Left is dead

A indústria brasileira de games continua a todo vapor! Após o estrondoso sucesso de “Democracy GO”, a empresa Ironic Games lança mais um título, dessa vez se aproveitando do filão dos jogos de tiro e de zumbis, o “Left is Dead” (imagino que qualquer semelhança com o nome Left for dead não seja mera coincidência).

O jogo não prima pela originalidade, se utilizando dos já conhecidos clichês das histórias de zumbis: Alguma coisa de ruim aconteceu e agora você tem que sobrevier a ordas de zumbis que vagueiam pela rua num mundo pós apocalíptico. A parte interessante é que conseguiram trazer isso para algo mais próximo do nosso meio, ambientando o jogo nas ruas brasileiras de algumas das principais capitais brazucas. Segundo a assessoria de imprensa da Ironic, até o fim do ano todas as capitais e até algumas cidades do interior já estarão disponíveis.

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Mais uma vez, se trata de uma mecânica de jogo simples e conhecida da maioria dos jogadores: Em primeira pessoa, o personagem precisa sobreviver em meio ao caos gerado pelos zumbis e muitas vezes correr é a melhor das opções. São pouquíssimas as armas disponíveis e o suporte também é escasso. A dificuldade é alta e é bem provável que você perca bastante antes de conseguir chegar até o final, se é que vai conseguir.

A parte interessante do jogo se dá na seleção de personagens, ambientação e na caracterização incrível dos principais inimigos. Na tela inicial há apenas as opções de “Novo jogo” ou “Continue”, ao som de Chico Buarque de Holanda, que casou bem com a proposta da Ironic. Ao clicar em “Novo jogo” você é levado/levada a tela de seleção de personagens, que são poucos e não customizáveis, o que dá a impressão do jogo não estar completo, apesar de prometerem novidades ainda esse ano. São:

  • Jean – Homem branco e de barba, camiseta vermelha e bermuda rasgada. Vem equipado com vinagre e é o que mais corre;
  • Glória – Mulher negra, com roupa ao estilo afro. Vem equipada com vinagre e um pandeiro. Tem incrível força e capacidade de ataque, mas corre pouco e é mais perseguida do que os outros personagens;
  • Paulo – Uniforme do sindicato completo. Equipado com uma bandeira, que pode virar arma em casos de desespero. Vem sem vinagre, mas carrega kit de cura (sanduíche).

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Como gosto de desafios, escolhi logo a fase que os desenvolvedores consideram como sendo a mais difícil: Avenida Paulista, em São Paulo. Pude atestar que eles não estavam brincando.

Diferentemente de outros jogos nessa linha, em que tudo está destruído e coberto por vegetação, em “Left” o cenário parece limpo e bem cuidado, não dando a impressão inicial que se trata de um apocalipse ou algo do gênero. Mas basta caminhar um pouco para sentir que o game não é moleza. Ao seu lado caminham os outros dois personagens não escolhidos (no meu caso escolhi o Jean). Logo de cara começam a surgir os primeiros zumbis, pessoas brancas usando camiseta da CBF ou camisetas brancas. Não demora e você já percebe que nem vale a pena entrar em confronto com eles, a não ser para ganhar experiência. As armas inicias são megafone (para conversão) e alguns panfletos que você precisa ficar entregando até afastar os zumbis.

Com o tempo começam a surgir os zumbis mais poderosos: alguns homens com a cabeça raspada e muito fortes, algumas senhoras com cachorrinhos a tira colo e alguns outros que portam taças de champanhe. O megafone não funciona com nenhum deles, tão pouco os panfletos. Se a essa altura você não tiver conseguido o equipamento de disfarce (Iphone e roupa de marca) é derrota na certa. A dica aqui é começar a correr o máximo que puder, pois os inimigos seguintes são ainda mais desafiadores.

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Já correndo e em pânico para não dar game over, comecei a encontrar ordas e mais ordas de inimigos conhecidos como Bolsominions. Eles não possuem cérebro e vem esbravejando em sua direção. É incrivelmente difícil passar por eles, pois são muito agressivos e as suas armas tendem a não funcionar. A sorte é que normalmente eles se viram uns contra os outros e acabam por se matar.

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Mas foi nesse momento do jogo, num ato desespero, enquanto corria sem prestar muita atenção no cenário, que encontrei o que acreditava ser um ponto seguro: Personagens cujo uniforme estava escrito “Proteger e servir”. Doce engano. Tratava-se simplesmente dos inimigos mais poderosos. Sedentos por nos matarem, portavam todo tipo de armamento, coletes, carros, escudos e tudo mais que se possa imaginar. Usei meu estoque de vinagre, mas não resolveu muito e acabei morrendo umas 5 ou 6 vezes. Não tenho orgulho em dizer isso, mas a única forma que encontrei de passar deste chefão foi trapaceando e digitando o código “Propina”, que os torna bem dóceis e em alguns casos chegam até a lutar ao seu lado.

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A história do jogo não é muito clara, não dá para entender bem o porque dos zumbis atacarem. Nos fragmentos narrativos que são apresentados, dá a entender que eles se transformaram devido ao ódio que sentiam e que atacam pelo prazer da destruição, não pretendendo criar uma nova sociedade ou algo assim. Uma pena criarem monstros e inimigos tão interessantes, mas com motivações tão rasas assim.

Sobre a dificuldade do jogo, a galera da Ironic me disse por email que “se trata de um jogo feito para jogar no modo cooperativo. Sozinho ele realmente é impossível. A ideia é que os jogadores se conectem para derrotar o inimigo, quanto mais gente melhor” disse.

Não dá para dizer se o jogo vai vingar por aqui, mas não deixa de ser mais um opção interessante em nosso mercado cada vez mais saturado e clemente por algo novo.

Mais uma vez, esse jogo não existe

Gustavo Nogueira de Paula


OBS: A última foto foi retirada do G1 e a legenda original era simplesmente incrível: Vídeo flagra manifestante agredindo policial em protesto de professores

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Democracy GO

Na esteira do sucesso de Pokémon GO, eis que já lançaram novo jogo baseado no atual cenário político brasileiro, o Democracy GO. Sátira que se apoia escancaradamente no fenômeno nipônico, Democracy GO aproveita o sucesso mundial e recria  uma crítica ácida através do formato e estética do jogo de capturar monstrinhos. O objetivo principal é capturar o máximo de golpistas possível, nesse jogo em que é difícil entender que é amigo e quem é inimigo.

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Para a caracterização do personagem não há grandes opções, mas elas são bem interessantes:

  • Camisa da CBF
  • Roupa Armani
  • Estampa Pixuleco

Entre os acessórios, também pouca coisa:

  • Óculos escuro
  • Cachorrinho  de colo
  • Faixa de apoio ao golpe militar
  • Pato de borracha

O avatar pode ser homem ou mulher e todos eles podem usar quaisquer um dos itens e acessórios durante a customização. Estranhamente não dá pra escolher a cor da pele do personagem, que é branca desde o início, mas não sei bem o porque.

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Como se trata de uma cópia, a mecânica do jogo é idêntica, você precisa arremessar bolas para capturar seus corruptos favoritos. De início você pode escolher um entre os três disponíveis que surgem assim que você cria o personagem: Temer, Cunha ou Calheiros. Há ainda um easter egg, que você descobre ao fugir três vezes destes corruptos iniciais, que lhe permite começar direto com Paulo Maulf, um dos corruptos favoritos dos jogadores.

A estrutura do jogo é simples: basta andar pela cidade a procura dos monstrinhos e tentar capturá-los. Estudos iniciais mostram que a quantidade de jogadores no estado de São Paulo é impressionante, bem como o número de corruptos para capturar. Os corrupstops ficam em lugares tradicionais, como monumentos que homenageiam militares, câmara dos vereadores/deputados, prédio da FIESP, bancos etc. No lugar dos ginásios foram colocados CPI’s, em que você coloca seus parlamentares para lutarem. Normalmente ninguém perde nessas lutas, mas as vezes você acaba gastando seu dinheiro nos duelos.

Entre os mais raros dos monstros está Geraldo Alckmin. Segundo consta, ninguém conseguiu capturá-lo ainda. Por outro lado, Zé Dirceu’s aparecem toda hora, parece até com os Zubats de Pokémon. No lugar dos ovos de Pokémon GO você consegue fazer nascer alguns filhos e netos de políticos, ou consegue angariar alguns seguidores de movimentos pseudo engajados, como Revoltados online etc. Essas incubadoras de seguidores de movimentos pseudo engajados rendem alguns dos monstros mais poderosos, com grande poder de ataque, apesar de péssima capacidade de defesa e vida.

E assim como não poderia deixar de ser, alguns são mais resistentes para serem capturados. Caso esteja enfrentando problemas, basta usar algum dos itens “propina” e eles chegam até a se jogar dentro da corruptoball. Dentre os itens mais poderosos estão o logo BR da Petrobras e alguma pasta de poder. Já o mais fraco dos itens é um pedalinho em formato de pato, que não consegue seduzir ninguém. Sinceramente, nem sei porque ele existe, visto que os outros itens são absurdamente mais poderosos e eficientes.

E se estiver com dificuldade em progredir no jogo, fique tranquilo, pois o cheat é liberado e até incentivado. No final das contas, quando chegar no nível máximo, todos irão dizer que foi mérito seu e que merece estar onde chegou. Mesmo com sua conta banida você pode continuar jogando e mantendo seu status.

Rumores ainda dizem que na próxima atualização você poderá escolher um policial para andar ao lado do seu avatar. Quanto mais selfies tirar com ele, mais XP ele ganha, podendo bater e atirar em qualquer inimigo que surja em seu caminho. Parece que a novidade já rola em alguns lugares, mas poucos jogadores tiveram acesso à novidade.

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Grande sucesso nacional, recomendo que instale agora em seu smartphone. Democracy GO parece que veio para ficar!

OBS: Obviamente esse jogo não existe

OBS 2: Esse blog está de luto pela democracia no Brasil


Gustavo Nogueira de Paula

Alerta vermelho e a Mídia vs Escola

As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS
As vezes os EUA parecem gostar mais do comunismo do que a antiga URSS

Pelo menos de dois em dois anos o discurso político passa a receber atenção das pessoas. Seja pra falar mal de todo mundo, compartilhar boatos e mentiras  ou discutir propostas e ideias, é fato que isso chega a vida das pessoas, mesmo que de formas bastante distintas.

Nessas horas/épocas nos deparamos com todo tipo de discurso, porém um em específico tem chamado demais minha atenção: O discurso de ódio preconceituoso e a direita cada vez mais forte. Não deveria, mas ainda me choco ao ver como as pessoas tem mais ódio do que medo em relação as palavras comunismo, socialismo e derivados. A cor vermelha é quase banida, sobretudo se você for do Estado de São Paulo.

Neste exato ponto começa a reflexão que nos leva de volta ao assunto principal deste Blog, os videogames. Se os conteúdos curriculares estão aí para todos, os livros didáticos, as apostilas, as obras literárias, os debates na internet etc então por que tanta ignorância ao falar sobre esses assuntos? Porque é bem diferente alguém estudar e conhecer o socialismo, para então criticá-lo, do que o ódio corriqueiro que costumamos ver por aí, quase 100% das vezes baseados em argumentos sem o menor sentido.

Acontece que ante o discurso escolar/acadêmico nós temos uma enxurrada de falas perversas a respeito de qualquer política ou pensamento de esquerda. De jornais de notícias, a programa de fofocas e jogos de tiro em primeira pessoa, a ideia é sempre a mesma, combater o comunismo em defesa da liberdade do capitalismo.

Como convencer uma criança, através de aulas escolares, que o Zangief não é “do mal”? Como fazer com que um jovem perceba que os “heróis” do Call of Duty massacram outros povos? Como dar foco ao fato de que a cor vermelha é sempre o segundo player, que nos jogos antigos sequer aparecia na sequencia final?

Infelizmente o discurso escolar não tem força pra vencer isso. São poucos minutos de aulas específicas contra uma praticamente uma vida toda de Rambos, Indiana Jones, Final Figth, Call of Duty etc. A competição é muito desleal e acaba desembocando na ignorância que tanto vemos espalhadas por aí.

Alerta vermelho
Alerta vermelho

Que exista pessoas que realmente sejam contra o pensamento de esquerda, embasadas e apoiadas em estudos eu não duvido. Nem vou julgar o que seria melhor, não é a ideia desse post. O problema é o ódio, desconhecimento e preconceito, que taxa não apenas as políticas voltadas ao social, mas também todos aqueles que as defendem.

Não há solução a curto prazo, mas como sempre digo, através da produção de jogos nacionais, com temáticas que fujam dessa dicotomia Azul x Vermelho e que não reproduzam preconceitos políticos tolos e infantis, talvez possamos diminuir essa ignorância. Aí, voltamos ao papel da escola, que ao invés de apenas apresentar as doutrinas políticas deveria também instruir sobre os discursos midiáticos, para que as pessoas saibam criticar seus conteúdos e não apenas reproduzir asneiras preconceituosas que expõem sua ignorância política nas redes sociais.

É um trabalho de formiga, que precisa ser feito passo a passo, mas precisamos nos mexer, pois esperar que Globo, Warner, Activision, Microsotf e afins passem a mudar seus discursos em prol da educação das pessoas, sinto muito, mas teremos que esperar por uma nova humanidade.

Gustavo Nogueira de Paula

Humor, bullying, preconceito e a cultura nossa de cada dia

Parede de tijolos ao fundo (ou tecido vermelho), iluminação e um microfone na mão, assim está dada a liberdade poética de falar qualquer barbaridade sobre qualquer pessoa, grupo, gênero, etnia etc sob a bandeira covarde do humor pelo humor. Poderia ser também uma bancada elegante, terno, ar de descolado, pessoa entrevistada e a liberdade também estaria dada. É tudo um show, de horrores.

O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo
O palco que liberta as pessoas para ofender sem medo

Protestos daqui, reclamação dali e no final das contas o papo é sempre o mesmo: aqueles que reclamam são chatos, sem humor e que querem a volta da censura para calar singelos humoristas. Até poderíamos dizer que quem aplaude esse tipo de piadinha nada engraçada seria co autor desse pensamento pequeno, mas ainda assim a criação disso tudo costuma vir muito mais dos tais humoristas/formadores de opinião do que do público em si, que em geral tem participação mais passiva.

Já nos videogames a situação complica um pouco, visto que o humor preconceituoso, os comportamentos “condenáveis” e a acidez social também estão todas presentes, mas no controle do jogador. Existe desde a crítica social mais bem feita até a reprodução do estilo de vida mais fútil, tudo sendo determinado pelas ações do jogador, dentro do código desenhado por quem produz.

É bem diferente assistir um stand up, sentir-se envergonhado, vaiar e ir para casa chateado do que ligar um console, começar a jogar e apertar os botões e comandos que executam a ação de cometer estupros, chacotas maldosas e bullying. Nesse espaço mora o pânico de quem não joga e/ou não entende os jogos, deixando de cabelos em pé qualquer um que presencie uma cena dessas.

Também é nesse mesmo espaço que reside a importância de uma melhor compreensão dos jogos e de sua forma de contar histórias. Aqui o jogador entra na pele de quem prática o bullying, de quem sofre o bullying, de quem ofende, é ofendido etc. Muitas vezes isso choca, pois a experiência é entregue de uma forma mais dura e direta. Quem disse que o dia dia de uma criança na escola é fácil? Se ela não fizer parte do grupo dos populares/endinheirados ou qualquer coisa que simbolize poder isso pode ser ainda mais complicado. Dessa forma, não é de surpreender que no jogo essa vivência seja chocante.

E como estamos nos preparando para encarar isso? Muito mal por enquanto. Qualquer enredo ou história mais ousada ainda sofre críticas terríveis, sendo que muitas vezes elas sequer são bem interpretadas ou finalizadas pelos seus jogadores. Há ainda o agravante de que, no Brasil pelo menos, temos uma população que lê e interpreta assustadoramente mal, o que dificulta a compreensão de qualquer coisa mais complexa ou sutil. Pode ser que uma ironia seja vista como uma ofensa, quando não deveria e uma ofensa possa ser vista como algo ingênuo, quando também não deveria.

Bullying, dois lados da moeda
Bullying, dois lados da moeda

O fato é que colocar as pessoas na pele de situações delicadas pode ser algo fundamental para a compreensão de determinados comportamentos e resolução de problemas. Porém, daí a acreditar que a mera produção de jogos e experiências vai fazer de alguém uma pessoa mais crítica é algo bastante utópico. Devemos acompanhar de perto cada conteúdo, sem relevar o humor opressor e sem escandalizar com as ousadias, mesmo porque isso vai passar a ser cada vez mais comum.

Gustavo Nogueira de Paula

Gamificando o mundo

O termo Gamificação se tornou popular e conhecido mesmo entre pessoas que nada tem a ver com jogos. De maneira simplificada, significa transformar as coisas em jogo, ou ainda, utilizar as características dos jogos em atividades que comumente não as tem. Isso vale na educação, trabalho, treinamento e em diversos outros lugares. Tanto que o termo já está quase se tornando um jargão empresarial, além verbete de vendedor de materiais didáticos. As promessas são lindas: dinamismo, interesse, eficácia, eficiência, diversão e uma série de outros adjetivos bastante positivos. Será só isso?

É pra isso que queremos os jogos?
É pra isso que queremos os jogos?

Realmente, para algumas atividades, as características dos jogos caem muito bem, atuando como estimulantes e colocando os participantes para atuarem de forma mais concreta com o desafio proposto. O ato de vivenciar algo, correndo riscos controlados e participando ativamente através de tomadas de decisões pode auxiliar bastante na apreensão de um conteúdo ou esquema.  Já existe bastante gente falando e “demonstrando” isso. Até mesmo J. P. Gee de certa maneira aborda a questão da educação sob o olhar dos jogos, argumentando o quanto suas estruturas tem a ensinar à educação formal.

Contudo, nada é assim tão simples e, como sempre, precisamos tomar bastante cuidado com esses discursos deslumbrados em demasia. Para cada Gee com bons argumentos e pesquisas existem vários papagaios de pirata tentando vender fórmulas mágicas. A exemplo de qualquer material didático, há muita coisa ruim acontecendo nesse mercado de materiais e pesquisas.

Primeiramente que nem tudo, nem todo momento, precisa ou deve ser gamificado. Se tudo se tornar jogo os próprios jogos perderão boa parte da graça e logo clamaríamos por outro salvador. É como celebre frase de Shakespeare “Se o ano todo fosse de feriados, o lazer, como o trabalho, entediaria.” É ilusão acreditar que o interesse seria o mesmo. Essa busca constante por tentar tornar a educação, treinamentos etc algo mais divertido e funcional na verdade evidencia o quanto essas atividades foram/são ruins e o quanto precisamos modernizá-las, mas não muito mais que isso.

Dessa forma não vejo razão para desespero, nem para tornar tudo um grande jogo, muito menos feito as pressas e sem verdadeira reflexão. Se for para tornar algo um jogo, ou apenas usar de suas principais características, então que isso seja feito de forma bem pensada, visando o melhor para quem está a aprender e não para quem está a vender. Isso sem contar o importante fator de que nem todos gostam de jogos, muito menos jogos que envolvam conteúdos curriculares, nem ter que ficar sendo desafiado pelo computador enquanto apenas quer estudar em casa.

Não sou contra a gamificação, mas sempre suspeito quando essa bandeira da salvação é hasteada e todos correm atrás dela. Semelhante a qualquer outro processo, isso precisa ser observado e construído com calma. Isso sem levar em conta a utilização de jogos empresariais que são verdadeiras lavagens cerebrais forçadas ao extremo. Se for mal feito, ou visando apenas o lucro, não haverá diferença alguma entre algo tornado jogo e o que estamos fazendo a séculos.

Gustavo Nogueira de Paula

Crítica: Bioshock Infinite

O que você acha de encontrar uma imagem como essa logo no início de um jogo?
O que você acha de encontrar uma imagem como essa logo no início de um jogo?

As vezes nos deparamos com produções bonitas, instalações interessantes, lemos um verso que nos inspira, ouvimos algum depoimento emocionante, paramos para observar um quadro que nos causa estranheza, curtimos uma música em alto e bom som para alegrar o fim de tarde, frequentamos museus, assistimos a peças, filmes e shows. Há muita coisa boa por aí, basta procurar. Porém, as vezes nos deparamos com algo diferente, com uma grandeza que vai além das coisas mundanas, que te surpreende e te toca, que evoca sentimentos e que faz refletir, pois ali há algo a ser apreciado. Esse é o caso de Bioshock Infinite.

A série Bioshock é um sucesso de vendas e crítica, sobretudo o primeiro jogo da série. Eu mesmo já falei muito sobre ele e sou admirador confesso desse trabalho. Mas Infinite é diferente, consegue elevar a narrativa nos videogames a outro patamar. Aqui o personagem principal não é o jogador, mas o cenário e o enredo incrivelmente caprichado. A cidade flutuante de Columbia é viva e linda, com detalhes que fazem o queixo cair, o que te transporta no tempo e no espaço.

Ouvir a trilha sonora desse jogo é um agrado a parte, de tão bem feita, bem produzida e bem encaixada. Seja nos momentos de tensão, de disputa, de fuga ou de passeio por Columbia o jogador é levado através da música, constante e que mexe com os sentimentos de quem empunha os controles.

O final do jogo é uma enxurrada de informações e, por que não, de conceitos que beiram a maluquice, que atingem o jogador como um direto, atordoando e deixando qualquer um bastante perplexo. É uma chave de ouro que fecha uma trilogia e um jogo fantástico.

Mas o grande trunfo desse jogo é seu cenário, assim como já o era em seus antecessores. Vagar por Columbia é interessante, com sua música de época, seus trajes e toda sua estética, contudo nada se compara a andar pela favela, encontrar os Vox Populi e ler os cartazes que o governo totalitário e preconceituoso espalha por todo lado. Chega a ser impressionante um jogo tão mainstream tocar em assuntos tão delicados e de forma tão escancarada. É tudo bastante exposto e não deixa de ser uma crítica social dura contra a sociedade americana, rejeitando negros, estrangeiros e pobres. Tudo em nome de uma pureza racial e também intelectual.

Se junte a Vox populi
Se junte a Vox populi

Acontece que isso é apenas pano de fundo. Por mais que esse conflito constante entre os ricos e os pobres acabe cruzando com o caminho do jogador, não é a história principal, pelo menos na teoria. No fundo, me parece o contrário, sendo os tiroteios e a fantasia um imenso pano de fundo para mostrar que os jogos são capazes de trazer a tona conflitos sociais e temas de interesse do público de forma interativa e desafiadora.

Abaixo segue aquela que foi para mim uma das cenas mais marcantes que já tive a oportunidade de jogar, com a Vox Populi armada em uma realidade “alternativa”. Mesmo o vídeo não transmitindo toda a emoção que se sente enquanto jogamos esse momento do jogo, é possível ter uma ideia do que se passa, pois ouve-se os gritos das pessoas revoltadas e a música… bom, a música eu não preciso comentar.

Muitos ainda falam da jogabilidade refinada, com saltos pelos trilhos e muito tiroteio de boa qualidade. Outros lembram de Elizabeth, uma personagem e tanto, que nos acompanha durante toda a jornada e que jamais pode ser esquecida. Mas a Vox e os desdobramentos do jogo são simplesmente incríveis e foi aquilo que mais marcou minha experiência ao jogar.

Quebre o preconceito com jogos de tiro e se arrisque em Bioshock Infinite, o potencial desse jogo está muito além do que poderíamos imaginar.

A revolução
A revolução

Gustavo Nogueira de Paula

 

Jogos para crianças

Que os jogos de videogame muitas vezes são tidos como “para crianças” todo mundo já sabe. Mas o que isso representa e quais jogos as crianças realmente jogam? Essas duas perguntas irão pautar esse post, que talvez surpreenda alguns.

O que define um jogo como "para crianças"?
O que define um jogo como “para crianças”?

Dizer que um jogo de videogame é para crianças é, em primeiro lugar, um erro bastante grave, visto que a idade média de seus jogadores é superior a 25 anos. Em alguns países maior ate do que 30 anos. Se levarmos em conta a idade média de quem compra os jogos então essa média pode ser ainda mais elevada.

Além disso, isso é dito numa tentativa fracassada de diminuir algo. O adjetivo “para criança” remete a algo simples, ingênuo, bobo e até mesmo ruim (para um adulto). Tal afirmação é carregada de preconceito, basta olharmos para a importância dos jogos no desenvolvimento de qualquer indivíduo, são inúmeras pesquisas relacionadas a isso. Temos também a literatura infantil, por exemplo, que não se torna pior pelo fato de ser destinada a crianças. E não me refiro apenas a Harry Potter ou a Turma da Mônica, mas a toda uma gama variadíssima de livros, livretos e revistas voltadas ao público mais jovem, mas sem perder sua qualidade, contando também com áreas acadêmicas específicas para pesquisá-las.

Agora um fato curioso (que inclusive me fez pensar aqui na possibilidade de realizar uma pesquisa mais profunda a respeito), nós realmente sabemos o que as crianças estão a jogar atualmente?

Acredito que a essa altura todos saibam que trabalho com crianças, em um programa de educação não formal. Durante o dia de trabalho é bastante comum conversar com as crianças sobre os mais variados assuntos. Como eles sabem que gosto de videogames eu acabei virando uma referência para eles nesse assunto. De walking dead a Team Fortress 2 eles adoram contar suas proezas e novidades.

Até aí nada de novidade, mas um fato me chamou a atenção: a maioria esmagadora dos meninos tem como jogo favorito (ou pelo menos um dos grandes favoritos) Call of Duty, sendo o mais novo sempre o mais jogado. Eles sempre vem me contar que jogaram Black Ops 2 com grande empolgação. Eu mesmo nunca joguei, nem pretendo jogar num horizonte próximo, mas eles adoram. Pra quem não sabe CoD é um jogo de guerra, bem aos moldes americanos, sendo muitas vezes o terror dos pais e educadores e a diversão do pessoal do exército.

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Antes de ser criticado eu sei que se trata de um empirismo nada estruturado, mas sim de apenas algumas conversas com as crianças, mas isso não deixa de chamar minha atenção. Não sei exatamente o que pensam ou entendem sobre esse jogo (Call of duty em geral, sem nenhum episódio em específico) e, associando o início desse post, o quanto CoD é realmente simples de compreender (em termos ludológicos) visto que crianças bem novas conseguem jogá-lo sem dificuldade.

Seria CoD um jogo para crianças? Os produtores pensam nesse público quando estão criando o jogo? Afinal, o que é um jogo para crianças?

Atualmente não sei responder essas questões, mas esse é um blog questionador e não apenas “respondedor”. Pense bem antes de disparar que um jogo de videogame é feito apenas para crianças, pois isso pode esconder muito mais do que você imagina.

Gustavo Nogueira de Paula

Do papel para a tela e para a ação

O Brasil passa por um momento político interessante. Gente nas ruas, protestos, aumento e diminuição nos preços das passagens do transporte público, copa das confederações e por aí vai. Nesse meio tempo muita gente se envolveu com essas questões e resolveu dar seu grito e protestar também. Mas pra além de marchar na rua com um cartaz legal, o que tem sido feito? Sei de muita gente séria envolvida, que tem pautas bem definidas e participação sempre ativa na política, mas e os outros? Até onde podemos caminhar e o que podemos fazer no dia dia?

Qual gigante acordou?
Qual gigante acordou?

Pode parecer estranho um blog sobre games tocar em um assunto como esse, mas não é. Pelo menos não para mim. Primeiro porque não da para ficar de fora de uma discussão como esta e segundo porque os jogos podem fazer muito nesse tipo de situação, bem como em outras diversas. Para quem dúvida, fique tranquilo, pois darei um pequeno exemplo de como essa discussão pode ser trabalhada com crianças.

Recentemente ministrei um jogo que se aproximava de um jogo de RPG com as crianças com quem trabalho. Dividi a turma de aproximadamente 25 crianças em 4 grupos, sendo que cada um deles representavam: Senhores de engenho, capitães do mato, religiosos (que incluíam desde católicos até indígenas) e escravos. Após a divisão eu lhes atribui os pontos de vida e habilidades especiais:

  • Senhores de engenho – PV 20, defesa 2 e ataque 2. Habilidade especial – voltar uma jogada de dados, dinheiro ilimitado
  • Capitães do mato – PV 15, defesa 4 e ataque 4. Habilidade especial – dobrar um resultado de dados
  • Religiosos – PV 15, defesa 3 e ataque 2. Habilidade especial – cura três vezes ao dia
  • Escravos – PV 10, defesa 3 e ataque 3. Habilidade especial – derrubar o adversário.

Os “objetivos” de cada grupo foram ditos separadamente e foram os seguintes:

  • Senhores de engenho – não deixar os escravos fugirem e, se possível, aliarem-se aos religiosos
  • Capitães do mato – não deixar os escravos fugirem e protegerem os senhores de engenho. Em caso de perigo de morte poderiam fugir
  • Religiosos – inicialmente “neutros”, poderiam escolher algum lado para auxiliar
  • Escravos – fugir e, se possível, aliarem-se aos religiosos.

Narrei a história de maneira simples e o enredo foi:

No Brasil, período de 1800 e alguma coisa, uma fazenda em Minas gerais. O fato de ser uma fazenda riquíssima e de grande influência fez com o que o Rei fosse visitá-la. Como parte da visita estava combinada a celebração de uma missa e também um jantar logo em seguida.

Apresentado esse plano de fundo eu concedi 2 minutos a cada grupo para decidirem suas ações, sem que os outros soubessem o que pretendiam. Ao término do tempo eles me contavam em segredo o que pretendiam e então eu continuava a narrar a história.

Logo de início, tanto os escravos, quanto os senhores de engenho, foram falar com os religiosos. Primeiro ouvi dos escravos “mas nós não temos nada a oferecer a eles, vamos ter que inventar uma mentira”, enquanto por outro lado as crianças que eram os senhores de engenho conversaram com os religiosos tranquilamente e falaram “vocês não precisam reformar essa capela? Quem sabe algumas estatuetas de ouro, tapetes novos, talvez até uma nova capela ainda maior”.

As crianças/escravos ficaram indignados e já começaram a chamar o jogo de injusto. Depois armaram um belo plano: disseram aos religiosos que tinham descoberto uma ideia terrível dos senhores de engenho e que assim que o rei partisse eles não melhorariam em nada a capela e que os religiosos teriam que trabalhar diretamente para os donos da fazenda.

A plano até que funcionou e colocou uma pulga atrás da orelha dos religiosos, que começaram a questionar as intenções dos senhores de engenho. Nisso, os escravos aproveitaram para invadir o quarto do Rei e realizarem várias exigências. Os capitães do mato ameaçaram atirar e ouviram que eles seriam os novos escravos, caso os atuais morressem.

Em pouco tempo a sala se tornou uma bagunça e estavam todos de pé discutindo, com a tensão de um sequestro.

Nem vimos e o tempo passou, era o fim da atividade em pleno seu auge. No dia seguinte conversei com eles e disseram que haviam gostado muito e queriam terminar de jogar (detalhe, não houve sequer uma jogada de dados). Comecei a questioná-los sobre  o que havia passado e ouvi coisas muito interessantes. Foi engraçado ver como a sociedade em que vivemos foi reproduzida rapidamente durante o jogo.

Não vou colocar e descrever tudo o que vi e ouvi durante essa atividade, mas afirmo que ela foi muito boa e fez com que pensassem a respeito. Pouco tempo depois levantei o debate sobre o que estava acontecendo no Brasil nos dias atuais e assim voltamos ao início desse texto. Realizamos um ótimo debate e várias reflexões surgiram. Não sei se isso muda o país ou se melhora a situação das pessoas, mas estou tentando fazer minha parte.

Essa foi apenas uma atividade simples, praticamente sem material algum, apenas um pouco de criatividade. Penso que os produtores de jogos (e até mesmo o governo) deveriam investir mais esforços em desenvolver jogos nessa linha, que promovam debate, que sejam fáceis de operar e que tenham elementos lúdicos.

Não aguento mais ver as produtoras nacionais construindo jogos com o mesmo estilo de sempre. A intenção é apenas ganhar dinheiro e para isso copia-se o que já é feito por aí, afinal o que é feito por aí vende bastante.

Sair pra rua e fazer barulho é legal. Clamar por uma valorização do povo brasileiro é legal também. Mas produzir material que nos auxilie a refletir e pensar não faz mal a ninguém e já está mais do que na hora dessas pessoas acordarem e não apenas o gigante que tanto insistem ter acordado.

Gustavo Nogueira de Paula

PS: Meus textos devem começar a ser publicados também na Any Magazine (http://projetoany.wordpress.com/) que já está em sua quarta edição e tem divulgação gratuita. Aproveite para dar uma conferida.

Nos bastidores da Tv

Finalmente saiu no youtube a primeira parte do programa Educação Brasileira, da UNIVESP TV, em que participei algum tempo atrás. Em clima de felicidade com a divulgação do meu trabalho eu vou falar um pouco de como foi essa experiência e comentar um pouco sobre o que falei durante a gravação. A segunda parte misteriosamente ainda não está disponível, mas assim que ela estiver eu atualizarei o post para acrescentá-la aqui.

A Univesp Tv, segundo eles mesmos

A Univesp TV é o canal de comunicação da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a quarta universidade pública paulista e visa ao incentivo à formação integral do cidadão. Nosso objetivo principal é apoiar o aprendizado dos alunos de cursos da Univesp, através de programas específicos e também de interesse geral.

Os estúdios de gravação ficam dentro da fundação Padre Anchieta, ou popularmente Tv Cultura. Diga-se de passagem a estrutura da fundação Padre Anchieta é bem grande, contando com muito espaço e bom equipamento. Foi uma sensação muito agradável caminhar ao lado de onde são gravados o Jornal da Cultura, Cocóricó, entre outros.

Após falar com o diretor do programa Tiago de Araujo Silva, que me recebeu muito bem nas intalações do canal, fomos para a produção. Lá fomos maquiados e preparados para a gravação (no mínimo engraçada essa coisa de ser maquiado etc).

Junto comigo estava Rebeca Otero, da Unesco Brasil e fomos entrevistados por Ederson Granetto, outra figura muito simpática e nitidamente muito capaz.

Sempre rola uma pequena tensão antes de começar o programa, mas eu estava bastante tranquilo no dia. A Rebeca estava um pouquinho mais nervosa, com as mãos mais agitadas, mas também foi bem e conseguiu expor bem o seu ponto.

Logo em mniha primeira pergunta o Ederson, na boa intenção, fez uma pergunta que já está quase se tornando um clássico, sobre a utilização de “qualquer” jogo em sala de aula, focando na questão dos jogos de tiro etc. Obviamente que nenhum professor vai usar qualquer jogo a qualquer hora e em qualquer aula, mas isso depende mais dos objetivos do professor do que jogo propriamente dito. Por que não explorar as questões da guerra? As mortes de inocentes? Geografia? etc… gostei dessa minha resposta, apesar de ser chato falar de mim mesmo.

Uma diferença que existia entre o que a Receba dizia e o que eu dizia se referia a relação dos objetos tecnológicos com os conteúdos escolares, pois acredito que num futuro não muito distante os próprios jogos serão “o” conteúdo escolar, sendo estudados e aprofundados, enquanto ela apresentava os celulares e tablets como ferramentas, a serviço do professor/aluno.

O que da pra perceber é que ao mesmo tempo que há urgência em inserir essa tecnologia em sala de aula ainda há muito despreparo e receio em relação a esses objetos. A grande satisfação de participar de um programa desses é crer que ele pode ajudar aqueles que buscam por uma educação de qualidade em nosso país.

No decorrer do programa outras questões foram levantadas, mas trinta minutos passaram voando e isso apenas me convence do quanto ainda tempos por fazer. Jogos em sala de ula é um tema que precisa ser mais pesquisado e isso é um convite para os jovens universitários. As lacunas ainda são imensas e diversas são áreas possíveis de atuação.

Seja com jogos de realidade aumentada, jogos de celular, tablet, computador ou videogame, seja online ou sozinho, seja como tarefa de casa ou em grupo na escola, seja violento ou seja fofinho, não podemos mais negar que a tecnologia veio para ficar e que precisamos aprender o máximo sobre ela para “invertermos” essa situação, não sendo apenas dominados, mas também agentes dessa transformação.

Foi um prazer ter participado do programa e que no futuro surjam mais oportunidades.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

Lista de obras

Fim de ano e no Brasil é época das maiores provas de vestibular: Fuvest, Unesp, UNICAMP e ENEM. Cada final de semana uma nova maratona para aqueles que querem cursar uma universidade pública. São centenas de milhares de candidatos respondendo as mais variadas questões sobre química, física, matemática, biologia, geografia, história, inglês e português, além de redação.

Para as provas de português são requisitadas as leituras de algumas obras consideradas importantes para a língua portuguesa. A lista desse ano da fuvest e unicamp continha: “viagens na minha terra” de Almeida Garret; “Til” de José de Alencar; “Memórias de um sargento de milícias” de Manuel Antônio de almeida; “Memórias póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis; “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo; “A cidade e as Serras” de Eça de queiros; “Vidas Secas” de Graciliano Ramos; “Capitães da Areia” de Jorge Amado; “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade.

vidas secas é dos meus livros favoritos

De início isso o assunto não parece ter grande relação com os games, mas apresento aqui um texto provocatório, na intenção de nos fazer refletir sobre algumas tradições que temos na nossa sociedade.

Tempos atrás levantou-se uma discussão na cúpula da organização do vestibular da unicamp, questionando a existência e o formato da lista de leituras obrigatórias. O principal argumento é de que existem outras produções que também deveriam ser de conhecimento obrigatório, extrapolando a literatura. Chegou-se a propor uma lista de obras, de uma forma mais geral, que incluísse artes plásticas, filmes, literatura etc. A ideia foi rechaçada e a lista continuou da mesma forma de sempre.

Não vou entrar na discussão do “valor” e da importância de cada uma dessas obras literárias, que são realmente fantásticas. Mas seriam elas as únicas a serem cobradas obrigatoriamente na prova de linguagem? E os filmes clássicos, sobretudo nacionais, não mereceriam espaço junto a elas? Será que o fato de ser uma obra cinematográfica faz de “Central do Brasil” algo menor? Apenas para exemplificar.

Os filmes já começam a mostrar sua importância enquanto mídia madura e produtora de muito conhecimento. Apesar de possuir um formato praticamente estabelecido, há espaço para muita inovação e criação dentro do cinema, o que acaba por conferir muito prestígio a essa forma de expressão.

Quanto aos jogos, qual a distância que eles estão de figurar entre outras obras importantes, seja no Brasil ou no mundo. Atualmente essa distância é imensa. Que me perdoem os jogadores mais afoitos, mas a grande maioria dos jogos produzidos hoje em dia ainda é mais do mesmo, inovando pouco e com enredos fraquinhos. São poucos os jogos que realmente se destacam por levarem o jogador a sério, considerando-o um ser inteligente. Os que fazem isso costumam receber grande destaque da mídia e do meio acadêmico, mas não necessariamente dos jogadores.

Não estou fazendo aqui um juízo de valores, comparando um livro a um filme ou a um jogo. Cada um possui suas próprias características, mas os jogos ainda são relativamente novos se compararmos com a história de outras formas de produção artísticas e/ou textuais, mas já é chegada a hora de começar a encará-los de forma mais séria. A esperança reside no crescimento da produção e divulgação de jogos indies. Mas sempre passamos pelo mesmo problema: Produtores independentes querem crescer  no mercado e para crescer no mercado costumam fazer jogos “apenas” para agradar aos compradores, deixando a inovação de lado, pelo medo da não aceitação. Uma vez se estabelecendo no mercado acabam por repetir as fórmulas já conhecidas, com apenas alguns retoques ou roupagens novas.

Seguindo nesse ritmo os games continuarão a serem considerados como obras menores por um bom tempo. Não espero que um jogo seja comparado ou equiparado com Graciliano Ramos, nem quero, mas vale pensar o que seria necessário para que um jogo fosse considerado importante o suficiente para ter sua leitura tida como obrigatória.

Isso deveria valer para os cursos de produção de jogos. Alguns títulos deveriam ser obrigatórios durante o curso, seja por sua inovação na jogabilidade, gráficos, enredo, estética etc. É muito triste ver profissionais chegando ao mercado tendo jogado apenas os grande blockbusters da vida e se limitando a ler apenas reviews que atribuem de uma a cinco estrelinhas para os jogos.

Que me venha à cabeça agora me recordo apenas de Bioshock ser cobrado numa universidade americana, mas sinceramente eu não lembro onde vi isso e não consegui reencontrar a notícia. De qualquer forma, talvez seja o início, pois aos poucos os jogos  e os jogadores ganharão mais respeito. Para isso precisamos de jogos inovadores e para jogos inovadores precisamos de jogadores mais conscientes e para jogadores mais conscientes precisamos de melhores pesquisas, críticas e divulgação.

A estrada é longa, mas não me surpreenderia se num futuro próximo algum jogo ou personagem figurasse como obra aclamada mundo afora, sendo debatido e discutido em museus, mesas de bar, universidade, escolas…

Em tempo, mais uma vez obrigado aos visitantes do gamecriticas, que ultrapassou já tem um tempo a marca das 6 mil visitas. O público vem crescendo bastante e espero sempre por sugestões, dúvidas e críticas.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

obrigado a todos visitantes, já ultrapassamos, e muito, as 6000 visitas!