Videogame é cultura?

Apesar de estar um pouco atrasado resolvi tratar de uma polêmica surgida recentemente, quando a ministra Marta Suplicy afirmou que os jogos de videogame não são cultura. Parte ignorância, parte má vontade de entender essa mídia, mas seja o que for a ministra deu uma grande bola fora e atraiu a ira dos pesquisadores da área, inclusive a minha.

Os games serão beneficiados?
Os games serão beneficiados?

Vasculhando nas minhas coisas encontrei um texto meu que trata exatamente disso, publicado no SBGames de 2009. Trago aqui alguns trechos na integra para mostrar a nossa companheira que ela precisa ampliar um pouco mais seus horizontes.

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Antes de começar a falar especificamente sobre o jogo digital, cabe aqui pensarmos em uma questão que já existia antes mesmo de sua grande propagação: a globalização e os eventuais efeitos causados nas mais diversas culturas onde este fenômeno é analisado.

Falar de Cultura não é algo simples, pois se trata de um complexo objeto de estudo. Não podemos fazer simplificações e análises levianas sobre modos de vida, pensamentos, ações valores e signos. Pensar em Cultura implica pensar no que diferencia os homens, é pensar em constante transformação.

Nessa perspectiva, cultura passa a ser entendida como todo um sistema semiótico, assim envolvendo diferentes tipos de textos, sons, imagens, formas e gestos, não se
estruturando de forma individual, mas coletiva, fazendo parte de toda sociedade (ALVES, 2005).

Weiner (2000) nos mostra que as transformações que vem ocorrendo nas mais diversas sociedades ao redor do globo, em muitos casos devido a temida globalização, tem feito com que ocorra uma mundialização de culturas e não simplesmente de uma Cultura em detrimento de outras.

O autor nos mostra dessa forma que:

“o ponto de vista global sobre a globalização da cultura isola os produtos culturais de seu contexto, agrega-os por categorias e quantifica sua produção e sua distribuição em escala planetária. Ele está mal armado para compreender a maneira como os produtos culturais são recebidos, decodificados, recodificados, domesticados, reapropriados. O ponto de vista global não tem acesso à atividade das instâncias intermediárias, que fazem a triagem e recontextualizam os produtos das culturas-industriais”. (WEINER:145)

Videogame e cultura

Dando continuidade aos argumentos apresentados na sessão anterior, vale lembrar
aqui que muito tem se falado sobre a Cibercultura (LÉVY, 1999) e sobre a cultura de simulação em que vivemos hoje. Esclarecendo este termo “cultura da simulação”, podemos nos valer das palavras de Turkle (1989) que nos diz especificamente
como os videogames se inserem nesse mundo tecnológico.

Os videogames são uma janela para um novo tipo de intimidade com máquinas, que caracteriza a cultura do computador nascente. O relacionamento especial que os jogadores estabelecem com os videogames tem elementos comuns a interação com outros tipos de computador. O poder dominador dos videogames, o seu fascínio quase hipnótico, é o poder dominador do computador. As experiências de jogadores de videogame ajudam-nos a compreender esse poder dominador e algo mais. No fulcro da cultura de computador está a idéia de mundos construídos, ‘governados por regras’. Utilizo o jogo de videogame para iniciar um debate sobre a cultura de computador deregras e simulação.

Manovich comenta que

o computador com dados em 3-D e o computador baseado em espaço virtual tornaram-se verdadeiras formas culturais – formas gerais utilizadas pela cultura para representar a experiência humana, o mundo, e a existência humana neste mundo.”

Além disso, Lindley e Craig (2001) afirmam também que estamos em um processo de

desenvolvimento de sistemas em que estamos a criar novas formas de significado, novos modos de expressão e, potencialmente, novas formas de função estética (e que) entender esses sistemas (portanto) exige abordagens que podem identificar princípios de semiose a partir de uma perspectiva de que cada forma é fluida e altamente variável.

Tratando especificamente dos videogames, sabemos que estes são tidos como uma mistura entre o cinema, a música (o som), o
jogo, a narrativa ficcional em Literatura e diversas outras Linguagens. Isto em muitos casos chega a causar problemas para sua
definição, devido à heterogeneidade que o constitui. Como resultado, o que tem ocorrido são estudos transdisciplinares sobre esta mídia, visto que tentar meramente definí-lo para encaixá-lo em qualquer área clássica de estudo poderia servir apenas para reduzir seu potencial, pois isto tenderia a uma simplificação do objeto. Porém, apesar da crescente visão dos
videogames como objetos complexos e heterogêneos, o que se fala no senso comum (além dos eternos comentários sobre sua
violência) é que estes serviriam apenas para inculcar na cabeça dos jovens um jeito americano de ser. Contudo, ao olharmos mais de perto veremos que esta afirmação mostra falta de conhecimento e uma superficialidade notáveis.

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Este foi apenas um resumo com alguns trechos do texto completo, mas parece suficiente para, no mínimo, mostrar o quão infeliz foi a fala da Marta.

Para sua diversão e também como argumento nesse debate, aproveite um pouco o jogo da Martinha.

Até mais,

Gustavo Nogueira de Paula

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Então é isso que queremos para nossos eventos?

Seguindo minha trilogia sobre o SBGames 2012 farei meu balanço geral sobre as impressões desse nosso grande evento e sobre o futuro dos estudos de games no Brasil.

É inegável que esse foi o SBGames mais grandioso de todos. Não são apenas os números que mostram isso, mas a elegância com que foi realizado. Pen drive de 4gb para os incsritos, todas as salas caprichosamente arrumadas, decoração de primeira, salas grandes e com boa estrutura e uma feira bem grande logo na entrada.

Os papers também subiram de nível, falando de um modo geral. No track da cultura, que pude conferir mais de perto, as apresentações foram muito boas, com temas variados e interessantes, alinhados com o que há de mais novo nas produções mundo afora. Com o acréscimo de estarem todos em inglês, o que é ótimo para os autores, pois podem eventualmente serem citados na gringa, o que é bem mais difícil quando escrevemos em português, infelizmente.

Mas nem tudo são flores. Pra mim o SBGames ainda é, ou deveria ser, um evento acadêmico. Não que não tenha acontecido a parte acadêmica, mas ela ficou acanhada, perto do furor causado pela feira que lá ocorria.

Acho interessante a popularização das produções locais, do interesse pelos games e o aumento da curiosidade sobre esse mundo estranho. Mas não vejo tanto essa necessidade de “vender a alma” para agradar aos olhos dos patrocinadores. Trata-se de um cilco vicioso: mais gente leva a mais patrocínio, que leva a mais gente e assim por diante. Será que precisamos de um evento tão pomposo, as custas de inúmeros patrocínios privados, que exigem público massificado para exporem suas marcas? Creio que nesse momento não e explico o porque.

Na história recente (e também na atualidade) os pesquisadores de games lutaram para mostrar que trata-se de um objeto complexo de pesquisa, que deve ser elvado a sério pela academia e com imenso potecial expressivo, educativo etc. Aos poucos esse respeito vem sendo conquistado, as custas de muito trabalho, publicações e ciência.

Nessa onda veio o SBGames, crescendo ano a no e ganhando imensa credibilidade entre pesquisadores, tanto no Brasil quanto fora dele. Com esse crescimento veio o interesse das gigantes e também do governo. Some esses ingredientes num caldeirão e acrescente Brasília ao final da receita e você terá como resultado a festa que foi a edição 2012.

Repito, não tenho nada contra a popularização do evento, mas a que custo isso ocorre. Quem entrava pela porta via apenas mais um desses encontros da cultura nerd, geek ou como prefira chamar. Eram cosplayers, otakus, gamers, crianças acompanhadas das mães, sertanejo universitário, popozudas e tudo aquilo presente num evento comercial qualquer. Acontece que o SBGames não é um evento comercial qualquer, é o maior evento acadêmico de games da América Latina. Essa foi a primeira vez que vi seguranças rondando o evento e acreditem, eles não eram muito simpáticos.

Se seguirmos nesse ritmo eu não sei onde iremos parar. Cheguei a ouvir alguns comentários de que o SBGames estava parecendo a Brasil game show, esse sim um evento excencialmente comercial.

Imagem da BGS, feira comercial de games e afins

 

Por exemplo, se a intenção é popularizar o interesse pelos estudos de games, então porque não colocar os posteres e short papers concentrados em um só lugar e acessível também ao público não participante do evento. Afinal de contas era possível entrar gratuitamente no centro de convenções, mas não era permitido assisitr a nenhuma aplestra ou apresentação, algo que eu ainda não tinha visto nas outras edições, muito pelo contário. Ou seja, voce pode entrar e fazer parte da farra, mas se quiser aprender algo deve pagar a inscrição, ou procurar outro lugar mais apropriado.

Outro ponto problemático é a impressão que isso causa. Não que devamos nos preocupar apenas com o que os outros pensam, mas no caso de um campo acadêmico buscando legitimidade isso acaba sendo importante. Basta olhar qual foi o destaque dado ao evento por duas gigantes da imprensa brasileira, Globo e UOL. No caso da Globo, sequer mencionaram que tratava-se de um evento acadêmico, falando somente em mercado e estatísticas. Alias, na matéria da Globo eles apresentam o SBGames como uma feira de games, é de doer. Enquanto isso o UOL fez uma matéria de dois paragrafos, que até fala sobre a parte científica, mas sem destaque ou profundidade. Vale apontar também a cobertura ínfima dada a mídia em geral, falando pouco ou quase nada sobre as produções acadêmicas apresentadas no SBGames, uma pena.

Não acho que o evento tenha sido ruim, muito pelo contrário, tem mostrado cada vez mais força, mas temo pelo caminho que estejam optando. Torço para que o SBGames seja cada vez maior, mas de forma mais organizada e focada no principal,  que são as produções acadêmicas e os jogos independentes, mostrados não apenas ao público em geral, mas também a quem os estuda.

Ano que vem estarei por lá novamente e espero que volte com alguma agradável surpresa.

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

SBGames 2012, dias 2 e 3

Dando sequencia a meu pequenino diário de campo do SBGames, escrevo hoje um resumão do segundo e do terceito dia de simpósio. Sim, estou com um pequeno delay, mas foram dias corridos, não tive tempo de sentar com calma na frente do pc para escrever um texto decente enquanto o evento rolava. Creio que no máximo até quarta feira apresentarei meu balanço geral e as principais impressões que tive com o SBGames de Brasília.

No segundo dia, com credenciamento já realizado e conhecendo o interior do centro de convenções resolvi me arriscar a dar uma volta pela feira, que ocorria logo no saguão de entrada. O número de pessoas era impressionante, muitos cuirosos e apaixonados por games faziam filas e barulho aguardando para por as mãos em algum jogo indepentente ou disputar uma partida de algum jogo de luta.

O estande do Banco do Brasil era imenso e trouxe até um robo gigante que dançava e “cantava” o hit do sul coreano Psy. Havia muitos jogos sendo expostos e muita coisa rolando ao mesmo tempo: Apresentações no palco, mostra de artes, cosplay etc.

Já nos tracks, mais uma vez acompanhei o da cultura. Na parte da manhã foram apresentados os trabalhos relacionados a educação e a tarde sobre metodologia. Mais uma vez os trabalhos estavam muito bons e no segundo dia as apresentações foram melhores. Particularmente gostei muito do trabalho do Isaque Elias e Cristiane Vidal entitulado “When brazil enters in the Koprulu sector: the Starcraft II Localized into Brazilian Portuguese” da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles abordaram não apenas a questão linguistica, mas tudo aquilo que envolve localizar um jogo em território nacional. Não a toa eles levaram o prêmio de melhor full paper no track da cultura. Após a apresentação eu pude conversar com o casal de autores, que não apenas mostrou grande conhecimento sobre o assunto como também imensa simpatia. São nesses momentos que sentimos gosto por participar de encontros dessa magnitude.

Saindo da sala de apresentações do track da cultura fomos direto para a plenária. Nela foram apresentados os dados do SBGames 2012, que bateu recorde de público e deinvestimentos. O custo total do evento ultrapassou R$ 700 000,00 e contou com mais de mil inscritos, além dos participantes gratuitos que apenas frequentaram a feira. Ficou decidido também que o SBGames de 2014 será realizado no RS, na Puc de Porto Alegre (o do ano que vem será em São Paulo, na Mackenzie, mas isso já era sabido).

No mesmo dia a noite ainda rolou a exibição do filme “Indie game” que não fiquei para assistir, pois achei melhor aproveitar para conversar com conhecidos e discutir a respeito de jogos e outros assuntos. Após o filme rolou o famoso coquetel, em conjunto com a premiação dos jogos independentes. Não dei tanta atenção a essa premiação, pois estava tudo um tanto caótico, mas vi que o pessoal da casa abocanhou a maioria dos prêmios, ficando as estatuetas em Brasília mesmo. E assim se encerrou o segundo dia.

E após a exibição do filme aconteceu o coquetel e o encerramento do segundo dia

 

O terceiro dia do SBGames foi o mais curto pra mim, pois não consegui participar no período da manhã, mas com certeza foi bastante interessante. Cheguei a tempo de ver a teleconferência de ninguém mais, ninguém menos do que Chris Crawford. Você não o conhece? então veja aqui o currículo desse distinto senhor. Ele é simplesmente um dos primeiros desenvolvedores de jogos da história, sendo parte da vida da Atari e de muitos jogadores da primeira geração.

A fala de Chris foi incrível e foi possível perceber o quanto os atuais produtores podem e devem aprender com a voz da experiência. Através de imagens e palavras e fez uma interessante analogia e mostrou que, descontando a evolução dos gráficos, os jogos mantém muitas semelhanças com os jogos antigos e que preciamos dar mais asas a criatividade e nas relações entre pessoas e não apenas entre personagens e objetos, itens etc.

Outro dado interessante apresentado foi o custo dos computadores antigamente e atualmente. Chega a ser assustador pensar que antigamente um computador custava algo em torno de 10 centavos de dollar por byte, enquanto atualmente sai por cerca de 0,00000005 centavos de dollar por byte. A diferença é gritante e nos faz pensar o quanto realmente poderíamos estar produzindo jogos ainda mais interessantes e ousados.

O sr Chris Crawford foi o palestrante do track da cultura

Terminada sua apresentação ocorreu logo em seguida a entrega dos prêmios de melhores papers de cada trilha e o encerramento do evento e o balanço geral do SBGames 2012.

Nos próximos dias trarei minha crítica sobre o evento e aquilo que mais atraiu minha atenção e o que deveria ser mantido ou alterado pela organização. Foram três dias intensos, de muita conversa e aprendizado. Conheci pessoas fantásticas e participei de interessantes discussões. Ano que vem estarei na Mackenzie, no SBGames 2013, que já tem até site. Nos vemos por lá!

Até,

Gustavo Nogueira de Paula

OBS: O Game & Criticas já deixou bem pra trás a marca de 5 mil visitas e não para de crescer. Mais uma vez obrigado aos colaboradores.

deixamos bem pra trás a marca de 5 mil visitas

SBGames 2012, dia 1

E ele chegou, está rolando o SBGames 2012 em Brasília. Estive por lá na sexta e dei uma conferida em várias coisas, que apresentarei aqui num pequeno diário de bordo. Serão relatos curtos das principais impressões e percepções e ao final do evento um resumão de tudo que passou.

O espaço em que o evento está rolando é o centro de convenções Ulysses Guimarães, bela construção aqui de Brasília, localizado no eixo central da cidade. A grandiosidade do local impressiona e faz desse um dos SBGames mais pomposos de todos.

Vista do centro de convenções

 

O credenciamento foi ligeiramente confuso no início, mas sem nenhum problema. No mesmo local era possível conseguir uma pulseira que dava acesso a área comum do evento, possibilitando que visitantes tivessem acesso ao simpósio. Nesta área comum se encontram os jogos independentes, estandes, barracas de vendas, alimentação, cosplays etc. O local era um barulho só, com muita música, gente transitando e algumas bizarrices.

A arrumação do local impressionava, pois a quantidade de participantes era bem grande e havia varios anunciantes. Sinceramente, tive até a sensação de um certo “over” do SBGames, tentando abraçar o mundo e colocar pra dentro do centro toda e qualquer pessoa interessada em jogar videogames. Não a toa estavam presentes várias mães com seus filhos pequenos, correndo de um lado para outro, fascinadas pelos inumeros computadores e videogames espalhados pelo saguão.

entrada do SBGames 2012

 

No final da tarde acompanhei o track da cultura e a apresentação dos full papers. De modo geral todos estavam muito bons e bastante interessantes, apesar de alguns dos apresentadores estarem visivelmente nervosos. Não é por menos, o local estava bastante cheio e muito arrumado. Eu mesmo nunca apresentei em uma sala tão arrumadinha em nenhum SBGames.

A discussão após as apresentações foi bem interessante e até me posicionei num pequeno embate teorico que surgiu a respeito da definição de serious games. Os apresentadores também eram bastante simpáticos e receptivos, abertos ao diálogo. Conversei com alguns deles após apresentarem seus trabalhos e boas ideias surgiram.

Saindo do track da cultura fui direto para o auditório assistir a palestra do David, da Nvidia. O rapaz só falava inglês e abordou um tema bastante técnico, mostrando os avanços dos processamentos gráficos e trazendo o que será o futuro das placas de vídeo etc. Muito bom, mas bastante técnico e não é algo que domino, mas foi um prato cheio para o pessoal da computação.

Para fechar o dia nada melhor do que asssitir a apresentação da Vgamus, orquestra formada (principalmente) por alunos da Unb e que tocam temas clásssicos dos games. Nesse meio tempo aproveitei para travar algumas discussões com o professor Roger Tavares a respeito de alguns jogos e foi engraçado notar como temos um gosto bastante distinto. Isso chega a ser bom, pois o debate fica mais interessante e acabmos pensando mais a respeito do que jogamos.

Abaixo você pode conferir e sentir um pouco o gostinho de como foi esse show.

tema de Zelda rolando

 

Até,

Gustavo Nogueira de Paula