como um filósofo que nunca leu Marx (ou Nietzsche, etc), um geógrafo sem Milton Santos, um músico que nunca tenha escutado Mozart e por aí vai. Trata-se de uma formação intelectual dentro dos jogos. Pode não ser problemático iniciar sua vida nos FPS a partir de Halo ou Half Life 2, afinal de contas cada um nasceu em uma época, mas levar tanto tempo para conhecer um clássico como Doom é sintomático de uma geração de escritores sobre jogos (e também de jogadores).

O "velho e antiquado DOOM"
O “velho e antiquado DOOM”

Como eu disse,com certeza há argumentos e desculpas, assim como eu tenho os meus para dizer o porque de não ter um PS4, um Xbox One, de não jogar os mais recentes lançamentos, de ter um pc Dell Inspiron de 2009, já que não recebo patrocínio ou salário para escrever e estudar sobre jogos. Muitos torcem o nariz para quem escreve sobre jogo antigos ou abordam os games sob outro ponto de vista que não seja um guia de compras. Contudo, possuo mestrado na área, anos e anos como jogador e leitor contínuo e estudante assíduo do que acontece neste meio.

Ressalto também que isso não é exclusividade do mundo dos games, muito pelo contrário. Os principais colunistas sobre Educação em nosso país jamais estudaram um mínimo sobre Pedagogia ou qualquer assunto ligado á área, sendo a maioria advindos da Economia, Administração etc. basta conferir a revista Veja (não, não vá conferir, isso é apenas um exemplo). Temos médicos que prescrevem exercícios físicos, apresentadores de TV que receitam dietas, jornalistas medianos que falam sobre política, enfim, a lista é grande.

Não defendo que as coisas sejam como no futebol brasileiro, dominados por boleiros que se julgam superiores a todo e qualquer estudo científico da área, apenas por já terem jogado profissionalmente. Acontece que no caso dos games, colocar as mãos em um clássico é como uma leitura obrigatória no curso universitário.

Para deixar tudo isso ainda mais assustador, em conversa com alguns estudantes de design e/ou produção de jogos, tenho escutado cada vez mais que os alunos consideram jogos antigos ruins por terem gráficos obsoletos, ou por não serem tão complexos como os atuais. Isso demonstra uma gigantesca falta de conhecimento sobre o assunto,  ao tratá-los de forma tão superficial, além de uma péssima formação acadêmica e falta de preparo na produção e estudo de jogos, algo bastante triste e lamentável.

A vida adorável de escrever sobre games
A vida adorável de escrever sobre games

São estas e outras situações semelhantes que nos mostram a importância do Ludoletramento, um aprendizado SOBRE os jogos, anterior a qualquer aprendizado para (a produção e trabalho sobre) os jogos. Seja na educação básica ou na superior, considero cada vez mais importante um estudo detalhado e aprofundado desta mídia, que em muitos casos não parece ser devidamente valorizada sequer pelos próprios jogadores.


Gustavo Nogueira de Paula

Tempo, tempo, Tempo, Tempooo

Você leitor tem tempo para que hoje em dia? Depende da situação:

Trabalhador comum com jornada de 40h – acorda cedo, se arruma e tenta afastar o sono, vai para o trabalho, toma seu café, faz o que precisa ser feito. Da um intervalo para o almoço, trabalha mais, toma mais café e vai pra casa. Chega, cuida de casa, consegue algo para comer e aí sim talvez tenha algum tempo livre. Já é tarde da noite, é possível jogar um pouco e não dormir tarde demais, afinal de contas, amanhã de manhã tem mais trabalho. Se incluir filhos ou segundo trabalho nessa lista (incluindo o trabalho doméstico) esse tempo livre ainda diminui um pouco.

Tempo contado
                      Tempo contado

Desempregado: Fora os afazeres domésticos e a busca por emprego e qualificação, tem bastante tempo, mas esse tempo normalmente não aplicado em lazer, devido a falta de grana e a tensão gerada pela falta de trabalho.

Jovem estudante de ensino fundamental ou médio: Se for mais pobre, escola e casa, depois brincar no quintal, na rua, arrumar confusão com o irmão etc. Tendo videogame, da pra jogar razoavelmente durante o dia também. Se for um pouco mais rico é escola e casa, depois inglês, natação, judô, dança ou algum outro curso desse tipo. Depois disso é lição de casa e, finalmente, tempo livre para jogar, inclusive jogos pagos, online, com direito a contas premium e compra de itens.

Jovem estudante universitário. ir pra aula quando for possível, comer na faculdade, ir pra festas quando for possível, estudar em véspera de prova, jogar sempre quando quiser. Se virar com exames no fim do semestre. Se for bom aluno a coisa muda um pouco, pois poderíamos incluir estudos em casa, seminários, produção de textos, participação em laboratórios, grupos de pesquisa e várias coisas legais da universidade. Quando possível, videogame.

Brincadeiras a parte, a ideia é ter uma noção do tempo livre que as pessoas comuns possuem. Em geral, não é muito devido ao trabalho, sendo maior entre os jovens (apesar desse tempo também ter diminuído nessa faixa de idade). Esse tempo livre ainda é dividido entre várias coisas, como ler, assistir a filmes, namorar, ir a bares e restaurantes, ouvir música, conversar com amigos, praticar esportes e toda e qualquer diversão possível no momento de lazer.

O tempo para o videogame é concorrido, todo o tempo é concorrido. Tudo isso para perguntar: “Quanto tempo deve durar um jogo?”. Será que todo jogo precisa ter a duração de GTA ou de Elder Scrolls? Quem possui tempo para esse tipo de jogo?

Apesar de não crer que esse tipo de jogo irá acabar ou sequer diminuir, prevejo um bom horizonte para os jogos com duração menor, sobretudo na produção indie. Games como Journey, que contam uma belíssima história e possuem quase a mesma duração de um filme, tem a tendência de ganhar mais espaço na vida corrida das pessoas, assim como já foi com os jogos casuais.

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É cada vez mais difícil conseguir obter por completo a experiência de um jogo, isso sem contar os jogos multiplayer online, que demandam ainda mais tempo. Acredito que parte da evolução dos jogos esteja justamente na capacidade de contar histórias em tempos menores, em formas de capítulos, deixando os grandes desafios para os jogos “grandes”, para os jogadores que anseiam por esse tipo de desafio. Não é todo mundo que quer ficar morrendo várias e várias vezes para ver o final de um jogo, em muitos casos se irritando mais do que se divertindo.

Não há tempo ideal para jogos, mesmo porque alguns sequer precisam ter um final. O que vale aqui é o questionamento de quanto devem durar e o fim do mito de que jogos bons são apenas aqueles que entregam mais de 100h de “pura diversão” a seus jogadores. Quando tiver um tempo, pense nisso.

Gustavo Nogueira de Paula

Jogo indie, jogo gourmet

Pipoca, tapioca, brigadeiro, cachorro quente, cerveja, sala de cinema, salão de festas, terraço, hamburguer… qualquer coisa que você imaginar hoje em dia pode vir com o adjetivo gourmet. Em alguns casos trata-se de mero acréscimo de preço, em outros de reestilizações forçadas de receitas clássicas. Ambos os casos remetem a uma simples onda de mercado para gerar mais lucro e seduzir consumidores desatentos ou sedentos por esbanjar um pouco. Nada de novo, apenas estratégias de mercado.

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Porém, essa gourmetização esconde um gostinho pelo desprezo. Por que comer um lanche que todo mundo come, se posso pagar o dobro por um hamburguer gourmet e me distinguir do resto das pessoas? Pensamento mesquinho e superficial, mas que ronda a cabeça de muita gente.

Também gosto de boa comida e boa bebida, creio que todos gostem. Particularmente também tenho minha preferência por cervejas artesanais já tem uns bons anos, tendo inclusive produzido algumas levas caseiras em parceria com amigos. Se puder optar, sempre tomarei uma artesanal nacional ao invés da típica cerveja de milho e arroz. A diferença é a forma com que tratamos as pessoas que tomam a cerveja “comum”.

Sim, o Game&Críticas é um blog sobre games e essa longa introdução é pra falar sobre algo que tenho percebido ultimamente. Ainda não é algo tão comum, mas já começa a surgir a gourmetização dos jogos. Não na produção, mas no consumo. Se você joga Games AAA pode acabar sendo taxado de ignorante, consumista e uma série de adjetivos nada bons. O Hype é encontrar jogos que ninguém conhece, ninguém joga e falar de boca cheia que o jogo é requintado, isso e aquilo.

Acho ótimo essa busca por jogos alternativos, mas o desprezo por quem joga os games comuns é tão ridículo como qualquer outro preconceito. É a reprodução de preconceito que vários jogadores sempre sofreram, mas agora de forma “interna”. É a típica síndrome do “exclusivismo” ou “anti modismo”. Fulano sempre ouviu/vestiu/comeu determinada coisa, mas se ela entra na moda, perde a graça. Só é divertido enquanto é exclusivo.

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Há um longo processo para que a grande massa de jogadores passe a apreciar uma quantidade maior de jogos e não apenas Fifa 10, 11, 12, 13, 14… Call of Duty, etc. E há ainda aqueles que conhecem uma gama variada de jogos e ainda assim preferem jogos populares.

Preocupa-me essa onda “gourmet” dentro dos jogos, que trata os indies como a única coisa boa no meio dos videogames. Não é mérito algum se considerar melhor que os outros por consumir algo supostamente diferenciado. Espero que esse pensamento tolo seja varrido da cultura dos jogadores e que indies e AAA convivam pacificamente. Basta criar um escudo anti gourmet, que nos defenda contra o raio gourmetizador.

Gustavo Nogueira de Paula

Aniversário do Game & Críticas

Oficialmente o blog estreou no dia 05 de Janeiro de 2012. Porém comecei a divulgá-lo somente no início de Março, pois eu gostaria de possuir um corpo mínimo de textos antes de traze-lo a público.

Aproveito então a proximidade com meu próprio aniversário para comemorar esse um ano do blog. Foram vários, textos, discussões, debates, comentários e contribuições.

Falei de diferentes temas, realizando críticas de alguns jogos, apontando problemas e sempre refletindo muito.

Já são mais de 13 mil visitas, o que considero um bom número devido (ainda) a falta de um maior investimento no blog, que deve acontecer em breve. Através do game & críticas consegui expressar muitos pensamentos e registrar muito do que converso com as pessoas.

Nesse meio tempo eu ministrei algumas palestras e recentemente sai em uma entrevista no Estadão. O trabalho cresceu bastante e tenho me motivado a realizar meu doutorado no assunto, pois quanto mais o tempo passa mais eu percebo a necessidade disso. Os games ainda estão longe de serem bem vistos aqui no Brasil, basta olhar a discussão em torno disso com a Ministra Marta Suplicy

O sentimento após esse um ano é dos melhores e pretendo continuar escrevendo nesse blog, que começou como uma pequena ideia, mas que pretendo levar ainda mais adiante nesse ano.

Agradeço muito aos meus colaboradores e leitores, já que sem vocês esse espaço não seria nada. Para os próximos meses vou soltar uma série de críticas, a lista de jogos desse ano está imensa e parece que vai só aumentar. Uma pena que ainda não é possível possuir todos e a velocidade com que jogo tem diminuído, pelo fato de eu não me dedicar exclusivamente a isso.

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Obrigado e vamos em frente!

Gustavo Nogueira de Paula