As coisas mudam, mas nem tanto

Já se vão nove meses desde a última postagem. Nesse meio tempo muita coisa aconteceu, mas posso destacar principalmente minha mudança de cidade, horário de trabalho e mais uma série de pequenas coisas em meu estilo de vida. O que não muda é a vontade de voltar a escrever e realimentar o Game&Criticas.

Pois bem, a vida de crítico de jogos não é das mais fáceis, pois as tecnologias se atualizam bem mais rápido do que minha capacidade (e disposição) para adquirir novos consoles, computadores etc (apesar que finalmente voltarei a escrever sobre jogos de PC, aguardem). Como não sou youtuber descolado, nem estou no UOL, não rola patrocínio e as coisas vão se acumulando. Meu velho amigo PS3 começa a dar sinais de desgaste e seu leitor só funciona quando quer, me restando apenas os jogos digitais. Não é lamento, mas sim uma constatação da situação de quem estuda jogos de forma independente.

E já que mencionei os jogos digitais, resolvi comprar alguma coisa para passar o tempo. Queria algo que fosse conhecido/divertido, mas ao mesmo tempo que tivesse a chance de possuir algum conteúdo interessante. Entre a grande quantidade de jogos sem muito apelo (para mim) na PSN, encontrei Dishonored. Sim, o primeiro. Sim, jogo que já está antigo.

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Parece que não há nada para falar de jogo antigo, não é mesmo? Já ganhou vários prêmios de jogo do ano, já foi detonado, gravado, zoado etc, mas, como diz o título deste post, algumas coisas mudam, mas nem tanto assim.

É cada vez mais evidente que os produtores de jogos se preocupam com seu conteúdo, tentando entregar produtos que tenham mais apelo aos seus consumidores, bem como desenvolver narrativas que prendam a atenção por mais tempo, visto que os celulares passaram a concorrer muito fortemente com os videogames e, sobretudo, com os computadores. Títulos com boas histórias vão ganhando força e espaço e acho isso ótimo. Foi com essa expectativa que resolvi encarar Disonhored.

Que fique claro, ainda não terminei o jogo e na verdade ainda devo estar bem longe disso. Porém, logo de cara, algo me chamou a atenção: o início da história. Por mais incrível que pareça, mesmo com todo avanço que os jogos vem apresentando, o jogo começa com uma garota sendo raptada e sua mãe morta, sendo seu personagem acusado de assassinato, dando início a uma perseguição, enquanto você luta para limpar seu nome.

Eu quase desisti ali mesmo. Nem entro no mérito da qualidade (ou falta de) presente no jogo, mas a história é um clichê tão insuportável que desanima qualquer um. Como pode, um jogo com investimento tão alto, de uma empresa tão famosa (Bethesda) apresentar uma história tão fraca. Já percebi que com o desenrolar do jogo vão surgindo algumas nuances, mas o tema central é esse.

É de se lamentar bastante a falta de criatividade que assola o meio dos jogos, principalmente os Blockbusters. Não vou dizer que não existe vida inteligente nos games AAA, mas em geral é a água com açúcar de sempre. A preguiça de pensar ainda fala mais alto. Não acho que todo jogo precise de histórias complexas ou intrigantes, mas é isso que se espera de um jogo com grandes equipes e cifras elevadas. Vale notar que esse ainda é um aspecto pouquíssimo debatido ou questionado nas críticas de jogos de um modo geral.

Volto sempre a pergunta: Os jogadores preferem jogos assim e por isso as produtoras investem nisso ou as produtoras só investem nisso e os jogadores não conhecem outra coisa?

Espero que em breve possa voltar aos jogos de PC e, dessa forma, me aventurar por produções mais variadas e que desafiem nosso intelecto tanto quanto nossa habildiade manual.


Gustavo Nogueira de Paula

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Joel e Ellie, personagens que marcam um ciclo

Quando vi o primeiro trailer de “The Last of us” logo pensei “Mais um jogo da Naughty Dog, mais um jogo de zumbis, mais um jogo de sobrevivência. Será que ele vai apresentar alguma coisa diferente?”. Bastante tempo depois, mais precisamente duas semanas atrás, eu finalmente terminei de jogá-lo. Por mais que ainda sejam lançados jogos para Xbox 360 e PS3, The Last of us marca o ápice e o fim dessa geração e deixa um legado imenso para as próximas que virão.

Ellie e Joel
Ellie e Joel

Muito já foi dito sobre esse jogo. Vários sites, blogs, revistas e onde mais se possa imaginar, todos comentando sobre o jogo em si e alguns aprofundando sobre outros temas. Quem busca por dicas, notas e outros itens das análises comuns pode procurar por um desses sites, que com certeza irão detalhar mais sobre esses aspectos. Aqui no Game & Críticas o foco será dado às duas grandes estrelas dessa obra que me surpreendeu de forma arrebatadora: Joel e Ellie.

O começo do jogo mostra como Joel perdeu sua filha e o desespero causado pela infecção dos fungos. Após vinte anos da catástrofe que assolou o país (o mundo?) a vida se tornou bastante amarga e se resume basicamente a buscar por comida, armas e tentar não ser morto, seja por infectados ou por seres humanos desesperados. O clima e o ambiente são terríveis, com lugares sujos, abandonados, destruídos, lembrando a todos que aquele já foi um lugar bom de se viver, mas que isso não passa de uma memória distante. São poucos sorrisos, abraços ou tapinhas nas costas. Difícil confiar em alguém, pouco provável fazer amizades.

Nesse meio do caminho Joel é incumbido de levar a garotinha Ellie para o laboratório dos vagalumes, pois ela se mostra imune aos fungos. Começa aí a jornada de atravessar os EUA até entregar a encomenda.

A relação de ambos é complicada de início, pois Joel foi embrutecido por suas experiências de perder a vida, amigos, família etc. É matar ou morrer e ele não tem muitas dúvidas de como agir. São tijoladas, pauladas, tiros e facadas sem piedade com ninguém e isso assusta a garotinha, que o questiona sobre seus métodos. Com o passar do tempo a relação de dependência, tanto para sobrevivência, quanto afetiva, vão ficando cada vez mais fortes e o laço criado entre os dois arrebata o jogador de forma intensa e cativante. Em pouco eles, mais o jogador se tornam uma família, buscando um bem maior. Joel começa a contar um pouco sobre sua vida, solta alguns sorrisos e inevitavelmente começa a se afeiçoar bastante pela jovem espirituosa.

O jogo alterna momentos de correria intensa com silêncios absolutos, pois nesse clima terrível, muitas vezes é melhor passar desapercebido. A jogabilidade é simples, ideal para não atrapalhar a contação da história, que é o ponto principal do jogo. Através de fotos, bilhetes e pelo ambiente é possível conhecer mais sobre o mundo em que vivem e o que aconteceu aos que ali moravam. The Last of us não é um jogo em que tomamos grandes decisões, ele está nos trilhos desde o início. Ele entrega uma experiência ao jogador. Não é só uma questão de tomar decisões ou não, mas a exploração do ambiente é o que leva o jogador a saborear esse jogo. Seria como o espectador assumir o controle de Will Smith em Eu Sou a Lenda para conferir o que havia dentro daquela porta pelo qual ele passa em frente antes de ir pra casa. Mesmo que o final não se altere, essa liberdade de conhecer os espaços e observá-lo mais de perto dão um tom ainda mais especial para a narrativa como um todo.

Quanto mais o tempo passa mais os dois personagens principais vão se aprofundando e mostrando sua personalidade. Uma cena que considero memorável foi parar ao lado de Ellie para observar girafas caminhando pelo local devastado, com carros destruídos e mato para todo lado. Foram apenas alguns segundos de contemplação, mas que falaram muito mais a respeito dos personagens, daquele lugar, daquela vida e sobre esse jogo do que qualquer texto poderia fazer.

Não há possibilidade de discordar das decisões de Joel e do rumo que as coisas tomam. O jogador tem a tarefa apenas de guiar os personagens até seu desfecho, tendo apenas a possibilidade de conhecer mais sobre a desolação humana, mas sem interferir no que acontecerá. No final, após todos os problemas e finalmente chegar ao laboratório, Joel descobre que para tentar uma cura os cirurgiões teriam que matar Ellie, algo que ele não aceita, assassina o grupo e leva a garota em bora de volta. Aquilo que parece egoísmo e alguns até chamaram de clichê para criar um anti herói nada mais é do que o resultado de uma jornada tão intensa. A intenção é realmente provocar, pois por mais que o jogador possa discordar dessa decisão e queira salvar a humanidade através de uma cura, ele é obrigado a atirar nos médicos, no grupo e levar Ellie consigo para tentar viver uma vida ao seu lado.

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Quando o jogo termina alguém poderia jurar que havia uma pessoa a seu lado contando-lhe uma bela história. A profundidade destes personagens mostra que os videogames estão aí para contar histórias e narrar eventos de forma única, a seu modo. A experiência que The Last of Us nos entrega é simplesmente incrível.

Falar mais do que isso talvez seja perda de tempo, pois como todo jogo ele precisa ser jogado, pois cada segundo pode reverberar de forma diferente nos jogadores, desde os mais sensíveis aos mais frios. Concorde ou não com as decisões de Joel, se apegue ou não com a garotinha Ellie, sentindo arrepios com os estaladores ou tentando enfrentar a todos de frente, The Last of Us é um dos jogos mais interessantes em que coloquei as mãos. Há pequenos defeitos, coisas que eu gostaria de mudar, mas isso sempre haverá. Com certeza não nos esqueceremos tão cedo destes personagens tão brilhantes, que contribuíram para elevar os jogos de videogame a um novo patamar.

Gustavo Nogueira de Paula