Democracy GO

Na esteira do sucesso de Pokémon GO, eis que já lançaram novo jogo baseado no atual cenário político brasileiro, o Democracy GO. Sátira que se apoia escancaradamente no fenômeno nipônico, Democracy GO aproveita o sucesso mundial e recria  uma crítica ácida através do formato e estética do jogo de capturar monstrinhos. O objetivo principal é capturar o máximo de golpistas possível, nesse jogo em que é difícil entender que é amigo e quem é inimigo.

direita

Para a caracterização do personagem não há grandes opções, mas elas são bem interessantes:

  • Camisa da CBF
  • Roupa Armani
  • Estampa Pixuleco

Entre os acessórios, também pouca coisa:

  • Óculos escuro
  • Cachorrinho  de colo
  • Faixa de apoio ao golpe militar
  • Pato de borracha

O avatar pode ser homem ou mulher e todos eles podem usar quaisquer um dos itens e acessórios durante a customização. Estranhamente não dá pra escolher a cor da pele do personagem, que é branca desde o início, mas não sei bem o porque.

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Como se trata de uma cópia, a mecânica do jogo é idêntica, você precisa arremessar bolas para capturar seus corruptos favoritos. De início você pode escolher um entre os três disponíveis que surgem assim que você cria o personagem: Temer, Cunha ou Calheiros. Há ainda um easter egg, que você descobre ao fugir três vezes destes corruptos iniciais, que lhe permite começar direto com Paulo Maulf, um dos corruptos favoritos dos jogadores.

A estrutura do jogo é simples: basta andar pela cidade a procura dos monstrinhos e tentar capturá-los. Estudos iniciais mostram que a quantidade de jogadores no estado de São Paulo é impressionante, bem como o número de corruptos para capturar. Os corrupstops ficam em lugares tradicionais, como monumentos que homenageiam militares, câmara dos vereadores/deputados, prédio da FIESP, bancos etc. No lugar dos ginásios foram colocados CPI’s, em que você coloca seus parlamentares para lutarem. Normalmente ninguém perde nessas lutas, mas as vezes você acaba gastando seu dinheiro nos duelos.

Entre os mais raros dos monstros está Geraldo Alckmin. Segundo consta, ninguém conseguiu capturá-lo ainda. Por outro lado, Zé Dirceu’s aparecem toda hora, parece até com os Zubats de Pokémon. No lugar dos ovos de Pokémon GO você consegue fazer nascer alguns filhos e netos de políticos, ou consegue angariar alguns seguidores de movimentos pseudo engajados, como Revoltados online etc. Essas incubadoras de seguidores de movimentos pseudo engajados rendem alguns dos monstros mais poderosos, com grande poder de ataque, apesar de péssima capacidade de defesa e vida.

E assim como não poderia deixar de ser, alguns são mais resistentes para serem capturados. Caso esteja enfrentando problemas, basta usar algum dos itens “propina” e eles chegam até a se jogar dentro da corruptoball. Dentre os itens mais poderosos estão o logo BR da Petrobras e alguma pasta de poder. Já o mais fraco dos itens é um pedalinho em formato de pato, que não consegue seduzir ninguém. Sinceramente, nem sei porque ele existe, visto que os outros itens são absurdamente mais poderosos e eficientes.

E se estiver com dificuldade em progredir no jogo, fique tranquilo, pois o cheat é liberado e até incentivado. No final das contas, quando chegar no nível máximo, todos irão dizer que foi mérito seu e que merece estar onde chegou. Mesmo com sua conta banida você pode continuar jogando e mantendo seu status.

Rumores ainda dizem que na próxima atualização você poderá escolher um policial para andar ao lado do seu avatar. Quanto mais selfies tirar com ele, mais XP ele ganha, podendo bater e atirar em qualquer inimigo que surja em seu caminho. Parece que a novidade já rola em alguns lugares, mas poucos jogadores tiveram acesso à novidade.

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Grande sucesso nacional, recomendo que instale agora em seu smartphone. Democracy GO parece que veio para ficar!

OBS: Obviamente esse jogo não existe

OBS 2: Esse blog está de luto pela democracia no Brasil


Gustavo Nogueira de Paula

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New Counter Strike – Professor Mode

De acordo com muitos teóricos, os games são excelentes para simular situações de mundo. Você pode treinar pilotos, resolver problemas, gerir uma cidade, aprender a atirar, perder o medo do trânsito, entre outras atividades bastante diversas. Através de algoritmos complexos pode-se inclusive “prever” o resultado de algumas situações. Isso tudo depende de um equilíbrio muito bem feito entre regras de jogo e regras “reais”.

Num jogo de carros, por exemplo, não se espera poder voar com seu automóvel e espera-se que isso prevaleça. Porém, um acidente frontal pode muito bem ser fatal, mas não espera-se a morte do piloto a cada acidente, apenas um recomeço. Os jogadores também esperam que um carro com menos potência e equipamentos seja mais lento do que uma Ferrari recém lançada. Se correr com um Fusca contra a Ferrari dentro do autódromo de Interlagos a derrota é certa. Não é justo correr de Fusca contra a Ferrari, por isso você evolui dentro de cada jogo, até conseguir equipamento suficiente para enfrentar o desafio. Por se tratar de uma simulação, o jogador já prevê essa desigualdade e a encara com naturalidade.

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Já em jogos de tiro essa desigualdade soa de maneira mais incômoda. Você pode ter a melhor mira, melhor esquiva, melhor proteção etc. mas sem uma boa arma, dificilmente vencerá o inimigo armado até os dentes. É injusto, mas as vezes acontece. É dessa forma que foi lançado recentemente no Brasil o novo MOD de Counter Strike – Professor Mode.

Cansados do velho embate entre Policiais e Terroristas, tão fora de moda e pouco aceito pelo público brasileiro, foi lançado, através de incentivos do governo estadual paranaense, o MOD em que professores substituem os famigerados homens encapuzados com Ak-47. Algumas alterações também foram realizadas na mecânica de jogo:

Os policiais contam com cachorros, bombas de gás, armas com bala de borracha, escudos, coletes, máscara, helicópteros, carros, jatos d’água e spray de pimenta. Os professores (terroristas) contam com algumas pedras encontradas no chão e as vezes algum pedaço de pau.

Ao entrar no jogo você pode escolher qualquer uma das duas classes, mas se prepare, pois a dos professores sempre perde e de lavada. Normalmente a tática é sair correndo e tentar fugir, apesar de ser bastante difícil. Se optar pelos Policiais é só sair atirando, sem se preocupar muito, pois em algum momento irá acertar alguém e é isso que conta no final. A disputa principal é para ver quem consegue mais frags.

A distribuidora do jogo disse em nota, após a reclamação de muitos jogadores que optam pela classe professor dizerem que o jogo é injusto, que aqueles que não gostam do jogo deveriam procurar por outro jogo (profissão), pois aqueles que jogam como professor o fazem por amor.

Violência

Apesar desta versão existir há muito tempo no Brasil, ela foi remasterizada e ganhou gráficos novos. A crítica especializada da Veja tem feito grandes elogios a essa nova versão:

É muito legal poder atirar e ver os professores correndo, da uma sensação muito boa. Se fizéssemos dessa forma na vida real o Brasil seria um país melhor. Acho que o único defeito é que eles só ficam vermelhos depois de sangrando, já deveriam começar assim” (Jogador da Veja com o Nick de CoxinhaPower)

Apesar do sucesso de vendas entre os brasileiros, o jogo vem sofrendo algumas críticas, pois apesar de divertido, os policiais não podem atirar para matar, o que limita muito sua ação, exigindo um cuidado irritante na hora de disparar.

Alguns jogadores HardCore porém, descobriram um meio de trapacear dentro jogo, alterando a cor de seu personagem para amarelo, tal qual a seleção brasileira. Quando a trapaça é habilitada os policiais ficam cegos e não conseguem encontrar o alvo para atirar, inclusive confundindo-os com alguém do seu time. Já outros jogadores dizem ter conseguido o mesmo efeito, mas alterando a roupa dos personagens para um jaleco branco. Os produtores preferiram não comentar a respeito de tais bugs e disseram ser invenção de jogadores canhotos.

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E você, o que está esperando para jogar? Mergulhe de cabeça nessa aventura que promete fazer sucesso no Brasil nas próximas décadas. Não fique de fora, acesse soucontraeducacaopublicadequalidade.coxinha.br e adquira já o seu, é de graça.


Texto em homenagem aos professores grevistas no Paraná

Gustavo Nogueira de Paula

Alerta vermelho e a Mídia vs Escola

As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS
As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS

Pelo menos de dois em dois anos o discurso político passa a receber atenção das pessoas. Seja pra falar mal de todo mundo, compartilhar boatos e mentiras  ou discutir propostas e ideias, é fato que isso chega a vida das pessoas, mesmo que de formas bastante distintas.

Nessas horas/épocas nos deparamos com todo tipo de discurso, porém um em específico tem chamado demais minha atenção: O discurso de ódio preconceituoso e a direita cada vez mais forte. Não deveria, mas ainda me choco ao ver como as pessoas tem mais ódio do que medo em relação as palavras comunismo, socialismo e derivados. A cor vermelha é quase banida, sobretudo se você for do Estado de São Paulo.

Neste exato ponto começa a reflexão que nos leva de volta ao assunto principal deste Blog, os videogames. Se os conteúdos curriculares estão aí para todos, os livros didáticos, as apostilas, as obras literárias, os debates na internet etc então por que tanta ignorância ao falar sobre esses assuntos? Porque é bem diferente alguém estudar e conhecer o socialismo, para então criticá-lo, do que o ódio corriqueiro que costumamos ver por aí, quase 100% das vezes baseados em argumentos sem o menor sentido.

Acontece que ante o discurso escolar/acadêmico nós temos uma enxurrada de falas perversas a respeito de qualquer política ou pensamento de esquerda. De jornais de notícias, a programa de fofocas e jogos de tiro em primeira pessoa, a ideia é sempre a mesma, combater o comunismo em defesa da liberdade do capitalismo.

Como convencer uma criança, através de aulas escolares, que o Zangief não é “do mal”? Como fazer com que um jovem perceba que os “heróis” do Call of Duty massacram outros povos? Como dar foco ao fato de que a cor vermelha é sempre o segundo player, que nos jogos antigos sequer aparecia na sequencia final?

Infelizmente o discurso escolar não tem força pra vencer isso. São poucos minutos de aulas específicas contra uma praticamente uma vida toda de Rambos, Indiana Jones, Final Figth, Call of Duty etc. A competição é muito desleal e acaba desembocando na ignorância que tanto vemos espalhadas por aí.

Alerta vermelho
Alerta vermelho

Que exista pessoas que realmente sejam contra o pensamento de esquerda, embasadas e apoiadas em estudos eu não duvido. Nem vou julgar o que seria melhor, não é a ideia desse post. O problema é o ódio, desconhecimento e preconceito, que taxa não apenas as políticas voltadas ao social, mas também todos aqueles que as defendem.

Não há solução a curto prazo, mas como sempre digo, através da produção de jogos nacionais, com temáticas que fujam dessa dicotomia Azul x Vermelho e que não reproduzam preconceitos políticos tolos e infantis, talvez possamos diminuir essa ignorância. Aí, voltamos ao papel da escola, que ao invés de apenas apresentar as doutrinas políticas deveria também instruir sobre os discursos midiáticos, para que as pessoas saibam criticar seus conteúdos e não apenas reproduzir asneiras preconceituosas que expõem sua ignorância política nas redes sociais.

É um trabalho de formiga, que precisa ser feito passo a passo, mas precisamos nos mexer, pois esperar que Globo, Warner, Activision, Microsotf e afins passem a mudar seus discursos em prol da educação das pessoas, sinto muito, mas teremos que esperar por uma nova humanidade.

Gustavo Nogueira de Paula

O voto acima de tudo

É tempo de eleição. Deputado, governador, presidente e senador, todos querem seu voto. O seu e o de todo mundo. Pra conseguirem isso os candidatos são capazes das mais variadas estratégias, sejam elas bizarras, mentirosas, incoerentes ou simplesmente agressivas. Nesse meio do caminho entre o eleitorado e o candidato estão diversos meios, panfletos, discursos, TV, rádio, videogame e a internet, sendo que esses dois últimos são os filhos mais novos a entrarem nessa roda.

Eleicoes

Contudo, estamos em um país com uma Educação que deixa muito a desejar, sendo que não me refiro apenas a diplomas escolares/universitários, pois me refiro também a ignorância política e social. Dessa forma, a internet e os meios digitais se tornaram em muitos os casos o centro das atenções e disseminadores das coisas mais absurdas possíveis.

Até aí nada de novo, pois a internet sempre foi palco para os mais bizarros shows de horrores e, não sei isso pode soar como empirismo demais de minha parte, mas parece que nunca vi tanta gente acreditando em “notícias” e “pesquisas” das mais falsas e preconceituosas que já vi. De foto montagens a falsas declarações, o facebook, Twitter e qualquer rede social se tornaram uma verdadeira aula de disseminação de fofocas e bobagens.

Como se não fosse só isso, o que não falta é candidato metido a descolado, representando uma tal “juventude que clama por mudança”, falando em diminuir impostos para jogos e blá blá blá. Não sei o que me dói mais, se alguém acreditar nisso ou votar por achar isso algo tão vital assim a ponto de doar seu voto a tal candidato.

Coisa séria é difícil de encontrar e as vezes um candidato pode fazer muito mais para os jogos através de incentivos culturais, bolsas de pesquisa, estágios no exterior (Ciência sem fronteiras? vi bastante gente indo estudar jogos lá fora), do que com essas promessas de baixar preço de jogos feito para garotos mimados que acham que “o governo” é muito maldoso com ele que não pode comprar o Call of Duty novo dia do lançamento.

Enquanto isso prefiro ficar com o exemplo do Flappy no duto, paródia do jogo Flappy bird (ou paródia do caso do Propinoduto) em que o jogador tem que guiar seu lindo tucano por entre os túneis do metrô. Uma pena que a maioria dos jovens produtores normalmente não estão muito ligados a causas políticas e acabam reproduzindo os mesmos jogos de sempre com carinhas e botões novos. Mas em tempo de eleição não custa nada lembrar desse belo exemplo de como os games podem ser bem expressivos e, acima de tudo, críticos.

Flappynoduto
Flappynoduto

 

Nada contra um candidato falar de jogos, falar que joga ou qualquer coisa que o valha, mas normalmente isso é só uma forma rasa de se aproximar dos jovens, que tradicionalmente não se interessam por muita coisa (no caso da política, não só os jovens, mas a população como um todo). Como exemplo posso citar esse texto do Estadão como algo bem coxinha a respeito da junção entre games e política.

Quando o assunto é eleição ainda prefiro o esquema a moda antiga: Debates de verdade, propostas coerentes, de preferência voltadas a Educação e ao Social e honestidade. Esse papinho moderninho não me atrai muito. Se for pra aproximar os jovens de verdade da política não tenho nada contra, se for pra ganhar votos, lamento muito. E se for para os jogos entrarem de verdade nesse meio, que seja cada vez mais com exemplos como esse do Flappynoduto.

Gustavo Nogueira de Paula

OBS: Assumo aqui minha veia política e já adianto que sou contra o PSDB e afins

OBS 2: Uma pena que não consegui conferir o jogo do Tucaninho pra dar umas boas risadas e colocar aqui no post tb

Do papel para a tela e para a ação

O Brasil passa por um momento político interessante. Gente nas ruas, protestos, aumento e diminuição nos preços das passagens do transporte público, copa das confederações e por aí vai. Nesse meio tempo muita gente se envolveu com essas questões e resolveu dar seu grito e protestar também. Mas pra além de marchar na rua com um cartaz legal, o que tem sido feito? Sei de muita gente séria envolvida, que tem pautas bem definidas e participação sempre ativa na política, mas e os outros? Até onde podemos caminhar e o que podemos fazer no dia dia?

Qual gigante acordou?
Qual gigante acordou?

Pode parecer estranho um blog sobre games tocar em um assunto como esse, mas não é. Pelo menos não para mim. Primeiro porque não da para ficar de fora de uma discussão como esta e segundo porque os jogos podem fazer muito nesse tipo de situação, bem como em outras diversas. Para quem dúvida, fique tranquilo, pois darei um pequeno exemplo de como essa discussão pode ser trabalhada com crianças.

Recentemente ministrei um jogo que se aproximava de um jogo de RPG com as crianças com quem trabalho. Dividi a turma de aproximadamente 25 crianças em 4 grupos, sendo que cada um deles representavam: Senhores de engenho, capitães do mato, religiosos (que incluíam desde católicos até indígenas) e escravos. Após a divisão eu lhes atribui os pontos de vida e habilidades especiais:

  • Senhores de engenho – PV 20, defesa 2 e ataque 2. Habilidade especial – voltar uma jogada de dados, dinheiro ilimitado
  • Capitães do mato – PV 15, defesa 4 e ataque 4. Habilidade especial – dobrar um resultado de dados
  • Religiosos – PV 15, defesa 3 e ataque 2. Habilidade especial – cura três vezes ao dia
  • Escravos – PV 10, defesa 3 e ataque 3. Habilidade especial – derrubar o adversário.

Os “objetivos” de cada grupo foram ditos separadamente e foram os seguintes:

  • Senhores de engenho – não deixar os escravos fugirem e, se possível, aliarem-se aos religiosos
  • Capitães do mato – não deixar os escravos fugirem e protegerem os senhores de engenho. Em caso de perigo de morte poderiam fugir
  • Religiosos – inicialmente “neutros”, poderiam escolher algum lado para auxiliar
  • Escravos – fugir e, se possível, aliarem-se aos religiosos.

Narrei a história de maneira simples e o enredo foi:

No Brasil, período de 1800 e alguma coisa, uma fazenda em Minas gerais. O fato de ser uma fazenda riquíssima e de grande influência fez com o que o Rei fosse visitá-la. Como parte da visita estava combinada a celebração de uma missa e também um jantar logo em seguida.

Apresentado esse plano de fundo eu concedi 2 minutos a cada grupo para decidirem suas ações, sem que os outros soubessem o que pretendiam. Ao término do tempo eles me contavam em segredo o que pretendiam e então eu continuava a narrar a história.

Logo de início, tanto os escravos, quanto os senhores de engenho, foram falar com os religiosos. Primeiro ouvi dos escravos “mas nós não temos nada a oferecer a eles, vamos ter que inventar uma mentira”, enquanto por outro lado as crianças que eram os senhores de engenho conversaram com os religiosos tranquilamente e falaram “vocês não precisam reformar essa capela? Quem sabe algumas estatuetas de ouro, tapetes novos, talvez até uma nova capela ainda maior”.

As crianças/escravos ficaram indignados e já começaram a chamar o jogo de injusto. Depois armaram um belo plano: disseram aos religiosos que tinham descoberto uma ideia terrível dos senhores de engenho e que assim que o rei partisse eles não melhorariam em nada a capela e que os religiosos teriam que trabalhar diretamente para os donos da fazenda.

A plano até que funcionou e colocou uma pulga atrás da orelha dos religiosos, que começaram a questionar as intenções dos senhores de engenho. Nisso, os escravos aproveitaram para invadir o quarto do Rei e realizarem várias exigências. Os capitães do mato ameaçaram atirar e ouviram que eles seriam os novos escravos, caso os atuais morressem.

Em pouco tempo a sala se tornou uma bagunça e estavam todos de pé discutindo, com a tensão de um sequestro.

Nem vimos e o tempo passou, era o fim da atividade em pleno seu auge. No dia seguinte conversei com eles e disseram que haviam gostado muito e queriam terminar de jogar (detalhe, não houve sequer uma jogada de dados). Comecei a questioná-los sobre  o que havia passado e ouvi coisas muito interessantes. Foi engraçado ver como a sociedade em que vivemos foi reproduzida rapidamente durante o jogo.

Não vou colocar e descrever tudo o que vi e ouvi durante essa atividade, mas afirmo que ela foi muito boa e fez com que pensassem a respeito. Pouco tempo depois levantei o debate sobre o que estava acontecendo no Brasil nos dias atuais e assim voltamos ao início desse texto. Realizamos um ótimo debate e várias reflexões surgiram. Não sei se isso muda o país ou se melhora a situação das pessoas, mas estou tentando fazer minha parte.

Essa foi apenas uma atividade simples, praticamente sem material algum, apenas um pouco de criatividade. Penso que os produtores de jogos (e até mesmo o governo) deveriam investir mais esforços em desenvolver jogos nessa linha, que promovam debate, que sejam fáceis de operar e que tenham elementos lúdicos.

Não aguento mais ver as produtoras nacionais construindo jogos com o mesmo estilo de sempre. A intenção é apenas ganhar dinheiro e para isso copia-se o que já é feito por aí, afinal o que é feito por aí vende bastante.

Sair pra rua e fazer barulho é legal. Clamar por uma valorização do povo brasileiro é legal também. Mas produzir material que nos auxilie a refletir e pensar não faz mal a ninguém e já está mais do que na hora dessas pessoas acordarem e não apenas o gigante que tanto insistem ter acordado.

Gustavo Nogueira de Paula

PS: Meus textos devem começar a ser publicados também na Any Magazine (http://projetoany.wordpress.com/) que já está em sua quarta edição e tem divulgação gratuita. Aproveite para dar uma conferida.

Nos bastidores da Tv

Finalmente saiu no youtube a primeira parte do programa Educação Brasileira, da UNIVESP TV, em que participei algum tempo atrás. Em clima de felicidade com a divulgação do meu trabalho eu vou falar um pouco de como foi essa experiência e comentar um pouco sobre o que falei durante a gravação. A segunda parte misteriosamente ainda não está disponível, mas assim que ela estiver eu atualizarei o post para acrescentá-la aqui.

A Univesp Tv, segundo eles mesmos

A Univesp TV é o canal de comunicação da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a quarta universidade pública paulista e visa ao incentivo à formação integral do cidadão. Nosso objetivo principal é apoiar o aprendizado dos alunos de cursos da Univesp, através de programas específicos e também de interesse geral.

Os estúdios de gravação ficam dentro da fundação Padre Anchieta, ou popularmente Tv Cultura. Diga-se de passagem a estrutura da fundação Padre Anchieta é bem grande, contando com muito espaço e bom equipamento. Foi uma sensação muito agradável caminhar ao lado de onde são gravados o Jornal da Cultura, Cocóricó, entre outros.

Após falar com o diretor do programa Tiago de Araujo Silva, que me recebeu muito bem nas intalações do canal, fomos para a produção. Lá fomos maquiados e preparados para a gravação (no mínimo engraçada essa coisa de ser maquiado etc).

Junto comigo estava Rebeca Otero, da Unesco Brasil e fomos entrevistados por Ederson Granetto, outra figura muito simpática e nitidamente muito capaz.

Sempre rola uma pequena tensão antes de começar o programa, mas eu estava bastante tranquilo no dia. A Rebeca estava um pouquinho mais nervosa, com as mãos mais agitadas, mas também foi bem e conseguiu expor bem o seu ponto.

Logo em mniha primeira pergunta o Ederson, na boa intenção, fez uma pergunta que já está quase se tornando um clássico, sobre a utilização de “qualquer” jogo em sala de aula, focando na questão dos jogos de tiro etc. Obviamente que nenhum professor vai usar qualquer jogo a qualquer hora e em qualquer aula, mas isso depende mais dos objetivos do professor do que jogo propriamente dito. Por que não explorar as questões da guerra? As mortes de inocentes? Geografia? etc… gostei dessa minha resposta, apesar de ser chato falar de mim mesmo.

Uma diferença que existia entre o que a Receba dizia e o que eu dizia se referia a relação dos objetos tecnológicos com os conteúdos escolares, pois acredito que num futuro não muito distante os próprios jogos serão “o” conteúdo escolar, sendo estudados e aprofundados, enquanto ela apresentava os celulares e tablets como ferramentas, a serviço do professor/aluno.

O que da pra perceber é que ao mesmo tempo que há urgência em inserir essa tecnologia em sala de aula ainda há muito despreparo e receio em relação a esses objetos. A grande satisfação de participar de um programa desses é crer que ele pode ajudar aqueles que buscam por uma educação de qualidade em nosso país.

No decorrer do programa outras questões foram levantadas, mas trinta minutos passaram voando e isso apenas me convence do quanto ainda tempos por fazer. Jogos em sala de ula é um tema que precisa ser mais pesquisado e isso é um convite para os jovens universitários. As lacunas ainda são imensas e diversas são áreas possíveis de atuação.

Seja com jogos de realidade aumentada, jogos de celular, tablet, computador ou videogame, seja online ou sozinho, seja como tarefa de casa ou em grupo na escola, seja violento ou seja fofinho, não podemos mais negar que a tecnologia veio para ficar e que precisamos aprender o máximo sobre ela para “invertermos” essa situação, não sendo apenas dominados, mas também agentes dessa transformação.

Foi um prazer ter participado do programa e que no futuro surjam mais oportunidades.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

Proposta de atividade: o debate

Concluindo o post de ontem, que mostrava o início da atividade com games realizada com as crianças do curumim, hoje apresento de forma resumida o debate que tive com os participantes, tanto no momento em que jogavam quanto após a jogatina. Foi muito interessante, espero que apreciem.

Falando primeiramente sobre os jogos, Gonzalo Frasca[1] produziu um jogo (12 de Setembro) que é na realidade um argumento bastante direto: combater violência com violência não é algo positivo. Trata-se de uma crítica direta ao modelo norte americano de combate ao terror, além de também ser uma crítica direta à maioria dos jogos de videogame existentes hoje no mercado, em que os personagens principais resolvem todos seus problemas e conflitos através de armas, golpes, ou qualquer outro tipo de violência. 12 de setembro tenta subverter a lógica destes jogos, induzindo o jogador a não atirar ou, ainda, a pensar sobre o que acontece na tela, ao invés de apenas sair atirando, sem refletir sobre o que acontece. Chega a causar uma sensação bastante estranha nos jogadores, pois a base de qualquer jogo é a atuação do seu jogador, mas em 12 de setembro, para que a paz se restabeleça (desaparecimento dos terroristas) é necessário que o jogador “não atue”, ou seja, fique parado observando que isso ocorra. Seria como uma charada, ou uma “pegadinha” aos jogadores menos observadores. Mesmo sendo uma mensagem simples, ela se mostrou importante no mundo dos games, sobretudo se utilizado em um contexto escolar, por subverter a lógica presente na maioria dos videogames e por ser uma crítica ao modelo americano de tratar o terrorismo.

Em CoD a situação é praticamente oposta. O jogo trata os soldados americanos como verdadeiros heróis, na busca pelos terroristas mais perigosos do mundo, sejam eles russos, árabes e até mesmo brasileiros (estes últimos somente em CoD 4 Modern Warfare 2). CoD é exuberante e possui uma ação muito convincente e cativante. A história conta sobre um grupo de operações especiais do exército americano atuando em missões de busca e eliminação de inimigos americanos. Se não fosse pelos controles do jogo, pareceria que estaríamos assistindo a um filme de Hollywood, quer pela qualidade gráfica, quer pelo estilo de condução do enredo. Fica fácil compreender quem é aliado e quem é inimigo, quem “defende a liberdade” e quem “defende a violência”. Enquanto experiência de jogo é bastante difícil contra argumentar CoD, a menos que o jogador não goste/ não seja familiarizado com o gênero de tiro em primeira pessoa. Mas a mensagem transmitida é bastante simbólica, praticamente propagandeando as invasões militares e sustentando a idéia de uma guerra limpa e acima de tudo justa. Apesar de na atual atividade os jogadores não terem jogado CoD por inteiro e, consequentemente,  não terem acessado o jogo todo, não parece ser difícil, para pessoas informadas e consideradas boas leitoras, perceberem a visão de mundo que o jogo transmite, sobretudo se comparado a 12 de setembro. Porém, a grande maioria dos jogadores não percebeu logo de cara a mensagem presente em nenhum dos jogos.

Serious games e jogos populares, ambos tem lugar na educação formal?

 

De início, nem todos notaram algumas diferenças entre os jogos (descontando sua parte gráfica, sendo um muito mais “realista” do que o outro), mas alguns logo notaram que no jogo sério tudo era mais difícil, pois havia civis, os mísseis disparados destruíam as casas do vilarejo e, talvez o principal, ao matar inocentes mais e mais terroristas surgiam na cidade. Por outro lado, no jogo popular não havia civis, os disparos não destruíam nenhuma construção e a única forma de perder seria disparando contra seus próprios companheiros de exército, ou contra a igreja, no caso da missão Death from above (que apesar de não ser destruída causava a derrota do jogador).

Foi interessante ver o pequeno desespero que encontraram quando começaram a jogar 12 de setembro. Em pouco tempo começaram a reclamar que não sabiam o que fazer, pois não conseguiam eliminar os terroristas e sequer sabiam qual era seu papel dentro do jogo. Pediram para que eu reiniciasse o jogo e que eu lesse as instruções e assim o fiz, traduzindo o textocontido na tela inicial de 12 de setembro.

Tela inicial do jogo 12 de setembro

 

Recomeçaram a partida e pouco mudou. Continuaram a atirar indistintamente na tentativa de “conseguir alguma coisa”. Diversas hipóteses foram levantas, desde “temos que destruir tudo” até “quando matarmos todas as pessoas não haverá mais como se transformarem em terroristas”, isso tudo enquanto jogavam.

Em CoD reclamaram inicialmente de não conseguirem diferenciar seus aliados de seus inimigos, mas consideraram muito mais fácil poder disparar a vontade e encurralar os terroristas. Podia-se ver em determinados momentos certo prazer em perseguir os fugitivos, disparando com a metralhadora até derrubá-los.

Fechados os jogos, comecei a perguntar as diferenças entre os jogos e apontaram que em um você poderia perder e no outro não e que o fato de atirar nas casas destruia o cenário no jogo sério (que eu não havia dito ser “sério” até aquele momento) enquanto no outro, podia-se fazer praticamente tudo aquilo que eles bem entendessem. Quando questionados sobre as semelhanças, comentaram sobre o ponto de vista aéreo dos disparos e sobre o cenário de ambos os jogos.

Em pouco tempo de conversa começaram a notar que os jogos possuiam discursos bastante distintos e quando lhes questionei qual dos jogos parecia mais próximo de uma guerra real para eles, não hesitaram em responder que era 12 de setembro, pois os civis não iriam simplesmente desaparecer de suas cidades durante a guerra, sendo muito mais provável que andassem entre os terroristas, se misturando, como no jogo. Também apontaram ser impossível que tantos mísseis não causassem dano algum ao cenário e que não existe possibilidade de o exército não errar pelo menos um tiro.

Isso tudo partiu deles, bastou que fossem indagados sobre os jogos e que prestassem bastante atenção em ambos. Assim que uma das crianças começou a falar de forma mais crítica, seus colegas logo começaram a seguir seu raciocínio e coube a mim apenas controlar o debate, pois todos queriam falar (e normalmente todos ao mesmo tempo).

Praticamente todos pediram (e continuam pedindo) para termos mais atividades desse tipo e elas estão no planejamento. Eles pareceram muito surpresos ao encontrarem o computador na sala, conectado a TV e ficaram ainda mais surpresos quando viram que iriam jogar CoD. A aceitação foi imensa e foi bastante tranquilo conduzir toda a atividade. Sinceramente, poucas vezes eu os vi tão concentrados e ajudando tanto uns aos outros. Além de tudo, todos nos divertimos muito com essa sessão de jogo.

A atenção na tela pode ser notada nessa foto, concentração e ajuda mutua

 

Uma forma de ampliar esse tipo de atividade é pedir para que as crianças busquem na internet por notícias e vídeos a respeito, para que também possam comparar o discurso de outras mídias com o discurso apresentado nos jogos. Pode-se inclusive pedir para que criem uma espécie de wiki, ou um blog, em que comentem e apresentem não apenas os jogos, mas as discussões realizadas.

Dentro ainda do cronograma de atividades estão previstos alguns conteúdos, voltados para outras questões que envolvem os videogames, tais como:

 

  • Narrativa;
  • Enredo;
  • Design;
  • Evolução dos jogos ao longo da história;
  • Gênero;
  • Estereótipos culturais

 

O formato apresentado pode não ser o ideal em todos locais e ocasiões, mas pode servir como ideia ou parâmetro para aqueles que pretendem utilizar os jogos como atividade.

Apesar do longo texto, apresentei de forma resumida a discussão e a atividade como um todo. Todos aqueles que quiserem mais informações ou que queiram criticar, discutir etc não deixe de escrever, seja no blog ou diretamente no meu email.

Vamos ampliar nosso horizontes.

Até

OBS: Ontem, o dia com mais acessos do blog, era COINCIDENTEMENTE 12 de Setembro…


[1] Renomado produtor de serious games

Proposta de atividade

Hoje apresento uma atividade realizada por mim, durante um dia de trabalho. Pretendo dividir esse post em dois, para não ficar muito grande, sendo a primeira metade hoje e a segunda amanhã, portanto não se assustem caso o texto pareça interrompido no meio, pois ele acabou ficando extenso e colocar tudo de uma vez seria exagerado. Espero que esse relato de experiência inspire professores e educadores a pensarem formas diferentes de atuar junto a seus alunos.

São vários os tipos de atividades possíveis de serem realizadas com crianças e jovens utilizando os jogos de videogame, porém apresentarei aqui uma forma de atuação da qual possuo conhecimento de causa, por já tê-la trabalhado junto às crianças do curumim do SESC São Carlos. Trata-se ainda de um formato simples, mas de grande potencial para ser expandido, sobretudo se em conjunto com outras atividades.

Primeiramente, não existe urgente necessidade de que cada criança/jovem possua ou sente-se a frente de um computador ou videogame. Em nosso caso, conectamos o computador do professor a uma televisão de 42 polegadas, o que permitia que todos observassem o que ocorria na tela enquanto não chegava sua vez de jogar.

Na atividade realizada, foram utilizados dois jogos, um extremamente popular e comercial, figurando entre os jogos mais vendidos da história e outro tido como um jogo “sério”, com proposta mais crítica e conhecido por ser um News game (jogo baseado em notícia real).

Os jogadores não foram avisados previamente quais jogos jogariam e nem como seria a discussão posterior. Apenas lhes foi pedido para que prestassem bastante atenção a tudo que ocorria na tela, mesmo quando não estavam jogando. Como havia aproximadamente 20 crianças na sala, foi feio um sistema de rodízio, em que cada jogador pôde experimentar pelo menos alguns minutos de cada jogo.

Criançada de olho na tela

 

O jogo popular era Call of Duty 4: Modern Warfare (COD 4), jogo em primeira pessoa (o jogador vê o mundo através dos olhos do personagem) baseado em guerras modernas, mais especificamente nos conflitos entre os EUA e países do oriente médio. O jogo “sério” era 12 de Setembro, que ao contrário do primeiro, apresenta uma visão bastante crítica sobre a guerra contra o terror, com um discurso bastante claro, enfatizando que violência gera ainda mais violência.

Foi marcante o respeito que os jogadores observadores apresentaram por aqueles que estavam à frente dos comandos. Não apenas esperaram sua vez de jogar como tentavam ajudar aquele que controlava o que acontecia na tela, dando dicas, alertando para os perigos e tentando descobrir os objetivos da missão. O envolvimento foi bastante significativo, não havendo qualquer problema de organização.

Abaixo, imagem comparativa da missão principal utilizada em COD 4 e de 12 de Setembro.

Tela comparativa entre CoD na missão Death from above e 12 de Setembro

 

Ambos os jogos, como qualquer texto, estão relacionados a ideologias particulares e a intenção principal nessa atividade era alertar para os diferentes discursos presentes nos jogos, mesmo eles tratando da mesma temática. Após todos terem jogado pelo menos uma vez e as crianças terem tentado compreender o significado de cada jogo, a jogatina foi interrompida e começamos a discussão.

Além de várias fotos da atividade, toda discussão foi gravada por mim, mas o vídeo ficou longo, com pouco mais de 15 minutos, o que complica para fazer o upload. Porém, muito mais complexo do que isso é o fato da atividade ter sido feita com crianças e não é assim tão simples divulgar suas imagens sem prévia autorização, portanto esse vídeo ficará somente comigo, pelo menos por enquanto. A foto que aparece nessa postagem somente foi inserida por não conter o rosto de nenhum dos participantes e ainda assim tenho dúvidas se a deixarei no ar.

A segunda parte da atividade será postada amanhã, com uma descrição breve dos jogos e as impressões das crianças, bem como o debate realizado.

Até!

Os senhores conteúdos e os jogos escravos

Não faz muito tempo, dei uma entrevista para uma matéria do Terra Educação, em que comento sobre a possibilidade de utilização dos jogos de videogame em sala de aula. A ínetgra dessa entrevista você pode conferir aqui. Sem perceber, eu mesmo caí numa armadilha muito sedutora, de associar os jogos a conteúdos curriculares da escola. No post de hoje trarei alguns trechos dessa entrevista e lançarei um debate sobre o que pretendo ser meu próximo passo em minhas pesquisas acadêmicas: como inserir os jogos nas salas de aula.

Voltando a falar sobre a reportagem do Terra, ela está interessante e a reporter escreveu bem. Porém, algumas coisas me incomodam, inclusive no meu próprio discurso em alguns momentos. Vejamos o seguinte trecho:

Para Gustavo Nogueira de Paula, mestre em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os games propõem mais interação da criança e do adolescente com o conteúdo exposto em aula. “Ele consegue ver causa e consequência através da ação do jogador. E não apenas tem mais atenção, mas compreende de forma mais participativa”

Aparanetemente não há nenhum problema, mas observando melhor da pra notar que minha resposta tratava dos jogos em geral e sobre o aprendizado gerado por eles, não necessariamente ligado a conteúdos curriculares. Como é possível perceber, não apenas a reporter, mas no senso comum as pessoas acreditam que, se algum dia os games realmente vierem a fazer parte de uma aula, será a serviço dos conteúdos curriculares. Isso fica nítido quando ela diz “os games propõem mais interação da criança e do aloscente com o conteúdo exposto em aula”.

Não vejo problema algum na utilização de jogos para apresentação de conteúdos curriculares. Se isso for feito de forma interessante e explorando o potencial do jogo, então não há porque não utilizá-lo dessa forma. Por outro lado, fazer dos jogos apenas ferramentas  para conteúdos clássicos e amarrados, sem inovação, pode ser um grande desperdício de potencial.

Voltando a entrevista, conseguimos ampliar um pouco mais essa visão ao chegarmos na seguinte passagem:

De Paula garante que há maneiras de garantir que esse artifício seja bem aproveitado em sala de aula. “Se bem fundamentado, se bem orientado, o aluno vai ter noção de que ele tá jogando na escola para aprender. O professor vai fazer o aluno ter um olhar mais crítico sobre o jogo”, afirma. Ele compara o possível uso dos videogames no currículo à apropriação de produtos culturais como músicas, cinema e quadrinhos em sala de aula.

Esse olhar mais crítico sobre o jogo é o ponto central disso tudo. Para que um game seja bem aproveitado em sala de aula, independente da forma, é fundamental que os jogadores passem a lançar um olhar mais crítico sobre eles. Agindo assim, espera-se que passem a apresentar esse olhar mais crítico não apenas quando estiverem jogando em sala de aula, mas também em seus momentos de lazer, pois isso poderia levar a um maior amadurecimento da mídia num todo.

Por esses e outros motivos que normalmente só encontramos jogos pedagógicos nas salas de aula ou nos laboratórios de informática das escolas. Se pelo menos os jogos pedagógicos fossem de graned qualidade, mas infelizmente não é assim que ocorre.

Já no final da entrevista eu volto a comentar sobre isso, mas acabo caindo na questão curricular (apesar da pergunta ter sido feita com base na questão curricular)

Há diversos jogos desenvolvidos especialmente para a pedagogia, mas De Paula propõe que se usem jogos comerciais, especialmente os news games – baseados em acontecimentos do cotidiano. Para sua dissertação de mestrado sobre o assunto, o professor usou o título 12 de setembro, que relembra os fatos acontecidos no ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Segundo ele, uma das grandes vantagens apresentadas pelo jogo foi a provocação de debates sobre o tema em sala de aula, já que os alunos ouvem o noticiário, veem os pais comentando e precisam estar a par dos acontecimentos para provas de vestibular, mas muitas vezes têm dificuldade de entender o contexto em que se inserem.

Como eu disse, o problema não é a utilização de jogos para auxiliar na abordadem curricular formal, mas a presença dos jogos se resumir somente a isso.

Num breve pensamento poderíamos pensar em levar Portal (1 ou 2) para a sala de aula. Qual conteúdo ensiaríamos com ele? Talvez física, isso poderia ser interessante, ver os alunos se atirando em portais, calculando velocidade, testando a inércia. Contúdo, fazer isso significaria jogar fora toda história do jogo e, acima de tudo, valorizar apenas um aspecto presente no game. Seria realmente terrível ressaltar apenas um conceito técnico do jogo, explorando-o de forma rasa. Isso poderia até mesmo fazer com que os alunos se desinteressassem pelo jogo.

Mas pergunto: não é isso que a escola vem fazendo há vários anos? Muitas vezes (esmagadora maioria?) os alunos leem Machado de Assis atentos apenas ao estilo de escrita, pensando de qual escola o autor fazia parte e normalmente com a cabeça na prova futura que trará perguntas sobre a obra. Por isso não é nada incomum que leiam apenas resumos, criados especialmente para responderem possíveis perguntas feitas para a prova. A questão artística e histórica fica de lado e todos perdem uma grande oportunidade de crescimento, tanto a escola que desmotiva seu aluno, quanto o jovem que acaba passando batido por uma grande obra da literatura brasileira.

Ampliando esse pensamento, se um filme for levado a sala de aula, então quase obrigatoriamente ele deveria ser um documentário, afinal de contas um filme comercial não é feito para atender conteúdos curriculares. Imagine, um filme como Matrix não entraria no cronograma de aula de nenhum professor, mas quanto poderíamos discutir sobre arte, transmídia, leitura, estética entre outros assuntos, assistindo a série Matrix (ou apenas a um dos filmesda série)?

Testes padronizados contribuem para uma não utilização dos jogos em sala de aula
E ainda atolam os estudantes de fórmulas prontas

 

 

 

 

 

 

 

Ainda nesa linha, se pretende-se levar música para sala de aula? Somente se formos estudar as notas ou o formato das rimas. Pintura? Apenas para analisar traços e estilos dos diferentes pintores. Jornal? Apenas para comparar os diferentes formatos de escrita e assim por diante.

Para auxiliar o professor nessa tarefa que vem se mostrando cada vez mais necessária e ao mesmo tempo complicada, pretendo apresentar um método de análise de jogos que poderia vir a ser interessante de ser utilizado em sala de aula. Como ele ainda não foi publicado em formato de artigo, não o apresentarei por aqui ainda, mas espero que isso aconteça em breve e assim poderei dar continuidade a esse debate, que já está longo demais nesse texto, mas que prometo retomar assim que for possível.

Não deixe de comentar e ampliar essa discussão.

Até!

Você estudaria aqui?

Não é muito difícil encontrar crianças e/ou adolescentes reclamando que sua escola é chata, sem atrativos e que não veem muito sentido no que estão aprendendo. Parte das reclamações procedem, apesar de saber que em alguns casos ela até chega a ser injusta. Ligados nesse problema, alguns educadores quebram a cabeça na tentativa de apresentar algo que seja mais atraente e interessante aos jovens e é um desses casos que apresento aqui hoje.

Em Nova Iorque, nos Estados Unidos, existe desde 2009 a escola de ensino fundamental  Quest 2 Learn, que tem seu currículo baseado em  games. Segundos os organizadores da escola ela possui como principais propósitos

ajudar os alunos a  estabelecer ligações entre  antigos e novos letramentos,
através da aprendizagem  sobre o mundo  como um conjunto de  sistemas
interligados.  Design e  solução de  problemas complexos  são duas  grandes
ideias  da escola,  que tem compromisso  com  uma aprendizagem  mais
profunda dos  conteúdos,  com um forte foco  em uma  aprendizagem
envolvente e de forma relevante. É um lugar onde se reúnem livros de mídia
digital  e os  alunos aprendem  a pensar como  designers,  inventores,
matemáticos, escritores, e muito mais[…] Quest to Learn tem respondido não
apenas  à  crescente evidência  de que a mídia  digital e  os  jogos oferecem
modelos poderosos para reconsiderar como e onde os jovens aprendem, mas
também à crença de que o acesso para todos os alunos a estas oportunidades é
fundamental.  Acreditamos  que  possibilitar  aos estudantes,  seus  pais  e as
comunidades uma busca para se tornarem motivados e recompensados, para
continuarem aprendendo  ao longo da vida  é  o  verdadeiro objetivo  da
educação. (retirado de http://q2l.org/purpose)

A escola apresenta um trabalho completamente diferenciado e inovador, colocando os jovens no papel de criadores de jogos dos mais variados tipos. Todo o ambiente é fortemente ligado à tecnologia e o visual parece muito distante de qualquer escola tradicional, pois os alunos se espalham na frente de monitores, computadores, projetos etc. Segundos os próprios diretores da escola, design e inovação são o coração da Quest to Learn. No site da escola estão disponíveis várias informações para os pais, desde o currículo completo até diferentes  links, podcasts, deveres de casa e muitos outros. Lá, as crianças aprendem através de sistemas de aprendizado específicos, criando mundos e utilizando pensamento estratégico, sobretudo para solução de problemas.

Seria a escola dos sonhos?

Ainda é cedo para avaliar o “sucesso” da escola em termos de aprendizado e satisfação dos pais e alunos, porém a iniciativa se mostra bastante inovadora e ousada, rompendo significativamente com o modelo de escola ao qual estamos acostumados a ver. Se por um lado parece pouco provável que todas as escolas atuem dessa forma atualmente (além de não haver necessidade de que todo sistema de ensino atue dessa maneira), já nos parece cada vez mais possível um uso criativo das novas mídias em um contexto escolar.

Talvez o mais importante a ser observado aqui não seja apenas a questão dos games, mas sim a tentativa de inovar e apresentar algo diferente do que estamos acostumados a ver. Muitas pessoas acreditam que a escola só existe dessa forma que a conhecemos e que esse seja o melhor sistema de ensino.

Precisamos apostar mais nas novidades e acreditar em boas ideias. Nossa sociedade tem passado por mudanças incriveis nos meios de comunicação, o que possibilita novas formas de se expressar e de aprender. Espero que cada vez mais surjam grupos com conhecimento e vontade de mudar.

O sistema educacional precisa inovar mais

Não precisamos necessariamente trabalhar apenas com tecnologia em sala de aula, essa foi apenas uma das possibilidades apresentadas. Se é interessante, por que não tentar?

Só lamento que infelizmente enquanto apenas os dinossauros e demagogos pensarem a educação provavelmente ela não vá mudar muito.

E você, estudaria numa escola como essa apresentada? Eu não sei se eu estudaria, mas gostaria muito de ser professor por lá!

 

OBS: A primeira vez que falei pro a Q2l foi em minha dissertação de mestrado