A ignorância dos gamers é desanimadora

A Helena da direita parece ter insultado muitos jogadores
A Helena da direita parece ter insultado muitos jogadores

Sim, esse título é uma generalização

Essa generalização é oriunda da frustração em relação aos comentários e reações de muitos jogadores a respeito do trabalho realizado pelo site bulimia.com, que apresentava personagens femininas dos games em uma versão um pouco mais realista, baseado numa pesquisa em relação ao peso/altura da mulher estadunidense. Eram apenas imagens tratadas, coisa bem simples, alertando um pouco sobre a opressão da mulher em busca da magreza etc. Aquilo que parece simples de entender se tornou quase uma ofensa para muitos jogadores. Da para conferir todos os resultados aqui.

Fica até difícil saber por onde começar. Dentre as asneiras ditas, destaco algumas:

  • A esmagadora maioria dos comentários na matéria acharam um absurdo as alterações realizadas nas personagens, argumentando não serem corpos irreais, por se tratarem de atletas, lutadoras etc.
  • Falam que as mulheres só sabem fazer mimimi
  • Que infelizmente teriam que aturar mulheres gordas também no videogame
  • Associar a questão das mulheres gordas com governos de esquerda
  • A maioria não entendeu a proposta do site que realizou a ação

Os jogadores em geral expressaram medo de alterarem o desenho das mulheres. Isso não surpreende, pois os jogadores costumam ser bem conservadores, rejeitando alterações mais bruscas nos jogos, seja em estética ou jogabilidade.

O tema tem sido recorrente por aqui, mas hoje a intenção maior é expressar o quão desanimador pode ser trabalhar na área de games. Volto a insistir na importância das produções indies para alterar esse mercado, pois esperar que as Majors irão realizar alguma mudança ou pensar em algo mais inclusivo é quase tão frutífero quanto esperar o papai noel no natal.

Um texto curto, mais como um lamento. Fico imaginando o que essas pessoas pensam a respeito de estupro, abuso, diferença de salários etc… O caminho pela frente ainda é longo e árduo, não pensem o contrário.


Gustavo Nogueira de Paula

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A transformação de meninas em antas.

Era uma aula de sociologia/antropologia durante a graduação em Educação Física. O professor, um dos melhores que já tive na vida. O texto a ser discutido era dele, intitulado “A construção cultural do corpo feminino, ou o risco de transformar meninas em ‘antas”. Não, ele não achava que nenhuma menina era anta, ou algo do gênero, nem gostaria de transformá-las nisso. Tratava-se de um relato de umas de suas alunas, quando ainda dava aulas em escolas públicas, que ao errar um lance durante uma partida de vôlei exclamou “Eu sou uma anta mesmo”.

Trocando em miúdos o texto se referia a como reprimimos a participação das meninas em atividades tidas como “masculinas” e como isso acaba por refletir em seus corpos e em suas atitudes. No caso, a garota não tinha contato nem proximidade com jogos ou esportes e se sentia mal por isso, culpando a si mesma pela relativa inabilidade em tais atividades. A discussão central da aula era o machismo presente neste meio e como devemos/podemos agir para acabar com isso.

MACHISMO 1

Pois bem, situação semelhante nós encontramos nos jogos de videogame. É um ciclo básico: Sem representação as meninas tendem a não gostar muito de jogos; as que gostam são excluídas e/ou passam por situação humilhantes; menos mulheres se interessam por participarem da produção de jogos; as que participam sofrem perseguição; isso gera menos diversidade na indústria de games; menos diversidade igual menos representatividade; isso atrai menos meninas… não preciso continuar.

Obviamente trata-se de uma simplificação de minha parte, existem vários fatores para ampliar essa cadeia. Para piorar tudo isso e apimentar com ares de crueldade eu acrescento o comportamento de boa parte dos jogadores. Sim, de boa parte, não posso pegar leve com eles. Ou rejeitam ou tentam humilhar as jogadoras, seja pessoalmente ou em jogos online (pela internet todo mundo estufa o peito e tem coragem de colocar os preconceitos para fora).

Volto ainda a outro assunto, sem medo de soar repetitivo: a imprensa que fala sobre jogos é omissa, despreparada e igualmente machista na maioria dos casos, seja ignorando o que acontece, seja tratando a situação como se fossem casos isolados e de forma caricata. Se duvida, veja estes dois links da Marie Claire (isso mesmo, da Marie claire) que apresentam notícias de forma bem mais contundente do que a maioria dos portais brasileiros sobre games. A primeira delas fala sobre o preconceito com jogadoras e a segunda sobre o caso GamerGate,  que deu o que falar lá nos EUA e que mal apareceu por aqui.

É impressionante como aqui no Brasil isso passa quase batido. Pouco abordamos o tema, mesmo já sabendo que o número de jogadoras vem crescendo. O que sobram são comentários jocosos e sexistas a esse respeito. Jogar qualquer coisa online chega a ser um desafio mental quando há uma mulher no servidor, tanto pelas baixarias infantis que somos obrigados a ver, quanto pela vergonha alheia de presenciar ofensas e recalques de jogadores derrotados.

Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar
Acredite, muitos idiotas pensam assim e estão mais próximos de você do que pode imaginar

Precisamos debater o assunto de forma mais contundente, com o protagonismo feminino e de forma clara, sem pegar leve com a mídia ou com os jogadores, que muitas vezes acreditam que este seja um “problema menor” ou até mesmo inexistente. Não é raro encontrar quem pense que isso é coisa de “gente da esquerda socialista” ou babaquices semelhantes.

Se preciso for, voltarei ao tema toda vez que me deparar com alguma notícia relacionada ao tema ou quando ficar sabendo de algum acontecimento específico. Ainda aguardo pelo momento em que encontraremos um Newsgame que ironize essa situação.


Gustavo Nogueira de Paula

PS: Que o título deste texto mexa com a curiosidade das pessoas e que leiam o texto todo antes de xingarem toda minha família

Lara Croft, as mulheres e a evolução da mídia

Semanas atrás tivemos duas importantes datas, uma delas intimamente ligada ao universo feminino e outra indiretamente ligada. A primeira delas é a celebração do dia internacional da mulher, que acontece todo ano no dia 08 de Março. Trata-se de uma data muito importante, apesar de um tanto deturpada hoje em dia, servindo para exaltar exatamente o contrário daquilo que a pregava inicialmente. O dia simboliza um marco na luta pelos direitos feminnos, bem como uma luta por direitos trabalhistas. O evento que deu origem a essa data é uma tragédia das mais terríveis da história, em que várias mulheres foram queimadas durante protesto (falando bem resumidamente).

Ainda na mesma semana, no dia 05/03/2013, foi lançado oficialmente o novo jogo Tomb Raider, que tem como estrela principal a heroína Lara Croft, símbolo sexual virtual e “representante” maior das mulheres no mundo dos games. Na minha opinião, Lara sempre foi um ícone do machsimo disfarçado dentro dos jogos, mas os videogames evoluíram e a volumosa Lara também. Vamos observar mais de perto.

Primeiramente, antes de entrar em qualquer discussão sobre a temática, é bom darmos uma pequena olhada na evolução de Lara ao longo dos anos.

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Acredito que nem preciso comentar muito sobre as imagens, que quase falam por si. Além de ficar mais nova com o passar do tempo, algo que não acontece com as pessoas no mundo “real”, sua sensualidade foi ficando cada vez mais exacerbada. O fato de ficar mais nova é compreensível, dada a evolução gráfica dos jogos de videogame. Já a sua sensualidade não é tão simples de ser explicada. Lembre de tempos atrás ter visto uma pesquisa que dizia que uma mulher comas formas de  Lara mal conseguiria parar em pé, literalmente. A proporção de sua cintura em relação a seu peito é impressionante e atua diretamente na cabeça dos jogadores, não apenas dos homens, mas também das mulheres. Na cabeça dos homens ela desperta o desejo sexual e aquela sensação de controlar uma mulher sensual para realizar seus comandos. Para as mulheres ela se tornou um símbolo da “mulher moderna”, pois ela corre, salta e se aventura, mas sem perder sua beleza e “feminilidade”. E olhe que nem vou entrar na questão do cinema, em que ela era representada por Angelina jolie, que precisava usar bojos e todo tipo de artifício para aumentar seus atributos para as filmagens.

Não vou dizer que as mulheres precisam ser tratadas como feias, ou apenas como operárias nos jogos, mas daí até as formas exageradas que ela possuía a diferença é grande. Até esse momento ela representava bem a indústria dos jogos: dominadas por homens, que realizam várias de suas fantasias através de modelagens 3d. Ela não é o único  exemplo de corpos exagerados dentro dos jogos, não apenas dos corpos femininos, mas também dos masculinos.

Contudo, essa mídia não é mais a mesma de anos atrás. Hoje em dia cada vez mais mulheres são jogadoras de videogame e aquele estereótipo de homem nerd solteirão está caindo por terra. A participação feminina no mercado é significativa e com isso a exigência tem se tornado cada vez maior. Isso sem contar a atenção que os jogos vem recebendo das pessoas em geral, o que dificulta a manutenção de comportamentos machistas dentro dos jogos.

É nesse ponto que entra a nova Lara Croft.

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Ela não ficou feia, nem tem os menores peitos do mundo, mas a diferença é óbvia. Não está limpinha, não está com meio litro de silicone, não está tão preocupada com sua aparência. Tudo isso não é apenas coincidência. Trata-se de uma evolução na mídia, que cada vez mais aperfeiçoa sua capacidade de contar histórias. Lara não é mais apenas um corpo que se move, mas uma heroína de verdade, com personalidade e profundidade.

Ainda não joguei o novo Tomb Raider e nem vou entrar no mérito do jogo em si, mas o fato da personagem ter se transformado tanto é algo a ser notado, talvez até mesmo celebrado. Ainda estamos distantes de um ideal, mas esse fato histórico é importante. Não foi um personagem qualquer a ser alterado, mas um ícone, uma musa, alguém de importância dentro e fora do mundo dos games.

Espero que os produtores não reproduzam os preconceitos presentes na sociedade e em outras mídias. Este é um bom momento para levantar essa discussão novamente, pois a forma com que as mulheres aindada são tratadas dentro dos jogos não é das melhores. Ou são prêmi ou são exageradamente sexys.

Que Lara Croft realmente atue como um símbolo, não apenas sexual, mas um símbolo de mudança e rompimento, de evolução e construção.

Para mais informações sobre esse debate vale a pena conferir meu outro post que falava sobre meninas que também jogam e meu artigo na revista pensar a prática que aborda a temática dos corpos dentro dos jogos.

Para finalizar, trago um dos exemplos mais bonitos que temos nesse aspecto. Um pai hackeou o jogo Donkey Kong (aquele antigão mesmo) de forma a fazer com que a pessoa a ser resgatada fosse o Mario e não a princesa (ok, nesse momento ela ainda nem era princesa) a pedido de sua filha que queria jogar com uma mulher e não apenas ser resgatada das mãos do gorila. A edição foi chamada carinhosamente de “Donkey Kong Pauline Edition”. Além de sensível essa atitude abre as portas para um novo tipo de pensamento dentro dos jogos.

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Parabéns a todas mulheres por seu dia de luta, apesar do atraso.

Gustavo Nogueira de Paula