Left is dead

A indústria brasileira de games continua a todo vapor! Após o estrondoso sucesso de “Democracy GO”, a empresa Ironic Games lança mais um título, dessa vez se aproveitando do filão dos jogos de tiro e de zumbis, o “Left is Dead” (imagino que qualquer semelhança com o nome Left for dead não seja mera coincidência).

O jogo não prima pela originalidade, se utilizando dos já conhecidos clichês das histórias de zumbis: Alguma coisa de ruim aconteceu e agora você tem que sobrevier a ordas de zumbis que vagueiam pela rua num mundo pós apocalíptico. A parte interessante é que conseguiram trazer isso para algo mais próximo do nosso meio, ambientando o jogo nas ruas brasileiras de algumas das principais capitais brazucas. Segundo a assessoria de imprensa da Ironic, até o fim do ano todas as capitais e até algumas cidades do interior já estarão disponíveis.

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Mais uma vez, se trata de uma mecânica de jogo simples e conhecida da maioria dos jogadores: Em primeira pessoa, o personagem precisa sobreviver em meio ao caos gerado pelos zumbis e muitas vezes correr é a melhor das opções. São pouquíssimas as armas disponíveis e o suporte também é escasso. A dificuldade é alta e é bem provável que você perca bastante antes de conseguir chegar até o final, se é que vai conseguir.

A parte interessante do jogo se dá na seleção de personagens, ambientação e na caracterização incrível dos principais inimigos. Na tela inicial há apenas as opções de “Novo jogo” ou “Continue”, ao som de Chico Buarque de Holanda, que casou bem com a proposta da Ironic. Ao clicar em “Novo jogo” você é levado/levada a tela de seleção de personagens, que são poucos e não customizáveis, o que dá a impressão do jogo não estar completo, apesar de prometerem novidades ainda esse ano. São:

  • Jean – Homem branco e de barba, camiseta vermelha e bermuda rasgada. Vem equipado com vinagre e é o que mais corre;
  • Glória – Mulher negra, com roupa ao estilo afro. Vem equipada com vinagre e um pandeiro. Tem incrível força e capacidade de ataque, mas corre pouco e é mais perseguida do que os outros personagens;
  • Paulo – Uniforme do sindicato completo. Equipado com uma bandeira, que pode virar arma em casos de desespero. Vem sem vinagre, mas carrega kit de cura (sanduíche).

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Como gosto de desafios, escolhi logo a fase que os desenvolvedores consideram como sendo a mais difícil: Avenida Paulista, em São Paulo. Pude atestar que eles não estavam brincando.

Diferentemente de outros jogos nessa linha, em que tudo está destruído e coberto por vegetação, em “Left” o cenário parece limpo e bem cuidado, não dando a impressão inicial que se trata de um apocalipse ou algo do gênero. Mas basta caminhar um pouco para sentir que o game não é moleza. Ao seu lado caminham os outros dois personagens não escolhidos (no meu caso escolhi o Jean). Logo de cara começam a surgir os primeiros zumbis, pessoas brancas usando camiseta da CBF ou camisetas brancas. Não demora e você já percebe que nem vale a pena entrar em confronto com eles, a não ser para ganhar experiência. As armas inicias são megafone (para conversão) e alguns panfletos que você precisa ficar entregando até afastar os zumbis.

Com o tempo começam a surgir os zumbis mais poderosos: alguns homens com a cabeça raspada e muito fortes, algumas senhoras com cachorrinhos a tira colo e alguns outros que portam taças de champanhe. O megafone não funciona com nenhum deles, tão pouco os panfletos. Se a essa altura você não tiver conseguido o equipamento de disfarce (Iphone e roupa de marca) é derrota na certa. A dica aqui é começar a correr o máximo que puder, pois os inimigos seguintes são ainda mais desafiadores.

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Já correndo e em pânico para não dar game over, comecei a encontrar ordas e mais ordas de inimigos conhecidos como Bolsominions. Eles não possuem cérebro e vem esbravejando em sua direção. É incrivelmente difícil passar por eles, pois são muito agressivos e as suas armas tendem a não funcionar. A sorte é que normalmente eles se viram uns contra os outros e acabam por se matar.

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Mas foi nesse momento do jogo, num ato desespero, enquanto corria sem prestar muita atenção no cenário, que encontrei o que acreditava ser um ponto seguro: Personagens cujo uniforme estava escrito “Proteger e servir”. Doce engano. Tratava-se simplesmente dos inimigos mais poderosos. Sedentos por nos matarem, portavam todo tipo de armamento, coletes, carros, escudos e tudo mais que se possa imaginar. Usei meu estoque de vinagre, mas não resolveu muito e acabei morrendo umas 5 ou 6 vezes. Não tenho orgulho em dizer isso, mas a única forma que encontrei de passar deste chefão foi trapaceando e digitando o código “Propina”, que os torna bem dóceis e em alguns casos chegam até a lutar ao seu lado.

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A história do jogo não é muito clara, não dá para entender bem o porque dos zumbis atacarem. Nos fragmentos narrativos que são apresentados, dá a entender que eles se transformaram devido ao ódio que sentiam e que atacam pelo prazer da destruição, não pretendendo criar uma nova sociedade ou algo assim. Uma pena criarem monstros e inimigos tão interessantes, mas com motivações tão rasas assim.

Sobre a dificuldade do jogo, a galera da Ironic me disse por email que “se trata de um jogo feito para jogar no modo cooperativo. Sozinho ele realmente é impossível. A ideia é que os jogadores se conectem para derrotar o inimigo, quanto mais gente melhor” disse.

Não dá para dizer se o jogo vai vingar por aqui, mas não deixa de ser mais um opção interessante em nosso mercado cada vez mais saturado e clemente por algo novo.

Mais uma vez, esse jogo não existe

Gustavo Nogueira de Paula


OBS: A última foto foi retirada do G1 e a legenda original era simplesmente incrível: Vídeo flagra manifestante agredindo policial em protesto de professores

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Trono manchado de sangue

Alguns textos nós escrevemos esperando aprovação dos leitores, com direito a comentários de apoio e incentivo. Normalmente são textos que não costumam gerar muita discórdia e, por mais que até possam ser polêmicos eventualmente, acabam por agradar a maioria das pessoas, que refletem a respeito do tema e trazem ótimas contribuições para ampliar ainda mais o debate. Este texto que escrevo agora, não é um destes casos.

Com o passar do tempo, vamos nos conhecendo cada vez mais e valorizando aquilo que gostamos, deixando de lado as coisas com as quais temos menos afinidade ou interesse. Isso, e a velocidade de informação e transformação que as tecnologias proporcionam, fazem com que rapidamente fiquemos por fora de determinados assuntos, por mais que até gostemos dele. Quer um exemplo? Música. Conheço muito pouco do que toca atualmente, mesmo tendo acesso a ferramentas e aplicativos musicais que eu jamais sonharia ter quando era criança. No entanto, na maior parte do tempo ainda ouço música mais velha e isso vai gerando um ciclo constante de desatualização nesse sentido. Dependendo do círculo social que estiver frequentando esta “desatualização” pode não ser nada cool.

Porém, não vim para lamentar meu envelhecimento, nem minha desatualização musical, mas sim para falar de umas séries de maior sucesso da TV (talvez a de maior sucesso atualmente): Game oh Thrones. Série que, assim como na música, sou desatualizado e não gosto muito de ver.

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Todos (generalizando) assistem a GoT e rasgam elogios à série. Eu, como fã de Sr. dos Anéis, RPG, Caverna do Dragão etc, fui quase coagido a assistir também, anos atrás. Vi. Não gostei muito. Tempos atrás resolvi ver de novo e achei interessante: Cenários incríveis, figurinos impecáveis, boas interpretações, um roteiro bem construído e filmagens pra lá de bem feitas, porém, continuo não gostando. Não acho ruim, chato, mal feito, nem nada disso, mas simplesmente não consigo simpatizar completamente com GoT e há um motivo principal para isso: Violência gráfica extrema e com grandes toques de fetichização .

Estupro, arremesso de fezes, cabeças, muitas cabeças, rolando, explodindo etc, mortes, mortes, mortes e as vezes mais mortes. Todos episódios que assisti tiveram pelo menos meia dúzia de pessoas morrendo. Não estou falando de monstros, zumbis, dragões ou algo desse tipo, estou falando da morte de personagens humanos, com profundidade etc. Mais incrível ainda é ver o quanto as pessoas comemoram a morte de determinados personagens. Isso me choca bastante e me faz ter dificuldades com a série. Parece haver muito prazer na morte e na violência como um todo.

Como jogador e estudioso de videogame, sei bem o quanto os jogos podem ser violentos também. Não vou ficar aqui tentando mensurar o que é mais ou menos violento, mas enquanto experiência pessoal, pouquíssimos foram os jogos que experimentei que escancarassem tanto assim a morte das pessoas, muito menos com todo esse glamour e frequência.

Fique claro: Não estou fazendo juízo de valor a respeito da série, pois entendo perfeitamente bem os motivos do seu sucesso. Apenas não consigo me tornar fã, como supostamente eu deveria ser. Particularmente, não acho  que possa ser normal uma cena de um cara imenso estuprando uma mulher bem menor que ele, com ares de 1 a 1 a a a a game dany estuprada no pilotosensualidade.

Talvez seja como na música, estou ficando velho e meus gostos ainda são moldados pela minha memória afetiva, em que eu saltava sobre cogumelos, disparava cascos de tartaruga, metralhava alienígenas monstruosos ou zumbis, etc. Em Sr. dos anéis, no livro todo, a violência é descrita como algo maléfico (por mais maniqueísta que seja as vezes) e isso não o torna um conto de fadas, nem diminui seu brilho, muito pelo contrário.

Continue fã de GoT, pesquise, assista etc, mas por favor, repare nestes detalhes da próxima vez que assistir a algum episódio.

Gustavo Nogueira de Paula

New Counter Strike – Professor Mode

De acordo com muitos teóricos, os games são excelentes para simular situações de mundo. Você pode treinar pilotos, resolver problemas, gerir uma cidade, aprender a atirar, perder o medo do trânsito, entre outras atividades bastante diversas. Através de algoritmos complexos pode-se inclusive “prever” o resultado de algumas situações. Isso tudo depende de um equilíbrio muito bem feito entre regras de jogo e regras “reais”.

Num jogo de carros, por exemplo, não se espera poder voar com seu automóvel e espera-se que isso prevaleça. Porém, um acidente frontal pode muito bem ser fatal, mas não espera-se a morte do piloto a cada acidente, apenas um recomeço. Os jogadores também esperam que um carro com menos potência e equipamentos seja mais lento do que uma Ferrari recém lançada. Se correr com um Fusca contra a Ferrari dentro do autódromo de Interlagos a derrota é certa. Não é justo correr de Fusca contra a Ferrari, por isso você evolui dentro de cada jogo, até conseguir equipamento suficiente para enfrentar o desafio. Por se tratar de uma simulação, o jogador já prevê essa desigualdade e a encara com naturalidade.

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Já em jogos de tiro essa desigualdade soa de maneira mais incômoda. Você pode ter a melhor mira, melhor esquiva, melhor proteção etc. mas sem uma boa arma, dificilmente vencerá o inimigo armado até os dentes. É injusto, mas as vezes acontece. É dessa forma que foi lançado recentemente no Brasil o novo MOD de Counter Strike – Professor Mode.

Cansados do velho embate entre Policiais e Terroristas, tão fora de moda e pouco aceito pelo público brasileiro, foi lançado, através de incentivos do governo estadual paranaense, o MOD em que professores substituem os famigerados homens encapuzados com Ak-47. Algumas alterações também foram realizadas na mecânica de jogo:

Os policiais contam com cachorros, bombas de gás, armas com bala de borracha, escudos, coletes, máscara, helicópteros, carros, jatos d’água e spray de pimenta. Os professores (terroristas) contam com algumas pedras encontradas no chão e as vezes algum pedaço de pau.

Ao entrar no jogo você pode escolher qualquer uma das duas classes, mas se prepare, pois a dos professores sempre perde e de lavada. Normalmente a tática é sair correndo e tentar fugir, apesar de ser bastante difícil. Se optar pelos Policiais é só sair atirando, sem se preocupar muito, pois em algum momento irá acertar alguém e é isso que conta no final. A disputa principal é para ver quem consegue mais frags.

A distribuidora do jogo disse em nota, após a reclamação de muitos jogadores que optam pela classe professor dizerem que o jogo é injusto, que aqueles que não gostam do jogo deveriam procurar por outro jogo (profissão), pois aqueles que jogam como professor o fazem por amor.

Violência

Apesar desta versão existir há muito tempo no Brasil, ela foi remasterizada e ganhou gráficos novos. A crítica especializada da Veja tem feito grandes elogios a essa nova versão:

É muito legal poder atirar e ver os professores correndo, da uma sensação muito boa. Se fizéssemos dessa forma na vida real o Brasil seria um país melhor. Acho que o único defeito é que eles só ficam vermelhos depois de sangrando, já deveriam começar assim” (Jogador da Veja com o Nick de CoxinhaPower)

Apesar do sucesso de vendas entre os brasileiros, o jogo vem sofrendo algumas críticas, pois apesar de divertido, os policiais não podem atirar para matar, o que limita muito sua ação, exigindo um cuidado irritante na hora de disparar.

Alguns jogadores HardCore porém, descobriram um meio de trapacear dentro jogo, alterando a cor de seu personagem para amarelo, tal qual a seleção brasileira. Quando a trapaça é habilitada os policiais ficam cegos e não conseguem encontrar o alvo para atirar, inclusive confundindo-os com alguém do seu time. Já outros jogadores dizem ter conseguido o mesmo efeito, mas alterando a roupa dos personagens para um jaleco branco. Os produtores preferiram não comentar a respeito de tais bugs e disseram ser invenção de jogadores canhotos.

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E você, o que está esperando para jogar? Mergulhe de cabeça nessa aventura que promete fazer sucesso no Brasil nas próximas décadas. Não fique de fora, acesse soucontraeducacaopublicadequalidade.coxinha.br e adquira já o seu, é de graça.


Texto em homenagem aos professores grevistas no Paraná

Gustavo Nogueira de Paula

Humor, bullying, preconceito e a cultura nossa de cada dia

Parede de tijolos ao fundo (ou tecido vermelho), iluminação e um microfone na mão, assim está dada a liberdade poética de falar qualquer barbaridade sobre qualquer pessoa, grupo, gênero, etnia etc sob a bandeira covarde do humor pelo humor. Poderia ser também uma bancada elegante, terno, ar de descolado, pessoa entrevistada e a liberdade também estaria dada. É tudo um show, de horrores.

O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo
O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo

Protestos daqui, reclamação dali e no final das contas o papo é sempre o mesmo: aqueles que reclamam são chatos, sem humor e que querem a volta da censura para calar singelos humoristas. Até poderíamos dizer que quem aplaude esse tipo de piadinha nada engraçada seria co autor desse pensamento pequeno, mas ainda assim a criação disso tudo costuma vir muito mais dos tais humoristas/formadores de opinião do que do público em si, que em geral tem participação mais passiva.

Já nos videogames a situação complica um pouco, visto que o humor preconceituoso, os comportamentos “condenáveis” e a acidez social também estão todas presentes, mas no controle do jogador. Existe desde a crítica social mais bem feita até a reprodução do estilo de vida mais fútil, tudo sendo determinado pelas ações do jogador, dentro do código desenhado por quem produz.

É bem diferente assistir um stand up, sentir-se envergonhado, vaiar e ir para casa chateado do que ligar um console, começar a jogar e apertar os botões e comandos que executam a ação de cometer estupros, chacotas maldosas e bullying. Nesse espaço mora o pânico de quem não joga e/ou não entende os jogos, deixando de cabelos em pé qualquer um que presencie uma cena dessas.

Também é nesse mesmo espaço que reside a importância de uma melhor compreensão dos jogos e de sua forma de contar histórias. Aqui o jogador entra na pele de quem prática o bullying, de quem sofre o bullying, de quem ofende, é ofendido etc. Muitas vezes isso choca, pois a experiência é entregue de uma forma mais dura e direta. Quem disse que o dia dia de uma criança na escola é fácil? Se ela não fizer parte do grupo dos populares/endinheirados ou qualquer coisa que simbolize poder isso pode ser ainda mais complicado. Dessa forma, não é de surpreender que no jogo essa vivência seja chocante.

E como estamos nos preparando para encarar isso? Muito mal por enquanto. Qualquer enredo ou história mais ousada ainda sofre críticas terríveis, sendo que muitas vezes elas sequer são bem interpretadas ou finalizadas pelos seus jogadores. Há ainda o agravante de que, no Brasil pelo menos, temos uma população que lê e interpreta assustadoramente mal, o que dificulta a compreensão de qualquer coisa mais complexa ou sutil. Pode ser que uma ironia seja vista como uma ofensa, quando não deveria e uma ofensa possa ser vista como algo ingênuo, quando também não deveria.

Bullying, dois lados da moeda
Bullying, dois lados da moeda

O fato é que colocar as pessoas na pele de situações delicadas pode ser algo fundamental para a compreensão de determinados comportamentos e resolução de problemas. Porém, daí a acreditar que a mera produção de jogos e experiências vai fazer de alguém uma pessoa mais crítica é algo bastante utópico. Devemos acompanhar de perto cada conteúdo, sem relevar o humor opressor e sem escandalizar com as ousadias, mesmo porque isso vai passar a ser cada vez mais comum.

Gustavo Nogueira de Paula

Violência tem sentido?

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Todos sabemos que violência não se trata meramente de agressão física e/ou verbal, mas também de preconceito, tortura e terrorismo psicológico, ameaças e toda uma série de práticas que são condenáveis em nossa sociedade cristã. Também sabemos que, em geral, violência vende. E vende bem, em todos os meios de comunicação. Jornais escritos e televisivos, novelas, filmes, jogos, literatura, fotos etc. Para onde olhamos nos deparamos com um assassinato, uma briga ou uma bomba.

Não é de se espantar, portanto, que alguns se aproveitem mais disso. Mais especificamente falando, são inúmeros os jogos que apresentam algum conteúdo violento, normalmente ligado a mortes, tiros, lutas ou algo semelhante.  Em muitos casos essa violência chega a ser bem exagerada, além de desnecessária. Violência fetichisada, funcionando como válvula de escape para que os jogadores aliviem suas tensões do dia dia, enfrentando algum desafio virtual.

Contudo, nem toda violência existe dessa forma. Quando bem inserida ela pode ser parte importante da narrativa, atuando como elemento fundamental para a ambientação de um cenário. Imagine assistir “Laranja mecânica” sem cenas de violência. Impossível, pois a questão da violência ocupa parte fundamental da trama. É assim que acontece em The Last of Us, jogo do Ps3.

Não vou retomar toda a fala que já fiz sobre o jogo, pois quem quiser pode conferir no link para mais informações. Gostaria apenas de salientar que o fato do jogo ser violento não o torna pior, nem faz com que o jogo se resuma a isso.

No cenário decadente de um EUA devastado a sobrevivência se tornou difícil, já que não há comida, água ou pessoas em que se possa confiar. Os personagens principais são apenas duas pessoas comuns lutando em meio a essa selvageria na busca de um objetivo maior. Ora, se são pessoas comuns, sem armas (acabam encontrando pelo caminho) e valendo-se apenas de pedaços de pau, tesouras e objetos semelhantes, como esperaríamos que se portassem? As mortes são realmente feias e a primeira vez que vemos Joel esmagar a cabeça de alguém a tijoladas não nos causa a melhor das impressões.

Acontece que esses detalhes, que para muitos não passa da violência comum dos videogames, acabam por falar muito sobre o local em que essas pessoas vivem. Em determinado momento do jogo, quando controlamos Ellie e ela salta sobre os adultos desferindo várias facadas para matá-los, chega a ser nauseante, mas nos mostra o quanto aquela criança foi embrutecida pela situação. Isso me faz pensar na quantidade de pessoas ao redor do mundo que se divertem ao ver uma criança branca esfaqueando adultos, com uma justificativa, e depois esbravejam gritando que os pretos, pobres e favelados se tornam bandidos porque querem, sem justificativa. Cabe uma reflexão sobre isso dentro de cada um.

Aquilo que parece uma afronta e um perigo para os jovens jogadores na verdade contribui para mostrar o quanto um ambiente desolado e sem esperança pode alterar a vida e o pensamento de uma pessoa, tornando até a mais inocente criança em uma assassina. Fazendo uma analogia bem simples, vejo certa semelhança com o filme “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago (me refiro ao filme, pois não li o livro). Após uma catástrofe e uma situação desesperadora o poder logo emerge em algum ponto e até as pessoas mais comuns podem se tornar completamente diferentes quando a sociedade, tal qual a conhecemos, deixa de existir.

Ensaio sobre a cegueira, sociedade devastada?
Ensaio sobre a cegueira, sociedade devastada?

Não digo que os jogos devam ser violentos, nem que qualquer criança possa/deva jogar The Last of Us sozinha e compreender tudo isso. Gostaria apenas de mostrar que os jogos vão muito além da violência e que, em alguns casos, ela pode representar alguma coisa dentro de suas narrativas.

Gustavo Nogueira de Paula

O certo e o errado

Todo jogo possui uma narrativa e toda narrativa apresenta um discurso, ou para simplificar, uma ideia por de trás dessa narrativa. Assim como qualquer outro meio, são discursos bastante fortes e impactantes, ainda que alguns sejam mais sutis de serem percebidos.

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Pode parecer óbvio a alguns, mas nunca é demais repetir que não há objeto neutro, ou isento de discursos e mensagens. Intencionalmente ou não, todos estão inseridos dentro de um contexto social mais amplo, no qual os criadores estão envolvidos e estes pensamentos são transmitidos através dessa visão de mundo dos desenvolvedores, de forma direta ou indireta.

Dada essa micro introdução, posso voltar a questão dos jogos e fazer algumas breves reflexões a respeito de alguns discursos bastante presente na maioria deles. Deixo que cada um pense em seu próprio jogo, desde que seja algum de aventura, primeira pessoa, mistério ou algo assim, só não pode ser esporte ou jogos do tipo manager etc.

Pensado o jogo podemos continuar na reflexão. Uma das coisas mais comuns na maioria desses jogos é enfrentar/superar desafios para seguir adiante. As vezes um quebra cabeça, as um salto, mas na maioria das vezes lutamos contra algum inimigo (nem que seja para saltar na cabeça de um cogumelo ou tartaruga) e se não o derrotamos, não seguimos adiante. Também na maioria das vezes, derrotar o inimigo significa matá-lo.

O debate não é sobre a violência, ou se os jogadores ficam mais violentos ao fazerem isso, mas o que esse discurso quer dizer? Suponhamos que estejamos jogando um jogo de tiro em primeira pessoa e precisamos passar por determinada porta para seguir adiante, mas a porta é defendida por um guarda. Nada muito poderoso, apenas um guarda, humano, que está apenas para isso em toda sua vida. Matamos o pobre guarda (espero que sua família receba o seguro de vida), passamos pela porta e logo estaremos matando mais um monte de outros guardas etc. Nesse momento o jogo nos “ensinou” que matar era certo e deixar o guarda vivo era errado. Lembrando que normalmente somos os “mocinhos” dentro da narrativa, toda e qualquer morte causada por nós é válida e, acima de tudo, justificada.

Isso acontece o tempo todo nos jogos, a violência justificada. É um argumento bastante vago dizer que trata-se de um bem maior, ou ainda, que quem morreu era alguém maligno, que precisava morrer. Matar é quase um sinônimo de vitória na maioria dos jogos e na maioria deles isso não precisava ser assim. Não há rendição, negociação, ações furtivas ou qualquer outra coisa que poupe a vida de guardas inocentes. Claro que estou generalizando, pois sei que existem jogos que premiam justamente o jogador que não sai por aí matando, ou que simplesmente não entrega uma arma ao jogador, basta procurar por eles.

Mortos em nome de um bem maior?
Mortos em nome de um bem maior?

Então da próxima vez que for matar um inimigo quando estiver jogando, pense se aquilo era realmente necessário. Quantos morrem ao longo do jogo para que o suposto herói seja vitorioso? Talvez essa somatória seja maior do que número de pessoas salvas por ele.

Dedico esse post a Henrique Magnani, a pessoa que me inspirou a refletir sobre o assunto.

Gustavo Nogueira de Paula

O que os filhos devem jogar?

Volta e meia algumas situações se repetem quando nosso assunto são jogos de videogame. Lançamentos, novos consoles, arrecadações milionárias e, como não poderia ser diferente, o famigerado papo sobre violência, que trago a tona mais uma vez, como sempre um pouco a contra gosto, mas dessa vez com um tom diferente.

Existem duas perguntas que praticamente já fazem parte do meu dia dia, seja lá onde eu for e com quem eu converso. Se digo que estudo/escrevo sobre videogames essas questões provocativas sempre vem à tona, normalmente uma na sequencia da outra. Em muitos casos (talvez na maioria) elas não são deita de forma pejorativa, mas por desconhecimento ou curiosidade mesmo.

Em meu trabalho diário com as crianças não é difícil lidar com situações desagradáveis, como brigas, ofensas e todo e qualquer tipo de conflito. Normal, afinal se tratam de crianças, que estão justamente aprendendo sobre a vida e sobre o mundo que as cerca. Na esmagadora maioria dos casos uma boa conversa resolve as situações e logo os envolvidos voltam a brincar alegremente. Porém, acontece de algumas vezes a situação se repetir, ou tomar ares mais graves e uma de nossas ações enquanto educadores é alertar aos pais/responsáveis sobre o ocorrido, convidando-os para conversar conosco em nossa sala. Quando o problema foi uma briga ou um caso de bullying, a pergunta já vem de forma quase ensaiada “Será que isso não é por causa dos joguinhos que ele tem? Eu já proibi todos jogos de guerra, zumbi…”

Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo
Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo

Não vou culpar os pais, normalmente desinformados, por se preocuparem com seus filhos e me perguntarem algo desse tipo, mas parece ser tão mais fácil culpar um jogo eletrônico (que não pode se defender das acusações) do que treinar um olhar mais amplo sobre a educação das crianças.

Daí surge a segunda questão “Mas você deixaria seu filho jogar todos esses jogos?”. A resposta é, claro que não. Em nenhum momento eu disse ou digo que todo e qualquer jogo pode ser jogado por qualquer um. Os enredos e as ações normalmente são adultos e exigem maturidade, sobretudo para que sejam melhor aproveitados. Uma criança jogaria Bioshock Infinite apenas com um “joguinho” de tiro e perderia a grandiosidade do enredo e do cenário do jogo, que aborda conflitos interessantíssimos. Alguém vai sair por aí matando empresários ou se jogando em cabos de aço após ter jogado Infinite? Provavelmente não, mas de que adianta jogar uma obra prima dessas sem aproveitar o que ela tem de melhor?

Isso sem contar a gama variada de jogos voltados para crianças e jovens, que com certeza fazem/fariam sucesso se fossem levados para dentro de casa. Mas talvez seja muito exigir que o atarefado pai, que trabalha 40h por semana (ou mais), arruma a casa, cozinha etc ainda se informe sobre jogos etc. Ou será que não?

O belíssimo Bioshock Infinite
O belíssimo Bioshock Infinite

Deve-se compreender que alguns conteúdos apresentam mais do que a simples violência física, tão temida, mas também situações psicologicamente estressantes, que podem sim tirar um pouco do sono dos mais novos e até mesmo elevar a tensão a níveis que os pequenos ainda não sabem lidar muito bem. Isso claro, desde que joguem sozinhos e/ou sem orientação. Novamente aqui um puxão na orelha dos pais, educadores etc.

Sobre isso, vale a pena ler a sensível entrevista publicada pela Kotaku sobre um vendedor que diz ter vendido cópias demais de GTA V para crianças.

Ainda continuo achando que essas perguntas não irão diminuir num espaço curto de tempo, mas espero que cada um que ouça a resposta seja um multiplicador e leve a mensagem adiante. Não temam os jogos, apenas façam com que eles não sejam o único responsável pela educação e vida social das pessoas.

Gustavo Nogueira de Paula

Perguntas frequentes

Algumas semanas atrás fui convidado pelo pessoal do programa curumim do Sesc Campinas para realizar um bate papo com os pais das crianças sobre algumas questões que envolvem educação e tecnologia, principalmente os games. Contarei brevemente como foi esse encontro e aproveitarei também para colocar algumas perguntas que realmente ouço e que normalmente confundem a cabeça daqueles que não entendem muito do assunto.

Não cheguei a preparar uma apresentação daquelas clássicas em formato power point, afinal de contas nossa intenção era tornar aquele encontro o mais “informal” possível, um bate papo mesmo, para que não ficasse com ares de uma aula e para que não intimidasse os pais ali presentes. Como auxílio visual levei apenas algumas imagens e vídeos, que utilizei para ilustrar alguns pontos específicos.

A estrutura toda foi bem simples, cadeiras brancas, projetor, microfone e bastante conversa. A participação dos pais foi muito boa, perguntando e discutindo sem medo, colocando suas dúvidas diante uns dos outros e ouvindo com atenção aquilo que eu tinha para lhes falar.

Durante o bate papo com os pais no Sesc Campinas

 

O conteúdo da conversa girou em torno principalmente dos maiores medos e temores dos pais: violência, vício e conteúdo, além de outras mais. Assim como esses, muitos pais e adultos em geral costumam ter essas mesmas dúvidas e curiosidades sobre os games, então nada melhor do que trazer essas questões aqui no gamecriticas. Apesar de parecerem simples, são muito importantes, pois tiram o sono de muita gente.

  1. Jogar jogos violentos pode influenciar comportamentos negativos nas crianças e/ou nas pessoas em geral?

Não. Sei que já falei sobre isso anteriormente, mas falarei mais um pouco aqui novamente. Acontece que essa afirmação não é baseada em empirismo nem em achismos. Acontece que não há nenhum estudo científico que comprove a relação entre comportamente violento e jogar jogos (violentos). Primeiro que, pelo menos nos padrões científicos da atualidade, não há sequer um meio de isolar um fator desses e comprovar que ele causa ou não esse tipo de malefício em seus jogadores. Tudo aquilo que é propagadao, sobretudo na televisão, de que os jogos são responsáveis por mortes e etc não é apenas mentira e sensacionalismo, mas também uma tremenda falta de caráter das pessoas por propagarem algo falso e espalhar o medo entre os desentendidos.

2.  Quem joga videogame tem desempenho pior na escola?

Não e sim. Essa questão é mais simples do que parece. Alguns estudos mostraram que adolescentes que passavam mais de 8 horas por dia jogando tinham um desempenho pior em suas notas. Isso não chega a assustar, afinal QUALQUER atividade que seja exercida por mais de 8 horas por dia irá afetar o redimento escolar de um jovem. Assim como o videogame, poderia ser treino esportivo, internet, ouvir música etc. Para além disso, não há qualquer relação entre baixo rendimento e jogar videogame, desde que a atividade seja feita de forma saudadevel.

3.   Qual a quantidade ideal de horas para jogar?

Essa resposta é um pouco mais complicada, pois adentra em questões um pouco mais subjetivas, envolvendo aquilo que chamamos de bom senso. Não há um número máximo de horas permitidas para alguém jogar. O importante é balancear o ato de jogar videogame com outras atividades de lazer, tais como praticar esportes, ir a museus e parques, ler, desenhar, escrever etc. Por isso não adianta os pais reclamarem das horas que seus filhos passam na frente da tv, poribir a criança de jogar e em contra partida não apresentar nenhuma outra opção do que fazer. Se seu filho só fica dentro de casa (afinal é periogoso brincar pelas ruas) e não pode chutar bola porque pode acabar quebrando algo, então é melhor rever seus conceitos de onde está o problema, se nos videogames ou no que é oferecido à criança.

4.   Videogame vicía?

É complicado dizer, mas assim como outros tipos de jogos o videogame pode sim viciar. Isso não é muito comum, sobretudo aqui no Brasil, não me lembro de nenhum caso, sendo mais recorrente nos países orientais, como a China e a Coréia do Sul. Acontece que o jogos são feitos de uma forma que estimula o jogador a continuar jogando, oferecendo nos prêmios, boônus, itens etc. Além disso, os jogos hoje em dia são cada vez mais longos, exigindo cada vez mais tempo de jogo. Mas os campeões em termos de “vício” e geração de ansiedade são os Massivos multiplayer online (MMO’s da vida). Esses jogos não tem fim e são arquitetados de forma que para o jogador evoluir ele precisa praticamente de uma jornada de trabalho diaria. Jogadores casuais normalmente não evoluem muito nesses jogos e acabam por desistir. Por outro lado os jogadores dedicados levam seus personagens muito a sério e ficam tensos quando não alcançam seus objetivos. Já vi muita gente “perder” seu final de semana para jogar algum Rpg online, devido a algum evento presente dentro do jogo. Nesses casos cabe aos pais e responsáveis verificar se a jogatina tem sido saudavel e ao sinal de qualquer problema conversar com a criança (ou jovem, adulto…) explicar o que está acontecendo e, novamente, oferecer algum outro tipo de atividade também.

5.     Como faço para participar junto com meu filho enquanto ele joga?

Muitos pais comentaram que não sabem jogar e por isso acabam se afastando dos videogames, mas que gostariam de participar mais de perto disso tudo, mas não sabiam como fazê-lo. Não há receita mágica para isso, mas algumas dicas podem ser valiosas nesse momento. Algo que tende a funcionar muito bem é pedir para que a criança explique e ensine sobre aquilo que joga. Isso não necessariamente significa ensinar a jogar em si, pois se familiarizar com os controles parece um pesadelo para alguns pais e professores. Quando falo sobre ensinar me refiro a estimular a criança a falar sobre o jogo, contar sua história, debater seu enredo, comentar sobre seus personagens favoritos e assim por diante. Sentar ao lado da criança e mostrar que naquele momento ELA é a “detentora” do conhecimento é algo que as deixa muito felizes e faz com que os pais se interem mais sobre o assunto. Não precisa ter medo, chegue para conversar, veja como a coisa acontece, se arrisque nos controles e mesmo que não consiga jogar você pelo menos conhecerá um pouco sobre o passatempo de seu filho.

Conversar, observar e participar: os pais precisam estar presentes nas atividades de seus filhos

6.   Se jogos violentos não tornam as pessoas mais violentas, então meu filho pode jogar qualquer jogo?

Sim e não novamente. Não é pelo fato de que ele não ficará mais violento que ele poderá/deverá jogar qualquer jogo. Vale a pena se inteirar sobre o conteúdo de cada jogo e avaliar as melhores escolhas para crianças de diferentes idades. Talvez um jogo adulto não seja apenas violento, mas pode ser profundo e complicado demais, o que não seria interessante para jogadores muito jovens. Hoje em dia existem varias opções de jogos para todos os publicos e gostos e os pais e educadores tem que pesquisar e verificar qual o mais adequado a cada situação. Mesmo sabendo que alguns jogos são imensamente populares e que as crianças querem joga-los para se sentirem “por dentro” das novidades não podemos nos tornar reféns do mercado e deixar que a moda dite aquilo que entregaremos a nossas crianças. Mais uma vez uma questão subjetiva, portanto complicada de responder, mas vale a pena pesquisar e conhecer minimamente um jogo antes de entrega-lo a uma criança, seja seu filho ou não.

Espero ter respondido satisfatoriamente a essas questões. Caso tenham mais dúvidsa (com certeza elas existem) não deixem de perguntar. Agora meu email está na descrição do blog, uma falha que eu finalmente arrumei.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

Videogame vs Preconceito 2

Continuando a série que debate o preconceito existente para com os games e seus jogadores, hoje temos nosso segundo post, que deve finalizar essa micro sessão.

Cabe lembrar que esse tipo de preconceito não é exclusividade para com o videogame. Assim como ele, o cinema em seu surgimento foi alvo de declarações terríveis sobre o que poderia causar às pessoas, não se mostrando uma arte completa como a literatura ou o teatro, por exemplo (LÉVY, 1999). A própria literatura também é alvo de preconceito quando falamos de gêneros que não sejam ditos clássicos, tal como a literatura marginal, por exemplo (nota-se isso até mesmo pela nomenclatura dada ao gênero), ou quando acontecem inovações que não são bem aceitas de início, etc.

Assim como os games, o cinema, os quadrinhos e várias outras artes já foram e são alvos de preconceito

No caso do videogame, o preconceito acontece principalmente de duas formas: o preconceito contra a própria mídia, considerada inferior, violenta e infantil e o preconceito contra os jogadores, sendo taxados de homens solteiros e no estilo nerd (como já dito anteriormente).Contudo a complexidade de temas abordados dentro dos games, bem como a quantidade de diferentes estilos de jogo impossibilitam afirmar que estes são apenas violentos e sem grandes enredos. Além disso, se acreditarmos no estereótipo de jogador apresentado, então acreditaremos que 75% dos chefes de família nos EUA e que 65% da população entre 6 e 65 anos da Grã-Bretanha (ZAGAL, 2010) são solteiros e com visual nerd.

Outra discussão que se mostra cada vez mais presente no universo dos videogames é a que questiona se estes são uma forma de arte ou não. A diversidade de pensamentos atinge até mesmo os próprios produtores de jogos, sendo que alguns consideram tratar-se de uma forma de arte complexa e bem estabelecida, outros dizem ser apenas uma forma de serviço prestado, enquanto outros apenas que é melhor parar de discutir e produzir melhores jogos. Algo muito comum é que as pessoas que não consideram os jogos como uma forma de arte (os críticos que se manifestam dessa maneira principalmente) normalmente não jogaram os referidos jogos dos quais comentam. Seria como um crítico de cinema que fizesse seu comentário baseado no trailer ou na sinopse do filme.

É assim que muitas pessoas descrevem os jogadores de videogame

Parece que os jogadores e produtores de videogames precisassem implorar para serem levados a sério, como mídia adulta e madura. Alex Evans, diretor de tecnologia do jogo Litle Big Planet, jogo com pretensões artística bastante evidentes e com ferramentas de edição de estágios bastante criativa comentou durante entrevista à IGN[1]

É como se você precisasse pedir desculpas por trabalhar em jogos quando conhece estranhos em festas

Poucos levam em conta o que os jogadores pensam e o que sentiram enquanto jogavam games considerados como artísticos, tais como Bioshock, ou Flower, por exemplo. Posso até mesmo relatar que jogar Bioshock chegou a ser surpreendente devido à minúcia de detalhes durante a recriação do ambiente da década de 1960. A riqueza era tão grande que me fazia sentir como tivesse viajado no tempo, ouvindo as músicas da época, observando a arte da época e até mesmo assistindo a propagandas da época. Ainda assim, parece que para os jogos de videogame serem considerados como arte haverá longa caminhada.

Poderia talvez ocupar páginas mostrando os pensamentos preconceituosos existentes sobre o videogame. Alguns mais bizarros e outros mais comuns, como os citados. Grosso modo, a maior parte se enquadraria no já citado. O que se pretende ressaltar aqui é que não podemos mais continuar tratando esses jogos apenas como brincadeiras para criança, como jogos “somente” violentos e jogados por solteirões estereotipados. Devemos despir a academia desses pensamentos e tratar os jogos eletrônicos como objeto complexo de estudo e pesquisa, pois este tem se mostrado um meio pelo qual e para o qual muito pode ser feito.

Espera-se assim que esse blog contribua na desmistificação desse pensamento, que não contribui em nada para o crescimento do ramo. Chega de dizer que videogame isola as pessoas, que videogame mata etc. Ao invés disso, vamos arregassar as mangas e mostrar o potencial que os jogos e seus jogadores possuem, pois também não adianta sentar e chorar, reclamando como um adolescente que ninguém nos compreende.
E então, vamos a luta?


[1] International Games Network

Videogame vs preconeito 1

Hoje dou início a uma série de posts mais específicos sobre o preconceito sofrido pelos videogames e por seus jogadores. Esse texto pode ser encontrado originalmente em minha dissertação de Mestrado defendida na UNICAMP e que você pode encontrar aqui. Caso o link não leve direto ao texto, basta procurar pelo meu nome completo ou pelo título da dissertação “A prática de jogar videogame como um novo letramento”.

O videogame: poucos são aqueles que não possuem uma opinião sobre ele. Jogadores os adoram, pais e professores os temem, produtores os têm como a galinha dos ovos de ouro, acadêmicos os vêem como poderosas ferramentas, artistas como um grande meio expressivo, etc. Obviamente, essas são generalizações que trago apenas  para efeito de mostrar  quão diversos são os pensamentos acerca dos videogames e nas mais diferentes esferas. Apesar de boa parte se basear no senso comum ao se referir aos videogames, tais opiniões não podem jamais ser desconsideradas. Contudo, o que ainda prevalece, e apresentarei brevemente neste capítulo, é um pensamento: o preconceito com os jogos.

Não atuarei aqui como o advogado de defesa dos videogames, dizendo serem estes livres de qualquer  pensamento da ideologia dominante,  que visa apenas lucro e imposições culturais a seus jogadores/compradores, ou que estes não possuam muitas vezes um conteúdo excessivamente violento, desnecessário e fetichizado. Existem aqueles que veem nos jogos um perigoso vício, que pode inclusive levar as pessoas a cometerem assassinatos, como o caso dos jogos de  RPG (CORACINI, 2006). Todos esses conteúdos podem estar presentes nos
videogames: mortes, tiros, torturas psicológicas, medo, isso apenas para citar alguns. Contudo, não há nada que já não estivesse presente em livros, filmes, programas televisivos ou qualquer outro meio de comunicação. Acontece que o preconceito com o videogame não se dá somente através dos temores de esses jogos arrastarem os jovens para um caminho sem volta de solidão, violência e mau comportamento social. Longe disso. De acordo com Beavis et. al. (2009), foi observado que o videogame atua como meio de socialização entre os jovens e seus pais, amigos e amigos em comunidades virtuais, mostrando que o alarde de que os jogos isolam as pessoas não passa de mito infundado.
A realidade é que o videogame,  apesar de já ser uma  das  maiores  mídias  do entretenimento atualmente  (ZAGAL, 2010), ainda é tratado como algo menor pelos grandes meios  de comunicação  e até mesmo pela academia.  Já quanto à presença destes na escola, posso citar na íntegra um trecho de artigo da revista Nova escola que diz “só vale levar a tecnologia para a classe se ela estiver a serviço dos conteúdos. Isso exclui, por exemplo, as apresentações em Power Point que apenas tornam as aulas mais divertidas (ou não!), os jogos de computador que só entretêm as crianças” (ênfase adicionada).

Associar comportamento violento a jogar videogame é tão comum quanto sem sentido

Estes ainda são os dois principais discursos proferidos sobre os videogames: ou são violentos, ou são mero entretenimento. Este trabalho surgiu com o intuito de mostrar que o videogame  pode ser muito mais do que isso, podendo atuar como verdadeiro  objeto educacional, sendo aproveitado pela escola. A começar, as pesquisas que tentaram mostrar que os videogames tornam as pessoas mais violentas falharam. De  acordo com Squire (2003), nenhum estudo desse tipo conseguiu comprovar de forma segura essa correlação entre jogos violentos e comportamento antissocial, ou até mesmo de mau desempenho escolar/acadêmico. O máximo encontrado foi que crianças que  jogavam por tempo excessivo tinham aproveitamento reduzido na escola, contudo,  qualquer atividade realizada por um tempo excessivo pode prejudicar o desempenho escolar das crianças.

Cabe ressaltar que  o fato de acreditar que o videogame possa ser utilizado  pelas escolas não exclui outros pensamentos  e reflexões, tais como  a  violência e mensagens de consumo transmitidas diretamente aos seus jogadores. Deixo bem claro que não estou a negar a violência dos e nos videogames, visto  que, em alguns casos, até podemos perceber que alguns deles podem possuir, em determinados momentos, violência mais ou menos gratuita ou desnecessária para os  objetivos pretendidos. Apenas  digo que, assim como nas  narrativas literárias ou cinematográficas, todas essas ações terão de ser enquadradas no contexto da ação que a gera, bem como ser debatida e contextualizada. (TEIXEIRA, 2009). Não se trata de um trabalho evangelizador, que apresentará o videogame como salvador do sistema educacional, mas, se esperamos que um dia os jovens sejam críticos o bastante para interpretar e utilizar de forma criativa esse artefato cultural, então nada mais importante do que trabalhá-lo na escola.

Termino assim o primeiro dessa micro série de dois posts, que continua ainda essa semana, mostrando que esse tipo de preconceito não é uma exclusividade dos videogames. E para celebrar, hoje ultrapassamos 3000 visitas, mais uma vez obrigado aos colaboradores!

Obrigado pelas mais de 3 mil visitas