Violência tem sentido?

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Todos sabemos que violência não se trata meramente de agressão física e/ou verbal, mas também de preconceito, tortura e terrorismo psicológico, ameaças e toda uma série de práticas que são condenáveis em nossa sociedade cristã. Também sabemos que, em geral, violência vende. E vende bem, em todos os meios de comunicação. Jornais escritos e televisivos, novelas, filmes, jogos, literatura, fotos etc. Para onde olhamos nos deparamos com um assassinato, uma briga ou uma bomba.

Não é de se espantar, portanto, que alguns se aproveitem mais disso. Mais especificamente falando, são inúmeros os jogos que apresentam algum conteúdo violento, normalmente ligado a mortes, tiros, lutas ou algo semelhante.  Em muitos casos essa violência chega a ser bem exagerada, além de desnecessária. Violência fetichisada, funcionando como válvula de escape para que os jogadores aliviem suas tensões do dia dia, enfrentando algum desafio virtual.

Contudo, nem toda violência existe dessa forma. Quando bem inserida ela pode ser parte importante da narrativa, atuando como elemento fundamental para a ambientação de um cenário. Imagine assistir “Laranja mecânica” sem cenas de violência. Impossível, pois a questão da violência ocupa parte fundamental da trama. É assim que acontece em The Last of Us, jogo do Ps3.

Não vou retomar toda a fala que já fiz sobre o jogo, pois quem quiser pode conferir no link para mais informações. Gostaria apenas de salientar que o fato do jogo ser violento não o torna pior, nem faz com que o jogo se resuma a isso.

No cenário decadente de um EUA devastado a sobrevivência se tornou difícil, já que não há comida, água ou pessoas em que se possa confiar. Os personagens principais são apenas duas pessoas comuns lutando em meio a essa selvageria na busca de um objetivo maior. Ora, se são pessoas comuns, sem armas (acabam encontrando pelo caminho) e valendo-se apenas de pedaços de pau, tesouras e objetos semelhantes, como esperaríamos que se portassem? As mortes são realmente feias e a primeira vez que vemos Joel esmagar a cabeça de alguém a tijoladas não nos causa a melhor das impressões.

Acontece que esses detalhes, que para muitos não passa da violência comum dos videogames, acabam por falar muito sobre o local em que essas pessoas vivem. Em determinado momento do jogo, quando controlamos Ellie e ela salta sobre os adultos desferindo várias facadas para matá-los, chega a ser nauseante, mas nos mostra o quanto aquela criança foi embrutecida pela situação. Isso me faz pensar na quantidade de pessoas ao redor do mundo que se divertem ao ver uma criança branca esfaqueando adultos, com uma justificativa, e depois esbravejam gritando que os pretos, pobres e favelados se tornam bandidos porque querem, sem justificativa. Cabe uma reflexão sobre isso dentro de cada um.

Aquilo que parece uma afronta e um perigo para os jovens jogadores na verdade contribui para mostrar o quanto um ambiente desolado e sem esperança pode alterar a vida e o pensamento de uma pessoa, tornando até a mais inocente criança em uma assassina. Fazendo uma analogia bem simples, vejo certa semelhança com o filme “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago (me refiro ao filme, pois não li o livro). Após uma catástrofe e uma situação desesperadora o poder logo emerge em algum ponto e até as pessoas mais comuns podem se tornar completamente diferentes quando a sociedade, tal qual a conhecemos, deixa de existir.

Ensaio sobre a cegueira, sociedade devastada?
Ensaio sobre a cegueira, sociedade devastada?

Não digo que os jogos devam ser violentos, nem que qualquer criança possa/deva jogar The Last of Us sozinha e compreender tudo isso. Gostaria apenas de mostrar que os jogos vão muito além da violência e que, em alguns casos, ela pode representar alguma coisa dentro de suas narrativas.

Gustavo Nogueira de Paula

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Joel e Ellie, personagens que marcam um ciclo

Quando vi o primeiro trailer de “The Last of us” logo pensei “Mais um jogo da Naughty Dog, mais um jogo de zumbis, mais um jogo de sobrevivência. Será que ele vai apresentar alguma coisa diferente?”. Bastante tempo depois, mais precisamente duas semanas atrás, eu finalmente terminei de jogá-lo. Por mais que ainda sejam lançados jogos para Xbox 360 e PS3, The Last of us marca o ápice e o fim dessa geração e deixa um legado imenso para as próximas que virão.

Ellie e Joel
Ellie e Joel

Muito já foi dito sobre esse jogo. Vários sites, blogs, revistas e onde mais se possa imaginar, todos comentando sobre o jogo em si e alguns aprofundando sobre outros temas. Quem busca por dicas, notas e outros itens das análises comuns pode procurar por um desses sites, que com certeza irão detalhar mais sobre esses aspectos. Aqui no Game & Críticas o foco será dado às duas grandes estrelas dessa obra que me surpreendeu de forma arrebatadora: Joel e Ellie.

O começo do jogo mostra como Joel perdeu sua filha e o desespero causado pela infecção dos fungos. Após vinte anos da catástrofe que assolou o país (o mundo?) a vida se tornou bastante amarga e se resume basicamente a buscar por comida, armas e tentar não ser morto, seja por infectados ou por seres humanos desesperados. O clima e o ambiente são terríveis, com lugares sujos, abandonados, destruídos, lembrando a todos que aquele já foi um lugar bom de se viver, mas que isso não passa de uma memória distante. São poucos sorrisos, abraços ou tapinhas nas costas. Difícil confiar em alguém, pouco provável fazer amizades.

Nesse meio do caminho Joel é incumbido de levar a garotinha Ellie para o laboratório dos vagalumes, pois ela se mostra imune aos fungos. Começa aí a jornada de atravessar os EUA até entregar a encomenda.

A relação de ambos é complicada de início, pois Joel foi embrutecido por suas experiências de perder a vida, amigos, família etc. É matar ou morrer e ele não tem muitas dúvidas de como agir. São tijoladas, pauladas, tiros e facadas sem piedade com ninguém e isso assusta a garotinha, que o questiona sobre seus métodos. Com o passar do tempo a relação de dependência, tanto para sobrevivência, quanto afetiva, vão ficando cada vez mais fortes e o laço criado entre os dois arrebata o jogador de forma intensa e cativante. Em pouco eles, mais o jogador se tornam uma família, buscando um bem maior. Joel começa a contar um pouco sobre sua vida, solta alguns sorrisos e inevitavelmente começa a se afeiçoar bastante pela jovem espirituosa.

O jogo alterna momentos de correria intensa com silêncios absolutos, pois nesse clima terrível, muitas vezes é melhor passar desapercebido. A jogabilidade é simples, ideal para não atrapalhar a contação da história, que é o ponto principal do jogo. Através de fotos, bilhetes e pelo ambiente é possível conhecer mais sobre o mundo em que vivem e o que aconteceu aos que ali moravam. The Last of us não é um jogo em que tomamos grandes decisões, ele está nos trilhos desde o início. Ele entrega uma experiência ao jogador. Não é só uma questão de tomar decisões ou não, mas a exploração do ambiente é o que leva o jogador a saborear esse jogo. Seria como o espectador assumir o controle de Will Smith em Eu Sou a Lenda para conferir o que havia dentro daquela porta pelo qual ele passa em frente antes de ir pra casa. Mesmo que o final não se altere, essa liberdade de conhecer os espaços e observá-lo mais de perto dão um tom ainda mais especial para a narrativa como um todo.

Quanto mais o tempo passa mais os dois personagens principais vão se aprofundando e mostrando sua personalidade. Uma cena que considero memorável foi parar ao lado de Ellie para observar girafas caminhando pelo local devastado, com carros destruídos e mato para todo lado. Foram apenas alguns segundos de contemplação, mas que falaram muito mais a respeito dos personagens, daquele lugar, daquela vida e sobre esse jogo do que qualquer texto poderia fazer.

Não há possibilidade de discordar das decisões de Joel e do rumo que as coisas tomam. O jogador tem a tarefa apenas de guiar os personagens até seu desfecho, tendo apenas a possibilidade de conhecer mais sobre a desolação humana, mas sem interferir no que acontecerá. No final, após todos os problemas e finalmente chegar ao laboratório, Joel descobre que para tentar uma cura os cirurgiões teriam que matar Ellie, algo que ele não aceita, assassina o grupo e leva a garota em bora de volta. Aquilo que parece egoísmo e alguns até chamaram de clichê para criar um anti herói nada mais é do que o resultado de uma jornada tão intensa. A intenção é realmente provocar, pois por mais que o jogador possa discordar dessa decisão e queira salvar a humanidade através de uma cura, ele é obrigado a atirar nos médicos, no grupo e levar Ellie consigo para tentar viver uma vida ao seu lado.

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Quando o jogo termina alguém poderia jurar que havia uma pessoa a seu lado contando-lhe uma bela história. A profundidade destes personagens mostra que os videogames estão aí para contar histórias e narrar eventos de forma única, a seu modo. A experiência que The Last of Us nos entrega é simplesmente incrível.

Falar mais do que isso talvez seja perda de tempo, pois como todo jogo ele precisa ser jogado, pois cada segundo pode reverberar de forma diferente nos jogadores, desde os mais sensíveis aos mais frios. Concorde ou não com as decisões de Joel, se apegue ou não com a garotinha Ellie, sentindo arrepios com os estaladores ou tentando enfrentar a todos de frente, The Last of Us é um dos jogos mais interessantes em que coloquei as mãos. Há pequenos defeitos, coisas que eu gostaria de mudar, mas isso sempre haverá. Com certeza não nos esqueceremos tão cedo destes personagens tão brilhantes, que contribuíram para elevar os jogos de videogame a um novo patamar.

Gustavo Nogueira de Paula