Nós diremos quantas vezes forem necessárias: JOGOS NÃO MATAM

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É impressionante como determinadas coisas parecem não mudar. Quando comecei a estudar jogos de videogame, lá nos idos anos de 2006 (minha nossa, já se vão 10 anos), uma das primeiras coisas que precisei fazer foi tentar quebrar o preconceito em relação aos games. Não matam, não fazem matar, não derretem o cérebro, não isolam etc etc. Mas não adianta, a cada tragédia acontecida no Brasil ou no exterior, a grande mídia aproveita para fazer seu show de horrores sensacionalista a respeito do caso.

No mais recente, após a trágica morte de um garoto de 13 anos em São Vicente – SP, que se enforcou após perder uma aposta para amigos, um culpado já foi logo encontrado: League of Legends, o popular jogo online. Impossível medir a dor que estes pais e  familiares estão passando, bem como é impossível imaginar como estes adolescentes irão lidar para o resto das suas vidas com a imagem mental da morte do amigo diante de seus olhos. Um momento que exige toda uma reflexão sobre a vida de nossas crianças e adolescentes, sobre os espaços de lazer que possuem, sobre a criticidade que possuem em relação a conteúdos online, sobre aceitação de grupo, sobre bullying. Mas não, mais fácil relacionarmos tudo isso a um jogo, culpabilizá-lo e manter as coisas como estão.

Computadores e videogames não devem ficar isolados e trancafiados num quarto, afinal, um jogo seria dos melhores conteúdos que um jovem poderia ter acesso nesse caso. Aparelhos assim precisam ficar na sala, ou pelo menos o quarto precisa estar de porta aberta, de forma que os pais possam ver o que se passa no PC. Todos gostamos de privacidade, mas sinto dizer: adolescente dentro de casa não pode ter 100% de privacidade não, precisa é de atenção dos responsáveis. Rede social é coisa para maior de idade. Vai permitir que a criança/adolescente tenha acesso ao Facebook? Ok, tenha a senha também, acompanhe as conversas etc. Parece chato não é? Então, ser responsável às vezes é chato mesmo, talvez tenha faltado avisar.

E um adendo: Quem acha que os videogames podem ser perigosos deveriam justamente lutar para que eles adentrem a escola, pois quanto mais o conhecermos, mais confiantes ficaremos.

O texto de hoje é curto, em respeito a Gustavo Riveiros Detter, seus amigos e familiares. Apenas um lembrete de que, mesmo após 10 anos, vamos continuar combatendo os preconceitos relacionados aos jogos de videogame.


Gustavo Nogueira de Paula

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O inferno são os outros

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Meu consumo é mais inteligente, meus gostos são melhores, sou mais bem informado, sou mais inteligente, frequento lugares melhores e assim por diante. Se você age e pensa como eu, ótimo, você também tem bom gosto e está correto. Agora, caso pense diferente de mim, sinto lhe informar, mas é uma pessoa de pouca classe.

Se não frequenta lugares finos, caros etc. lamento, mas não tem classe alguma. Toma cerveja destas comuns? Então serei obrigado a lhe dizer que tem um tremendo mal gosto e faz parte da massa, do povão. Compra suas roupas no Brasil e passa as férias por aqui mesmo? – Quanta pobreza de espírito. Votou no Lula e come mortadela? – Seu petralha nojento.


O texto acima é absurdo e pode parecer exagerado, mas infelizmente não é. Estamos vivendo um tempo em que as coisas são cada vez mais 8 ou 80, sobretudo no império do consumo (que vale também para o consumo de ideias, estilos e valores). Com o acirramento das disputas políticas, muitas práticas, pensamentos e estereótipos tem sido associados aos “dois lados”, cada qual sofrendo suas consequencias, gerando inclusive vários casos de violência física e verbal. Mas esta pressão de consumo e diferenciação através dos gostos e escolhas também tem atingido os games de maneira contundente.

De tempos pra cá, admitir ser consumidor de jogos AAA pode parecer uma confissão de ignorância e mal gosto. Não ter instalado no celular ou no computador os grandes indies da moda pode pegar muito mal em feiras de tecnologia ou em eventos acadêmicos. Sequer conhecer estes jogos então é praticamente uma sentença de morte.

Grosso modo, esse gamesnobes geram mais aversão do que conquistam fãs, devido a uma postura extremamente elitista, que parte tanto de pesquisadores como de jogadores mais “envolvidos” com o meio, vamos assim dizer. Não basta falar sobre os jogos dos quais se gosta, mas parece haver a necessidade de ridicularizar o gosto alheio, sobretudo se tratar-se de um jogo mais popular.

A comunidade gamer tem protagonizado cada vez mais cenas de extremismo e preconceito (que sempre estiveram lá, mas não eram escancaradas pela internet). O exemplo dos gamesnobes é apenas um deles. São notícias quase diárias de comportamentos infantis e deploráveis. Ainda hoje li que a comunidade de jogadores inundou o canal do Steam com reclamações a respeito do personagem transexual presente na expansão de Baldur’s Gate.

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Pior do que isso é ver um brasileiro defender o personagem e ser chamado de gay enrustido, esquerda fdp e petralha. Da para perceber bem o nível de argumentação dos agressores. Acho que os indies brasileiros vão até pensar duas vezes antes de criar um personagem que use roupa vermelha hoje em dia.

É fundamental que os demais jogadores sejam duros com esse tipo de comportamento, reportando e denunciando. E se você conhece todos os indies do mundo e não joga mais nenhum AAA, seja legal, apresente estes jogos a seus amigos e lembre-se que foi através dos jogos mais populares que você conheceu os videogames.

Gustavo Nogueira de Paula

 

Jogo bom, jogo ruim e o jogo que eu gosto

Recentemente ocorreu mais uma entrega do Oscar aos melhores do cinema. Passando por filmes mais ou menos ousados, mais ou menos inovadores, mais ou menos criativos, o prêmio pode não ser unanimidade no meio cinematográfico, mas tem grande peso e valor, principalmente para o público geral. Passa muita credibilidade ir ao cinema assistir algum vencedor do Oscar, ou possuir em casa uma estante repleta de títulos vencedores em diferentes épocas. Isso denota bom gosto e também aquele sentimento “cult” bacana de mostrar às visitas.

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Mas nada na vida poderia ser tão fácil assim, senão não haveria graça. Acontece que as vezes o filme é vencedor de Oscar, de Globo de Ouro, de prêmio da crítica… mas a gente não gosta. Seja por achar chato, feio, estranho, tema que não seja de interesse, ator/atriz que não gostamos, país, enfim, não faltam motivos para que não gostemos de algo que seja cultuado ou premiado. Não haveria problema, desde que o exército de defesa do Cult sem ser xarope (algo como o sexy sem ser vulgar) não tentasse enfiar goela abaixo em você que aquilo é arte e você precisa gostar daquilo.

Com os jogos acontece a mesma coisa, apesar de ser de forma ainda um pouco mais tímida. Não estou dizendo que os jogos premiados são chatos, nem nada disso. Acontece apenas que em alguns casos preferimos jogos mais simples, ou até mesmo piores, por assim dizer.

Tempos atrás eu descobri Dark souls. Fiquei impressionado com o jogo e gostei bastante, tanto da mecânica, da dificuldade, do multiplayer e principalmente dos cenários e inimigos deslumbrantes. Apesar de apontar alguns defeitos estranhos, Dark Souls conseguiu me cativar. Dessa forma, logo que Dark Souls 2 foi lançado eu fiquei bastante empolgado e, no natal passado, resolvi me presentear com o jogo e suas expansões. Ainda não terminei as expansões, mas apesar de jogar bastante, Dark Souls 2 não conseguiu me cativar como seu antecessor.

Falar que o jogo é ruim seria pegar pesado demais, mas parece mais do mesmo. Itens iguais ou semelhantes, mesma forma de atuar, mesma engenharia, história que não é história. Resumo da ópera: parece um jogo que já joguei. Se não fosse pelo multiplayer eu talvez nem jogasse tanto assim.

Isso faz o jogo ruim? Não! Porém, nitidamente fui mais impactado e me interessei mais pelo primeiro do que pelo segundo Dark souls, por motivos pessoais bastante evidentes.

Apesar de defender e lutar por jogos melhores e mais elaborados, entendo que as pessoas tem a liberdade de  gostarem daquilo que bem entenderem, sabendo que isso pode variar em cada etapa da vida. Principalmente se levarmos em conta que um jogo pode ser considerado bom sob vários aspectos, desde os mais estéticos até os mais culturais ou técnicos.maxresdefault

Então, da próxima vez que estiver conversando sobre algum jogo premiado que você não tenha gostado, não fique constrangido em dizer a verdade, sem medo das retaliações. Além disso, caso esteja na fila do cinema e prefira ver o filme do Bob Esponja ao invés daquele cult idolatrado por madames e caras que usam xadrez e barba (como eu), não tenha receio, só cuidado para não ser confundido com algum pedófilo.

Gustavo Nogueira de Paula

O voto acima de tudo

É tempo de eleição. Deputado, governador, presidente e senador, todos querem seu voto. O seu e o de todo mundo. Pra conseguirem isso os candidatos são capazes das mais variadas estratégias, sejam elas bizarras, mentirosas, incoerentes ou simplesmente agressivas. Nesse meio do caminho entre o eleitorado e o candidato estão diversos meios, panfletos, discursos, TV, rádio, videogame e a internet, sendo que esses dois últimos são os filhos mais novos a entrarem nessa roda.

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Contudo, estamos em um país com uma Educação que deixa muito a desejar, sendo que não me refiro apenas a diplomas escolares/universitários, pois me refiro também a ignorância política e social. Dessa forma, a internet e os meios digitais se tornaram em muitos os casos o centro das atenções e disseminadores das coisas mais absurdas possíveis.

Até aí nada de novo, pois a internet sempre foi palco para os mais bizarros shows de horrores e, não sei isso pode soar como empirismo demais de minha parte, mas parece que nunca vi tanta gente acreditando em “notícias” e “pesquisas” das mais falsas e preconceituosas que já vi. De foto montagens a falsas declarações, o facebook, Twitter e qualquer rede social se tornaram uma verdadeira aula de disseminação de fofocas e bobagens.

Como se não fosse só isso, o que não falta é candidato metido a descolado, representando uma tal “juventude que clama por mudança”, falando em diminuir impostos para jogos e blá blá blá. Não sei o que me dói mais, se alguém acreditar nisso ou votar por achar isso algo tão vital assim a ponto de doar seu voto a tal candidato.

Coisa séria é difícil de encontrar e as vezes um candidato pode fazer muito mais para os jogos através de incentivos culturais, bolsas de pesquisa, estágios no exterior (Ciência sem fronteiras? vi bastante gente indo estudar jogos lá fora), do que com essas promessas de baixar preço de jogos feito para garotos mimados que acham que “o governo” é muito maldoso com ele que não pode comprar o Call of Duty novo dia do lançamento.

Enquanto isso prefiro ficar com o exemplo do Flappy no duto, paródia do jogo Flappy bird (ou paródia do caso do Propinoduto) em que o jogador tem que guiar seu lindo tucano por entre os túneis do metrô. Uma pena que a maioria dos jovens produtores normalmente não estão muito ligados a causas políticas e acabam reproduzindo os mesmos jogos de sempre com carinhas e botões novos. Mas em tempo de eleição não custa nada lembrar desse belo exemplo de como os games podem ser bem expressivos e, acima de tudo, críticos.

Flappynoduto
Flappynoduto

 

Nada contra um candidato falar de jogos, falar que joga ou qualquer coisa que o valha, mas normalmente isso é só uma forma rasa de se aproximar dos jovens, que tradicionalmente não se interessam por muita coisa (no caso da política, não só os jovens, mas a população como um todo). Como exemplo posso citar esse texto do Estadão como algo bem coxinha a respeito da junção entre games e política.

Quando o assunto é eleição ainda prefiro o esquema a moda antiga: Debates de verdade, propostas coerentes, de preferência voltadas a Educação e ao Social e honestidade. Esse papinho moderninho não me atrai muito. Se for pra aproximar os jovens de verdade da política não tenho nada contra, se for pra ganhar votos, lamento muito. E se for para os jogos entrarem de verdade nesse meio, que seja cada vez mais com exemplos como esse do Flappynoduto.

Gustavo Nogueira de Paula

OBS: Assumo aqui minha veia política e já adianto que sou contra o PSDB e afins

OBS 2: Uma pena que não consegui conferir o jogo do Tucaninho pra dar umas boas risadas e colocar aqui no post tb

Brasil x Canadá

Não, não se trata de mais um jogo da Copa, nem de nenhuma disputa em alguma modalidade esportiva. Trata-se apenas de um relato comparativo entre a situação que pude ver a respeito dos GameStudies no Canadá um mês atrás quando participei do Congress of the humanities and social sciences, que ocorreu na Brock University. Dentro do congresso eu participei da conferência da Canadian Game Studies Association e pude ver alguns trabalhos, apresentar o meu e conversar um pouco com algumas pessoas. Além da participação no congresso na região de Niagara, pude também visitar Ny e ter a oportunidade de visitar o MoMa, onde vi de perto os jogos de videogame expostos, num dos museus mais conhecidos do mundo.

Brasil x Canadá
Brasil x Canadá

 

Seria perda de tempo, por motivos óbvios, ficar comparando o Brasil ao Canadá sob aspectos sociais e/ou culturais. Ainda somos um país com uma concentração de renda altíssima, número expressivo de analfabetos, violência fome etc. Certamente que no Canadá não temos 100% da população milionário e/ou feliz, mas de certo modo da pra ver realmente que trata-se de um país organizado, limpo e, nas regiões que visitei, muito bonito e simpático (pelo menos aos turistas). Recomendo veementemente a todos que um dia façam uma visita a região de Niagara e conheçam as belezas naturais da região.

Porém, não vim aqui para exaltar essas exuberâncias canadenses, mas sim apresentar minhas impressões através do que vi e ouvi na conferência da CGSA. Não por desleixo, mas por dificuldade de cadastro e transporte, cheguei 5 minutos atrasado ao início das apresentações de trabalho e a organização já havia dado início, pontualmente. Com isso, minha apresentação, que era a segunda, passou a ser a terceira. Sem problemas quanto a isso. Com todo nervosismo de quem nunca havia apresentado um trabalho fora do país, realizei minha fala, que, a menos que as pessoas sejam muito falsas, foi bastante bem recebida, até mesmo elogiada. Respondi perguntas no final e pouco tempo depois estava aliviado de ter cumprido com minha obrigação.

Nesse momento já tive minha primeira percepção (que na verdade nunca havia duvidado): nós fazemos bons trabalhos e pesquisas no Brasil. Pude ver que meu trabalho não devia em nada para os trabalhos das grandes universidades canadenses ou da Europa. Isso trouxe um sentimento de orgulho e confiança, importante para poder interagir mais com as pessoas na língua estrangeira.

Destaco agora alguns diálogos que impressionaram e colocaram várias dúvidas em minha mente. A começar pela impressionante declaração de uma inglesa, quando respondi a ela que eu ainda não estava no PhD por não encontrar tempo entre meu trabalho e a leitura de artigos e produção de projetos. Ela foi clara e direta: “pelo menos você tem um emprego”. Para mim isso soou bastante forte, vindo de uma estudante de doutorado de uma boa universidade europeia.

Esse foi o primeiro choque. Mais tarde, conversando com alguns estudantes, descobri que eles estavam quase todos hospedados em algo que seria como um alojamento universitário, que disseram ser “depressive”, com vários insetos e um aspecto não muito convidativo. Nada muito diferente das moradias universitárias brasileiras.

E como destaque final a respeito disso, algo que achei ainda mais chocante. Durante a palestra de uma conhecida  pesquisadora em GameStudies, Jennifer Whitson, ouvi frases que pareciam ter vindo direto da boca de algum burocrata brasileiro. Jen mencionou o preconceito e a dificuldade de pesquisadores de games e produtores de jogos independentes. Que, lá no Canadá, país com grandes estúdios produtores de jogos, não é nada incomum ouvir coisas como “não precisa de dinheiro porque trabalham por amor”, “não precisam de dinheiro porque fazem jogos indies sem se preocuparem com dinheiro”, “que pesquisar videogames é algo divertido, então as pessoas não ligam para salário” entre outras. Lembrou-me o Alkmin dizendo que professores dão aula por amor.

Para quem acredita que somente aqui os estudantes e pesquisadores enfrentam dificuldades, lamento dizer que não somos exclusividade, pelo menos em determinadas áreas. Isso porque nem mencionei que essas pós graduações são pagas, caras e, quando alguém consegue bolsa, ela vem junto com trabalho e o valor é mínimo.

Não estou fazendo propaganda negativa, muito pelo contrário. Vi pessoas e lugares brilhantes, mas nem tudo é só festa ou alegria. Também há dificuldades, preconceito com o tema e muita gente reclamando do frio (ou todo mundo acha que só o Brasil tem problemas?).

A experiência foi incrível e digo novamente, recomendo a experiência de visitar o Canadá, bem como recomendo aos pesquisadores que participem de congressos no exterior. Talvez assim as pessoas voltem valorizando um pouco o que temos aqui e quem sabe até compreendam os motivos das estaduais e federais estarem “sempre” em greve, na defesa por universidades públicas gratuitas e de qualidade.

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Regards!

A autoria dos jogos

Se eu perguntar agora, sem pesquisar na internet, quantos produtores/diretores de jogos você conhece? Sid Meier, Shygero Miyamoto, Hideo Kojima, John Carmack, Ken Levine… Pensando mais um pouco provavelmente me lembraria de outros, mas não aumentaria tanto assim a lista.

Doom1

Agora mude a pergunta e tente se lembrar das empresas que produziram cada um dos seus jogos favoritos. Com certeza dá para se lembrar de todas, afinal seus nomes aparecem no início e no final dos jogos (até em outros momentos). Excetuando os créditos finais, que na maioria das vezes passa batido (em alguns casos da até pra pular), o jogador não tem ideia de quem fez cada jogo.

Cheguei a esse tópico após reler alguns artigos e textos acadêmicos sobre videogames, incluindo aqui minha própria dissertação. Na citação dos jogos aparece apenas o nome da empresa e o ano em que foi produzido. Por exemplo

 

IdSoftware, DOOM, 1993

 

A propriedade intelectual é toda de quem bancou o jogo e não das mentes criativa por trás dele. É óbvio que seria impossível colocar o nome de todos os envolvidos durante a produção, mas não há sequer um líder, um diretor ou algo assim.

Há até certa melhora com a divulgação de informação facilitada através da internet e também devido as produções independentes de jogos, mas não deixa de ser estranho não ter ideia de quem está por trás de cada trama, de cada novidade, de cada conceito naquilo que jogamos. Seria como citar um livro pela editora e não pelo autor.

Quando citamos um filme o nome do diretor (ou diretores) está lá constando, mas esse não é o caso dos jogos. Não sei bem o porque disso, mas associo a falta de credibilidade que os jogos ainda possuem, sendo visto mais como produtos do que como arte, história ou qualquer outra coisa nesse sentido. Pode até parecer um detalhe pequeno ou um preciosismo exagerado, mas não vejo dessa forma. Creio ser fundamental que num futuro próximo os créditos de cada jogo sejam dados a quem concebeu a ideia e a executou e não apenas a seus mecenas.

Imagine num futuro não muito distante, um pai ou uma mãe indo com os filhos até um museu e dando de cara com um Nintendo. A criança pergunta quem fez aquele personagem, o pai lê na plaqueta ao lado “Mario – Nintendo”. Um pouco deprimente e também depreciativo. Sou a favor de um movimento que valorize a autoria nos jogos, de forma mais clara e justa.

Gustavo Nogueira de Paula

O que os filhos devem jogar?

Volta e meia algumas situações se repetem quando nosso assunto são jogos de videogame. Lançamentos, novos consoles, arrecadações milionárias e, como não poderia ser diferente, o famigerado papo sobre violência, que trago a tona mais uma vez, como sempre um pouco a contra gosto, mas dessa vez com um tom diferente.

Existem duas perguntas que praticamente já fazem parte do meu dia dia, seja lá onde eu for e com quem eu converso. Se digo que estudo/escrevo sobre videogames essas questões provocativas sempre vem à tona, normalmente uma na sequencia da outra. Em muitos casos (talvez na maioria) elas não são deita de forma pejorativa, mas por desconhecimento ou curiosidade mesmo.

Em meu trabalho diário com as crianças não é difícil lidar com situações desagradáveis, como brigas, ofensas e todo e qualquer tipo de conflito. Normal, afinal se tratam de crianças, que estão justamente aprendendo sobre a vida e sobre o mundo que as cerca. Na esmagadora maioria dos casos uma boa conversa resolve as situações e logo os envolvidos voltam a brincar alegremente. Porém, acontece de algumas vezes a situação se repetir, ou tomar ares mais graves e uma de nossas ações enquanto educadores é alertar aos pais/responsáveis sobre o ocorrido, convidando-os para conversar conosco em nossa sala. Quando o problema foi uma briga ou um caso de bullying, a pergunta já vem de forma quase ensaiada “Será que isso não é por causa dos joguinhos que ele tem? Eu já proibi todos jogos de guerra, zumbi…”

Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo
Os jogos não batem nas crianças, já determinadas pessoas não podemos dizer o mesmo

Não vou culpar os pais, normalmente desinformados, por se preocuparem com seus filhos e me perguntarem algo desse tipo, mas parece ser tão mais fácil culpar um jogo eletrônico (que não pode se defender das acusações) do que treinar um olhar mais amplo sobre a educação das crianças.

Daí surge a segunda questão “Mas você deixaria seu filho jogar todos esses jogos?”. A resposta é, claro que não. Em nenhum momento eu disse ou digo que todo e qualquer jogo pode ser jogado por qualquer um. Os enredos e as ações normalmente são adultos e exigem maturidade, sobretudo para que sejam melhor aproveitados. Uma criança jogaria Bioshock Infinite apenas com um “joguinho” de tiro e perderia a grandiosidade do enredo e do cenário do jogo, que aborda conflitos interessantíssimos. Alguém vai sair por aí matando empresários ou se jogando em cabos de aço após ter jogado Infinite? Provavelmente não, mas de que adianta jogar uma obra prima dessas sem aproveitar o que ela tem de melhor?

Isso sem contar a gama variada de jogos voltados para crianças e jovens, que com certeza fazem/fariam sucesso se fossem levados para dentro de casa. Mas talvez seja muito exigir que o atarefado pai, que trabalha 40h por semana (ou mais), arruma a casa, cozinha etc ainda se informe sobre jogos etc. Ou será que não?

O belíssimo Bioshock Infinite
O belíssimo Bioshock Infinite

Deve-se compreender que alguns conteúdos apresentam mais do que a simples violência física, tão temida, mas também situações psicologicamente estressantes, que podem sim tirar um pouco do sono dos mais novos e até mesmo elevar a tensão a níveis que os pequenos ainda não sabem lidar muito bem. Isso claro, desde que joguem sozinhos e/ou sem orientação. Novamente aqui um puxão na orelha dos pais, educadores etc.

Sobre isso, vale a pena ler a sensível entrevista publicada pela Kotaku sobre um vendedor que diz ter vendido cópias demais de GTA V para crianças.

Ainda continuo achando que essas perguntas não irão diminuir num espaço curto de tempo, mas espero que cada um que ouça a resposta seja um multiplicador e leve a mensagem adiante. Não temam os jogos, apenas façam com que eles não sejam o único responsável pela educação e vida social das pessoas.

Gustavo Nogueira de Paula

Jogos para crianças

Que os jogos de videogame muitas vezes são tidos como “para crianças” todo mundo já sabe. Mas o que isso representa e quais jogos as crianças realmente jogam? Essas duas perguntas irão pautar esse post, que talvez surpreenda alguns.

O que define um jogo como "para crianças"?
O que define um jogo como “para crianças”?

Dizer que um jogo de videogame é para crianças é, em primeiro lugar, um erro bastante grave, visto que a idade média de seus jogadores é superior a 25 anos. Em alguns países maior ate do que 30 anos. Se levarmos em conta a idade média de quem compra os jogos então essa média pode ser ainda mais elevada.

Além disso, isso é dito numa tentativa fracassada de diminuir algo. O adjetivo “para criança” remete a algo simples, ingênuo, bobo e até mesmo ruim (para um adulto). Tal afirmação é carregada de preconceito, basta olharmos para a importância dos jogos no desenvolvimento de qualquer indivíduo, são inúmeras pesquisas relacionadas a isso. Temos também a literatura infantil, por exemplo, que não se torna pior pelo fato de ser destinada a crianças. E não me refiro apenas a Harry Potter ou a Turma da Mônica, mas a toda uma gama variadíssima de livros, livretos e revistas voltadas ao público mais jovem, mas sem perder sua qualidade, contando também com áreas acadêmicas específicas para pesquisá-las.

Agora um fato curioso (que inclusive me fez pensar aqui na possibilidade de realizar uma pesquisa mais profunda a respeito), nós realmente sabemos o que as crianças estão a jogar atualmente?

Acredito que a essa altura todos saibam que trabalho com crianças, em um programa de educação não formal. Durante o dia de trabalho é bastante comum conversar com as crianças sobre os mais variados assuntos. Como eles sabem que gosto de videogames eu acabei virando uma referência para eles nesse assunto. De walking dead a Team Fortress 2 eles adoram contar suas proezas e novidades.

Até aí nada de novidade, mas um fato me chamou a atenção: a maioria esmagadora dos meninos tem como jogo favorito (ou pelo menos um dos grandes favoritos) Call of Duty, sendo o mais novo sempre o mais jogado. Eles sempre vem me contar que jogaram Black Ops 2 com grande empolgação. Eu mesmo nunca joguei, nem pretendo jogar num horizonte próximo, mas eles adoram. Pra quem não sabe CoD é um jogo de guerra, bem aos moldes americanos, sendo muitas vezes o terror dos pais e educadores e a diversão do pessoal do exército.

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Antes de ser criticado eu sei que se trata de um empirismo nada estruturado, mas sim de apenas algumas conversas com as crianças, mas isso não deixa de chamar minha atenção. Não sei exatamente o que pensam ou entendem sobre esse jogo (Call of duty em geral, sem nenhum episódio em específico) e, associando o início desse post, o quanto CoD é realmente simples de compreender (em termos ludológicos) visto que crianças bem novas conseguem jogá-lo sem dificuldade.

Seria CoD um jogo para crianças? Os produtores pensam nesse público quando estão criando o jogo? Afinal, o que é um jogo para crianças?

Atualmente não sei responder essas questões, mas esse é um blog questionador e não apenas “respondedor”. Pense bem antes de disparar que um jogo de videogame é feito apenas para crianças, pois isso pode esconder muito mais do que você imagina.

Gustavo Nogueira de Paula

Nos bastidores da Tv

Finalmente saiu no youtube a primeira parte do programa Educação Brasileira, da UNIVESP TV, em que participei algum tempo atrás. Em clima de felicidade com a divulgação do meu trabalho eu vou falar um pouco de como foi essa experiência e comentar um pouco sobre o que falei durante a gravação. A segunda parte misteriosamente ainda não está disponível, mas assim que ela estiver eu atualizarei o post para acrescentá-la aqui.

A Univesp Tv, segundo eles mesmos

A Univesp TV é o canal de comunicação da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a quarta universidade pública paulista e visa ao incentivo à formação integral do cidadão. Nosso objetivo principal é apoiar o aprendizado dos alunos de cursos da Univesp, através de programas específicos e também de interesse geral.

Os estúdios de gravação ficam dentro da fundação Padre Anchieta, ou popularmente Tv Cultura. Diga-se de passagem a estrutura da fundação Padre Anchieta é bem grande, contando com muito espaço e bom equipamento. Foi uma sensação muito agradável caminhar ao lado de onde são gravados o Jornal da Cultura, Cocóricó, entre outros.

Após falar com o diretor do programa Tiago de Araujo Silva, que me recebeu muito bem nas intalações do canal, fomos para a produção. Lá fomos maquiados e preparados para a gravação (no mínimo engraçada essa coisa de ser maquiado etc).

Junto comigo estava Rebeca Otero, da Unesco Brasil e fomos entrevistados por Ederson Granetto, outra figura muito simpática e nitidamente muito capaz.

Sempre rola uma pequena tensão antes de começar o programa, mas eu estava bastante tranquilo no dia. A Rebeca estava um pouquinho mais nervosa, com as mãos mais agitadas, mas também foi bem e conseguiu expor bem o seu ponto.

Logo em mniha primeira pergunta o Ederson, na boa intenção, fez uma pergunta que já está quase se tornando um clássico, sobre a utilização de “qualquer” jogo em sala de aula, focando na questão dos jogos de tiro etc. Obviamente que nenhum professor vai usar qualquer jogo a qualquer hora e em qualquer aula, mas isso depende mais dos objetivos do professor do que jogo propriamente dito. Por que não explorar as questões da guerra? As mortes de inocentes? Geografia? etc… gostei dessa minha resposta, apesar de ser chato falar de mim mesmo.

Uma diferença que existia entre o que a Receba dizia e o que eu dizia se referia a relação dos objetos tecnológicos com os conteúdos escolares, pois acredito que num futuro não muito distante os próprios jogos serão “o” conteúdo escolar, sendo estudados e aprofundados, enquanto ela apresentava os celulares e tablets como ferramentas, a serviço do professor/aluno.

O que da pra perceber é que ao mesmo tempo que há urgência em inserir essa tecnologia em sala de aula ainda há muito despreparo e receio em relação a esses objetos. A grande satisfação de participar de um programa desses é crer que ele pode ajudar aqueles que buscam por uma educação de qualidade em nosso país.

No decorrer do programa outras questões foram levantadas, mas trinta minutos passaram voando e isso apenas me convence do quanto ainda tempos por fazer. Jogos em sala de ula é um tema que precisa ser mais pesquisado e isso é um convite para os jovens universitários. As lacunas ainda são imensas e diversas são áreas possíveis de atuação.

Seja com jogos de realidade aumentada, jogos de celular, tablet, computador ou videogame, seja online ou sozinho, seja como tarefa de casa ou em grupo na escola, seja violento ou seja fofinho, não podemos mais negar que a tecnologia veio para ficar e que precisamos aprender o máximo sobre ela para “invertermos” essa situação, não sendo apenas dominados, mas também agentes dessa transformação.

Foi um prazer ter participado do programa e que no futuro surjam mais oportunidades.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

Game designer’s que nunca viram a luz do dia

Fiquei uma semana sem postar, estava viajando a trabalho e também para particpar de um programa de entrevistas na Univesp Tv, que logo deve ir ao ar. Falarei mais sobre essa entrevista quando o vídeo dela estiver disponível no youtube.

Porém hoje eu volto com um post curto, no estilo revolta. Eu sempre falo que hoje em dia o público jogador de videogame mudou muito, com cada vez mais mulheres, idosos, jogadores casuais etc. Recentemente falei sobre Lara Croft e sua evolução. Estudo os jogos enquanto ferramenta educacional, alardeio sobre sua capacidade narrativa.

Nesse meio tempo eu ouço uma piadinha ou outra e dos mais céticos eu sempre sou confrontado através de jogos com visuais e/ou enredos apelativos. E foi dessa forma que nessa semana eu conheci Dragons Crown. E que tristeza me deu ao ver aquilo.

O título da matéria da Kotaku americana para mim foi perfeito “Parem de contratar game designer’s de 16 anos para fazer jogos”, pois é exatamente isso que parece. Personagens forçados existem aos montes em diversos jogos por aí, mas nesse caso em especial o pessoal caprichou. Primeiro vamos dar uma conferida no vídeo.

Os personagens masculinos são monstruosos e devem possuir musculos que nenhuma disciplina de anatomia jamais estudou. A testosterona salta nas veias. Já as femininas, ah essas merecem um destaque ainda maior, sobretudo a sorceress. Pausem o vídeo com 52 segundos e entenderão o que estou dizendo. Peitos desproporcionais, que ficam saltando o tempo todo, um quadril imenso e com o cajado posicionado estrategicamente no meio das nádegas, para ser sútil e não falar na forma popular.

Não quero saber sobre a diversão do jogo, seu enredo ou seja láo que for. Parece que ainda temos produtores que nunca viram a luz do dia, que não tem contato algum com a sociedade, sobretudo com mulheres. Esse tipo de personagem monstruoso só me leva a crer que estas pessoas realizam suas fantasias sexuais através dos jogos.

A desculpinha de que se tratam de caricaturas ou que seria apenas uma forma cômica de apresentar o jogo não cola para mim. Fico muito triste com essas coisas e vejo que em determinados aspectos a mídia não evoluiu em nada. Fico mais triste ainda em ver nos comentários a quantidade de pessoas que não se incomodam com isso. Isso reflete bem a nossa sociedade atual, que continua machista, preconceituosa e intolerante.

Espero que exemplos assim sejam cada vez mais escassos e que os jogadores parem de comprar esse tipo de bobagem.

Gustavo Nogueira de Paula