Nós diremos quantas vezes forem necessárias: JOGOS NÃO MATAM

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É impressionante como determinadas coisas parecem não mudar. Quando comecei a estudar jogos de videogame, lá nos idos anos de 2006 (minha nossa, já se vão 10 anos), uma das primeiras coisas que precisei fazer foi tentar quebrar o preconceito em relação aos games. Não matam, não fazem matar, não derretem o cérebro, não isolam etc etc. Mas não adianta, a cada tragédia acontecida no Brasil ou no exterior, a grande mídia aproveita para fazer seu show de horrores sensacionalista a respeito do caso.

No mais recente, após a trágica morte de um garoto de 13 anos em São Vicente – SP, que se enforcou após perder uma aposta para amigos, um culpado já foi logo encontrado: League of Legends, o popular jogo online. Impossível medir a dor que estes pais e  familiares estão passando, bem como é impossível imaginar como estes adolescentes irão lidar para o resto das suas vidas com a imagem mental da morte do amigo diante de seus olhos. Um momento que exige toda uma reflexão sobre a vida de nossas crianças e adolescentes, sobre os espaços de lazer que possuem, sobre a criticidade que possuem em relação a conteúdos online, sobre aceitação de grupo, sobre bullying. Mas não, mais fácil relacionarmos tudo isso a um jogo, culpabilizá-lo e manter as coisas como estão.

Computadores e videogames não devem ficar isolados e trancafiados num quarto, afinal, um jogo seria dos melhores conteúdos que um jovem poderia ter acesso nesse caso. Aparelhos assim precisam ficar na sala, ou pelo menos o quarto precisa estar de porta aberta, de forma que os pais possam ver o que se passa no PC. Todos gostamos de privacidade, mas sinto dizer: adolescente dentro de casa não pode ter 100% de privacidade não, precisa é de atenção dos responsáveis. Rede social é coisa para maior de idade. Vai permitir que a criança/adolescente tenha acesso ao Facebook? Ok, tenha a senha também, acompanhe as conversas etc. Parece chato não é? Então, ser responsável às vezes é chato mesmo, talvez tenha faltado avisar.

E um adendo: Quem acha que os videogames podem ser perigosos deveriam justamente lutar para que eles adentrem a escola, pois quanto mais o conhecermos, mais confiantes ficaremos.

O texto de hoje é curto, em respeito a Gustavo Riveiros Detter, seus amigos e familiares. Apenas um lembrete de que, mesmo após 10 anos, vamos continuar combatendo os preconceitos relacionados aos jogos de videogame.


Gustavo Nogueira de Paula

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O que os filhos devem jogar?

Volta e meia algumas situações se repetem quando nosso assunto são jogos de videogame. Lançamentos, novos consoles, arrecadações milionárias e, como não poderia ser diferente, o famigerado papo sobre violência, que trago a tona mais uma vez, como sempre um pouco a contra gosto, mas dessa vez com um tom diferente.

Existem duas perguntas que praticamente já fazem parte do meu dia dia, seja lá onde eu for e com quem eu converso. Se digo que estudo/escrevo sobre videogames essas questões provocativas sempre vem à tona, normalmente uma na sequencia da outra. Em muitos casos (talvez na maioria) elas não são deita de forma pejorativa, mas por desconhecimento ou curiosidade mesmo.

Em meu trabalho diário com as crianças não é difícil lidar com situações desagradáveis, como brigas, ofensas e todo e qualquer tipo de conflito. Normal, afinal se tratam de crianças, que estão justamente aprendendo sobre a vida e sobre o mundo que as cerca. Na esmagadora maioria dos casos uma boa conversa resolve as situações e logo os envolvidos voltam a brincar alegremente. Porém, acontece de algumas vezes a situação se repetir, ou tomar ares mais graves e uma de nossas ações enquanto educadores é alertar aos pais/responsáveis sobre o ocorrido, convidando-os para conversar conosco em nossa sala. Quando o problema foi uma briga ou um caso de bullying, a pergunta já vem de forma quase ensaiada “Será que isso não é por causa dos joguinhos que ele tem? Eu já proibi todos jogos de guerra, zumbi…”

Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo
Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo

Não vou culpar os pais, normalmente desinformados, por se preocuparem com seus filhos e me perguntarem algo desse tipo, mas parece ser tão mais fácil culpar um jogo eletrônico (que não pode se defender das acusações) do que treinar um olhar mais amplo sobre a educação das crianças.

Daí surge a segunda questão “Mas você deixaria seu filho jogar todos esses jogos?”. A resposta é, claro que não. Em nenhum momento eu disse ou digo que todo e qualquer jogo pode ser jogado por qualquer um. Os enredos e as ações normalmente são adultos e exigem maturidade, sobretudo para que sejam melhor aproveitados. Uma criança jogaria Bioshock Infinite apenas com um “joguinho” de tiro e perderia a grandiosidade do enredo e do cenário do jogo, que aborda conflitos interessantíssimos. Alguém vai sair por aí matando empresários ou se jogando em cabos de aço após ter jogado Infinite? Provavelmente não, mas de que adianta jogar uma obra prima dessas sem aproveitar o que ela tem de melhor?

Isso sem contar a gama variada de jogos voltados para crianças e jovens, que com certeza fazem/fariam sucesso se fossem levados para dentro de casa. Mas talvez seja muito exigir que o atarefado pai, que trabalha 40h por semana (ou mais), arruma a casa, cozinha etc ainda se informe sobre jogos etc. Ou será que não?

O belíssimo Bioshock Infinite
O belíssimo Bioshock Infinite

Deve-se compreender que alguns conteúdos apresentam mais do que a simples violência física, tão temida, mas também situações psicologicamente estressantes, que podem sim tirar um pouco do sono dos mais novos e até mesmo elevar a tensão a níveis que os pequenos ainda não sabem lidar muito bem. Isso claro, desde que joguem sozinhos e/ou sem orientação. Novamente aqui um puxão na orelha dos pais, educadores etc.

Sobre isso, vale a pena ler a sensível entrevista publicada pela Kotaku sobre um vendedor que diz ter vendido cópias demais de GTA V para crianças.

Ainda continuo achando que essas perguntas não irão diminuir num espaço curto de tempo, mas espero que cada um que ouça a resposta seja um multiplicador e leve a mensagem adiante. Não temam os jogos, apenas façam com que eles não sejam o único responsável pela educação e vida social das pessoas.

Gustavo Nogueira de Paula

Game designer’s que nunca viram a luz do dia

Fiquei uma semana sem postar, estava viajando a trabalho e também para particpar de um programa de entrevistas na Univesp Tv, que logo deve ir ao ar. Falarei mais sobre essa entrevista quando o vídeo dela estiver disponível no youtube.

Porém hoje eu volto com um post curto, no estilo revolta. Eu sempre falo que hoje em dia o público jogador de videogame mudou muito, com cada vez mais mulheres, idosos, jogadores casuais etc. Recentemente falei sobre Lara Croft e sua evolução. Estudo os jogos enquanto ferramenta educacional, alardeio sobre sua capacidade narrativa.

Nesse meio tempo eu ouço uma piadinha ou outra e dos mais céticos eu sempre sou confrontado através de jogos com visuais e/ou enredos apelativos. E foi dessa forma que nessa semana eu conheci Dragons Crown. E que tristeza me deu ao ver aquilo.

O título da matéria da Kotaku americana para mim foi perfeito “Parem de contratar game designer’s de 16 anos para fazer jogos”, pois é exatamente isso que parece. Personagens forçados existem aos montes em diversos jogos por aí, mas nesse caso em especial o pessoal caprichou. Primeiro vamos dar uma conferida no vídeo.

Os personagens masculinos são monstruosos e devem possuir musculos que nenhuma disciplina de anatomia jamais estudou. A testosterona salta nas veias. Já as femininas, ah essas merecem um destaque ainda maior, sobretudo a sorceress. Pausem o vídeo com 52 segundos e entenderão o que estou dizendo. Peitos desproporcionais, que ficam saltando o tempo todo, um quadril imenso e com o cajado posicionado estrategicamente no meio das nádegas, para ser sútil e não falar na forma popular.

Não quero saber sobre a diversão do jogo, seu enredo ou seja láo que for. Parece que ainda temos produtores que nunca viram a luz do dia, que não tem contato algum com a sociedade, sobretudo com mulheres. Esse tipo de personagem monstruoso só me leva a crer que estas pessoas realizam suas fantasias sexuais através dos jogos.

A desculpinha de que se tratam de caricaturas ou que seria apenas uma forma cômica de apresentar o jogo não cola para mim. Fico muito triste com essas coisas e vejo que em determinados aspectos a mídia não evoluiu em nada. Fico mais triste ainda em ver nos comentários a quantidade de pessoas que não se incomodam com isso. Isso reflete bem a nossa sociedade atual, que continua machista, preconceituosa e intolerante.

Espero que exemplos assim sejam cada vez mais escassos e que os jogadores parem de comprar esse tipo de bobagem.

Gustavo Nogueira de Paula

Perguntas frequentes

Algumas semanas atrás fui convidado pelo pessoal do programa curumim do Sesc Campinas para realizar um bate papo com os pais das crianças sobre algumas questões que envolvem educação e tecnologia, principalmente os games. Contarei brevemente como foi esse encontro e aproveitarei também para colocar algumas perguntas que realmente ouço e que normalmente confundem a cabeça daqueles que não entendem muito do assunto.

Não cheguei a preparar uma apresentação daquelas clássicas em formato power point, afinal de contas nossa intenção era tornar aquele encontro o mais “informal” possível, um bate papo mesmo, para que não ficasse com ares de uma aula e para que não intimidasse os pais ali presentes. Como auxílio visual levei apenas algumas imagens e vídeos, que utilizei para ilustrar alguns pontos específicos.

A estrutura toda foi bem simples, cadeiras brancas, projetor, microfone e bastante conversa. A participação dos pais foi muito boa, perguntando e discutindo sem medo, colocando suas dúvidas diante uns dos outros e ouvindo com atenção aquilo que eu tinha para lhes falar.

Durante o bate papo com os pais no Sesc Campinas

 

O conteúdo da conversa girou em torno principalmente dos maiores medos e temores dos pais: violência, vício e conteúdo, além de outras mais. Assim como esses, muitos pais e adultos em geral costumam ter essas mesmas dúvidas e curiosidades sobre os games, então nada melhor do que trazer essas questões aqui no gamecriticas. Apesar de parecerem simples, são muito importantes, pois tiram o sono de muita gente.

  1. Jogar jogos violentos pode influenciar comportamentos negativos nas crianças e/ou nas pessoas em geral?

Não. Sei que já falei sobre isso anteriormente, mas falarei mais um pouco aqui novamente. Acontece que essa afirmação não é baseada em empirismo nem em achismos. Acontece que não há nenhum estudo científico que comprove a relação entre comportamente violento e jogar jogos (violentos). Primeiro que, pelo menos nos padrões científicos da atualidade, não há sequer um meio de isolar um fator desses e comprovar que ele causa ou não esse tipo de malefício em seus jogadores. Tudo aquilo que é propagadao, sobretudo na televisão, de que os jogos são responsáveis por mortes e etc não é apenas mentira e sensacionalismo, mas também uma tremenda falta de caráter das pessoas por propagarem algo falso e espalhar o medo entre os desentendidos.

2.  Quem joga videogame tem desempenho pior na escola?

Não e sim. Essa questão é mais simples do que parece. Alguns estudos mostraram que adolescentes que passavam mais de 8 horas por dia jogando tinham um desempenho pior em suas notas. Isso não chega a assustar, afinal QUALQUER atividade que seja exercida por mais de 8 horas por dia irá afetar o redimento escolar de um jovem. Assim como o videogame, poderia ser treino esportivo, internet, ouvir música etc. Para além disso, não há qualquer relação entre baixo rendimento e jogar videogame, desde que a atividade seja feita de forma saudadevel.

3.   Qual a quantidade ideal de horas para jogar?

Essa resposta é um pouco mais complicada, pois adentra em questões um pouco mais subjetivas, envolvendo aquilo que chamamos de bom senso. Não há um número máximo de horas permitidas para alguém jogar. O importante é balancear o ato de jogar videogame com outras atividades de lazer, tais como praticar esportes, ir a museus e parques, ler, desenhar, escrever etc. Por isso não adianta os pais reclamarem das horas que seus filhos passam na frente da tv, poribir a criança de jogar e em contra partida não apresentar nenhuma outra opção do que fazer. Se seu filho só fica dentro de casa (afinal é periogoso brincar pelas ruas) e não pode chutar bola porque pode acabar quebrando algo, então é melhor rever seus conceitos de onde está o problema, se nos videogames ou no que é oferecido à criança.

4.   Videogame vicía?

É complicado dizer, mas assim como outros tipos de jogos o videogame pode sim viciar. Isso não é muito comum, sobretudo aqui no Brasil, não me lembro de nenhum caso, sendo mais recorrente nos países orientais, como a China e a Coréia do Sul. Acontece que o jogos são feitos de uma forma que estimula o jogador a continuar jogando, oferecendo nos prêmios, boônus, itens etc. Além disso, os jogos hoje em dia são cada vez mais longos, exigindo cada vez mais tempo de jogo. Mas os campeões em termos de “vício” e geração de ansiedade são os Massivos multiplayer online (MMO’s da vida). Esses jogos não tem fim e são arquitetados de forma que para o jogador evoluir ele precisa praticamente de uma jornada de trabalho diaria. Jogadores casuais normalmente não evoluem muito nesses jogos e acabam por desistir. Por outro lado os jogadores dedicados levam seus personagens muito a sério e ficam tensos quando não alcançam seus objetivos. Já vi muita gente “perder” seu final de semana para jogar algum Rpg online, devido a algum evento presente dentro do jogo. Nesses casos cabe aos pais e responsáveis verificar se a jogatina tem sido saudavel e ao sinal de qualquer problema conversar com a criança (ou jovem, adulto…) explicar o que está acontecendo e, novamente, oferecer algum outro tipo de atividade também.

5.     Como faço para participar junto com meu filho enquanto ele joga?

Muitos pais comentaram que não sabem jogar e por isso acabam se afastando dos videogames, mas que gostariam de participar mais de perto disso tudo, mas não sabiam como fazê-lo. Não há receita mágica para isso, mas algumas dicas podem ser valiosas nesse momento. Algo que tende a funcionar muito bem é pedir para que a criança explique e ensine sobre aquilo que joga. Isso não necessariamente significa ensinar a jogar em si, pois se familiarizar com os controles parece um pesadelo para alguns pais e professores. Quando falo sobre ensinar me refiro a estimular a criança a falar sobre o jogo, contar sua história, debater seu enredo, comentar sobre seus personagens favoritos e assim por diante. Sentar ao lado da criança e mostrar que naquele momento ELA é a “detentora” do conhecimento é algo que as deixa muito felizes e faz com que os pais se interem mais sobre o assunto. Não precisa ter medo, chegue para conversar, veja como a coisa acontece, se arrisque nos controles e mesmo que não consiga jogar você pelo menos conhecerá um pouco sobre o passatempo de seu filho.

Conversar, observar e participar: os pais precisam estar presentes nas atividades de seus filhos

6.   Se jogos violentos não tornam as pessoas mais violentas, então meu filho pode jogar qualquer jogo?

Sim e não novamente. Não é pelo fato de que ele não ficará mais violento que ele poderá/deverá jogar qualquer jogo. Vale a pena se inteirar sobre o conteúdo de cada jogo e avaliar as melhores escolhas para crianças de diferentes idades. Talvez um jogo adulto não seja apenas violento, mas pode ser profundo e complicado demais, o que não seria interessante para jogadores muito jovens. Hoje em dia existem varias opções de jogos para todos os publicos e gostos e os pais e educadores tem que pesquisar e verificar qual o mais adequado a cada situação. Mesmo sabendo que alguns jogos são imensamente populares e que as crianças querem joga-los para se sentirem “por dentro” das novidades não podemos nos tornar reféns do mercado e deixar que a moda dite aquilo que entregaremos a nossas crianças. Mais uma vez uma questão subjetiva, portanto complicada de responder, mas vale a pena pesquisar e conhecer minimamente um jogo antes de entrega-lo a uma criança, seja seu filho ou não.

Espero ter respondido satisfatoriamente a essas questões. Caso tenham mais dúvidsa (com certeza elas existem) não deixem de perguntar. Agora meu email está na descrição do blog, uma falha que eu finalmente arrumei.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

Proposta de atividade: o debate

Concluindo o post de ontem, que mostrava o início da atividade com games realizada com as crianças do curumim, hoje apresento de forma resumida o debate que tive com os participantes, tanto no momento em que jogavam quanto após a jogatina. Foi muito interessante, espero que apreciem.

Falando primeiramente sobre os jogos, Gonzalo Frasca[1] produziu um jogo (12 de Setembro) que é na realidade um argumento bastante direto: combater violência com violência não é algo positivo. Trata-se de uma crítica direta ao modelo norte americano de combate ao terror, além de também ser uma crítica direta à maioria dos jogos de videogame existentes hoje no mercado, em que os personagens principais resolvem todos seus problemas e conflitos através de armas, golpes, ou qualquer outro tipo de violência. 12 de setembro tenta subverter a lógica destes jogos, induzindo o jogador a não atirar ou, ainda, a pensar sobre o que acontece na tela, ao invés de apenas sair atirando, sem refletir sobre o que acontece. Chega a causar uma sensação bastante estranha nos jogadores, pois a base de qualquer jogo é a atuação do seu jogador, mas em 12 de setembro, para que a paz se restabeleça (desaparecimento dos terroristas) é necessário que o jogador “não atue”, ou seja, fique parado observando que isso ocorra. Seria como uma charada, ou uma “pegadinha” aos jogadores menos observadores. Mesmo sendo uma mensagem simples, ela se mostrou importante no mundo dos games, sobretudo se utilizado em um contexto escolar, por subverter a lógica presente na maioria dos videogames e por ser uma crítica ao modelo americano de tratar o terrorismo.

Em CoD a situação é praticamente oposta. O jogo trata os soldados americanos como verdadeiros heróis, na busca pelos terroristas mais perigosos do mundo, sejam eles russos, árabes e até mesmo brasileiros (estes últimos somente em CoD 4 Modern Warfare 2). CoD é exuberante e possui uma ação muito convincente e cativante. A história conta sobre um grupo de operações especiais do exército americano atuando em missões de busca e eliminação de inimigos americanos. Se não fosse pelos controles do jogo, pareceria que estaríamos assistindo a um filme de Hollywood, quer pela qualidade gráfica, quer pelo estilo de condução do enredo. Fica fácil compreender quem é aliado e quem é inimigo, quem “defende a liberdade” e quem “defende a violência”. Enquanto experiência de jogo é bastante difícil contra argumentar CoD, a menos que o jogador não goste/ não seja familiarizado com o gênero de tiro em primeira pessoa. Mas a mensagem transmitida é bastante simbólica, praticamente propagandeando as invasões militares e sustentando a idéia de uma guerra limpa e acima de tudo justa. Apesar de na atual atividade os jogadores não terem jogado CoD por inteiro e, consequentemente,  não terem acessado o jogo todo, não parece ser difícil, para pessoas informadas e consideradas boas leitoras, perceberem a visão de mundo que o jogo transmite, sobretudo se comparado a 12 de setembro. Porém, a grande maioria dos jogadores não percebeu logo de cara a mensagem presente em nenhum dos jogos.

Serious games e jogos populares, ambos tem lugar na educação formal?

 

De início, nem todos notaram algumas diferenças entre os jogos (descontando sua parte gráfica, sendo um muito mais “realista” do que o outro), mas alguns logo notaram que no jogo sério tudo era mais difícil, pois havia civis, os mísseis disparados destruíam as casas do vilarejo e, talvez o principal, ao matar inocentes mais e mais terroristas surgiam na cidade. Por outro lado, no jogo popular não havia civis, os disparos não destruíam nenhuma construção e a única forma de perder seria disparando contra seus próprios companheiros de exército, ou contra a igreja, no caso da missão Death from above (que apesar de não ser destruída causava a derrota do jogador).

Foi interessante ver o pequeno desespero que encontraram quando começaram a jogar 12 de setembro. Em pouco tempo começaram a reclamar que não sabiam o que fazer, pois não conseguiam eliminar os terroristas e sequer sabiam qual era seu papel dentro do jogo. Pediram para que eu reiniciasse o jogo e que eu lesse as instruções e assim o fiz, traduzindo o textocontido na tela inicial de 12 de setembro.

Tela inicial do jogo 12 de setembro

 

Recomeçaram a partida e pouco mudou. Continuaram a atirar indistintamente na tentativa de “conseguir alguma coisa”. Diversas hipóteses foram levantas, desde “temos que destruir tudo” até “quando matarmos todas as pessoas não haverá mais como se transformarem em terroristas”, isso tudo enquanto jogavam.

Em CoD reclamaram inicialmente de não conseguirem diferenciar seus aliados de seus inimigos, mas consideraram muito mais fácil poder disparar a vontade e encurralar os terroristas. Podia-se ver em determinados momentos certo prazer em perseguir os fugitivos, disparando com a metralhadora até derrubá-los.

Fechados os jogos, comecei a perguntar as diferenças entre os jogos e apontaram que em um você poderia perder e no outro não e que o fato de atirar nas casas destruia o cenário no jogo sério (que eu não havia dito ser “sério” até aquele momento) enquanto no outro, podia-se fazer praticamente tudo aquilo que eles bem entendessem. Quando questionados sobre as semelhanças, comentaram sobre o ponto de vista aéreo dos disparos e sobre o cenário de ambos os jogos.

Em pouco tempo de conversa começaram a notar que os jogos possuiam discursos bastante distintos e quando lhes questionei qual dos jogos parecia mais próximo de uma guerra real para eles, não hesitaram em responder que era 12 de setembro, pois os civis não iriam simplesmente desaparecer de suas cidades durante a guerra, sendo muito mais provável que andassem entre os terroristas, se misturando, como no jogo. Também apontaram ser impossível que tantos mísseis não causassem dano algum ao cenário e que não existe possibilidade de o exército não errar pelo menos um tiro.

Isso tudo partiu deles, bastou que fossem indagados sobre os jogos e que prestassem bastante atenção em ambos. Assim que uma das crianças começou a falar de forma mais crítica, seus colegas logo começaram a seguir seu raciocínio e coube a mim apenas controlar o debate, pois todos queriam falar (e normalmente todos ao mesmo tempo).

Praticamente todos pediram (e continuam pedindo) para termos mais atividades desse tipo e elas estão no planejamento. Eles pareceram muito surpresos ao encontrarem o computador na sala, conectado a TV e ficaram ainda mais surpresos quando viram que iriam jogar CoD. A aceitação foi imensa e foi bastante tranquilo conduzir toda a atividade. Sinceramente, poucas vezes eu os vi tão concentrados e ajudando tanto uns aos outros. Além de tudo, todos nos divertimos muito com essa sessão de jogo.

A atenção na tela pode ser notada nessa foto, concentração e ajuda mutua

 

Uma forma de ampliar esse tipo de atividade é pedir para que as crianças busquem na internet por notícias e vídeos a respeito, para que também possam comparar o discurso de outras mídias com o discurso apresentado nos jogos. Pode-se inclusive pedir para que criem uma espécie de wiki, ou um blog, em que comentem e apresentem não apenas os jogos, mas as discussões realizadas.

Dentro ainda do cronograma de atividades estão previstos alguns conteúdos, voltados para outras questões que envolvem os videogames, tais como:

 

  • Narrativa;
  • Enredo;
  • Design;
  • Evolução dos jogos ao longo da história;
  • Gênero;
  • Estereótipos culturais

 

O formato apresentado pode não ser o ideal em todos locais e ocasiões, mas pode servir como ideia ou parâmetro para aqueles que pretendem utilizar os jogos como atividade.

Apesar do longo texto, apresentei de forma resumida a discussão e a atividade como um todo. Todos aqueles que quiserem mais informações ou que queiram criticar, discutir etc não deixe de escrever, seja no blog ou diretamente no meu email.

Vamos ampliar nosso horizontes.

Até

OBS: Ontem, o dia com mais acessos do blog, era COINCIDENTEMENTE 12 de Setembro…


[1] Renomado produtor de serious games

Videogame vs Preconceito 2

Continuando a série que debate o preconceito existente para com os games e seus jogadores, hoje temos nosso segundo post, que deve finalizar essa micro sessão.

Cabe lembrar que esse tipo de preconceito não é exclusividade para com o videogame. Assim como ele, o cinema em seu surgimento foi alvo de declarações terríveis sobre o que poderia causar às pessoas, não se mostrando uma arte completa como a literatura ou o teatro, por exemplo (LÉVY, 1999). A própria literatura também é alvo de preconceito quando falamos de gêneros que não sejam ditos clássicos, tal como a literatura marginal, por exemplo (nota-se isso até mesmo pela nomenclatura dada ao gênero), ou quando acontecem inovações que não são bem aceitas de início, etc.

Assim como os games, o cinema, os quadrinhos e várias outras artes já foram e são alvos de preconceito

No caso do videogame, o preconceito acontece principalmente de duas formas: o preconceito contra a própria mídia, considerada inferior, violenta e infantil e o preconceito contra os jogadores, sendo taxados de homens solteiros e no estilo nerd (como já dito anteriormente).Contudo a complexidade de temas abordados dentro dos games, bem como a quantidade de diferentes estilos de jogo impossibilitam afirmar que estes são apenas violentos e sem grandes enredos. Além disso, se acreditarmos no estereótipo de jogador apresentado, então acreditaremos que 75% dos chefes de família nos EUA e que 65% da população entre 6 e 65 anos da Grã-Bretanha (ZAGAL, 2010) são solteiros e com visual nerd.

Outra discussão que se mostra cada vez mais presente no universo dos videogames é a que questiona se estes são uma forma de arte ou não. A diversidade de pensamentos atinge até mesmo os próprios produtores de jogos, sendo que alguns consideram tratar-se de uma forma de arte complexa e bem estabelecida, outros dizem ser apenas uma forma de serviço prestado, enquanto outros apenas que é melhor parar de discutir e produzir melhores jogos. Algo muito comum é que as pessoas que não consideram os jogos como uma forma de arte (os críticos que se manifestam dessa maneira principalmente) normalmente não jogaram os referidos jogos dos quais comentam. Seria como um crítico de cinema que fizesse seu comentário baseado no trailer ou na sinopse do filme.

É assim que muitas pessoas descrevem os jogadores de videogame

Parece que os jogadores e produtores de videogames precisassem implorar para serem levados a sério, como mídia adulta e madura. Alex Evans, diretor de tecnologia do jogo Litle Big Planet, jogo com pretensões artística bastante evidentes e com ferramentas de edição de estágios bastante criativa comentou durante entrevista à IGN[1]

É como se você precisasse pedir desculpas por trabalhar em jogos quando conhece estranhos em festas

Poucos levam em conta o que os jogadores pensam e o que sentiram enquanto jogavam games considerados como artísticos, tais como Bioshock, ou Flower, por exemplo. Posso até mesmo relatar que jogar Bioshock chegou a ser surpreendente devido à minúcia de detalhes durante a recriação do ambiente da década de 1960. A riqueza era tão grande que me fazia sentir como tivesse viajado no tempo, ouvindo as músicas da época, observando a arte da época e até mesmo assistindo a propagandas da época. Ainda assim, parece que para os jogos de videogame serem considerados como arte haverá longa caminhada.

Poderia talvez ocupar páginas mostrando os pensamentos preconceituosos existentes sobre o videogame. Alguns mais bizarros e outros mais comuns, como os citados. Grosso modo, a maior parte se enquadraria no já citado. O que se pretende ressaltar aqui é que não podemos mais continuar tratando esses jogos apenas como brincadeiras para criança, como jogos “somente” violentos e jogados por solteirões estereotipados. Devemos despir a academia desses pensamentos e tratar os jogos eletrônicos como objeto complexo de estudo e pesquisa, pois este tem se mostrado um meio pelo qual e para o qual muito pode ser feito.

Espera-se assim que esse blog contribua na desmistificação desse pensamento, que não contribui em nada para o crescimento do ramo. Chega de dizer que videogame isola as pessoas, que videogame mata etc. Ao invés disso, vamos arregassar as mangas e mostrar o potencial que os jogos e seus jogadores possuem, pois também não adianta sentar e chorar, reclamando como um adolescente que ninguém nos compreende.
E então, vamos a luta?


[1] International Games Network